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PoetiVidade - Vida e Poesia


Esta primeira publicação da coluna PoetiVidade é dedicada a pensar a Poesia como um estado de Vida. Poesia como própria Vida que se desvela perante o olhar e os pensamentos do Poeta. 

Tratando-se de uma coluna sobre poesia, a licença poética, sempre que necessária, se fará presente, e palavras “inventadas” ou com letra maiúscula “onde não devia estar”, etc., farão parte de nossas publicações.

Mas como podemos pensar a Poesia na Vida para além do que está ali, escrito no papel? É possível criar um bom poema se preocupando prioritariamente com sua forma, deixando o conteúdo em segundo plano? Qual relação deve haver entre forma e conteúdo?

As questões acerca da poesia e do poema que foram apresentadas acima são recorrentes entre aqueles que se interessam por este tipo de arte. Isso talvez porque muitas poesias não são fáceis de serem adentradas em sua essência, elas possuem camadas, níveis, e até mesmo ângulos de compreensão diferentes, mas que por vezes são complementares.

Há pessoas que pensam o poema de maneira primordialmente matemática, de modo que a “forma” seja o mais importante na criação poética. Para estas pessoas, o que importa é uma boa escrita, que significa um ótimo domínio da linguagem e um planejamento, ou cálculo do que será passado para o papel. É um pensamento interessante, porque preza pela beleza estética, que sem dúvidas é essencial para qualquer bom trabalho artístico, numa escrita que sempre busca surpreender o leitor, brincando com a forma e a relacionando com o conteúdo o máximo que puder. Este é um pensamento comum entre diversos círculos de literatos, e possivelmente seja, entre eles, o pensar dominante sobre o tema.

Apesar dos méritos da formalização matemática da criação poética, cremos que há um grande problema quando se exalta a forma em detrimento do conteúdo. Além de ser um pensamento elitista, porque segundo esta concepção somente os mais estudados e letrados é que seriam capazes de produzir boas poesias, é praticamente como se dissessem que, se não houver poema escrito, não há poesia no mundo, quando, ao contrário, vemos que nas Artes em geral há um elemento essencial, que entendemos por POESIA. 

Quando assistimos a um belo filme, observamos um quadro, ouvimos boa música, ou mesmo contemplamos a aurora do dia, a lua cheia... ou quando damos um abraço apertado, um beijo apaixonado... sentimentos, sensações e pensamentos nos tomam de forma que nos sentimos Vivos. Independente do que pensamos ou sentimos, em contato com as Artes temos momentos de relação mais próxima com a Vida, que pode ser pensada aqui como Existência, não se restringindo somente ao que nós, seres humanos, classificamos como Vida.

Desta maneira, a Poesia pode ser entendida como algo inerente à própria Existência e à nossa Vida. Ela pode ser pensada como Essência, ou Essências presentes em todos os ramos da complexidade da Existência. A Poesia é o Elo, o que enxergamos de Belo sem saber explicar. Ela está presente em todas as artes, sendo justamente o que nos chama a atenção nas mesmas, e quando em forma de poema, a arte mais democrática e barata de ser criada pois qualquer um com um papel e um lápis pode escrever, igualmente nos torce, arrebata, emociona, surpreende e encanta, da mesma maneira que todas as outras artes, e isto porque elas possuem Poesia, possuem Vida!

Todo poema possui conteúdo, e muitos dos poemas que já foram escritos nasceram primeiramente da reflexão sobre determinados conteúdos, e só depois eles ganharam suas formas no papel. A inspiração poética, que muitos ainda duvidam que realmente exista, se mostra presente na obra e nas falas de muitos artistas. Eles captam a Poesia do Mundo e da Vida e a transforma em obra de Arte.

Portanto, pensar a Poesia (ou o poema) sem Vida é algo que nos parece demasiado artificial. Ao mesmo tempo que conceber a Vida separada da Poesia é como tentar separar um rio de suas margens e contornos. É preciso um equilíbrio, é necessário ver a forma como poética, como contendo a própria poesia que É.

Para finalizar, abaixo estão poemas de dois amigos que já deixaram esta Vida, mas que por aqui permanecem em suas lembranças e Poesias:


Retiro Bucólico 

Fugindo da cidade titânica, trepidante 
Onde a vida aos poucos se consome... 
Encontrei refúgio num sítio verdejante 
Cujo sossego e alívio não tem nome... 

Tudo silêncio, paz, amenidade 
Pássaros revoam entonando seus trinados 
E para lenir, o travor de uma saudade, 
Fico divagando pelos prados 

Enrugando-se numa renda de recamos, 
Os regatos coleiam nas campinas 
Refletindo das ramagens os verdes ramos 
No claro espelho das águas cristalinas... 

"Longe do Mundo, do mal, da guerra" 
Viver assim, que bom será 
Vendo a palmeira, o canavial, a serra, 
E as tranquilas águas do Juquiá 

O pesado silêncio recaindo em tudo 
Quando o véu da noite a terra desce 
E envolvendo arvoredo mudo 
Que se desfaz em mistério, num quê de prece…

Severino da Silveira Lima (1923 - 1999)


Segundos

A vida é um breve relâmpago.
Quando penso que estou cantando
Vira passado o meu canto.

Réginaldo Poeta (1965 - 2014)



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“A oposição é a fôrma das formas.”
Victor Canti


Rafael Cavalcanti Braga mergulhou no universo da poesia no ano de 2003. Desde então, sob o pseudônimo Victor Canti,  tem se dedicado à criação poética em diversas esferas, já tendo participado da publicação de fanzines, blogs literários e vídeo-poesias. Em 2013 publicou seu primeiro livro, de nome Pensar em Pensar, e foi um dos autores em destaque da 3ª Bienal do Livro de São José dos Campos - SP.
O poeta é formado em Filosofia pela UFABC.

Mais sobre seu universo poético no sitE do autor.




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Teatro, revista e incentivo à leitura

 
   

A coluna Drops estreia hoje na nova ContemporARTES e vai continuar trazendo dicas de lançamentos de livros, exposições, concursos literários e eventos variados para você.

