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Elisabete Não



Elisabete Não. É um nome peculiar para uma pessoa curiosa. Em uma manhã fria de inverno – banal e comum – nasceu um corpinho minguado de pressa, aos oito, quase nove, sacudido de vontade e frio, no Hospital Santa Helena, sobre os cuidados de um tal Dr. Reis - chegado há pouco da Europa.
Sua mãe não resistira à filha e ficara órfã de vida – sua mãe de mesmo nome e de pouca idade, que vestia roupas estranhas ao chegar na emergência. _Deve ser do estrangeiro.
Deve ser.
Foi uma enfermeira que teve a ideia. _Foi a última palavra da mãe e, além disso, parece bem apropriado a uma garotinha que se negou a vir quando a esperavam! O médico não concordou, as diretores do hospital não concordaram, mas a enfermeira e a responsável pela adoção chegaram a um consenso. _Será Elisabete Não, fica o primeiro pela mãe e o segundo pela filha.
O tempo passou. A menina cresceu por dentro e por fora. A mãe adotiva, a Sra. Dudalski, nunca escondeu de Elisabete o episódio da maternidade e até ajudou na tentativa frustrada de encontrar o pai biológico ou a família da primeira Mãe. Era como se nunca tivessem existido. A Sra. Elisabete, a Mãe, chegara ao hospital sozinha, muito pálida, já em trabalho de parto. Não havia com ela nenhum documento e, não fosse pelo Dr. Reis, um homem que não vendera a alma pela profissão, teria padecido ali, na fila da burocracia. Ninguém, até onde se sabe, procurou por ela – nenhum anúncio nos jornais, nenhuma foto pelas ruas, nenhum telefonema. Nada.
Uma vez, notando que a filha - agora adolescente - estava amargurada com tamanha falta de informação, a Sra. Dudalski, como leitora voraz que era e por dote da profissão, começou a escrever-lhe histórias. Pequenos gênesis reunidos em um caderno sobre o título de Livro das Origens. Nestes textos, a Sra. Elisabete era um anjo que descera do paraíso para ter sua menininha, noutro era uma importante espiã ou uma princesa de um reino fantástico e oculto.
O passado diluiu-se em sonhos futuros. Adolescência e – depois – adultice. Antes da faculdade, decidira pelo trabalho. Design de Experiência - UX. Entrou em um curso de alemão, conheceu Vincent van Gogh, Rimbaud, aprendeu hata-ioga, meditação, descobriu Lourenço de Pádua Neves, seu primeiro namorado, sorriu, chorou, fez artesanato, inventou Renato Oliveira, chorou, Carlos Maia Filho, segundo namorado, sorriu, comeu chocolates como se respirasse, matriculou-se no teatro, terminou, escreveu um livro, respirou como se comesse chocolates, rasgou seu livro e foi para uma festa.
Naquela noite – excepcionalmente – ela saiu com um desconhecido e – excepcionalmente – deixou que ele entrasse. Ele não quis dizer o nome. _Nomes atrapalham tudo! Era sereno, com um olhar preocupado, mas confiante. _Você é tão sereno! Além do estranho fato de Elisabete Não aceitar em sua casa um estranho – poucos entraram lá depois que sua mãe morreu e ela passou a morar sozinha – outras coisas pareciam estranhas. Bom, o álcool faz coisas e - claro - poderia ser isto. Também era junho e a noite do solstício é sempre mais longa. Certo é que a sombra lá fora não passava. O sono veio, os dois dormiram, ela acordou. Ainda noite, ainda frio. O Homem havia partido, a casa havia partido, a rua havia partido – só ela ficara. Ao levantar, tonta, confusa pelo sono e pela volta, forçou os olhos para entender as paredes do beco onde se encontrava.
Era mesmo um Beco.
Mil coisas passaram no intervalo de uma gota. Seria ele um contrabandista de órgãos? Teria a violentado? Que lugar era aquele? Que beco era aquele? Que dia era aquele? E quantas horas são? Por que ainda é noite? Será que estou machucada? Ela estaria machucada? Será que me roubaram? Roubaram-na? _Meu celular...
Elisabete Não começou a procurar o aparelho. Nada nos bolsos. Atordoada e com os olhos em lago – quase despencando, quase cachoeira – seguiu rumo à rua. _Meu Deus, me ajude, Senhor! Pensava na mãe. _Mãe! Suas pernas e braços estavam gelados, doía. Um aperto na bexiga. _Calma, Elisabete!
Ela conhecia a rua.
Edgar Campos, beco da lanchonete Quarteirão. Já havia passado por ali algumas vezes, não era longe de casa. _Vou pedir ajuda na lanchonete! Ela pensou em pedir ajuda na lanchonete. _Ué...
Depósito Braga & Cia.
_Fecharão a Quarteirão!? Não fazia tanto tempo assim desde a última passada. _Não faz muito tempo desde que eu passei por aqui! Uma fisgada na altura da barriga fez os olhos descerem e as mãos encontrarem o umbigo. Não bastasse todo o desespero de acordar em um beco escuro depois de passar a noite com um estranho, como se não fosse o suficiente estar desamparada em meio à madrugada – ainda era madrugada –, a barriga da menina – agora mulher – estava inchada, muito inchada, grande como uma melancia.
