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Saca da Arte Para Resistir



Em meio aos paradoxos da contemporaneidade, ao analisarmos individualmente e em coletivo a conjuntura e história regional nos deparamos com o dilema: a Cidade de Excessão (se tiver curiosidade, leia outra matéria que introduzimos ao tema). 

Pensamos nos efeitos que os megaeventos promovem, principalmente, nas áreas periféricas e, além dos estudos iniciados, nos propusemos a dialogar mais com a população. 

Copa Pra Quem?
Coletivo ABC
O mini-documentário que recentemente elaboramos está disponível na internet:



Neste último final de semana fomos à Sacadura Cabral. Muitos nos perguntaram: - Por que lá na Saca?

Além da questão dos megatorneios e seus impactos, temos também a preocupação de entender as obras de infra-estrutura específicos da região. No caso, o Monotrilho (linha 18 do metro) que atingirá também a Sacadura Cabral. 


E lá, fomos muito bem recebido pela população local...  que se apropriaram das atividades de forma espontânea e conseguimos manter o diálogo horizontal com a "comunidade".

Iniciamos evento com a oficina de Stencil-Art:




Em paralelo a oficina, os artistas colaboradores traçaram nos muros cores, também dialogando com a população local as proposições:




Muralismo Arte Libertária
Foto: Soraia OC



Fizemos um cortejo para convidar a população para dialogar conosco e se apropriarem das atividades realizadas. Demos uma breve introdução a linguagem fotográfica e uma das moradoras registraram boa parte do evento para nós. 


Cortejo. Foto: Laisa (Sacadura Cabral)
Cortejo. Foto: Laisa (Sacadura Cabral)

O coletivo de Teatro de Rua Parlendas, que (re)existe há 10 anos apresentou a peça Marruá: 

Sinopse: Quais são as linhas que demarcam um território? Que traçados determinam uma nação? O que nos torna povo de algum lugar? A pobreza respeita fronteiras? E a resistência?  Marruá é uma expressão utilizada pelos peões do centro-oeste do Brasil, para designar um touro que se desgarra do rebanho, fugindo para as matas e se tornando selvagem e bravo (alongado), pois passa da época de ser abatido. Como o bicho que rompe as cercas que lhe prendem, deixamos de ser mansos e nos afastamos do rebanho para enxergar de mais longe. O espetáculo foi criado a partir de narrativas de diferentes brasileiros, recolhidas pelo grupo nas cinco regiões do país, em territórios de resistência e luta como: quilombos, seringais, aldeias, vilas e assentamentos. Fragmentado em blocos, apresenta o nascimento, desenvolvimento, morte e ressurreição de uma “comunidade” em constante transformação. (60m – livre – espetáculo de rua)
Fonte: http://grupoteatralparlendas.blogspot.com.br/






Após a apresentação teatral, formamos uma roda de jongo (manifestação cultural por criada por escravos no período do trabalho compulsório) com os parceiros do Preta Bandeira - grupo autônomo iniciado em janeiro de 2013.

No encerramento, o tempo oscilou e começou a garoar, foram poucos os beats remixados, porém foi gratificante ver a quantidade de MC's que chegaram para somar no microfone, tanto da comunidade como de parceiros. Para próximas, irei me preparar melhor para levar mais bases sonoras que faixas para remixagens.

Em breve postaremos o restante das fotos. 


Somos um coletivo autônomo que não dispõe de muitos recursos, gostaríamos de agradecer o Centro Comunitário Sacadura Cabral por ceder o espaço e por ter contribuído com parte do material utilizado nas oficinas. 

Soraia Oliveira Costa, mestranda em História da Ciência (UFABC), bacharel e licenciada em Ciências Sociais (CUFSA/2009). Pesquisadora que utiliza de recursos audiovisuais, da fotografia e das oralidades para fazer análises do cotidiano, da transformação sensível, do cenário urbano, da natureza, do trabalho, dos transportes, do comportamento, da cultura e das manifestações artísticas. Produtora do documentário "Transformação sensível, neblina sobre trilhos", que trata sobre a vila de Paranapiacaba.