©2012 Ernesto Vasconcelos

Para quem está em Salvador, um ótimo programa é conferir o espetáculo “O Diário de Genet”, dirigido pelo colunista da ContemporARTES Djalma Thürler.  No elenco, Duda Woyda e Rafael Medrado reinterpretam a obra “Diário de um Ladrão”, de Jean Genet.
O espetáculo está em cartaz desde o dia 4 de maio e é apresentado aos sábados e domingos, às 20h, na Sala do Coro do Teatro Castro Alves. Outras informações aqui. 


Até o dia 15 de julho, professores e estudantes de pós-graduação podem enviar artigos e resenhas para serem avaliados e publicados na Revista TRAMA Interdisciplinar, do programa de Pós-Graduação em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie. O tema da próxima edição será “Cultura e Violência”. As especificações sobre o material a ser enviado você encontra na página da revista. 


Uma iniciativa que se propõe a viajar pelo Sul do país divulgando, de maneira lúdicas e interativa, o gosto pelos livros e pela leitura. Esse é o projeto e peça de teatro “Papelito, em busca de uma boa leitura”, uma criação da Cia. Cultural Afro-Cena, com texto e direção de Sérgio Rosa, que desde 2012 é apresentada em escolas e eventos do Rio Grande do Sul.  Na peça, Papelito é uma folha de papel em branco que sai pelo mundo em busca de realizar seu sonho: ser um livro colorido e cheio de vida. 
Quem se interessou pelo projeto pode conhecer mais dessa história no blog www.papelitopapelito.blogspot.com. E quem quiser levar a peça para uma escola ou evento na região pode enviar um e-mail para papelitoleitura@gmail.com e obter mais informações. 



Mônica Bento é jornalista, formada pela Universidade Federal de Viçosa (MG). Em seu trabalho de conclusão de curso estudou a função social das salas de cinema e desenvolveu a reportagem multimídia CineMemória. Pertence a equipe de Comunicação da Contemporartes-Revista de Difusão Cultural. 
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Oportunidades, lançamentos e "Primavera dos Museus"




As dicas de hoje são de oportunidade de publicação de artigo, lançamentos de livros e revistas e atividades relacionadas à "Primavera dos Museus". Vamos a elas! 


A  “Todas as Musas – Revista de Literatura e das Múltiplas Linguagens da Arte” recebe, até o dia 31 de outubro, artigos para serem publicados em sua próxima edição. Os textos podem ser em português, inglês ou espanhol. A sexta edição da revista estará disponível em fevereiro de 2012. 
Clique aqui para acessar as normas de publicação e ter outras informações sobre a revista. 

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A televisão já foi criticada, elogiada e ignorada. Mas, antes de tomar qualquer posição, é importante conhecer as curiosidades e debates que envolvem a produção televisiva. O livro “Televisão: formas audiovisuais de ficção e de documentário. Vol.1” é uma coletânea de artigos que levanta algumas questões sobre o que se vê na TV e propõe um diálogo entre a TV no Brasil e em Portugal. 

A publicação foi organizada pelos coordenadores do “XIV Encontro Internacional da SOCINE (Sociedade Brasileira de Cinema e Audiovisual” e editada pelas Edições CIAC. O livro pode ser acessado gratuitamente no site do Centro de Investigação em Artes e Comunicação (CIAC) da Universidade do Algarve, em formato flipbook ou. pdf 

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No último dia 12 de setembro aconteceu em Salvador (BA) o lançamento da revista “Cultura e Pensamento: Juventude e Ativismo”. Para marcar o lançamento, a Secretaria de Cultura da Bahia (SECULT) e a Universidade Federal da Bahia promoveram um debate sobre o tema “Juventude e Desenvolvimento”, que contou com a presença de autoridades do estado, dos representantes da ONG Contato Vitor Santana e Helder Quiroga e do professor Carlos Bonfim. 

 A revista, que é editada pela ONG Contato – Centro de Referência da Juventude, pode ser acessada aqui. Para conhecer o projeto por trás da Revista, visite o site da Cultura e Juventude – Diálogos Internacionais. 

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Nos próximos dias 29 e 30 de setembro, acontece no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL) o Colóquio: "Os extremismos políticos de direita: entre a tradição e a renovação". O evento é coordenador pelos brasileiros Fábio Chang de Almeida (UFRGS/ICS-UL) e Leandro Pereira Gonçalves (PUC-SP/ICS-UL), e pelo italiano Riccardo Marchi (ICS/UL).

No primeiro dia do Colóquio será lançado o livro “Entre tipos e recortes: histórias da imprensa integralista”, organizado por Leandro Pereira Gonçalves e Renata Duarte Simões. 
Acesse a programação completa para se informar sobre as mesas e debates do evento. 

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Chega ao fim hoje (25)  a 5ª edição da Primavera dos Museus, evento promovido pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) que oferece exposições, oficinas, debates, espetáculos teatrais e diversas outras atividades aos visitantes de mais de 500 museus e instituições culturais em todo o país. 

A edição deste ano teve como tema “Mulheres, Museus e Memórias”. A programação oferecida pelos museus participantes da iniciativa pode ser acessada aqui. 
Para marcar o encerramento da Primavera dos Museus, a cantora Nana Caymmi faz show gratuito no jardim do Museu da República, no Rio de Janeiro (RJ), hoje, às 17h.  



A Fundação Pró-Memória de São Caetano do Sul participa da Primavera dos Museus com uma mostra de filmes e uma exposição sobre mulheres que tiveram participação ativa na “construção” da cidade. A exposição “Mulheres, Memórias e Ofícios” fica aberta até o dia 11 de novembro e pode ser visitada na Avenida Dr. Augusto de Toledo, 255 - Bairro Santa Paula, em São Caetano do Sul (SP). 

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Mônica Bento é jornalista, formada pela Universidade Federal de Viçosa (MG). Em seu trabalho de conclusão de curso estudou a função social das salas de cinema e desenvolveu a reportagem multimídia CineMemória. Pertence a equipe de Comunicação da Contemporartes-Revista de Difusão Cultural
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Fotografia, memória e esquecimento


Fotografia, memória ou memórias, esquecimento:
“Fotografia é memória e com ela se confunde.” (Kossoy)1 ou
“a fotografia contribui para a memória, mas não é a memória”.2(?)