_Como é possível? Tomava conta o soluço. _Não, mas...
Como poderia ser possível?
A respiração tornou-se difícil e - com a tempestade nos olhos - a janela da vista embaçava. Sobre o abismo da boca - a mão esquerda. Sobre a colina do ventre – a mão direita. As pernas amoleceram e o escuro da noite escureceu. Desmaio. Quando tempo havia se passado? Perdera a memória? Um trauma causado pela súbita gravidez? Quanto tempo desde o quarto? Quanto desde aquela noite? Tudo parecia uma sombra perpétua, incombatível. As roupas eram as mesmas e os sapatos também. O que aconteceu? _O que?
Acordou.
Estava na calçada. Algo queria sair. Não importava agora o que tinha acontecido. _Não importa agora! Ela precisava chegar até a ajuda. _Eu preciso de ajuda! Tentou criar lucidez onde só havia desespero. Morou naquela cidade a vida inteira. _Eu sempre morei aqui! Se realmente estivesse grávida, onde ela deveria ir? _O Hospital!
Apontou suas energias para a rua principal – o dia começava entre os prédios. As construções podadas, menores do que ela podia se lembrar. O pânico deforma tudo, do sonho ao concreto. O hospital não ficava longe. _Não é muito longe! O Diabo era o frio e o inferno era cedo.  As ruas pareciam longas e intermináveis. As pontadas aumentavam. _Quase lá!
O Hospital estava no fim da avenida - na Encruzilhada Abrantes. _Só mais alguns passos, Elisabete! Um enfermeiro que estava na porta correu para ajudá-la. Um homem alto com um bigode extravagante. _Socorro! Ele gritou. E vários uniformes brancos saíram para ajudar a Sra. Não. O corpo se largou nos primeiros braços. As mãos que sustentaram todo aquele peso – da barriga, do esquecimento, do beco escuro, do desmaio e da calçada – pareciam com as mãos de Deus. _Qual é seu nome, querida?
Outra ausência se aproxima.
_Elisabete. Ela murmurou. Um homem de sotaque estranho apontou a maca. _Doutor, ela precisa deixar os documentos. Claro, antes de ser atendida, ela precisava provar que tinha um nome e, ainda mais importante, provar que tinha um registro, um número. _Deixe disso! Respondeu o médico. _Sra. Elisabete, procure ficar calma.
As lâmpadas do corredor creme passavam como gotas de luz. A imagem turva de cabeças, a respiração saindo e entrando estrondosamente nos pulmões. Uma mulher perguntou-lhe a idade. _Quantos anos a senhora tem? Elisabete não conseguia responder. Pensou nas mães – do céu, da terra e da cria. _Quantos meses, Sra. Elisabete? Uma voz perguntou, mas nada respondeu.
Cesária.
Por um momento, a tormenta se tornou calma e sossego. Não havia mais dor. Os sussurros desapareceram. O frio desapareceu. Seria a morte? _É assim morrer? Elisabete lembrou-se de uma vez quando era muito pequena. _Lembro-me daquela vez! Havia saído para comprar balas, orgulhosa por ir até a esquina e apanhar um bocado de besteiras no armazém Dos Costa, quando dois cães a perseguiram. Ela correu, eles correram. Aos prantos, ela gritava pela a Sr. Dudalski e, de repente, a mãe abriu o portão e os braços. Ela bateu seu corpo contra o dela, travou as mãos em suas costas e chorou aliviada. _Eu estava salva! Estava no colo da mãe. _É estranhamente parecido, não é? Se aquilo fosse a morte, era muito parecido.
                _É uma menina!
                _Uma menina, Sra. Elisabete!
                Uma filha. _Eu tenho uma filha? Ela tinha uma filha. _Uma linda menininha.
               A fraqueza. O medo de deixar sua cria sem pai, sem mãe, sem nada. _Temos um nome para ela, mamãe? Indagou a enfermeira em tom infantil. Elisabete queria falar Maria. Maria da senhora Dudalski, Maria de Cristo. Mas resumiu – emocionada – num mover de cabeça. Ainda não se lembrava de nada. Naquele momento, a situação era o suficiente. Voltou-lhe à memória o Pádua Neves, as aulas de Teatro, o patrão Antônio Vasques, a casa da mãe – sua casa, o sabor do chocolate, a manhã de agosto em que perdera o primeiro dente e ganhara o primeiro trocado, o título de alguns livros, de alguns amigos e de alguns episódios em flash e do beco escuro e da calçada e do choro vivo da filha.
                _E qual é o nome da princesinha? Elisabete já sentia qualquer coisa de passagem. _É impossível dizer. Mesmo se pudesse, ela não saberia dizer. O calafrio corriqueiro da descida. _Ela perdeu muito sangue. Nem frio, nem quente – era morno, como um estado febril. Esforçou-se ao máximo para soltar o nome, para desprender da língua a palavra e libertar a voz dos lábios abandonados. _Maria. Ela queria dizer. _É Maria.