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Saca: Arte para Resistência e Copa Rebelde dos Movimentos Sociais




Na Cidade de Exceção, a regra é o lucro e a exceção são os direitos da população.

                  "Como foi muito bem apontado pelo Deputado Estadual carioca, Romário, “A FIFA é um Estado mais soberano do que o Estado brasileiro, dentro do próprio território brasileiro”. Essa declaração é mais fácil de ser entendida se partirmos do conceito de Cidade de Exceção.
                  A Cidade de Exceção é um termo que traduz uma série de medidas excepcionais para um fim específico de mercado. Para realizar uma operação de interesse de grupos empresariais e enriquecimento de membros do poder público, são criados novos estatutos, novas leis, que simplesmente ignoram a Constituição, Direitos civis e outros códigos que foram criados para garantir direitos ao cidadão brasileiro. Em outras palavras, são Leis de Exceção, que interferem na organização e utilização do espaço público das cidades. Por isso o termo Cidade de Exceção: as cidades que receberão a Copa do Mundo de 2014, terão de ABANDONAR Direitos Civis, Constitucionais para dar lugar á um novo código de leis que beneficiam apenas grandes empresas multinacionais parceiras da FIFA, e a própria FIFA, é claro.              
Os exemplos são muitos: terrenos de interesse social transferidos para a utilização de obras de infraestrutura da copa (estacionamentos, boulevards de multinacionais, parques e áreas de lazer de alto padrão para atender turistas, etc.); milhares de famílias desalojadas violentamente em nome da construção de estádios de futebol; proibição de expressões culturais legítimas brasileiras em nome do interesse de empresas de alimentação ligadas á FIFA; Enfim, seria tedioso listar aqui todas as injustiças causadas desde que o Brasil foi escolhido como sede do megaevento[1].
                  Fica claro então á serviço de quem os governantes estão agindo, sejam eles de qualquer partido: mandam a polícia fechar o cerco nas periferias e favelas, com as UPP’s (Unidades de Polícia Pacificadora) para garantir a repressão daqueles que se levantarem contra a demolição de suas casas, enquanto doa estes terrenos para empresários ricos da construção civil associados á FIFA; abre as portas ás empresas de alimentos do estrangeiro enquanto manda a polícia reprimir trabalhadores ambulantes; reprime, prende e criminaliza os lutadores que corajosamente se enfrentam contra o grande desaforo que a Copa trará para a maioria dos brasileiros."




[1] Para ver em detalhes os impactos gerados pela preparação da Copa no Brasil, ver “Dossiê da Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa” (disponível em: http://comitepopulario.files.wordpress.com/2011/12/dossie_violacoes_copa_completo.pdf)

Fonte:
Coletivo ABECEdário - Tema: Copa Pra Quem?

Terá um evento político-cultural no dia 26.04 na Sacadura Cabral, periferia de Santo André-SP para proporcionar mais reflexão e debate a respeito da atual conjuntura.

Além das atividades, aproveitarei momento também para descontrair e disponibilizar parte da pesquisa musical de Rap e Funk Batidão, vulgo Proibidão. Contaremos também com um MC, que elaborou sete letras de sons para o dia e no dia farei a base sonora para ele.




Para melhor situar os interessados que ainda não conhecem a Sacadura Cabral, compartilhamos um panorama básico elaborado a partir de fontes orais

"A Saca e a palmares foram ocupadas mediante a proximidade do terreno com as indústrias da região do ABC, a construção do bairro foi feita sem planejamento e permaneceu dessa forma nas décadas de 1970, 1980, quando alguns grupos de moradores, o MDDF (Movimento pelo Direito dos Favelados), e grupos da igreja católica que lutavam por moradia, Cebs, pastoral operária e etc, iniciaram um processo de luta no ABC. No fim da década de 1980, várias favelas do ABC lutavam pela urbanização e saneamento básico das áreas ocupadas. Foi na década de 1990 depois de várias manifestações, passeata, produção de documentos (vídeos, fotos, relatos, gravações, escritos), treta com a prefeitura e etc, que no mandato do prefeito Celso Daniel do PT, lançou um projeto de urbanização pras favelas do ABC, algumas famílias foram para prédios de habitação, urbanizou boa parte da favela, alguns moradores tem escritura das casas, mas a favela já cresceu de lá pra cá e algumas áreas ainda são bem precárias. 

