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EITA: O Nascimento de um Sarau de Poesia em SP


A PARIÇÃO DO "EITA" EM SÃO PAULO!
por Altair de Oliveira.


Tivemos a satisfação de poder participar de um belíssimo sarau de poesia denominado EITA na noite deste último 17 de setembro na cidade de São Paulo e, para nossa surpresa, fomos informado de que aquela era apenas a segunda apresentação do evento que, comandado por 5 belas garotas, surgia com força para, mensalmente, ajudar ainda mais alegrar com poesia as noites paulistanas.

São Paulo é tida por muitos como a capital cultural da América Latina, e esteve sempre envolvida com as vanguardas culturais e com os movimentos literários de nosso país. Atuaualmente a cidade está povoada por vários saraus culturais ou lítero-musicais, onde a poesia é o carro chefe de várias manifestções artísticas que podem se tornar acessível aos frequentadores de bares, cafés, escolas e etc. Segundo um mapeamento feito pelo estado de São Paulo, existe hoje mais de 60 saraus deste tipo em atividade em "Sampa", onde, como dizia Cetano, a poesia parece surgir concretamente de cada esquina.

Este fenômeno da volta dos saraus em nossas vidas não parece ser uma característica específica da capital paulista pois, por experiência própria, sabemos que eles estão acontecendo em vários cidades de vários estados brasileiros e, para o bem da poesia, esta tendência pode aumentar. Só que, diferentemente dos saraus que aconteciam no final do século XIX e início do século XX, os saraus atuais, menos burgueses, tendem popularizar a poesia. Se isto vai aumentar ou não a pequena quantidade de leitores de poesia no Brasil só o tempo dirá. Mas é fato que a poesia falada é uma grande arma para aliciar novos apreciadores da arte da palavra, além disso, ela é um bom termômetro para que os autores possam testar se a poesia que escrevem tem realmente um eco com o público.

Reunindo poesia, música, teatro, dança em um bar ou café, os saraus lítero-musicais se apresentam como um programa cultural barato e de grande entretenimento onde várias tribos podem compartilhar de uma verdadeira confraternização pelas artes. No caso do EITA sarau, estas características já nasceram fortes, devido ao ótimo nível dos artistas participantes e ao carisma das organizadoras. Para quem gosta principalmente de poesia e de música, este tipo de evento é "o cara!", não percam então uma oportunidade de participar de um sarau! Eita, loga vida para vocês!

Aproveitamos então esta oportunidade para entrevistar este quinteto de moças, criadoras e promotoras do jovem e promissor "EITA sarau!" e, desta forma, aprender um pouco mais sobre a abertura e funcionamento desta magnífica reinvenção cultural de nosso dias, o Sarau de Poesia.


Eita! Quem são as moças do sarau!?

Paula Martins: bailarina, educadora, poeta, etc
AnaCris: socióloga, pesquisadora, poeta (e enxirida)
Solange: atriz, fotógrafa, poeta (e brincalhona...rs)
Maria do Carmo: terapeuta da medicina chinesa, poeta e contista.
Marise: consultora, amante das artes, da poesia e das relações humanas.



A ENTREVISTA:


PC1- "Eita" é uma interjeição de espanto, quase sempre de espanto gostoso, o que tem tudo a ver com a poesia. Mas como surgiu este interessante nome EITA para vocês nominarem o sarau?
EITA1 - Nos reunimos para escolher o nome e desenhar o formato do sarau, que objetivos queríamos para ele, etc. Fizemos várias sugestões, mas nada agradava à todas. A Ana Cris cismou que tinha de ser uma sigla (tentamos criar algo com TPM, inclusive! Rs). Até que, pensando no fato de termos definido que o sarau buscaria integrar todas as artes, ela veio com EITA – Encontro Integrado de Todas as Artes. Bingo! O grupo fechou na hora.

