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Em HQs, linhas revelam mais que corpos esculturais




 Eu comecei a ler livros de HQ recentemente, inclusive compartilhei um pouco dessas minhas leituras nesse post aqui. Porém, não tenho muito contato com quadrinhos do gênero de super heróis ou mesmo heroínas. Confesso que isso mudou e passei a ter muita curiosidade nesse tipo de publicação depois que eu tive acesso a esse tumblr.

Na penúltima postagem da Drops Cultural, o jornalista Felipe Menicucci, apresentou um pouco sobre o universo dos tumblrs, o que eram e até algumas dicas bastante interessantes e divertidas de alguns endereços para se acessar sempre.

Bom, para provar que tumblr também pode falar sobre coisa séria, e muito séria, vou contar um pouco sobre o Escher Girls. A proposta do tumblr é  mostrar imagens de personagens femininas em poses impossíveis ou ridículas ou com algum distúrbio anatômico criado para se obter um maior apelo sexual.



Ou seja, o EscherGirls mostra desenhos de personagens femininas de quadrinhosque além de usar uniformes/ roupas justas e curtas ainda estão em posições que realçam ainda mais o corpo. O mais interessante (ou absurdo) é que muitas vezes as poses para mostrar os seios ou a bunda, às vezes tentam mostrar os seios e bunda ao mesmo tempo, são tão absurdas e impossíveis, que acaba acontecendo o que eles mesmos denominamcomo distúrbio anatômico. Algo muito legal no tumblr é que em algumas postagens há a contribuição de desenhistas mostrando como seria aquela cena sem a posição absurda, isto é, como seria a posição real daquela personagem. 




Pode ter pessoas que falem agora, “mas, quadrinhos é ficção, pode tudo”. Será que é só ficção mesmo?
Será que não é mais uma forma de reforçar um padrão de beleza? Não será mais uma forma de afirmar a posição da mulher objeto?Acho que vale a pena refletir.

Ana Paula Nunes é jornalista, Especialista em Mídia, Informação e Cultura pela Universidade de São Paulo. Coordena a Comunicação da Revista ContemporARTES.
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VALENTINA, A FOTÓGRAFA.




Valentina, é um dos personagens femininos mais famosos   da história em quadrinhos, mas poucos se lembram de sua profissão: Valentina Rosselli é fotógrafa e tem seu estúdio em Milão. Sua profissão  não é tratada superficialmente nos desenhos, ao invés disso, Guido Crepax (1933 - 2003), seu autor, tem um design cuidadoso com os equipamentos de estúdio e câmeras.
Embora ela goste de renomear os equipamentos com nomes de fantasia, como não  reconhecer a Rollei TLR, a Kodak e Nikon nos desenhos?  Valentina não descuida da forma como empunha e mantém sua câmera, como muitas vezes é esquecido nos detalhes de um filme, onde é fácil ver que o ator nunca tinha visto uma câmera em sua vida.


Valentina é retratada em sua cidade natal de Milão, que percorre através do metrô, de carro ou bicicleta. Crepax retrata a cidade visualmente, incluindo os sons e ruídos. Ela também testemunhou três décadas de mudanças e transformações na formas de se vestir que refletem os modelos das revistas Elle e Vogue.



Valentina nasceu em 1965, um equilíbrio perfeito entre uma mulher real e um símbolo da transgressão: o rosto famoso com os traços de sua personalidade são inspirados na atriz Louise Brooks, estrela do cinema mudo e personagem principal de "Lulu" de Georg Wilhelm Pabst (1928).





Além da cultura - política, ideológica e estética do seu autor - Valentina encarna uma espécie de "zeitgeist", o espírito da época da sociedade italiana através das grandes mudanças ocorridas entre os anos sessenta e oitenta. Suas tiras continham uma forte dose de erotismo, e um filme chamado "Baba Yaga" foi feito em 1973, baseado em sua obra.




  Louise Brooks, atriz do cinema mudo que inspirou a personagem Valentina.





           Izabel Liviski é Fotógrafa e Mestre em Sociologia pela UFPR. Pesquisadora de História da Arte, Sociologia da Imagem e Antropologia Visual. Escreve quinzenalmente às 5as feiras na Revista ContemporArtes.











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Coluna Ana Maria Dietrich


Hoje apresento, Adilson Thieghi, jornalista, crítico de cinema e HQ, contista e muito bem-humorado. Ele nos apresenta  crítica ao recém lançado HQ, com  roteiro adaptado muito fiel ao original, Frankestein. Confira!
Ana Maria Dietrich; editora-chefe da Revista de Artes e Humanidades Contemporâneos, escreve às quartas-feiras quinzenalmente no ContemporArtes.
                                         