                _ O que a senhorita acha de Elisabete? É um nome lindo, não é? Como o da mãe.
  
                _ Não...

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ENCONTRO COM A MORTE





O Espaço do Leitor apresenta um conto de Edmilson Corrêa. Esse texto faz parte de uma coletânea chamada Gente de Talento 2005 – As melhores histórias da gente da Caixa em prosa, verso e imagem. A partir de um concurso de contos, poesias e fotografias, aberto aos milhares de funcionários da Caixa Econômica Federal, jurados especialistas escolheram as melhores obras, aquelas que retratassem as singularidades da rotina de trabalho de um banco que está presente em todo o país. 

Gente de Talento, publicado em 2005


Os jurados que selecionaram os trabalhos em prosa foram Ivan Ângelo e Dad Squarisi. Já as poesias foram escolhidas por Jorge Miguel. Rui Faquini ficou com a tarefa de escolher as melhores fotos. O conto de Edmilson Corrêa narra um encontro muito peculiar. Vamos à ele:

Como funcionário da Caixa há mais de quinze anos, cinco deles em agência, tive várias experiências marcantes, mas, sem dúvida, a que mais me tocou foi o encontro que tive com a morte. Cara a cara. Olho no olho.
A morte me chegou numa quinta-feira à tarde, quase no horário de fechamento da agência, na figura de seu Antônio, cliente fiel e antigo. Ex-militar, aposentado, cabelos grisalhos, conservava uma alegria rara numa pessoa de setenta e cinco anos. Pelo menos duas vezes por semana ele passava  na agência para acompanhar suas aplicações e fazer retiradas. Como de hábito, parou na minha mesa (eu era o responsável pelas aplicações) e comentou que precisava de dinheiro para viajar. 

Carta de Tarô: A Morte

Pediu dez mil reais para uma longa viagem programada. Preenchi o documento e dei baixa na aplicação. Ofereci-lhe um envelope para guardar o dinheiro, já que não podia levar tal quantia nas mãos. Desejei-lhe uma boa viagem e me despedi. Mal sabia eu que ele faria mesmo uma longa viagem, a definitiva, a que está marcada para cada um de nós.