PC2- Vocês já tinham experiência com saraus de poesia: organizando, participando, e etc. O que as motivou a montarem o seu próprio sarau?
EITA2- Bem, tudo começou com um convite do Julinho Camargo, dono do espaço onde o EITA é realizado, o Julinho Clube, num bate papo com a Ana Cris.
Ana Cris: eu enrolei o Julinho um bom tempo! Rs. Eu nem declamava ainda! Só freqüentava os saraus e adorava! Mas como eu ia apresentar um sarau se nem subia num palco? Aí, veio a idéia de convidar as meninas, companheiras de saraus, chás e cafezinhos, amantes das artes e da poesia e, cada vez mais, amigas. A Solange Mazzeto (poeta e atriz) já tinha experiência de quase 4 anos com o Sarau Sopa de Letrinhas, na produção e como ajudante de palco. Maria do Carmo Antunes (poeta e contista), Paulinha Martins (também poeta dançarina) e Marise Lopes (que usa a poesia no seu trabalho) também já conheciam bem alguns saraus da cidade. Por fim, eu perdi o medo do palco e entre começar a declamar e apresentar o EITA foram alguns meses.
Mas todas concordam que o desejo de fazer um sarau diferente, voltado para as artes em geral – ainda que a poesia prevaleça, até porque ela está presente em todas as artes – foi o grande motivador.

PC3- Percebi que vocês fazem um sarau temático, onde os poemas e as apresentações devem estar voltados a determinado tema, previamente definido. Isto não limita o interesse dos participantes num evento como este?
EITA3- A idéia de um sarau temático veio por 2 razões: ser diferente - porque não havia nenhum sarau assim em São Paulo (apenas o Sarau do Povo, em Diadema que já nem existe mais) e porque consideramos que seria uma boa maneira de ‘integrar as artes e os artistas’, um dos objetivos que traçamos para o sarau.
Até tivemos esse receio e houve quem dissesse (que o tema limitaria). Por isso, procuramso escolher temas bastante amplos, mas acima de tudo, o tema não é fechado! Deixamos livre para quem não quiser usá-lo ou não tiver nada à respeito ou mesmo preferir fazer outra coisa. Não é e nem queremos que seja uma obrigação! É um divertimento. Por fim, o que temos percebido é que, para muitos, é uma espécie de “desafio” e a grande maioria se empenha em trazer algo do tema, seja escrevendo especialmente ou até pesquisando outros autores. Isso acaba enriquecendo mais do que limitando! Nós mesmas temos o trabalho de pesquisar sobre o tema, trazendo textos que colocamos na ‘caixinha’ do EITA, que é outro elemento de interação. Na ‘caixinha2019 são colocados textos que os freqüentadores podem ler, mesmo que tragam algo seu. A idéia da caixinha é também encorajar quem não escreve a se aventurar no palco também!

PC4- São Paulo hoje tem um grande número de saraus de poesia acontecendo periodicamente em vários pontos da cidade. Vocês acham que ainda há espaço para se divulgar a poesia aqui?
EITA4- Sim, até porque tem muita gente que não conhece poesia e nem sabem que existem os saraus! Quando convidamos pessoas que nunca foram, desperta curiosidade e quase sempre viram freqüentadores assíduos de alguns saraus. Além disso, muitos saraus ocorrem em pontos afastados da cidade (a tal ‘periferia’) e acabam sendo freqüentados pela comunidade ao redor, portanto têm públicos diferentes e ações e objetivos diferenciados também. A localização também é fator importante. Por isso, a maioria dos públicos tende a fundir-se em alguns, mas são diferentes em vários outros. Nós vemos que o movimento ainda não chegou ao seu ápice e, portanto, ainda há espaço para crescer.

PC5- Poderíamos falar que hoje já existe um público para os saraus de poesia? Ou o público dos saraus de poesia ainda acaba sendo os próprios poetas, apludindo-se uns aos outros?
EITA5: Existe um público sim, ainda pequeno, mas em formação e pode aumentar. Existem pessoas que não escrevem e não declamam, mas não perdem o sarau que mais apreciam por nada. É verdade que boa parte é formada pelos poetas, mas muitos também começaram como ouvintes e hoje participam (casos da Ana Cris, Maria do Carmo e Paula Martins, por exemplo!). Isso é um movimento que vai além de ter um público ‘expectador’, porque a tendência é que o freqüentador passe a participar, mesmo que seja lendo textos alheios. Há também os que se encorajam a escrever, aprendem com os poetas mais ‘antigos’, passam a participar de oficinas e até viram parceiros em músicas!
Solange: conheço gente que tava viajando de férias e voltou antes pra não perder o sarau, isso é gente que ama poesia, teatro, dança, música... e ama sorrir e se emocionar!