Por André Luiz Reis Mattos.

Entendo que a relação fotografia/real, tratada em artigo anteriormente publicado na revista Contemporâneos, esta vinculada no imaginário popular às questões da memória, ao desejo de que a pessoa, o objeto e o momento sejam preservados, e permaneçam “vivos” na expressão material da imagem registrada, e que o tempo, inexorável inimigo da vida, pois nos conduz invariavelmente a morte, seja vencido.

Na apresentação do livro “Memória e (Res)sentimento: Indagações sobre uma questão sensível”, Bresciani e Naxara, sinalizam para uma série de apreensões da memória:
Salvador Dalí, The Persistence of Memory, 1931.
Museum of Modern Art, New York. © Salvador Dalí.
Fundación Gala-Salvador Dalí, DACS, 2007
“(...) memória-faculdade intelectual, memória-conhecimento,... memória que se submete à história e a ela oferece suporte documental importante para suas narrativas... Memória-testemunho... Memória que pode se desprender de seu referente,... Memórias que transitam pelo apagamento de outras memórias... Memórias ressentidas... Memórias que podem atuar como advertência e rememoração de derrotas,... mas que também encontram lugar na afirmação positiva do direito à cidadania, ...”3



"A Planície do Esquecimento"
(Salvador Dali)
A memória em sua essência é abstrata, afetiva, subjetiva, o que não foi segregado ou confiscado. Mesmo que desta maneira “fatiada” em planos ou memórias, é o que permanece vinculado, presente, esquecido como medida de proteção ou mesmo oprimido, nas lembranças, nas diversas expressões da vontade individual ou coletiva, nas representações e símbolos, nos rituais e práticas de rememoração, nas imagens, nos espaços e nas paisagens transformadas; memória que vence o tempo e é reavivada, resignificada ou realimentada nas ações do sujeito histórico em suas diversas formas de manifestação.

Quando afirma que “Heródoto retoma e transforma a tarefa do poeta arcaico: contar os acontecimentos passados, conservar a memória, resgatar (termo substituído na atualidade por reavivar) o passado, lutar contra o esquecimento”, Jeanne Marie Gagnebin4 o faz após observar que este – Heródoto de Halicarnassus5, na tradição considerado o “pai da história”, apresenta como objetivo de suas investigações o desejo de “que a memória dos acontecimentos não se apague entre os homens com o passar do tempo.”6

Preservar a memória é criar uma imortalidade que a vida naturalmente impede, então para “vencer” o tempo é primordial “vencer” o esquecimento, e “Mnemosine”7 é a principal aliada do ser humano.

Mnemosyne, por
Dante Gabriel Rossetti,
1828-1882, pintor e poeta inglês.
Os homens sempre utilizaram de artifícios para que o tempo e a morte não lhes condenassem ao esquecimento. Mitos de origem, tradições, feitos heróicos dos antepassados, permanecem nas diversas civilizações através das expressões da linguagem, inicialmente pela oralidade, capaz de transpor a passagem do tempo; é o “discurso mítico, que fala de um tempo longínquo, de um tempo das origens, tempo dos deuses e dos heróis, do qual só as musas podem nos fazer lembrar, pois, sem elas, não podemos saber (idem) daquilo que não vimos.”8. Acrescento ainda a estes artifícios os lugares de memória e a “obsessão comemorativa” que tomou conta de todas as sociedades contemporâneas nas últimas décadas do século XX9; e, por ser também linguagem, a fotografia.

Segundo Almeida10, existimos atualmente em uma sociedade oral cujo caminho comunicacional ocorre prioritariamente por imagens e sons. Para Jolly11, “a opinião mais comum sobre as características de nossa época, já repetida há mais de trinta anos, é que vivemos em uma 'civilização da imagem'”. As fotografias, mais do que meras ilustrações, são como afirma Barthes12, um “certificado de presença”; e na mesma dimensão como testemunho direto ou indireto de um tempo anterior, apresentando-se como “evidências no processo de reconstrução da cultura material do passado” (Burke)13, configuram-se como lugar manifesto de memória na sua função cognitiva, o conhecimento do passado, o que a aproxima também da ciência histórica.
_________
Notas:
1- KOSSOY, Borys. “Realidades e Ficções na Trama Fotográfica”. São Paulo. Ateliê Editorial. 4ª Edição. 2009, pp 8.
2- PARGA, Profº Drº Eduardo Lucas. Afirmativa proferida em avaliação do artigo “História e Fotografia: A memória visual das transformações das paisagens urbanas – Morro Dois Irmãos no Rio de Janeiro/RJ” de minha autoria, durante IV Seminário de História Social da Universidade Severino Sombra, Vassouras/RJ, em 6/10/2010.
3- BRESCIANI E NAXARA, Stella e Márcia. “Memória e (Res)sentimento: Indagações sobre uma questão sensível”. Editora Unicamp. SP. 2004. pp. 9/10.
4- GAGNEBIN, Jeanne Marie. “O início da História e as lágrimas de Tucídides”, in: Sete aulas sobre linguagem, memória e história. Imago Editora. RJ. 2005, pp 15.
5- “Heródoto de Halicarnasso foi um historiador grego, continuador de Hecateu de Mileto, nascido no século V a.C. (420 a.C. - 485 a.C.?). Heródoto de Halicarnasso foi o autor da história da invasão persa da Grécia nos princípios do século V a.C., conhecida simplesmente como As histórias de Heródoto. Esta obra foi reconhecida como uma nova forma de literatura pouco depois de ser publicada. Antes de Heródoto, tinham existido crônicas e épicos, e também estes haviam preservado o conhecimento do passado. Mas Heródoto foi o primeiro não só a gravar o passado mas também a considerá-lo um problema filosófico ou um projeto de pesquisa que podia revelar conhecimento do comportamento humano. A sua criação deu-lhe o título de "Pai da História" e a palavra que utilizou para o conseguir, história, que previamente tinha significado simplesmente "pesquisa", tomou a conotação atual de "história".”
6- Idem 8, pp 15.
7- “Mnemosine - A memória personificada, filha de Urano (o Céu) e de Gaia (a Terra), é uma das seis Titanides. Durante nove noites seguidas Zeus a possuiu na Pieria e dessa união nasceram as nove Musas. As nove filhas de Mnemosine (a Memória) e Zeus. Além de inspirar os poetas e os literatos em geral, os músicos e os dançarinos e mais tarde os astrônomos e os filósofos, elas também cantavam e dançavam nas festas dos Deuses olímpicos, conduzidas pelo próprio Apolo. Na época romana elas ganharam atribuições específicas: Calíope era a musa da poesia épica, Clio da História, Euterpe da música das flautas, Erato da poesia lírica, Terpsícore da dança, Melpomene da tragédia, Talia da comédia, Polímnia dos hinos sagrados e Urânia da astronomia.” KURY,  Mário da Gama. (1990). Dicionário de Mitologia Grega e Romana. Jorge Zahar Editor Ltda. Rio de Janeiro, RJ. pp. 405.
8- Idem 8, pp 15.
9- SEIXAS, Jacy Alves de. Citando Pierre Nora no seu trabalho Les lieux de memórie. “Percursos de Memórias em terras de História: Problemáticas atuais”, in “Memória e (Res)sentimento: Indagações sobre uma questão sensível”. Editora Unicamp. SP. 2004. pp. 37.
10- ALMEIDA, Milton José. Imagens e sons: a nova cultura oral. São Paulo: Cortez, 2001.
11- JOLY, Martine. Introdução à análise da Imagem. SP, ed. Papirus. 2009.
12- BARTHES, Roland. A Câmara Clara. RJ, ed. Nova Fronteira. 2008, pp 129.
13- BURKE, Peter. Testemunha Ocular: História e Imagem 2ª ed. S.P.: EDUSC. 2004, pp. 99.