Com o olhar acompanhei seu passo lento até o caixa. Vi quando ele recebeu o dinheiro e guardou no envelope. Sorrindo, se despediu. Observei que ele não se dirigiu à porta de saída. Ao invés disso, sentou-se num sofá, perto de minha mesa. Ato contínuo, deitou-se. Corri até ele e outros funcionários chegaram para socorrê-lo. Chamei-o pelo nome e o desespero tomou conta de todos. Ele estava pálido, os olhos esbugalhados, o rosto perpassado pela dor, as mãos crispadas, ainda segurando o envelope com o dinheiro. Alguém foi chamar uma ambulância e nós ficamos ali, impotentes, apenas olhando. Um funcionário, que também era enfermeiro, começou uma massagem vigorosa no peito de seu Antônio. O gerente fechou a agência e ficamos esperando o socorro.



Ele não reagiu em nenhum momento, apesar dos nossos esforços. De repente, estávamos todos tentando fazer com que ele vivesse. Era só o que queríamos: a vida que havia nele há poucos minutos. Queríamos o seu sorriso e a sua conversa franca e alegre. Queríamos a sua figura digna, com seus cabelos brancos e sua altivez de ex-militar. Queríamos, todos nós, o seu Antônio. Mas a  morte também o queria. A ambulância chegou e eles foram ágeis no atendimento. Em questão de minutos, porém, pararam e anunciaram a morte por enfarte fulminante. Ficamos todos em estado de choque.

Da vida nada se leva...

O pacote de dinheiro, agora caído no chão, ao lado do sofá, me remeteu àquela máxima de que da vida nada se leva. Por questão de segurança, peguei o pacote e passei às mãos do gerente, que posteriormente o repassou aos familiares.
Tínhamos de avisar a família.  Localizamos o endereço no cadastro e fui com a supervisora até a residência, mas não havia ninguém. O porteiro comunicou que a filha trabalhava numa repartição pública e nos deu o endereço e o seu nome. Fomos até ela. Combinamos que a supervisora daria a notícia. Chegamos no local, nos anunciamos e a moça veio em nossa direção, sorrindo. Alegre e simpática como o pai, pensei. A supervisora, tomada de súbita emoção, sussurrou que não poderia dar a notícia, delegando a mim a tarefa triste e amarga, da qual não me abstive.

http://fabriciomauricio.com.br/portfolio_page/77-lagrimas/

O que dizer a um filho nessa hora? Não sei o que falei, não lembro das palavras exatas, tentei ser o mais cauteloso possível e contei o ocorrido. A moça chorou e se desesperou. Depois de algum tempo, nos acompanhou até a agência e tomou todas as medidas necessárias. Esta história aconteceu realmente e afetou a cada um de nós, funcionários, de maneiras diferentes, íntimas e pessoais, mostrando que a morte é poderosa, ela manda, determina e age.



Referências:
Caixa Econômica Federal. Gente de talento 2005: As melhores histórias da gente da CAIXA em prosa, verso e imagens / Caixa Econômica Federal – Brasília: Caixa 2005.

Imagens retiradas da Internet, sem finalidades comerciais:








http://blog.cancaonova.com/diarioespiritual/tag/abandono/

http://www.conexaojornalismo.com.br/todas-as-noticias/as-caras-da-morte-0-19342

http://tarot-ellyllon.blogspot.com.br/2012_03_01_archive.html

http://www.cacodarosa.com/noticia/4904/homem-encontra-envelope-com-rs-50-mil-e-devolve-ao-proprietario








Edmilson Corrêa é administrador, 
pós-graduado em 
Gestão de Crédito 
Imobiliário e funcionário da Caixa Econômica Federal há 25 anos. 
Essa é uma das muitas histórias que ele tem 
para contar...
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O QUINTO FILHO

Menino franzino, meio corcunda, com olhos e cabelos negros, que escorriam pela sua testa teimosamente. Quinto filho de Dona Maria das Dores, Jusué era um menino vencedor. Vencera sarampo, caxumba, meningite até. Sua mãe acreditava que eram suas rezas. A vizinha, que tinha curso de enfermagem e trabalhava no Posto de Saúde da cidade de Guariné, repetia aos vizinhos que eram suas mãos que puxavam o menino do Vale da Morte cada vez que ele escorregava na beirada, enquanto o Padre Severino creditava

suas vitórias ao fato de o menino ser coroinha da igreja desde os sete anos.