FRANKENSTEIN

A capa é um assombro: o jovem cientista Victor Frankenstein, mão na cabeça, escorado por sobre uma lápide;atrás dele, uma árvore enorme, sem folhas e assombrosamente retorcida. Nesta única imagem está resumida a essência do romance imortal de Mary Shelley, de uma forma que nos remete ao maior clássico do cinema expressionista, “O Gabinete do Dr Caligari”,(1919) de Robert Wiene. Lá há uma cena em que o jovem Cesare, o sonâmbulo hipnotizado por Caligari, está também diante de uma árvore morta; os galhos secos emolduram sua cabeça, tornando visual a agonia interna do jovem. Nesta capa, mergulhamos de cabeça nas entranhas da obra e sentimos todo o arrependimento e a impotência do cientista frente às muitas mortes desencadeadas a partir do momento em que ele decide criar um ser humano a partir vários cadáveres. Vida e morte em conflito, com vitória da última, golpeando violentamente a arrogância da ciência oitocentista e escancarando os horrores da sociedade burguesa industrializada.

Nesta adaptação para os quadrinhos (que aqui sai pela coleção Ex-Libris da editora Salamandra) Marion Mousse optou por fazer uma versão quase completa e bastante fiel ao romance(que é de 1818) ,o que não é exatamente uma novidade, afinal o filme “Frankenstein de Mary Shelley”(1994), de Kenneth Branagh(e com Robert DeNiro no papel do monstro) também pretendia “corrigir”as versões cinematográficas anteriores. O cinema, aliás, foi o responsável por fazer com que o nome do criador passasse para a criatura. A primeira e mais famosa versão,dirigida por James Whale em 1931 e estrelada por Boris Karloff criou uma imagem tão poderosa para o mostro que o público associou para sempre o nome do filme (Frankenstein) a ele. Isso, aliás era favorecido pelo fato da narração acompanhar não as desventuras do cientista a partir do momento que ele começa a narrar sua tragédia pessoal, mas sim a trilha do mostro, perseguido por causa de sua aparência dando destaque a um subtexto sutil da obra original.

Aqui há uma ou outra alteração nas ordens dos fatos (as vezes para bem, as vezes para o mal), mas no geral o foco é o mesmo do livro e começa com a carta de Robert Walton, matemático a bordo de um navio que ruma para o Pólo Norte, a sua irmã Margareth, que está na Inglaterra. É para ela que ele transcreverá a bizarra história contada pelo suíço Victor Frankenstein, que ele encontra ã beira da morte, andando pelas geleiras.

No entanto seu mérito vai além da fidelidade, é criar uma fábula cruel (e seu desenho meio infantil está a serviço desta opção) muito bem narrada. As cores são frias, o que dá um ar lúgubre à história, ressaltado pelas sombras e só quebrado pela cena mais assustadora da HQ, a que mostra Victor Frankenstein violando túmulos e retalhando cadáveres para escolher os membros com que construirá sua criatura. Sequência brilhante, inicia com uma vista geral do cemitério e termina com um close no rosto de uma estátua de uma mulher triste segurando seu filho(provavelmente uma pietá).

Outra exceção fica por conta do visual das cenas da infância do cientista, solares e que por contraste reforçam a melancolia predominante.

Não é perfeito, há alguns trechos confusos (em parte culpa do estilo de desenho que não permite detalhamento, em parte do roteiro mesmo) e alguns momentos que perdem feio em impacto para o livro, como quando Victor destrói o corpo da mulher que estava construindo para ser a companheira de sua criatura (por exigência desta, que não suportava a rejeição dos homens): “E pensar que eu estava em vias de criar um ser semelhante ! Tomado de fúria, num acesso bem próximo da loucura, apanhei o que me estava à mão para usar como arma destruidora e fiz em pedaços a estrutura que começava a tomar forma definitiva(...)Arremeti contra aqueles despojos, batendo-lhes a esmo, esfacelando, rugindo de fúria, e só parei quando o total esgotamento me impediu de continuar a esbordoar o que não mais havia por ser destruído”(tradução de Everton Ralph). Na HQ vemos apenas uma fogueira e o choro do mostro.Este, apenas um grandalhão verde, também não impressiona e passa longe da descrição do livro que dá conta de uma criatura “de estatura gigantesca, mas rudimentar e disforme nas proporções”, que tinha esta aparência justamente por ser constituída de partes de diferentes cadáveres. Ok, mas com tantos acertos esses são deslizes perfeitamente perdoáveis e não tiram o brilho desta grande obra dos quadrinhos.

A editora, que já publicou Robinson Crusoé pela mesma coleção, promete para este ano adaptações de “As Aventuras de Tom Sawyer”, de Mark Twian, “Os Três Mosqueteiros”, de Alexandre Dumas e “A Ilha do Tesouro”, de Robert Louis Stevenson.


SERVIÇO
Título: FRANKENSTEIN (Salamandra) - Edição especial
Autor: Marion Mousse (roteiro e arte), adaptando o livro de Mary Shelley. Publicado originalmente em Frankenstein.
Preço: R$ 39,90
Número de páginas: 144
Adilson Thieghi (a.thieghi@yahoo.com.br)

http://bar1211.blogspot.com/
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