Contribuição do leitor Profº André Luiz Reis Mattos, graduado em Administração pela UFRural/RJ e Licenciado em História pela UNIUBE/MG, Pós-Graduado em Docência do Ensino Superior pela FIJ/RJ e Mestrando em História Cultural pela USS, Vassouras/RJ. Fundador e Presidente entre 2008/2010 da Fundação Educacional de Três Rios/RJ e servidor do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro.
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Cícero Dias: um artista de alma infantil


Por Raquel Czarneski Borges.

“Cícero Dias nasceu no bar do Palace Hotel, na terça-feira de carnaval...” [1]

“Na zona da mata, o canavial novo
É um descanso verde que faz bem;
é uma suavidade poisar a vista na manteiga e no pêlo dos ratos.
No mais matinal perfume francês.
A gente domina uma dedicação apertando os dedos no barro mole. Ele escorre e foge.
E o corpo estremece que é um prazer.” [2]

Esta primeira frase, de Murilo Mendes, sintetiza bem o que parece ser a origem de Cícero Dias e sua pintura: uma grande festa. Suas formas, cores e traços são alegorias do Carnaval que se dava em sua alma, em seu coração. Cícero Dias dedicou sua vida inteira para a pintura. Brincou com as cores e formas. Dedicou sua vida inteira para expressar seus sonhos. Foi considerado louco, esquizofrênico, de “psiquê infantil”. Pois bem, pergunto-me hoje, que mal há nisso? Que mal há em acreditar nos sonhos e fazer de tudo para mantê-los vivos e torná-los realidade? Seus traços mudaram muito ao longo do tempo, assim como mudou sua vida. No início eram aquarelas, livres, soltas, de um menino que nasceu e cresceu em engenho. Depois, as Belas Artes, o ensino tradicional e sempre a tentativa da ousadia, da marca pessoal, das cores ou dos desenhos simples (ou complexos, tudo depende do observador). Também a arte figurativa. Foi chamado de “Chagall dos Trópicos”, celebrado pelos modernistas. Muda-se para Paris e vem a arte abstrata (seria um traidor da “pernambucanidade”?). Como achar agora neste Cícero cosmopolita, aquele Cícero que pintava canaviais e mulatas? Buscando sua inspiração no centro dos sonhos...

Eu vi o mundo, ele começava no Recife (fragmento).
Reprodução de http://revistapesquisa.fapesp.br/?art=3254
&bd=1&pg=1&lg=
Cícero Dias pintava de acordo com sua inspiração “infantil”. Seus críticos, para exaltá-lo ou para denegri-lo, designavam-no incompreensível, sonhador, ousado...um herege. Para os modernistas, vindos do impacto da semana de 22, a exposição do painel de Cícero “Eu vi o mundo, ele começava no Recife” representava transgressão demais. O painel gigante, de 15 metros, mostrava o que Cícero via em seu mundo de sonhos, qual a cidade do Recife que existia na sua memória e nos seus delírios de poeta das cores. O painel foi um escândalo para a época, mostrando um Recife quente, envolto em uma luz amarelada dos nordeste, com sua figuras dançantes, carros-de-boi, engenhos, casas-grandes e senzalas, prédios, plantas , bichos e gente, todos ordenados no espaço de forma a parecer que a tela era um grande tabuleiro, uma brincadeira, um sonho infantil. Se Recife possuía esse caráter lúdico e mágico para Cícero Dias, seria por que era daqui que todas as coisas do mundo se originavam?