Cada um deles concordava, contudo, que não era por causa da Mãe Zíbia, benzedeira e macumbeira, que acendia velas coloridas e falava com voz grossa toda vez que o pequeno adoentava; proclamava que os espíritos do mal queriam levá-lo porque ele traria muita alegria ao mundo.

Para os donos do sítio onde Maria das Dores e seu marido Henriqueto Soares residiam e trabalhavam como caseiros, era apenas um acaso, uma sorte qualquer, que mantinha o menino fora das estatísticas de mortalidade infantil do país. Incomodava-os o fato de o menino consumir tanto tempo dos pais, que apresentavam atestados que a natureza se recusava a ler. O mato crescia, as galinhas tinham fome, o lixo se acumulava, estivesse Jusué doente ou não.

Todos os irmãos de Josué tinham nomes que começavam com a letra J: Jânio, Jerônimo, Jertrudes, Jairo, Jusué e José. Eram seis irmãos apenas; uma irmã tinha morrido afogada, com apenas 4 anos, na represa da cidade. Um menino tinha morrido de complicação de doença, explicava Maria das Dores, a quem perguntava, sem saber exatamente qual doença era. Todos ajudavam na plantação de café ou em casa, cuidando dos afazeres e dos irmãos menores. 

Não havia tempo para brincar, nem brinquedos. O que havia muito era fome.  Mas Jusué era um menino diferente, não comia de tudo, sentia enjôos e, assim, ia perdendo altura em vez de crescer. As costas curvadas e a aparência frágil eram motivos de zombaria dos irmãos mais velhos, que diziam para ele se esconder sempre que passasse um abutre por perto, para evitar ser levado por engano.

Um dia, o patrão estava na varanda ouvindo rádio, um CD de música clássica, e Jusué se escondeu atrás de uma árvore para ouvir. O Dr. Olímpio era homem culto, aposentado agora, alto e com cabelos negros lisos, descendente direto de espanhóis. Quando sua irmã se aproximou gritando seu nome, o Dr. Olímpio percebeu o menino e o chamou.


– Quer dizer que você estava me espiando?
– Não senhor.
– O que você estava fazendo?
– Eu tava ouvindo a música – respondeu, olhando para seus próprios pés.
– Ah, quer dizer que você gosta de música? Escute aqui, quando eu for à cidade, vou comprar um aparelho de som para você, desses que tocam CD, e vou trazer uns CDs para você. A música pode salvar um homem, você sabia?
– Sabia não – respondeu com os olhos arregalados. – Obrigado, doutor. – E saiu correndo atrás de sua irmã, de volta para a plantação.

Jusué ficou a pensar a noite toda. Como a música pode salvar um homem? Esse doutor era mesmo esquisito. Talvez fosse louco. Espingarda, sim, salva um homem. Comida. As rezas da minha mãe, do padre e da Mãe Zíbia. Mas, música?

No outro dia, Jusué acordou com febre. Sua mãe estava estranha. Parecia que seus olhos eram todo brancos. Pela conversa que ele tinha escutado de seus irmãos mais velhos, Jânio, Jertrudes e Jerônimo, a mãe tinha perdido um bebê. Parece que tomara um chá envenenado sem saber. Por isso, perdera muito sangue e não poderia carpir por uns dias.  Seria uma boca a mais para alimentar, disse Jerônimo, imaginando se a mãe tivesse tido o bebê. Jertrudes sentia as lágrimas escorrerem e respondeu que onde comem oito, comem nove; e que ela nunca tomaria desses chás que a mãe fazia quando estava prenha.

– Fio, você tá com febre. Vai tomar banho morno e bebe bastante água. Eu vou pro meu quarto rezar pra você. E assim ele viu, pela porta entreaberta, a mãe deitar-se na cama e voltar a dormir.

Um mal-estar de súbito tomou conta dele, e foi impossível chegar ao banheiro, vomitando ali mesmo, no chão da cozinha, onde acabara de beber água.

– Ô moleque, porque você não vomita lá fora?! Agora vou ter que lavar esse chão, seu porco! – disse sua irmã Jertrudes de forma truculenta. – Sai daqui, sai! – gritou apontando a vassoura como se fosse uma arma.