Hoje ainda existe atuação esporádica do MDDF, organização mínima entre os moradores, centro comunitário. Mas a maioria da população é grata incondicionalmente ao PT  e ao Celso Daniel e perdem a instiga pra luta."



Esperamos vocês para somar conosco por lá!

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Copa Rebelde dos Movimentos Sociais

Neste final de semana ocorreu a segunda Copa Rebelde dos Movimentos Sociais na frente da estação ferroviária Julio Prestes, em São Paulo. O local que estava ocioso devido os movimentos do projeto Nova Luz e, segundo organizadores do torneio, recentemente, o governo do Estado anunciou a desistência da construção da obra. 

O evento foi organizado pelo Comitê Popular da Copa de São Paulo, junto de movimentos sociais e coletivos parceiros, de forma horizontal. Uma das propostas deste torneio é ser alternativo ao megaevento gerido pela FIFA, é um ato político feito e apropriado pelo povo com diversas atividades culturais gratuitas e aberta: capoeira, espaços para as crianças, DJ's, MC's, teatro... 




É importante ressaltar que a própria população do entorno colocou dois pares de traves no espaço para fazer o uso popular do espaço, montamos apenas o terceiro campo para o uso livre enquanto ambas quadras eram utilizadas para o torneio. 



Foto de Sérgio Silva
Fonte: http://coparebelde.wordpress.com/
No campo eram cinco jogadores em linha e um no gol de cada time. Os jogos não tiveram juiz, mas houve arbítrio com consciência, não sendo tolerado injustiças e no caso de alguma penalidade, os próprios jogadores e torcida paravam o jogo. Se persistisse alguma agressão, dependendo da gravidade era designado alguém para ser juiz ou os responsáveis pela confusão eram retirados do torneio.


No dia 15/12/2013 teve a I Copa Rebelde dos Movimentos Sociais




E nos dias 12 e 13.04.14, a segunda edição da Copa Rebelde dos Movimentos Sociais


Se vos interessar ter outras informações, segue algumas reportagens:


http://www.tvt.org.br/watch.php?id=16196&category=208


Confiram os álbuns com as fotos do torneio:





Outras informações em:  

Soraia Oliveira Costa, mestranda em História da Ciência (UFABC), bacharel e licenciada em Ciências Sociais (CUFSA/2009). Pesquisadora que utiliza de recursos audiovisuais, da fotografia e das oralidades para fazer análises do cotidiano, da transformação sensível, do cenário urbano, da natureza, do trabalho, dos transportes, do comportamento, da cultura e das manifestações artísticas. Produtora do documentário "Transformação sensível, neblina sobre trilhos", que trata sobre a vila de Paranapiacaba.
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Voodoo Hop e intervenções Timalina


- Conhecem os eventos promovidos pela VOODOOHOP em SP? 

- Já ouviram falar da Tima?

Sem maiores delongas, esboçarei um pouco a respeito do coletivo VoodooHop e a intervenção da Aline Arcuri, mais conhecida como Timalina. 

A VOODOOHOP realiza festas na cidade de São Paulo e tem como objetivo a organização de festas incomuns e hedonísticas. Atuam, principalmente, no centro da cidade de São Paulo e realizam manifestações culturais em espaços públicos.

Matéria na Folha com VOODOOHOP

Uma das características do coletivo é ser itinerante, já percorrem cinco estados brasileiros e três países europeus. O motivo é a busca pelo inédito, pelo proposta de interagir com outros espaços e públicos, assim o ambiente da festa é composto pela união das instalações artísticas, com as músicas selecionadas pelos  DJs,  o público e o local da realização.