PC6- Quais as tarefas básicas que devem ser feitas para que se programe, divulgue e execute um bom sarau de poesia?
EITA6- Precisa primeiro investimento de tempo. Bom humor, comprometimento, sensibilidade para lidar com pessoas, espírito agregador, amor à arte e à poesia. Ter um espaço (ou fazer uma boa parceria com um espaço) ter uma boa rede de relacionamentos e disponibilidade para divulgar e incentivar as pessoas a irem!
No nosso caso, há o trabalho de pesquisa prévio para guarnecer a ‘caixinha’, além de ‘bolarmos’ sempre alguma performance do grupo, (geralmente de teatro ou dança). Fazemos reuniões de trabalho e criamos e alimentamos quase diariamente o blog do EITA para manter o sarau vivo entre uma edição e outra, e permitir até a participação de escritores que não moram em São Paulo.

PC7- Vocês 5, juntas, fazem todas as atividades do sarau, correto? Mas há algum gerenciamento nisto? Por exemplo, vocês dividem previamente as tarefas de cada sarau entre si ou elegem uma coordenadora para aquele sarau específico?
EITA7- Fazemos tudo juntas, tudo é discutido e acordado em reuniões de trabalho feitas semanas antes de cada sarau, que duram umas 3 horas. Imagina fazer 5 juntas mulheres tomarem decisões? Pois é, não é nada fácil! Rsrsrs.
Mas cada uma acaba contribuindo mais intensamente em um ou vários setores, dependendo do talento, experiência, tempo disponível ou jeito para a coisa... rs. A Marise cuida da administração do Blog do EITA e faz contatos virtuais pela blogosfera, além de pesquisar textos e ajudar em questões organizacionais. A Paula atua e faz performances de dança e também contribui com alguma tarefa durante o sarau (cuida da lista de inscritos, de algum item de organização, etc). A Maria do Carmo, ajuda na pesquisa de textos do tema, também se reveza com a lista e recepção dos freqüentadores, etc. A Ana Cris apresenta o sarau, ajuda na produção (imprime os textos da caixinha, por exemplo), divulga e, por vezes, faz flyers e/ou textos de divulgação ou para o sarau. A Solange (que além de atriz, é fotógrafa) atua e bola performances de teatro, também faz flyers e/ ou textos, faz divulgação e durante o sarau é responsável por registrar o EITA através de fotografias e/ou vídeos!
Solange: a AnaCris é mais a ‘cabeça’ do grupo. É ela que cuida pra que tudo fique mais organizadinho, quando as idéias pululam demais, aí então ela dá o ‘grito’ final. Rsrs


PC8- Sabemos que para o trabalho de reunir artistas diversos num mesmo palco, principalmente poetas, é preciso muita diplomacia e alguma regra. Isto para que não haja conflitos de interesses ou de ego que venham a enfraquecer ou inviabilizar a longevidade do projeto. Sabemos também que o sarau de vocês está apenas começando e já veio com grande força. Mas o que vocês planejaram para garantir ou para assegurar este sucesso por longo tempo?
EITA8- A gente não pensa em longo prazo, mas em curto prazo. A cada mês, temos planos e muitos, e os revemos após cada sarau. Mas o interesse das pessoas vem do interesse que o sarau desperta, tanto pela forma como são tratadas, como pelos atrativos. As pessoas precisam sentir-se acolhidas e respeitadas, além de perceber atrativos que, podem ser, por exemplo, as nossas performances, nossa simpatia, o local e até as amizades e pessoas que encontram ali. Sentir que todos têm a mesma importância é essencial. Até porque o organizador do sarau dá o ‘tom’, mas em última instancia, o sarau é feito pelas pessoas que o freqüentam. A única coisa que pensamos é em fazer o nosso melhor, corrigir rotas se for necessário e dentro do que propomos como objetivos principais para o sarau e estar atentas às opiniões dos próprios freqüentadores, mas sabendo que não dá para agradar a gregos e troianos.