Ele saiu e sentou-se atrás da jabuticabeira, perto da varando do patrão. A árvore parece com catapora negra, pensou, cheia de bolinhas pelo tronco e galhos. Gosto mais quando ainda está florindo, continuou refletindo, parece uma noiva com os cabelos enfeitados.  Esperou até que o Dr. Olímpio aparecesse, na esperança de que ele não houvesse se esquecido do presente.

O doutor sempre dava presentes para ele. Sua mãe dizia ao pai que não gostava da diferença que ele fazia entre Jusué e os irmãos, que ele tinha dó de ver o menino tão magrinho que aparecia até os ossos. Para Jusué, não era problema. Ele nunca tinha ficado sem agasalho no inverno ou sem chinelo no verão, o que acontecia costumeiramente com os irmãos. Sorte tinha também José, que herdava tudo que nele ficava pequeno.  Ouviu o carro estacionando e o patrão gritar para seu pai:

– Onde tá o Jusué? Eu tenho um presente pra ele. Aliás, pra vocês todos. Mas ele é o dono, ele empresta para os irmãos quando não estiver usando.
 
Dr. Olímpio sempre protege o Jusué, resmungou Henriqueto, bem baixinho. Melhor assim, pensava, não dava conta mesmo de alimentar e vestir os miúdos. Jusué era tão magrinho que, quando os irmãos batiam nele, as marcas se eternizavam por dias em seu rosto de boneca.  Seus olhos escuros eram pequenos e caídos, o que dava a impressão de que estava sempre chorando. Tinha aparência diferente dos irmãos de cabelos crespos e avermelhados.

Jusué deu um salto e disse:

– Precisa me procurar não, pai, eu to aqui. A mãe mandou eu ficar embaixo de uma árvore até minha febre baixar...

– Ah, pirralho, você está aí. Então venha cá. Veja o que eu trouxe. Você tem que ouvir na sua casa, é elétrico.  Pilha custa muito caro e acaba muito rápido. Eu trouxe um CD do Mozart para você. Depois você conta se gostou. Deixe eu sentir a sua testa. Uhm, não tá muito quente não, deve ter sido só uma virose. A música vai curar você.

Jusué não conseguia falar. Sua respiração era tão rápida, como se tivesse visto um anjo, ou a Maria Morena, filha do caseiro do sítio ao lado.Sem saber direito como agradecer, ajoelhou-se e abaixou a cabeça, repetindo “obrigado, obrigado”.

– O que que é isso, moleque, levante já daí. Você endoidou? Se você não levantar, eu vou dar esse presente para outra pessoa. Onde já se viu, é apenas um toca-CD. Paguei 89 reais na promoção. E assim você me deixa ouvir minha música na varanda em paz, sozinho, como eu gosto. Eu me sinto vigiado com você atrás daquela árvore, me espiando, ou você pensa que eu não te vejo?

Jusué levantou-se e correu para casa. Como estava doente, não precisava trabalhar naquele dia. Ligou o rádio e esperou. Silêncio. Chiados. Colocou o CD. De repente, um estrondo maravilhoso. O maestro Leonard Bernstein, conduzindo a Orquestra Sinfônica de Viena, gravara as obras de Mozart, começando por Ave verum corpus.
 
Jusué sentiu-se arrepiar, mais do que quando viu Mariazinha Morena banhar-se no reservatório de água dos cavalos só de calcinha. Seu corpo todo ficou em alerta. Seus cabelos ouriçados. O coração batia velozmente. E assim ficou, durante mais de uma hora enquanto tocava o CD.

A impressão que a música clássica deixou nele foi tão profunda, que todas as noites ele ouvia o CD, bem baixinho, para não atrapalhar a novela das nove que os irmãos acompanhavam. Aos poucos, foi decorando os sons. Gesticulava enquanto ouvia. Chorava quando a melodia era mansa, imitava a voz da soprano nas árias, fingia fazer parte do coro. Seu cabelo liso dançava para cá e para lá, movimentando-se conforme suas viradas fortes de um lado para o outro, a conduzir a orquestra imaginária.

Jusué procurou Dr. Olímpio na varanda, em uma tarde de outono. As primeiras rosas nasciam, o verde das folhas nas plantas era claro e a jabuticabeira já havia sarado da caxumba, seus irmão comeram todas as suas feridas, pensou o menino com ânsia.