A temática do sonho e do lúdico não aparecem, no entanto, apenas no famoso painel. Ela esta presente em quase todas as obras do pintor. Mesmo em sua fase abstrata, podemos perceber que ele brinca com as formas e cores. Sua arte transmite alegria de viver. O mundo é uma grande festa sonhada por Cícero. Em seu quadro “Bagunça”, de 1928, vemos novamente este pintor de alma alegre e desinibida. Figuras coloridas povoam a tela, brincam, se divertem em seus jogos, desfrutam o prazer do tempo, da liberdade. Para além de uma cidade, pequenina e esmagada no canto da tela, abre-se um universo de jogos e “trelas” próprio de pequenas comunidades, onde todos partilham os espaços públicos,onde os habitantes se conhecem. Meninos jogando bola, tocando música, mães passeando com suas filhas...é este o outro mundo que se descortina longe da cidade grande, talvez em algum bairro, na zona rural...em Pernambuco, no Rio de Janeiro. Este mundo representado por Cícero Dias nos parece um mundo aconchegante e íntimo, onde as atividades cotidianas desenvolvem-se voltadas para o prazer. A mulher nua que desce uma escada no canto esquerdo da tela nos confirma esta vocação para o deleite que a cena pintada dos demonstra. Além do colorido, a movimentação das figuras nos passa o ar de leveza de um grande divertimento, de uma bagunça de criança mesmo.

Bagunça, 1928.
Reprodução de http://vejabrasil.abril.com.br/galeria/rio-de-janeiro/
caminhos-arte-franca-brasil/index.php#img/CicDias.jpg

Segundo Gilberto Freyre, essa leveza das obras de Cícero Dias se dava justamente por suas origens, sua infância de menino de engenho. Segundo ele, “O menino de engenho era decerto criatura menos sacrificada à gravidade de trajo e vida que o nascido nas cidades”, nas suas trelas de menino, “(...) montava a cavalo, saía pelo mato com o moleque a pegar curiós (...). No tempo de cana madura chupava com delícia os roletes que lhe torneavam a faca os negros do engenho” . Nessa sua liberdade, Cícero, como menino de engenho que era, conhece o mundo, saboreia-o. Quando cresce, permanece com o gosto da cana nos lábios.

Cícero Dias gostava de se referir a um lugar no centro do ser, que conservava uma pré-história da arte...uma matriz criativa acessível a todos, onde estavam guardadas todas as imagens oníricas, todos os delírios humanos. Segundo Philippe Dagen, um “(...) viveiro oculto de mitos, obsessões, fantasmas e visões” . Parece que Cícero tinha trânsito livre neste viveiro dos sonhos e tinha em sua tarefa de pintor, o modo de expressar, de dar vida a todas as figuras que habitavam não só sua imaginação, mas que povoavam e povoam as profundezas das almas de todos os seres humanos que não querem deixar de sonhar.

Cícero Dias no Marco Zero do Recife.
http://veja.abril.com.br/050203/datas.html
Cícero Dias morreu pintando...e sonhando. Menino de engenho nascido em Escada, Pernambuco, morre aos 95 anos em Paris. Seu corpo está enterrado lá, no famoso cemitério de Montparnasse. Mas seus delírios de poeta e pintor continuam a existir no canto infantil de nossas almas. Seus sonhos permanecem vivos e o Marco Zero do Recife continua lhe prestando homenagens a cada amanhecer.









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Notas:
1 - MENDES, Murilo. Nascimento de Cícero Dias. In: FILHO, Waldir Simões de Assis. Cícero Dias, oito décadas de pintura. Simões de Assis Galeria de Arte: Curitiba, 2006.p. 68
2 - ANDRADE, Mário de. Poemas da Negra – a Cícero Dias. In: FILHO, Waldir Simões de Assis. Cícero Dias, oito décadas de pintura. Simões de Assis Galeria de Arte: Curitiba, 2006. P. 76


Contribuição da leitora Raquel Czarneski Borges, graduada em História pela Universidade Federal do Rio Grande – FURG - RS. Enveredou-se pela graduação a estudar Arte, História e hibridismo cultural. Hoje é uma gaúcha vivendo o mundo lindo de Olinda e Recife, a alegria e as incongruências de uma tal de “pernambucanidade”. É mestranda em História na UFPE na linha de Cultura e Memória do Norte e Nordeste do Brasil. Uma “desmemoriada” das coisas do Norte, mas que carrega em si muitos afetos do Sul. Pesquisa um artista chamado Cícero Dias, e suas representações da cidade do Recife nas décadas de 20 e 30. Atua também no grupo P.I.A. (Pesquisas e Interações Artísticas), atualmente em parceria com o MAMAM (Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães) pesquisando a obra do artista recifense Daniel Santiago.
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Inquietante igualdade: processos de manutenção social


por Lucas Piter Alves Costa.

Graffiti de Banksi.
No percurso de minha vida acadêmica, tive a oportunidade conhecer distintos segmentos sociais, ou melhor, pude presenciar e participar de diversos grupos, com suas margens de manobra comportamentais mais ou menos elaboradas, rígidas ou determinadas. Em outras palavras, quero dizer que qualquer que seja o motivo que leve algumas pessoas a se reunirem (no caso, levando-se em conta meu percurso acadêmico), seja por uma apresentação de seminário, por uma causa estudantil, por questões de moradia (como nos alojamentos ou repúblicas), será possível notar que algumas normas de comportamento serão minimamente instituídas, mesmo que inconscientemente.

O espaço dessas relações sociais é um lugar de troca e construção de valores. Mais do que um espaço de identificação com o outro, é, antes de tudo, um espaço de diferenciação. As relações humanas estão sempre se tangenciando pela alteridade, elas serão sempre assimétricas em algum ponto, podendo chegar mesmo à hierarquização como meio civilizatório. Isso pode ser muito bem notado no meio acadêmico se levarmos em consideração que constituímos um nicho social que valoriza muito a titulação, até mesmo entre os graduandos. Quem vai negar que a notória (e às vezes abusiva) oposição entre veterano e calouro é uma prática de valorização assimétrica dos sujeitos sociais?

Michel Foucault,
autor de A Ordem do Discurso.
Portanto, estamos sempre criando a alteridade através de nossas práticas sócio-discursivas. Posso causar polêmica com o que vou dizer, mas acredito que a igualdade seja apenas uma utopia. E ainda, seria ingenuidade acreditar que o discurso da igualdade em um mundo essencialmente competitivo não seria uma tentativa de dominação, de instituição de uma nova ordem que possibilite dar ao lado fraco da alteridade uma chance de poder. Não precisamos exemplificar com revoluções operárias, estudantis ou marchas sexistas, basta buscarmos na memória uma simples DR (Discussão de Relação) ou uma atividade de lazer baseada na competição. A todo momento estamos tentando legitimar nossa posição em diferentes nichos sociais de nosso interesse. Minha tentativa de expressar essa opinião é prova dessa intencionalidade.