No coletivo, a Timalina participa como performer, DJ, auxilia na produção da decoração e seu principal trabalho é ser hostess - recepciona o público da festa todas as noites. Ela viu a necessidade de criar objetos para compor um personagem na festa e iniciei a confecção de suas primeiras máscaras e, hoje, semanalmente é produzida uma nova mascara. Acredita que a máscara funciona como um dispositivo para incorporar suas ações no coletivo, um meio facilitador para o relacionamento com o público.


Timalina, integrante do coletivo VOODOOHOP

Acredita que conseguiu construir um persona - palavra latina usada por atores da época clássica que significa “máscara”. Jung utiliza este termo referindo-se “ à máscara ou face que uma pessoa põe para confrontar o mundo”. Ela exerce a função de facilitar as relações sociais, nas situações cotidianas. A confecção das máscaras teve como consequência, de início inconsciente, a criação de uma persona que facilitou a recepção e a interação com o público. 

"Com a máscara tenho a potência de encarnar todas as características da festa e, apesar da distância que existe entre o mundo contemporâneo e as práticas ritualísticas, com esse dispositivo acredito ativar a força de um ritual para meu trabalho." (ARCURI, Aline F.)

A primeira e mais próxima referência para a produção das máscaras é o grupo/banda Keroøàcidu Suäväk, que faz apresentações de música experimental e performance nas festas da VOODOOHOP e em outros ambientes como exposições de arte. O grupo é composto por músicos e artistas, sua potência vem da experimentação musical, visual e corporal, as apresentações tem um caráter ritualístico. 

Pilantröpóv Pausãnias

Conta que outro referencial é a artista Lygia Clark e sua produção dos “objetos relacionais”. No seu trabalho chamado Máscara Abismo os participantes/receptores vestiam a máscara confeccionada com o objetivo de experimentar em um âmbito mais focado na Arte Terapia e de se relacionar o sensorial dos materiais utilizados. Partindo do conceito da produção dos “objetos relacionais”, Aline define as máscaras como dispositivos relacionais e ao ser ativado a transforma em uma coerência com a produção do coletivo.

Fundamentou também a respeito da referencia nas cores e no material da confecção de suas máscaras: a cerimônia andina Takanakuy realizada na província de Chumbivilcas no Peru. Tem suas raízes nos predecessores da cultura hispânica-inca e acontece anualmente no dia 25 de dezembro. Nesse dia pessoas de todas as idades se preparam fantasiando-se para participar da cerimônia, que se resume à uma grande briga de rua, onde todos se batem aos murros e chutes. As máscaras produzidas aqui também tem o objetivo de encarnar um personagem no momento da cerimonia. São referência nas cores e no material (lã).
Cerimônia Andina Takanakuy

                     Poster Takanakuy, Peru.

Os festivais dos Mascarados encontrados na região do oeste africano tem a tradição de confeccionar a fantasia para esses festivais era muito forte nessa região da África. O fotógrafo Phillip Galembo registrou em uma série de fotos das fantasias criadas pelas tribos. Aqui produção colorida e bizarra a atraiu, o afinco da população local em confeccionar as fantasias foi inspirador e isso fez da série de Galembo uma forte referência.

Há cerca de um ano, aprendeu a técnica de tricô com agulhas e encontrou uma grande sintonia entre os fios e a trama. Foi em busca de referências de artistas contemporâneos que utilizam do tecer como matéria-prima. Permeou sua pesquisa nos coletivos e artistas que interviam com as tramas a paisagem urbana no Brasil e na Europa. 

Ao pesquisar percebeu que muitos artistas estão optando pela técnica de tecer com as agulhas criando trabalhos coletivos nas cidades. Essas manifestações estão espalhadas pelo mundo todo, um exemplo é o coletivo aberto  Yarn Bombing [Bombardeio de Fios] que reúne na internet em um site (http://yarnbombing.com/) artistas de varias partes do mundo que reinventam a paisagem da cidade 
utilizando o crochê ou o tricô.