Dr. Olímpio estava sentado na varanda, com o gato Filé no colo. Quando viu o menino, perguntou se havia algum problema.

– Ah,  Dr. Olímpio, eu posso pedir uma coisa pro senhor?

– Ai, ai, ai, Jusué, eu acabei de te dar um presente há dois meses e você quer outro? Você pensa que dinheiro nasce em árvore, é? Sua mãe já me procurou para dizer que você tá precisando de roupa nova de frio...

– Não, doutor, não custa dinheiro não. Queria que o senhor perguntasse na cidade se tem vaga pra mim em curso de música do SESI. Eu ouvi dizer que lá se pode estudar de graça.

– Sua mãe sabe disso? Ela não quis colocar vocês na escola; como eu vou convencê-la a deixar você estudar música? Você tá louco? Ela não vai concordar nunca.

– Eu já falei com ela. Ela disse que não aguenta mais ouvir aquele CD, que se tiver um lugar onde eu possa ouvir música bem longe dela, ela não liga não, dá é graças a Deus.

– Entendi. Tá bom, eu vou verificar e depois te falo.

Foi assim que o pequeno Jusué chegou ao SESI, e uma professora de música, percebendo sua sensibilidade musical, pediu que ele dissesse qual era a sua música preferida. Como não sabia ler, Jusué disse que iria “cantar” um pedaço para ela. E, de olhos fechados, ele repetiu sons de violinos, de flautas, de contrabaixos, de coral e de solistas, soprano e mezzo soprano, mexendo os bracinhos para cima e para baixo, rapidamente, freneticamente, para depois virar as pequenas mãos com a maior delicadeza e doçura, sem abrir os olhos por nenhum momento.

No final, quando se recompôs, viu que a professora chorava, enquanto a diretora e outros dois professores haviam se aproximado para saber o que estava se passando. Juntos, os professores inscreveram o menino Jusué em um programa internacional para músicos de comunidades carentes. Também se revezaram em ajudá-lo com lições para que fosse alfabetizado e conseguisse assimilar pelo menos uma parte do conteúdo escolar que ele perdera. 

Para não perder a bolsa de estudos, não podia repetir o ano escolar. O padre ofereceu um canto para ele dormir na igreja, se fosse coroinha e ajudasse nas missas de domingo de manhã.  As intenções do padre, ninguém conhecia, mas a verdade é que o menino era tão bem cuidado pela professora, que ninguém se atreveria a fazer mal àquela criança que aos poucos ganhou um pouco de peso, melhorou sua autoestima e perdeu até a corcunda, andando orgulhoso de si, sem jamais perder a humildade.

Jusué tinha dez anos quando isso aconteceu. Sua mãe, quando soube, não demonstrou surpresa nem alegria nem tristeza. Talvez a apatia fosse por conta dos remédios para depressão depois do último parto de feto sem vida. Mas não se opôs. Achou até bom. Menino doente dá muito trabalho, disse quando entregou o menino para a professora que o acompanharia até Viena, depois de três anos de aulas.

E lá, onde Mozart conheceu o sucesso, Jusué se tornou um grande maestro internacional.  Nas suas primeiras férias, ofereceram uma viagem a Paris. Mas jusué declinou, já falando um pouco de alemão. Ele queria conhecer Salzburg, o berço de Mozart. Queria saber mais da vida daquele homem morto há mais de duzentos anos e que ainda inspirava corações pelo mundo todo.

Em suas turnês internacionais, hoje, após quase trinta anos, ele às vezes passa pelo Brasil. Vem a SP. Sua família não é mais caseira de sítio, agora são proprietários de um pequeno sítio em Louveira. Seus irmãos puderam estudar, apesar de que vários preferiram não fazê-lo. Jusué aprendeu a ler e escrever em português, alemão, inglês e mais cinco línguas diferentes. Nunca mais ficou doente. Sua fraqueza não era do corpo, era da alma. Sua alma tinha fome de música.

Ele faz palestras e visita escolas contando sua história, em vários países. Provando que cada um faz o seu destino, se tiver coragem de correr atrás de seus sonhos.