Então, se a igualdade é uma utopia, significa que ela não exerce a sua função? Não é bem assim. Acredito que, como no caso de toda utopia, a igualdade se preza a ser buscada, não atingida. É no processo de busca que ocorre os aperfeiçoamentos sociais, não na estabilização. A mera menção de uma dada igualdade suscita entre os segmentos que a compõem uma nova tática de manobra dentro do quadro social em questão, seja de manutenção dessa suposta igualdade, seja de superação de algum outro estado de alteridade. É impossível atingir um estado de igualdade que seja perene, se estamos falando de relacionamentos humanos.

Diferenças?Igualdade?

Por fim, ouso dizer que não acredito em relações humanas que não se pautem por alguma hierarquização – a simples diferença de idade pode ser fator balizador de comportamento entre duas pessoas, o que diremos então sobre o reconhecimento intelectual ou outros pontos mais polêmicos. Acredito na necessidade das diferenças para o dinamismo e aperfeiçoamento humanos. É no reconhecimento das diferenças que construímos o respeito, tão mais alcançável que a igualdade.


Fonte das ilustrações:
Ilustração 1: http://1.bp.blogspot.com/17banksyES_468x606.jpg
Ilustração 2: https://www.msu.edu/~duffkerr/HistoryOfSex/foucault2.jpg
Ilustração 3: http://blogdorabay.files.wordpress.com/2009/06/kaiser-16-06-2009-12451581931.jpg
Ilustração 4: http://www.video-divertido.com/data/media/19/Diferenca_entre_homens_e_mulheres_4.jpg



Contribuição do leitor Lucas Piter Alves Costa, estudante de Letras na Universidade Federal de Viçosa. Foi membro do Centro Acadêmico de Letras Ipsis Litteris e da Comissão Organizadora do XII EMEL. Foi representante discente da Coordenação do Curso de Letras da UFV (2009). Áreas de interesse: Literaturas de Língua Portuguesa; Literatura Comparada; Cinema; HQs; Artes Plásticas, Estudos de Tradução Intersemiótica, Narratologia, AD Semiolinguística. Tem experiência como professor de desenho artístico. Atualmente desenvolve a pesquisa "Encontro de Gerações: O Tempo Narrativo n'O Alienista", sob o viés da Análise do Discurso Semiolinguística.
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A REVISTA PLAYBOY E O UNIVERSAL MASCULINO



Quando Judith Butler utiliza-se da frase atribuída a Simone de Beauvoir, “A gente não nasce mulher, torna-se mulher” (2008:17) certamente quer nos dizer que o gênero, diferentemente do sexo – que está localizado no plano natural e biológico – está circunscrito ao social e cultural. O gênero, então, é visto como o discurso da diferença sexual e mantém o sexo como referência explicativa. E como discurso faz-se referências não apenas às idéias, mas também às instituições, às estruturas, às práticas quotidianas, como também aos rituais e a tudo que constitui as relações sociais. O discurso é um instrumento de ordenação do mundo, e mesmo não sendo anterior à organização social, ele é inseparável desta. Portanto, o gênero é a organização social da diferença sexual.

O universal masculino (homem branco, heterossexual, ocidental, classe média) passou por uma grande revisão nos últimos anos. Os estudos sobre a construção da masculinidade na contemporaneidade já desestabilizaram as certezas dos estudiosos e ampliaram as possibilidades de críticas sobre a noção de natureza humana, ou seja, universal masculino deixou de ser generalizável e identificável como natural, possibilitando o questionamento de clivagens e permitindo a descoberta de outras subjetividades, até então, pouco visíveis e insondadas.

Aqui, nesse pequeno artigo, nosso objetivo não é comentar as polêmicas das novas sexualidades ou das possíveis sexualidades que envolvem esse campo de estudo, mas, sim, mostrar como o discurso do universal masculino ainda tem se mantido resistente como base nos valores falocêntricos.

Nossos esforços se concentrarão na análise de alguns aspectos da Revista Playboy, sobretudo os aspectos textuais, a linguagem corrente, os anúncios publicitários, as piadas, as charges, as sessões Playboy Responde, as entrevistas e as piadas que, ao apresentar as relações sociais entre os sexos de forma estereotipada, refletem e reforçam as supremacia e autoridade masculinas e a latente desigualdade de gênero, vista como relações de poder que, na sociedade androcêntrica, é representada pelo falo. Para as mulheres, segundo Butler, “ser o Falo significa refletir o poder do Falo, significar esse poder, incorporar o Falo, prover o lugar em que ele penetra, e significar o Falo mediante a condição de ser o seu Outro, sua ausência, sua falta, a conformação dialética de sua identidade” (2008:74).

Na edição de novembro de 2009, que traz a apresentadora e escritora Fernanda Young como estrela de capa, o diretor de redação, Edson Aran, ao justificar sua opção pela autora de Os Normais afirma que foi seu livro O Pau ( Rocco, 2009) que despertou sua atenção. Diz ele: ‘O novo romance de Fernanda Young começa assim: “Estrias. Estrias esponjosas. Chamadas de cavernosas. Que incham de sangue. Isso perfaz um pau duro, maior orgulho e glória de um homem”’, para no final concluir: “Sim, o pênis é ‘o maior orgulho e glória de um homem’, como escreveu Fernanda, mas para que serve ele (o pau) sem uma mulher?”.

Se entendermos que o discurso é um instrumento de ordenação do mundo, de acordo com Gallop, ter um falo significa estar no centro do discurso. Por isso, a análise da linguagem e das representações de gênero extraídas da Revista Playboy apresentadas a seguir, consideram que o falo funciona como um significante em relação ao pênis. O falo significa vida, atividade e potência heteronormativa, estando em constante referência ao corpo dos homens e às representações da masculinidade hegemônica, desconsiderando todas as infinitas possibilidades que o corpo pode assumir na contemporaneidade, o devir-corpo.