PC9- A poesia é tida como um das artes mais libertárias que existe, por trabalhar diretamente com as palavras, ela pode levar a liberdade de expressão às últimas conseqüências. Partindo disto, qual é a ética da poética do sarau de vocês? Poderia, por exemplo, alguém chegar e declamar um RAP ou uma história de cordel de 45 minutos, ou então declamar poemas pornográficos, religiosos ou discriminatórios?
EITA9- Por definição, o sarau, é palco livre e aberto. Assim quase todos são e assim funcionam! E quase todos têm algumas regrinhas, uns mais rígidos, outro menos. Em geral, as regras só dizem respeito ao tempo. Por exemplo, pedimos para fazer de 1 a 2 poemas/ textos pra que todos tenham espaço. Pode ser até necessário limitar mais, dependendo da quantidade de inscritos para se apresentar ou até pode rolar várias ‘rodadas’, se houver poucas pessoas. Dois textos, se não forem muito longos e 1 apenas se for maior. Geralmente, os freqüentadores já têm essa ‘noção’ e, os que não têm, vão aprendendo e a gente vai orientando durante o sarau. Um conto ou contação de estória pode se estender mais, mas isso é pelo tipo de texto, geralmente mais longo. Bom senso é o que pedimos, mas mesmo o tal ‘bom senso’, pode variar de pessoa para pessoa. Costuma funcionar, com raríssimas exceções. Algumas pessoas que querem aparecer mais de todo jeito, sempre aparecem... rs. Mas a gente não deve cortar nem tolher. No máximo mandamos ‘recadinhos’ gerais durante o sarau. Quanto ao teor/ conteúdo, é livre mesmo! Pode ser RAP, pornô, religioso, tá tudo liberado. No caso do EITA o horário e local propiciam abertura, pois apenas adultos freqüentam (é um bar). Há casos em que o local é freqüentado por crianças (seja pelo horário ou por ser um local público) e o bom senso, mas também algum direcionamento do apresentador, podem ser necessários.
O próprio público acaba filtrando, aplaudindo mais ou não e às vezes podem ocorrer manifestações diretas dos próprios ouvintes/ colegas. Os saraus acabam indo mais para algum tipo de texto ou tendência literária: há saraus mais ‘Rap’, outros mais politizados, outros mais românticos, outros ainda mais acadêmicos e até os mais híbridos/ sem uma tendência definida. Nada impede a mistura e nem que um rapper ou cordelista, por exemplo, não será bem recebido em um espaço mais acadêmico.
Ana Cris: Já vi essa troca ocorrer de uma forma muito amistosa e até gerar parcerias inusitadas.

PC10- A programação para a participação do EITA Sarau é previamente agendada, ou alguém pode aparecer lá no dia do evento e se inscrever para participar na hora?
EITA10- É livre, é só aparecer e botar o nome na lista à chegada. O que pode eventualmente ocorrer é termos algum convidado especial – para alguma performance diferente - mas quem chegar e quiser, se apresenta e pronto!

PC11- Gostaria que vocês nos informassem onde e quando acontece o EITA sarau. Se possível, que nos fornecessem dicas de como acessar o local a partir de ônibus ou metrô ou ainda se existe um site ou email onde se pudesse buscar estas informações.
EITA11- O EITA ocorre todas as 2as terças-feiras do mês, com possibilidade de mudança quando cai em um feriado ou no meio de um feriado prolongado. O próximo, por exemplo, será na 1ª terça, 5 de outubro, porque dia 12 é feriado e aqui em Sampa o povo ‘foge’ da cidade para o litoral.
O local, o Julinho Clube, é muito aconchegante, decorado com vinil e fotos de cantores e artistas brasileiros, e fica bem no coração dos bairros mais cheios de bares e intelectuais da cidade: Pinheiros-Vila Madalena. Rua Mourato Coelho, 585, entre as ruas Cardeal Arcoverde e Teodoro Sampaio, que são as principais vias de Pinheiros. A região é farta em transporte público e é de fácil acesso. Os metrôs mais próximos (Clínicas e Sumaré) dão uma caminhadinha de 20 min. a pé, mas têm também ônibus que deixam bem perto, vindos de todos os bairros da cidade. Serviço de utilidade pública (rs): a melhor forma de procurar é pelo Google Maps, colocando endereço de destino e de origem, de carro, a pé ou de transporte público, dá ótimas e detalhadas orientações para qualquer ponto da cidade.