Outro exemplo inspirador são as ações da artista polonesa Agata Oleksiak que vem colorindo com o tricô vários locais do mundo, agregando com seus trabalhos essa nova atividade conhecida como Crochê de Guerrilha. A artista veio para o Brasil colorir com sua trama de tricô, na Mostra Sesc de Artes 2012. Ela trabalha em colaboração com artistas e costureiros locais, vestindo enormes monumentos com o crochê pelas cidades que passam.


Instalação Agata Olek


 Em uma palestra foi discutida a inexistência de ligações entre o IAC (Instituto de arte Contemporânea) e o muBA (Museu Belas Artes de São Paulo). Com isso a Aline propos uma ação que simbolizasse essa ligação, do IAC com o muBA e durante a I Semana de Artes Visuais do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo organizou uma ação, Tear Humano. Unindo a técnica do tear de mão, com as mãos de quinze ou vinte pessoas, a rede foi produzida. No final da semana produzimos uma rede de 40m de comprimento, que equivalem a distância entre os espaços IAC e muBA.

Tear Humano, Belas Artes


Aldo Lanzini, Nick Cave e Piers Atkinsons são exemplos de artistas plásticos que produzem máscaras utilizando a trama e que encontra relação com o aspecto bizarro e sufocante das formas das máscaras, as cores e técnicas. 



10 Crazy Creeby Crocheted Masks
10 Crazy Creepy Crochet
Piers Atkinsons, Knitted Balaclava with Pom-Poms
'All the World's a Stage' collection, S/S 2009, © photo: Leigh Keily.

Com essas referências inúmeras possibilidades se afincaram na sua produção de máscaras, nesse ponto, outras técnicas de tramar foram experimentadas, tricô de dedo, tricô de braço, o crochê e a construção de teares para simplificar a confecção da trama. 

Esse aprendizado se somou com os encontros informais com amigas e amigos, em que as trocas de experiências com essas técnicas foram essenciais. Além de ter reencontrado as amostras de crochês feitas pela sua avó.


Intervenção VOODOHOP no Morro do Vidigal, RJ. 
 Máscaras Timalina. Foto: Pitty Nascimento

Uma importante característica da máscara é o emprego das cores fluorescentes, elas também são atribuídas na estética as decorações da VOODOOHOP, que combinadas à luz negra auferem realce. As cores aplicadas à máscara se destacam na pista escura quando próximas à uma luz negra. Essas cores também agregaram para chamar mais atenção as suas performances de dança.

Matéria elaborada com base no TCC da Aline Ferreira Arcuri, concluso neste ano de 2013 e as referências utilizadas são as seguinte:

OITICICA, Hélio. Carta a Aracy Amaral, 13 de maio de 1972. cf. Amaral, Aracy. Arte e Meio Artístico; entre a feijoada e o X-burger. (S. Paulo: Nobel, 1983).
SAMUELS, Andrew. Dicionário de Crítica Junguiana. Rubedo, 2003. Disponível em: http://www.rubedo.psc.br/dicjung/verbetes/ritual.htm Acesso em: 5 de abr. 2013, 17:00

Soraia e Alina (Timas)  Foto: Aniel Lara Espindola

Soraia Oliveira Costa, mestranda em História da Ciência/UFABC, licenciada e bacharel em Ciências Sociais/CUFSA.

Aline Ferreira Arcuri, bacharel em Artes Visuais/Belas Artes, integrante do coletivo VOODOOHOP. 


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Nino Cais, artista paulista, estará na 30ª Bienal de Arte de São Paulo com suas colagens e ressignificações dos objetos.



Nino Cais se equilibrando em copos
Colagens com revistas da década de 1970
Hoje, dia 24 de maio de 2012, fui com meus alunos de Visuais da FPA à Universidade Estadual Paulista, UNESP, para participar do Encontro de formação em arte contemporânea. O evento teve como foco a discussão das poéticas da arte visando abrir os horizontes de educadores de arte e também do público em geral, para tecerem novos olhares sob os processos criativos dos anos 2000. O projeto partiu do Educativo da Bienal que, em parceria com o Instituto de Artes, nos proporcionou a discussão da arte em suas poéticas conceituais na pós-modernidade. A curadora educacional da Fundação Bienal, Stela Barbieri, ressaltou os aspectos da contemporaneidade e dos caminhos que a 30 Bienal de SP sugere para pensarmos as iminências das poéticas.