Outro exemplo extraído da mesma edição. A Coluna Happy Hour apresenta o perfil de Dita Von Teese, uma dançarina de striptease, sucesso nos EUA, mulher rica, mas modesta, pois “apesar de ter um Chrysler New Yorker 1939, um jaguar X-Type 1965 e uma BMW Z4 na garagem, revelou que aceita sair num carro popular se achar que o pretendente tem chances. Bem Dita seja Heather (Heather Renée Sweet é seu nome original) entre as mulheres” (p.26).

Assim, sem querer concluir, mas levantando algumas considerações, queremos dizer que a masculinidade hegemônica é sustentada pela Revista e mantida por grande parte do vasto segmento des leitores que se sentem gratificados, usufruem seus benefícios, mas é também mantida por boa parte das mulheres que concedem a tal hegemonia. Isso porque a masculinidade hegemônica pressupõe a predominância de uma certa configuração estereotipada de feminilidade, que estabelece uma bipolaridade linear e gera um diálogo difícil e tenso entre a complexidade polimorfa das experiências femininas e o simplismo autoritário dos padrões orientadores, construindo ou permitindo a continuidade e a legitimação das idéias predominantes na Revista.

BIBLIOGRAFIA
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Trad. de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
CHARTIER, Roger. A história cultural entre práticas e representações. Lisboa: Difel, 1998.
COSTA, Jurandir Freire. A inocência e o vício – estudos sobre o homoerotismo. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1992.
__________________. Sem fraude nem favor - estudos sobre o amor romântico. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
FOUCAULT M. Microfísica do poder. Tradução R. Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
GALLOP, Jane. Além do falo. Campinas, Cadernos Pagu, (16) 2001, p. 280-281.
LOPES, Denilson. O Homem que Amava Rapazes - e outros ensaios. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2002.
LOURO, Guacira Lopes. Um corpo estranho. Ensaios sobre sexualidade e teoria queer. Belo Horizonte, Autêntica, 2004.
OLIVEIRA, Pedro Paulo de. A construção social da masculinidade. Belo Horizonte: Editora UFMG; Rio de Janeiro: IUPERJ, 2004.
Playboy – a revista do homem. Novembro de 2009.
TREVISAN, João Silvério. Seis balas num buraco só: a crise do masculino. Rio de Janeiro:Record, 1998.


Djalma Thürler é Cientista da Arte (UFF-2000), Professor do Programa de Pós-Graduação Multidisciplinar em Cultura e Sociedade e Professor Adjunto do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da UFBA. Carioca, ator, Bacharel em Direção Teatral e Pesquisador Pleno do CULT (Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura). Atualmente desenvolve estágio de Pós-Doutorado intitulado “Cartografias do desejo e novas sexualidades: a dramaturgia brasileira contemporânea dos anos 90 e depois”.
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Chamada de artigos edição número 7 - Contemporâneos - Revista de Artes e Humanidades




A Contemporâneos - Revista de Artes e Humanidades (ISSN 1982-3231), qualificada pela CAPES e indexada pela Sumarios.org, comunica que está aberta a chamada de artigos para a sétima edição cujo dossiê tem como tema DILEMAS DA CONTEMPORANEIDADE - RISCOS E PERIGOS DA VIDA CONTEMPORÂNEA. Estaremos recebendo artigos, ensaios, entrevistas e resenhas até o dia 15.8.2010 pelo email revistacontemporaneos@gmail.com. Vejam abaixo as normas editoriais.

Informamos ainda que será lançada às 19h no próximo dia 27 a edição nr. 6 da Contemporâneos cuja temática é DIÁLOGOS ENTRE HISTÓRIA E LITERATURA. O lançamento vai ocorrer na Universidade Católica de Salvador e está  inserido nas atividades do Simpósio Estadual da Associação Nacional de História -BA. Nesse mesmo dia e local será lançada a 15a. edição da Contemporartes - Revista de Difusão Cultural (ISSN 2107-4404). Essa revista, feita pelo mesmo grupo, também aceita colaborações de opiniões e crônicas nas seguintes áreas: Literatura, Fotografia, Cinema, Artes Cênicas, Artes Plásticas, Música e Humanidades.



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Ex.: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Sanzio_01.jpg.

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5. Também são publicadas resenhas em português e espanhol. Poderão ser resenhados livros ou obras cinematográficas lançados no Brasil nos dois anos anteriores (contados a partir da apresentação da resenha), e no exterior nos quatro anos anteriores (contados da mesma forma). As resenhas terão a extensão entre 5 e 7 páginas. Para resenhas não são necessários resumo, palavras-chave nem bibliografia. O título deve ser apresentado em inglês e em português.

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Em tempo:

SEMINÁRIO VOZES DA GLOBALIZAÇÃO
MÓDULO II  - Identidades e Gênero
Palestra do próximo sábado, dia 24, às 10h30 às 12h30.

Gênero, música eletrônica/eletroacústica e ciberpoética.
Com Profa. Dra. Andrea Paula dos Santos (UFABC)

Local: Casa da Palavra - Praça do Carmo, 171, Santo André - SP.

Ana Maria Dietrich, historiadora e docente da UFABC, é editora-chefe da Contemporâneos - Revista de Artes e Humanidades e coordenadora da Contemporartes - revista de difusão cultural junto a Vinicius Rennó. revistacontemporaneos@gmail.com



Realização: Casa da Palavra - Escola Livre de Literatura


Prefeitura Municipal de Santo André

Apoio: Associação Cultural Morro do Querosene

Ana Maria Dietrich é professora adjunta da UFABC e coordenadora da Contemporartes.
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UM MITO FEMININO DO PARANÁ: DIDI CAILLET

     

Em março de 1929, despontou uma superstar em Curitiba, com a eleição de Didi Caillet como a primeira Miss Paraná. Inteligente, articulada, e reconhecidamente bela, Didi brilhou intensamente na etapa nacional do concurso, realizada no Rio de Janeiro. A Capital Federal, que vivia os últimos tempos do governo Washington Luís, tomou-se de amores pelas beldades reunidas neste primeiro concurso, que entrou para a pauta de jornais, rádios e da intensa vida social carioca.


