segunda-feira, 10 de maio de 2010

A Poeta Lucila Nogueira


 Apresentação: Lucila Nogueira
                   por Altair de Oliveira

Em homenagem à minha mãe e às mães de todos vocês, nossa coluna de poesia-como-a-vida hoje traz estes belos poemas da excelente Lucila Nogueira, carioca radicada no Recife PE, mas uma pessoa do mundo  como ela própria diz.  Enfim, uma poeta grandiosa, infelizmente pouco conhecida do grande público,  como os seu versos bem sabem confirmar.

Apresentamos a seguir um pouco da extensa biografia da poeta e, oportunamente, pretendemos convidá-la novamente à nossa coluna para falar um pouco mais de seu trabalho numa entrevista.


        POEMA DAS MÃES

        As mães são bonecas quebradas que nós esquecemos no sótão
        Um dia foram românticas e amaram desesperadas
        Respeitem o seu segredo que explode em súbitas lágrimas
        Embora pareçam escravas todas possuem uma alma
       
        Na verdade são mulheres que sonharam apaixonadas
        E um dia sem ter remorso despediram-se de casa
        Na vida e no romance são estranhas personagens
        Perdidas de seus volumes na poeira das estantes
       
        Eu sou a que ensaiou o vôo mas permaneceu na praia
        Aquela que cruzou o porto mas voltou na hora marcada
        Salvou-me a maresia do convés dos transatlânticos
        E o hábito de reger os pássaros ao chegar a madrugada
       
        Os pártos cobriram minhas asas de raízes e folhas de árvores
        E três rostos diferentes complementam minha face
        O jejum me devolveu a primeira virgindade
        E eu me tornei mártir de uma estória extraordinária
       
        As mães são apenas mulheres aspirando à divindade
        O espírito de aventura sublimado na paisagem
        Criticadas por suas filhas sobrevivem como fadas
        São as primeiras muralhas que desejamos quebradas
       
        Assim como essas bonecas que nós esquecemos no sótão



                     Poema de Lucila Nogueira, In: "Casta Maladiva".



Sobre a poeta Lucila 

Lucila Nogueira nasceu no Rio de Janeiro em 30 de março de 1950,  é poeta, professora, ensaísta, contista, crítica literária, tradutora, articuladora cultural e etc. Tem mais de vinte livros de poesia publicados: Almenara (1979); Peito Aberto(1983); Quasar (1987); A Dama de Alicante (1990); Livro do Desencanto (1991); Ainadamar (1996); Ilaiana (1997); Zinganares (1998); Imilce (1999); Amaya (2001); A Quarta Forma do Delírio (2002); Refletores (2002); Bastidores (2002); Desespero Blue (2003); Estocolmo (2004);Mar Camoniano (2005); Saudade de Inês de Castro (2005); Poesia em Medellin (2006); Poesia em Caracas (2007);  Poesia em Cuba (2007) e Casta Maladiva e Tabasco.

Seu livro de estreia, Almenara, obteve o prêmio de poesia Manuel Bandeira do Governo do Estado de Pernambuco em 1978, premiação que lhe foi novamente concedida pelo livro Quasar em 1986, ano do centenário do poeta modernista pernambucano. Ilaiana teve lançamento no Centro de Estudos Brasileiros de Barcelona, em 1998; Zinganares, na Embaixada do Brasil em Lisboa, nesse mesmo ano.

Como ensaísta, Lucila publicou Ideologia e Forma Literária em Carlos Drummond de Andrade (em 3ª edição no ano de 2002), A Lenda de Fernando Pessoa (2003) e tem no prelo O Cordão Encarnado, sua tese de doutorado sobre os livros “O Cão sem Plumas” e “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto. É professora da pós graduação em Letras e Linguística da Universidade Federal de Pernambuco, onde vem ensinando disciplinas como Teoria da Poesia, Ideologia e Literatura, Literaturas de Expressão Portuguesa do século XX e Literatura Hispano-americana; na graduação ensina Literatura Portuguesa (Cadeira do seu Concurso Público), Literatura Brasileira, Teoria da Literatura e Língua Portuguesa (Português Instrumental).