E a Rosinha Morena, o que aconteceu com ela? Sempre que vinha de férias para o Brasil, ele a encontrava. Foi sua primeira e única namorada. De volta à Europa, eles escreviam cartas apaixonadas. Quando ela fez dezoito anos, mudou-se para Viena. Depois, já com o primeiro filho nos braços, o pequeno Mozart da Silva, mudaram-se para Paris, onde vivem até hoje, com o filho único. Além de cuidar do marido e do filho, Rosinha é poeta. Mesmo depois de trinta anos, ela chora todas as vezes que assiste a seu marido reger uma orquestra. 
O que o quinto filho nunca soube, é que seu pai biológico era o patrão de cabelos pretos e lisos.





Simone Pedersen escreve contos, crônicas e poemas para crianças e adultos.
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Marianazinha




Hoje tomei a liberdade, ainda que não devida, ou indevidamente necessária, para trazer ao leitor algo diferente. Um pouco deste comovido colunista. Para reflexão, proponho o conto de minha autoria chamado "Marianazinha", ainda, trago para uma quadrinho de Calvin, para que possamos realizar o diálogo entre ambos os textos.

O conto, que surgiu de inúmeras impressões pessoais acerca do cuidado e dos desejos de cada indivíduo, tenta ponderar dois pontos em uma relação entre mãe e filha. A literatura nos permite que façamos essas considerações e que possamos perceber esses enlaces da vida.

O endereço eletrônico de meu blog pessoal, para quem quiser conhecer um pouco mais de meus textos, é renatodering.blogspot.com. O blog já existe há mais de 5 anos, e conta com muitos dos meus escritos.




MARIANAZINHA




Era a hora de jantar e Marianazinha não descia do quarto. A mãe, depois de chamar várias e várias vezes, perdeu a paciência. Onde estaria Marianazinha? A janta era a comida preferida dela, sopa de letrinhas. Cada letrinha com uma cor diferente, menos a cor verde, ela não gostava... sabia que era de legumes. Passava das nove horas, e nove horas era a hora da janta. Onde está Marianazinha?

Sua mãe gritava, e gritava, pela filha no pé da escada. Escada essa que Marianazinha sempre brincou como sendo a entrada da casa de princesa de filmes da Disney. Quando cresceu um pouco mais, desistiu dessa brincadeira. Cansava subir e descer as escadas sozinha. Uma coisa parecia certa, Marianazinha não parecia estar no quarto, ou não ouvia sua mãe gritar. Onde estará Marianazinha?

Cansada de gritar, sua mãe subiu as escadas para ir ao quarto ver o que acontecia com Marianazinha. Eram nove e dez, e nada de a filha vir jantar, como pode? Um passo, dois degraus. Dois passos quatro degraus. Três passos, cinco degraus. A escada nem era assim, de princesa... era a imaginação de Marianazinha que a fazia. Aliás, era a imaginação de Marianazinha que dava àquela casa um tom de azul celeste, misturado ao rosa claro, cor de edredon preferido da mãe meninazinha, não dela.

A porta do quarto estava entreaberta, não mais trancada. O quarto, intacto. Marianazinha ali não estava. Não jantaria em casa de novo, assim como não jantou noite passada, assim como não jantou semana passada, assim como não jantava há alguns anos. Marianazinha já era Mariana. E sua mãe, ainda era... bem... ela não tinha imaginação. Era muito limitada para Marianazinha, digo, Mariana.

Daqui uns tempos, quem sabe, Mariana não volte para casa. Quando a casa tiver mais degraus, talvez, ou a mente de sua mãe ter um pouco mais de espaço, para poder entender que Marianazinha agora era Mariana. Pode ser que Laura esteja mudando, hoje já se deu nome e sempre deixa a porta entreaberta, caso a filha volte. Amanhã poderá tirar o edredon rosa claro da cama... Só restaria os degraus... Laura precisa aprender a usar a imaginação e subir mais alguns.




Renato Dering é escritor, mestrando em Letras (Estudos Literários) pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), sendo graduado também em Letras pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Realizou estágio como roteirista na TV UFG e em seu Trabalho de Conclusão de Curso, desenvolveu pesquisa acerca da contística brasileira e roteirização fílmica. Atualmente também pesquisa a Literatura e Cultura de massa.
Contato: renatodering@gmail.com
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