PC12- Agora, se possível, gostaria de poder contar com a opinião de cada uma de vocês nesta questão. Por que vocês acham que as pessoas estão indo ou deveriam ir mais aos saraus, especificamente aos saraus de poesia?
EITA12- Nós falamos pelos saraus em geral, não só os de poesia, embora estes sejam maioria e/ou a poesia prevaleça na maioria deles. Os saraus são reuniões de relacionamento, de troca de informações e experiências, conhecimento e arte. Em última instância, o sarau contribui para reunir pessoas em um espaço e em torno de algo em comum: a arte, nas suas variadas manifestações: literatura (poesia, contos, crônicas), música, teatro, dança... e as pessoas tanto assistem como participam.
As razões das pessoas são variadas: há pessoas vão pela alegria e descontração, pela possibilidade de interação com pares e/ou outros artistas, para prestigiar arte, em especial a literatura, para se reunir com/encontrar amigos, para conhecer e interagir com artistas e/ou pessoas com as quais tenham afinidades específicas, para ouvir/ degustar a palavra na forma de poesia ou outras, para troca de experiências entre os poetas e artistas.
Acreditamos que as pessoas deveriam ir mais para apreciar e prestigiar a arte produzida pelo ‘cidadão comum’ e pelos artistas ditos alternativos, que não estão da grande mídia e que são tão bons ou melhores que essa arte massificada. Para também tirar o estigma de que sarau e poesia é algo elitizado e para poucos. Hoje cada vez mais os saraus também têm uma função sócio-cultural, de formação de novos leitores (e porque não, de novos escritores?), e está se tornando uma das várias ‘mídias alternativas’ para divulgação de escritores e outros artistas.


***
DOIS POEMAS:


TEATRO


mundos…mudei

fiz da pausa, o pesadelo
da bruma, a ciência

debrucei na janela da vida
plantei gerânios
vermelhos

distribui lágrimas
cinzas

fiz do meu terraço
pontes
refiz a lua
nas quinhentas voltas

no abutre revi a luz

fiquei sentada
dolorida

levantei
sorrindo
enxuguei a cisma
amei
nossa, como amei

e
por fim
enquanto ouço aplausos
eu
vivo
respiro
e dôo
calor
em meio a exibições explicitas de amor


Poema de Solange Mazzeto

***

PRA TE OLHAR NO OLHO

Pra te olhar no olho
faço e desfaço laços
e dou mil volteios
Nem rima escolho
Me viro do avesso
teus versos enlaço
quem sabe (me) vês
além dos nós e atavios
sem tinta e adereço
e tropeças no desvario
dos meus anseios
de uma vez.


Poema de AnaCris Martins


***


Para saber mais, visitem o blog do Eita Sarau: www.eitasarau.wordpress.com
Para ver o mapeamento dos saraus em SP: http://www.igroup.com.br/arquivos/clube/mapa_dos_saraus.pdf


Ilustrações: 1- foto da inauguração do EITA Sarau; 2- foto das organizadoras Paula Martins e AnaCris; 3- foto das organizadoras Maria do Carmo e Solange; 4- foto da interpretação mímica para leitura de um conto do escritor Ricardo Kelmer.


Altair de Oliveira (poesia.comentada@gmail.com), poeta, escreve às segundas-feiras no ContemporARTES. Contará com a colaboração de Marilda Confortin (Sul), Rodolpho Saraiva (RJ / Leste) e Patrícia Amaral (SP/Centro Sul).
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O Poeta Lau Siqueira.


O VAQUEIRO QUE VEIO DO SUL
por Altair de Oliveira

Com a apresentação de uma entrevista com o poeta Lau Siqueira, gaucho radicado na Paraíba pela paixão e que, por mais de 35 anos, vem militando com mestria na poesia independente, enriquecemos hoje um pouco mais a nossa coluna de poesia comovida, através de suas histórias, de suas experiências com a palavras e das leituras de si e do nosso Brasil contemporâneo.

Conheci os trabalhos do poeta através de sites de literatura da internet e, de pronto, me impressionou a sua capacidade de concisão, sua sensibilidade em dar clareza a certas sensações insólitas da vida e também o compromisso social que esta vida representa, como quem de fato está envolvido nela. Uma poesia simples, honesta e compromissada com a vida, que tenta resgatar o seu lirismo, eu diria. Mas ser simples e honesto, quando se escreve poesia, é tarefa de poucos. Para o nosso bem, Lau Siqueira não escreve poesia por acaso, vai compondo seus poemas conforme suas próprias necessidades, e nem parece priorizar as chamadas atrubuições da vida literária, quando sente que tem um livro pronto ele procura publicá-lo.



UM CERTO "TEXTO SENTIDO"


Texto Sentido é o quarto livro do poeta Lau Siqueira, e foi escrito no período de 2002 a 2007, quando foi publicado pela Edições Bagaço de Recife. Trata-se de uma edição custeada integralmente pelo autor e que também tem sua distribuição independente. Herdeiro da poesia marginal e independente, Lau procura buscar um contato mais direto com o público leitor, onde quer que ele esteja.