Entre várias outras atividades da poeta, podemos ainda destacar:  integrantes de várias bancas de pós-graduação e concursos públicos em vários estados; participante das comissões artística e julgadora dos prêmios Portugal Telecom e do Prêmio Binacional Brasil-Argentina em 2005; editora da revista de lusofonia "Encontro";  diretora  do Seminário de Estudos Literários Contemporâneos e chefia do departamento de letras na UFPE; organiza eventos culturais, destacando-se o II e III Seminário Internacional de Lusografias, realizados respectivamente na Universidade Federal de Pernambuco e na de Évora em 1999 e 2000; organizadora juntamente com o escritor Floriano Martins uma série de antologias de poesia hispano-americana; participante de vários encontros literários na Ámerica Latina (Colombia, México, Cuba e Nicarágua)  e em Portugal, Espanha e França; integrante da Academia Pernambucana de Letras desde 1992 e sócia correspondente da Academia Brasileira de Filologia, sediada ro Rio de Janeiro, etc.



A poeta LUC, por ela mesma.


BIOPOEMA

a minha bisavó Ana Rita de Albuquerque Mello/era filha de senhor de engenho em Pernambuco/fugiu adolescente no dia de seu matrimônio/para casar com o advogado português José Seabra/tabelião da cidade de Paudalho/onde fundou banda municipal há pouco centenária/a minha avó Lucilla esperou muitos anos/que meu avô Alberto Nogueira tivesse condições econômicas/para se casar e ter os sete filhos entre eles minha mãe Lygia/professora e estudante do primeiro curso de pós graduação em educação física no Rio de Janeiro/onde conheceu o meu pai português da Régua Alberto Mattos Rodrigues/que imigrara para a casa da tia Arminda Garcia casada e sem filhos/a qual nos anos 20 do século XX/viera à então capital do brasil onde estabelecera uma drogaria/e o meu nome ficou sendo Lucila Nogueira Rodrigues/com os olhos verdes do meu avô ourives José Rodrigues/e o riso claro da minha avó Lucilla de Mello Seabra/criada entre o regionalismo nordestino/e o cosmopolitismo carioca/a que chamavam "russinha" na maternidade da Piedade/que morou entre Botafogo/rua do lima/Olinda/e em um colégio recifense de freiras italianas/aprendeu a ter disciplina e fascínio pelas artes/a que por intermédio da sua vidência onírica/descobriu as paisagens do alto-douro/minho/Galiza/a meio-irmã Heleni jornalista e advogada/a doença de seu pai seguida de morte/reencontrando o nome galego Susabila/em sua tão dolorosa certidão de óbito/a que foi criada alheia dentro de uma vidraça/ignorando tanta coisa sobre sua origem/mas que a poesia sustentou na tempestade/porque dizem que o poema é quase sempre/a sobrevivência desesperada de uma falta



Outros Poemas


Canto II

El garrobo es el macho de las iguanas
e assim eu vi em seu resplendor ao sol 
pântanos mexicanos 
os pássaros em torno
o mundo original
paz da água
paisagem não tocada pelo homem
cardumes voadores
o garrobo parado e fantástico junto à iguana
saindo de um conto de Borges num tempo primordial
garrobo mais belo que sua fêmea
se arrastando verde na madeira
não se sabe com que finalidade
garrobo altivo e surreal
como os bichos de Cortázar
garrobo pré-colombiano
sustentando fogo no olhar e nos degraus



Lucila Nogueira, In: "Tabasco"

 ***
Falarão meus poemas pelas ruas

Falarão meus poemas pelas ruas

(2) de cor como receita de viver
(3) e aqueles que sorriam pelas costas
(4) recitarão meus versos sem os ler
(5) Falarão meus poemas pelas ruas
(6) de cor como receita de viver
(7) dirão que fui um mar misterioso
(8) onde quem navegou não esqueceu
(9) Falarão meus poemas pelas ruas
(10) de cor como receita de viver
(11) dirão que era poesia e não loucura
(12) meu jeito de sonhar todos vocês
(13) Falarão meus poemas pelas ruas
(14) de cor como receita de viver
(15) perguntarão por que vivi tão pouco
(16) sem dar-lhes tempo de me perceber
(17) - e aqueles que sorriam pelas costas
(18) recitarão meus versos sem os ler