A Bienal Internacional de Arte de São Paulo teve sua primeira edição em 1951, sempre revelando tendências e sugerindo novos olhares, cada vez mais ousados, sob o processo de se fazer arte, mostrando um estreitamento evolutivo entre arte e público. A Bienal deste ano, que tem como curador  o venezuelano Luis Pérez-Oramas, escritor e historiador, intitulada; A iminência das poéticas, tem como objetivo proporcionar o encontro de vários temas da contemporaneidade como a multiplicidade, a transicionalidade, a recorrência e permanente mutabilidade das poéticas artísticas.
Na palestra, realizada na UNESP, assistimos um vídeo em que Oramas cita o mito de Narciso e  Eco para explicar a instabilidade ou a incomunicabilidade entre os seres. Oramas diz que a arte entra no vão das coisas, nas tais incomunicabilidade, possibilitando a comunicação entre os humanos. O curador completa dizendo que as  palavras e as imagens são elementos distintos mas que estão sempre em estado de  constantes subordinações entre si. 
Ressignificação dos objetos
Colagens com Flores 
A grande e maravilhosa surpresa foi encontrar o artista Nino Cais no Encontro, falando de seu processo criativo e mostrando suas obras de colagens realizados com revistas da década de 1970. A questão interessante levantada por Nino, foi a de reposicionando dos objetos ressignificando-os. O rostos cobertos por flores, blusas de lã ou o equilíbrio do corpo do artista em copos frágeis. O artista trouxe objetos do dia-a-dia em suas várias ressignificações.

Influências de sua mãe costureira - retalhos 
Nino Cais é um dos artistas brasileiros que estará da 30 Bienal colocando e recolocando os objetos do cotidiano em movimentos constastes, como o mestre Duchamp com o seu urinol, A fonte, 1917, a arte de Nino nos ensina a fazer arte com o que temos, com o que nos rodeia, nada mais e fim de papo. A 30 Bienal começa em 7 de setembro e vai até  9 de dezembro. Como afirma o curador,  a Bienal será dividida em "constelações" de obras e artistas que conversam entre si. Dentro das constelações, haverá quatro zonas curatoriais (Sobrevivências, Alterformas, Derivas e Vozes) e uma zona transversal (Reverso).
Fiquem de olho, confiram a Bienal e prestem atenção no trabalho do brasileiro Nino Cais, muito bom!


Kátia Peixoto é doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Mestre em Cinema pela ECA - USP onde realizou pesquisas em cinema italiano principalmente em Federico Fellini nas manifestações teatrais, clowns e mambembe de alguns de seus filmes. Fotógrafa por 6 anos do Jornal Argumento. Formada em piano e dança pelo Conservatório musical Villa Lobos. Atualmente leciona no Curso Superior de de Música da FAC-FITO e na UNIP nos Cursos de Comunicação e é integrante do grupo Adriana Rodrigues de Dança Flamenca sob a direção de Antônio Benega.

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Performance e Humor Subversivo

           

Raid das Moças e a Cultura da depressão: performance e humor subversivo ou quando Foucault visita as chanchadas da Atlântida



      Durante a ditadura militar no Brasil, a resistência artística não se deu exclusivamente através do engajamento de esquerda. Houve uma tendência cultural, detectada por Renato Ortiz (Ortiz, 1988) no ensaio “O popular e o nacional / Do popular nacional ao internacional popular”, que o autor nomeia de “Cultura de Depressão”. Diz o autor que:

Cultura de Depressão com variações no irracionalismo, no misticismo, no escapismo, e sob o signo da ameaça, eis os traços essenciais que acompanham alguns setores da produção cultural brasileira a partir de 1969. (...) Declara-se espúria ou careta a esfera do político e, através de um argumento equivocado do perigo da recuperação via indústria cultural ou pelo establishment, faz-se a profissão de fé do silêncio teórico, isto é, a recusa apologética do discurso conceptualizado sobre a produção artística, sobretudo a musical. Isto tudo mesclado a um culto modernoso do nonsense, a um repúdio à pontilhação racional do discurso. Portanto, ênfase no sujeito “alienado”, que busca na droga, no misticismo ou na psicanálise, a forma de expressar sua individualidade; desarticulação do discurso, reificação da linguagem, o que equivaleria a uma desvalorização do conhecimento racional; recusa em se encarar o elemento político (Ortiz,1988:158).

      O presente trabalho apresentará um fenômeno cênico que, advindo da contracultura dos anos setenta viria a ser, na década de noventa e depois, alvo de fervorosas discussões e responsável por uma renovação da platéia brasileira. Híbrido por natureza e essência, o Raid das Moças em sua proposta estética apresenta em cena o pastiche, o nonsense costurado por canções consideradas brega e/ou cafona da música popular brasileira destinada às consideradas camadas populares. Com uma sonoridade que apresenta síntese da música eletrônica com baladas de cunho romântico cujos conteúdos refletem desilusões amorosas e a chamada “dor de cotovelo” alicerçada por interpretações exageradas e melodramáticas, coreografias retiradas de filmes das sessões da tarde e de dançarinas de programas de auditório, respaldada por um figurino que passeia pelo kitsch, pelos cabarés e boites gays; o grupo se debruça neste espetáculo a mapear a partir de uma linha de tempo histórico com inicio na década de sessenta até a atualidade a re/apresentar cada bloco como pequenos esquetes que não privilegia apenas o lado musical, mas traz ainda um forte apelo de teatralidade e humor que resulta num espetáculo cênico lúdico e interativo.
      Teatro Besteirol designa montagens de humor não muito exigentes que buscam antes de tudo cumplicidade com a platéia por debochar de temas cotidianos, contando com atores que não hesitam em assumir a paródia até o mais infame cabotinismo. Se a isso se incorporar temas escatológicos e uma estética voluntariamente de mal gosto e mal-acabada, estamos no caminho certo para esse começo de conversa.
      Linda Hutcheon, em Uma teoria da paródia (Hutcheon, 1986)assim define a paródia: ‘A paródia é pois, repetição, mas repetição que inclui diferença; é imitação com distância crítica, cuja ironia pode beneficiar e prejudicar ao mesmo tempo’ (Hutcheon, 1986:54). Versões irônicas de transcontextualização e inversão são os seus principais operadores formais, e o âmbito de ethos pragmático vai do ridículo desdenhoso a homenagem reverencial.
     Flávio Marinho comenta que o espectador para usufruir do humor do espetáculo necessita de uma certa formação cultural:

O humor do espetáculo, no entanto requer uma certa informação cultural do espectador e, especialmente, algum conhecimento (ou vivência) teatral para melhor curtí-lo. De outra forma, corre o risco de perder grande parte dos achados cômicos. Seja como for, trata-se de espetáculo altamente recomendável que, devido ao seu caráter meio marginal, talvez estivesse melhor abrigado – e com maiores chances de sucesso em sessões de meia-noite do Cândido Mendes do que no horário vespertino do Teatro dos Quatro (Marinho, 1983: Jornal ‘O Globo’).

      Essa idéia esboçada por ele – a de que o espectador da peça precisa de uma certa formação teatral para melhor usufruí-la – vem ao encontro do que Affonso Romano de Sant’Anna diz a respeito da assimilação da paródia, paráfrase e estilização:

Os conceitos de paródia, paráfrase e estilização são relativos ao leitor. Isto é: depende do receptor (...) Isto equivale a dizer, em outros termos: estilização, paráfrase e paródia (e a apropriação, que veremos proximamente) são recursos percebidos por um leitor mais informado. É preciso um repertório ou memória cultural e literária para decodificar os textos superpostos (Sant’Anna, 2006: 26).