"... penso que minha alma é uma escada./ Então vou subindo, palavra / por palavra... Separando as sílabas/ conforme a capacidade/ de armazenagem de meus bolsos. Até/ que a poesia acena para mim/ de alguma janela" - do poema Escala.

Nele, encontramos sinais do mesmo poeta arguto, lúdico e comprometido com a vida, e com pequenos toques da poesia concreta e da poesia marginal, momentos da poesia brasileira pelos quais ele não passou imune. Mas o que prevalece é um poeta mais maturado, cujo sensibilidade e poder de concisão tem ajudado-o a garimpar pequenas jóias da linguagem cotidiana e a dar o seu testemunho do mundo contemportâneo, com alguma poesia! Este é o papel principal de um poeta, penso eu. Papel-presente, eu diria.

"...escrevo/ ainda que/ em algum momento apenas/ anote a placa do verso que/ por mim passou voando" - do poema Ponto Sombra.

Uma bela semana e uma leitura deliciosa para todos vocês. Fiquem bem.



A Entrevista:



PC1- Gostaria que você contasse-nos um pouco sobre o menino Lau, de como foi a sua infância e de como se deu os teus primeiros encontros com a poesia:

LS1- Nasci na fronteira com o Uruguai, em Jaguarão, no Rio Grande do Sul. Fui precoce quanto à leitura. Ingressei no “Jardim da Infância”, já sabendo ler (com 4 anos), incentivado por uma irmã, seis anos mais velha, que hoje é professora de Literatura, em Cascavel-PR. Na verdade, fui seu primeiro aluno. Brincava, como qualquer criança. Gostava de subir em árvores, tinha tropas e mais tropas de gado de osso (coisa que os meninos de hoje desconhecem). Lembro que o primeiro livro que eu li e me encantei, foi Robinson Cruzoé, do Daniel Defoe. Lia tudo que me caía nas mãos: gibi, fotonovela, revistas, jornais, a Barsa, enfim... Era voraz. Visitava a Biblioteca Pública da cidade onde conheci Proust, Balzac e os poetas românticos brasileiros. Gostava dos livros de um cara chamado Sérgio Antônio Raupp, que nunca mais ouvi falar. Literatura infanto-juvenil de qualidade. Desse autor, li Os Três Amigos, Saudades de Monteflor e outros. No entanto foi no livro Os Sonhos de José que aconteceu um fenômeno determinante para o meu destino de escritor. O protagonista, José, escrevia tudo que sentia o tempo todo e eu passei e imitá-lo. (Estou imitando até hoje.) No entanto, nesta época eu detestava poesia. Comecei a gostar de poesia quando li, pela primeira vez, Castro Alves, Fagundes Varela e depois Cruz e Sousa, Augusto dos Anjos... enfim, tive uma infância simples, tranquila, feliz e uma adolescência afetada pelo silêncio e pelo medo espalhado fartamente pela ditadura militar na “área de segurança militar” que era Jaguarão, por ser na fronteira.

PC2- Você sobrevive financeiramente de poesia ou já sobreviveu alguma vez?

LS2- Sempre trabalhei em outras coisas, seja no serviço público, seja na iniciativa privada. Minha vida nunca foi fácil. No entanto, a poesia esteve presente em tudo e, inegavelmente, me ajudou a abrir caminhos até mesmo profissionalmente porque é a minha identidade mais definida. Meus livros sempre venderam o suficiente apenas para pagar a edição e as despesas de lançamento e eu nunca fiz questão de muito mais que isso. Algumas vezes participo de eventos e ganho alguns cachês, mas, nunca são suficientes para a sobrevivência, embora ajudem sempre, logicamente. Mas, não participo de eventos literários apenas por cachê. Minha poesia tem sido estudada em algumas universidades e escolas e isso me leva, algumas vezes, para salas de aula, num contato direto com futuros professores de literatura e jovens escritores. Eu me sinto comprometido com a literatura. É um tipo de militância literária que faz parte ou deve fazer parte, ou pelo menos deveria fazer parte do cotidiano de um escritor.