(1) Eu sou a não nascida que não morre
(2) sonhando sonhos sobrenaturais
(3) daimon sobrevivente nos relógios
(4) da quarta dimensão querendo paz
(5) consciência alterada do invisível
(6) cumprindo o seu papel premonitório
(7) a revelar os mundos esquecidos
(8) de um texto concebido em hipnose
(9) trago o poder perdido nas pirâmides
(10) do México e do Egito e nos degraus
(11) de cada zigurate eu entro em transe
(12) para curar doentes terminais
(13) eu sou a mais antiga e a mais moderna
(14) narração de teu rumo sobre a terra
(15) recital visionário de crateras
(16) revelação que arrasta o que revela
(17) - eu sou a não nascida que não morre
(18) sonhando sonhos sobrenaturais

1) Esta palavra beira o precipício
(2) mas ninguém solta o livro sobre o altar
(3) benedicte malkpeblis benedicte
(4) e o poema é a senha para entrar
(5) esta palavra beira o sacrifício
(6) mas dá disposição para voar
(7) uso divinatório de um zodíaco
(8) e o poema é a senha para entrar
(9) estas ervas secretas tem feitiço
(10) vida e morte nos fazem delirar
(11) benedicte malkpeblis benedicte
(12) e o poema é a senha para entrar
(13) narcótico da lenda do destino
(14) é o magma dos místicos do mar
(15) esta palavra beira o hipnotismo
(16) e o poema é a senha para entrar
(17) - benedicte malkpeblis benedicte

e o poema é a senha para entrar



Lucila Nogueira, In: "Zinganares".


 ***

E se inda houver amor

E se inda houver amor eu me apresento, 
E me entrego ao princípio do oceano,
E se me atinge a onda, úmida eu tremo
esquecida de insones desenganos.

E se inda houver amor eu me arrebento
feliz, atravessada de esperança
e mesmo lacerada inda assim tento
quebrar com meu amor todas as lanças.

E se inda houver amor terei alento
para aguentar o inútil destes anos.
E não me matarei, sonhando o tempo
em que me afogarei no seu encanto

E se inda houver amor, ah, me consente
ser pasto de tua chama, astro medonho.
e se inda houver amor, eu simplesmente
apago esta ferida do meu sono.



Lucila Nogueira, poema copiado do Blog do Noblat do  jornal Globo Online.



Para comprar os livros de Lucila Nogueira, buscar no site: http://www.estantevirtual.com.br

Para ler mais sobre Lucinda:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Lucila_Nogueira
http://www.interpoetica.com/estetica_do_desejo.htm




Ilustrações: 1- trabalho da artista plástica gaúcha Marli Sassi; foto da poeta Lucinda Nogueira aos 6 anos, vestida para a primeira comunhão; foto da poeta mais tarde; capa de "Tabasco", o livro mais recente da poeta.

Altair de Oliveira (poesia.comentada@gmail.com), poeta, escreve às segundas-feiras no ContemporARTES. Contará com a colaboração de Marilda Confortin (Sul),  Rodolpho Saraiva (RJ / Leste) e Patrícia Amaral (SP/Centro Sul).

3 comentários:

Júlio disse...

Lucila é completa e poeta ao extremo
"ser pasto de tua chama" é genial

10 de maio de 2010 20:09
Valdecy Alves disse...

Amigos poetas blogueiros, parabéns por utilizarem a internet como forma de dividir com o mundo o seu pensar, o seu compreender, desempenhando a missão do poeta que é se afirmar como ser humano, sobretudo perante si mesmo, captar os arquétipos coletivos de sua época e princípios universais, permitindo após compreender-se ou não compreender-se, que pela sua obra os da sua época tenham referência alternativa para fazer a leitura do mundo e as gerações posteriores entenderem a própria história da humanidade. Tudo temperado pelo sonho, pela sensibilidade e pela utopia. PASSOU A ÉPOCA DE ESCREVERMOS E GUARDAR NA GAVETA NOSSAS CRIAÇÕES DEPOIS DOS MAIS PRÓXIMOS FINGIREM TER LIDO PARA NOS AGRADAR. Através do meu blog quero aprensentar-lhes a video-poesia, que usa várias linguagens de uma só feita, a serviço do texto. Se gostar divulgue e compartilhe com os seus contatos. Acessar em:

www.valdecyalves.blogspot.com

12 de maio de 2010 16:12
Administrador disse...

Fascinante recorrido.

25 de junho de 2012 09:35

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