                                                                Retrato de Didi Caillet

Enquanto a maioria das meninas da cidade sonhava em conseguir um bom marido e lindos filhos, na Curitiba de 80 anos atrás, uma jovem de 19 anos largou o noivo e foi para o Rio de Janeiro, como a primeira paranaense a disputar o concurso de Miss Brasil. Voltou solteira, mas foi recepcionada na estação ferroviária com festa, banda e mais de 30 mil pessoas. Em uma movimentação que acabou virando um filme.

Quando se pergunta o que ela tinha de tão especial, as respostas de quem a conheceu parecem não ter fim. Ela era bonita, culta e ainda dava palpites na política. Filha de uma italiana com um francês, era a mais bonita entre as três irmãs, falava vários idiomas e tinha um carisma incomum. Foi a primeira mulher a gravar um disco de poesia no Brasil e não se tem registro de quantas músicas e poemas foram compostos em sua homenagem. Seu nome, Marie Delfine Caillet, mais conhecida como Didi Caillet.

Dona de personalidade cativante, Didi logo se tornaria uma preferida do grande público, arrastando multidões por onde passava. A etapa final, realizada no campo do Fluminense, em abril daquele ano, lotou o estádio e exigiu presença policial para conter os ânimos da massa. Classificada em segundo lugar pelo júri, em decisão contestada, a linda Didi tomou a faixa nas mãos e num gesto considerado de extrema fidalguia colocou-a na escolhida, a carioca Olga Bergamini.

                                                        Jornal Progresso de São Paulo- 1928

Didi virou mito e acontecimento cívico no Paraná. O psicanalista e pesquisador Paulo Koehler também se encantou com a personalidade desta mulher e juntamente com o compositor e publicitário Paulo Vítola há anos vem preparando materiais para um livro e um DVD, projeto aprovado pela Lei de Incentivo à Cultura de Curitiba. Paulo Koehler resume a saga de Didi sob o prisma de suas relações com o mundo do cinema de então. “Os cine-teatros centralizavam as atividades sociais da época”. A história de Didi se passa em boa parte nas salas do cinema mudo, às vésperas da introdução dos filmes falados”.

Nas entrelinhas da pesquisa, um dos achados mais surpreendentes pode alterar a história do cinema no Brasil. Contrariando toda a historiografia cinematográfica, que sempre localizou no Rio de Janeiro a primeira exibição de um filme sonoro, os dados levantados para a história de Didi Caillet atestam que esse acontecimento teve lugar em São Paulo.

O trabalho de Koehler e Vítola se vale de inúmeros registros de imprensa, como os desenhos de grandes chargistas nacionais, a exemplo de Alvarus, Nássara e J. Carlos, filmes, partituras, esculturas, além de fontes primárias que incluem documentos pessoais, colocados à disposição dos pesquisadores por Luis Gil de Leão Filho, filho de Didi Caillet. O lançamento do livro e DVD não tem data para o lançamento, mas os autores pretendem lançar ainda em 2010, quando se completa o centenário de nascimento da musa.

Quando o Rio de Janeiro ainda era a capital do país, ela ajudou o Paraná a ser reconhecido como um estado emergente, segundo Koehler, pesquisador da história da Miss Paraná. “Ela promoveu a imagem do estado, que era considerado um sítio, uma extensão de São Paulo”, diz. Didi era a preferida para o título de Miss Brasil e, quando anunciaram a filha do dono do jornal patrocinador do evento como vencedora, um dia depois do previsto, houve tumulto e confusão. “O público não se conformou. Houve um momento em que todos ficaram pasmos e sem reação, e a Didi é quem teve a iniciativa de pegar a faixa e coroar a primeira colocada. Isso foi mais uma prova de sua nobreza”, afirma o pesquisador.
Em Curitiba, Didi era a personalidade ideal para promover artigos de luxo – fossem carros, perfumes ou tecidos finos – e sabia alimentar sua imagem na mídia, participando de eventos da alta-sociedade ou lançando argumentos sobre assuntos polêmicos, como o voto feminino. Na moda, também teve papel significativo. Até então, ou se usava cabelo longo, ou curtinho. O cabelo dela era de cumprimento médio e serviu de modelo para muitas jovens.

Além de frequentar as conversas masculinas sobre política e economia, Didi também se destacava por desfilar pelas ruas em sua “baratinha”, um carro importado da Nash que havia ganhado do pai, numa época em que era incomum as mulheres dirigirem.

Nas homenagens da época, um registro gaiato, porque os automóveis adotaram uma buzina que em acordes e notas “dizia”: “Di-di- Cai-llet”, ao que a rapaziada de então emendava “levanta a saia que eu quero ver”...

                                                    "Baratinha" da Nash que ela dirigia pela cidade

Em 1933 ela casou-se com Luís Ermelino de Leão e teve filhos, passando a se dedicar à família. O passado glamuroso, estampado em três grandes livros com recortes de jornal, ficou de lado. Viúva de Luís, casou-se com o banqueiro e empresário José Gonçalves de Sá, em 1953. Ela e os filhos foram morar no Rio de Janeiro e por lá ficaram durante 22 anos. Quando o segundo marido faleceu, Didi retornou a Curitiba, onde passou seus últimos oito anos e escreveu três livros.

Na cidade, a praça que leva o seu nome e onde foi eternizada com a escultura “Vênus Paranaense”, continua sob a sombra de uma imponente e centenária nogueira, uma das árvores protegidas de corte de Curitiba. Ela não ganhou o concurso Miss Brasil, mas sua “belleza paranaisíaca” conquistou o coração nacional.
                                                     Praça Didi Caillet no Centro Cívico em Curitiba



Fonte:
Paulo Soares Koehler
Jornal Gazeta do Povo

Izabel Liviski, é professora e fotógrafa, doutora em Sociologia pela UFPR, escreve desde 2009 a Coluna INcontros, e é co-editora da Revista ContemporArtes.
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