      Citamos, à guisa de exemplo, o texto que a atriz Kátia Leal fala entre a primeira parte do primeiro bloco e a segunda:

“Nesse verão nós decidimos reviver e recontar uma história de sucesso, decidimos ficar em Salvador, na Varanda do SESI tomando nossos bons drink (sic) nesse verão maravilhoso da Bahia e dividindo com vocês esses momentos nossos. E teve boatos que nós ainda estávamos na pior, se isso é tá na pior, poonrra! O que é dizer estar bem, né?” (THÜRLER, 2011: original em cópia).

      Esse texto, responsável em si, por boa parte do riso do espetáculo só faz sentido para quem conhece o famoso vídeo da travesti brasileira radicada na Itália, Luiza Marilac:



      Outro momento importante é o que a atriz Kátia Leal assume o papel da Psicopedagoga especialista em linguagem de libras e traduz a música Fico assim sem você, de Claudinho e Buchecha. Guardando algumas mudanças, inserções e releituras, o que fazemos é um processo intertextual e tropicalista coma versão que o ator Raul Franco fez para a mesma música em seu espetáculo solo "Saída de emergência”, que ficou em cartaz no teatro Vanucci, no Rio de Janeiro.


      Ainda mais radical é a cena da diversidade, em que a cantora e atriz Marilda Santanna interpreta, invocando a musa Nara Leão, uma típica Bossa Nova. Até aí, nada de muito especial se não fosse esse número uma apropriação da versão escatológica de Mc  Grizante para o clássico pop "I Will Survive" de Gloria Gaynor.


      Foi comum durante os dias de espetáculo e frente à divulgação maciça na imprensa brasileira a dúvida sobre a identidade sexual das performers Claudia Sisan, Kátia Leal e Marilda Santanna. A provocação intencional teve origem através do conceito de camp, que para nós, pode ser entendido a partir das palavras Halperin (Halperin, 2007), como uma forma de resistência cultural que repousa sobre a consciência compartilhada de estar situado dentro de um poderoso sistema de significações sociais e sexuais. O camp, segundo o autor, resiste ao poder desse sistema de dentro dele por meio da paródia, do exagero, da amplificação, da teatralização e da explicitação de códigos tácitos de conduta – códigos cuja autoridade provém de seu privilégio de nunca ser enunciado explicitamente e, por conseguinte, de sua imunidade à crítica.


      Contrastando com outras posturas, a estética camp equivale, de alguma forma, à estética gay, o aspecto camp mais marcante no espetáculo Cultura da Depressão, aliás, é importante lembrar que, muitas vezes, as representações estereotipadas com personagens afeminados e com uma estética camp, que, de acordo com Sontag (1987), pode ser caracterizada pela “predileção pelo inatural, pelo artifício e pelo exagero” (p.318) ou como “um certo tipo de esteticismo (...) uma maneira de ver o mundo como fenômeno estético” (p.327).
     O camp é arte que se propõe a si mesmo como séria, mas que exige, para sua recepção, uma atitude de valorização de seu artifício e exagero, sua incorporação nostálgica e intelectual do mau gosto. “Cultura da depressão” deve ser vista a partir das referências culturais a gêneros considerados inferiores na Arte que nos permite visualizar o tema da memória, a cultura de massa e uma postura kitsch frente aos objetos sobrecarregados mediante um discurso sentimental, só assim foi possível que o Raid das moças inserisse uma marca pessoal na experimentação autoral com modelos populares.



Djalma Thürler é Cientista da Arte (UFF-2000), Professor do Programa de Pós-Graduação Multidisciplinar em Cultura e Sociedade e Professor Adjunto do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da UFBA. Carioca, ator, Bacharel em Direção Teatral e Pesquisador Pleno do CULT (Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura). Atualmente desenvolve estágio de Pós-Doutorado intitulado “Cartografias do desejo e novas sexualidades: a dramaturgia brasileira contemporânea dos anos 90 e depois”.

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