PC3- A década de 70, quando você iniciou a divulgar os seus escritos, foi um campo de batalha da poesia marginal, onde a poesia realmente foi à rua dar a cara para baterem. Poderia nos falar como foram as suas experiências com a poesia nesta época?

LS3- A minha primeira publicação foi no jornal Correio do Povo, de Porto Alegre, em 1977. Existia (não sei se ainda existe) uma coluna de variedades chamada Do Bric-a-Brac da Vida (ou coisa assim), onde eram publicados alguns poemas de gente conhecida ou completamente anônima como eu. Quanto à dita Poesia Marginal, eu era muito tímido para ir às ruas com o que eu escrevia. Admirava a postura de alguns poetas, mas eu era um habitante do mais absoluto silêncio. Até hoje não gosto muito de ler meus poemas publicamente. Fazia uns folhetos mimeografados (lembro de um dos títulos, Algemas de Papel), mas sequer assinava. Sinceramente, acho que eram poemas muito ruins, muito ingênuos. Não tenho memória dessa poesia, aliás. Eu admirava, sobretudo, gente como Ulisses Tavares e Leila Mícolis, hoje uma amiga querida. Ainda gosto de algumas coisas de Chacal, Nicolas Behr e outros. Mas, eu era muito mais um observador do movimento. Naquele tempo, tanto quanto agora, me interessava em tudo que significasse ruptura, seja social ou estética. Mas, sei que a poesia marginal nunca representou uma ruptura estética porque nunca teve uma estética muito definida.

PC4- Você conheceu Mário Quintana, poderia falar-nos, em poucas palavras, a importância dele para a poesia contemporânea brasileira?

LS4- Sim, tive o prazer de morar muitos anos em Porto Alegre e cruzar com o poeta pelas ruas, encontrá-lo no Rian, um antigo café do centro da cidade, no mercado público, comendo salada de frutas, nas fileiras de uma passeata dos jornalistas do jornal Correio do Povo e, mais ainda, juntamente com minha ex-esposa estive com ele na comemoração dos seus oitenta anos e fizemos uma entrevista que foi publicada em vários jornais de vários estados e sites e blogs. Talvez uma das suas últimas entrevistas. Quintana tem alguns exemplos formidáveis. Nunca foi afeito a modismos. Por exemplo, estreou com um livro de sonetos no auge do Modernismo. Eu acho isso formidável. Referia-se à Academia Brasileira de Letras como “um tipo de associação recreativa e funerária que gasta muito tempo com pessoas ilustres de qualidade duvidosa.” Ele era um irreverente, um poeta enraizado nas tradições, mas dono de um lirismo absolutamente pessoal, único. Certamente que se trada de um dos maiores poetas da língua portuguesa exatamente por ter alcançado um grau de originalidade muito raro.

PC5- Como cidadão sabemos que o poeta é (ou deveria ser) um ser político, mas como autor, você acha que o poeta deve escrever uma poesia engajada ou de acordo com suas convicções políticas? Ou ainda, deve o poeta ter uma preocupação de ser politicamente correto quando escreve?

LS5- O poeta é um cidadão comum. Embora alguns se considerem especiais. Ser comum que é especial. Acho que o engajamento político dos poetas sempre foi uma realidade, tanto à direita, quanto à esquerda. Por exemplo, Maiakóvski que foi um poeta engajado na Revolução Russa e Ezra Pound que aderiu ao fascismo de Mussolini. No entanto, não é a ideologia que os coloca como dois dos maiores poetas da história da humanidade. Drummond, também, foi chefe de gabinete do ministro Gustavo Capanema, em pleno Estado Novo, além de ter tido uma passagem no Partidão. Eu sempre fui engajado nos movimentos sociais e estive próximo aos partidos de esquerda, mesmo tendo uma prática mais ideológica que partidária. Tenho poemas com temáticas sociais e até políticas, mas esta não é a regra, absolutamente. Ao escrever o poeta deve ter uma preocupação única e exclusiva com a palavra. A poesia não pode ser ideologizada.

PC6- Temos um trecho de uma citação sua "há versos que jamais algum poeta passou por perto", poderia esclarecer-nos, um pouco mais, a respeito? Entendi que há coisas (poesias) sentidas que jamais virão ao mundo das palavras ou que nunca poderão ser expressadas por elas, correto?

LS6- Existem poetas muito mais preocupados e preocupadas com os louros da poesia que com a própria poesia. São maus poetas com dezenas de livros intragáveis. Homero que dizia que as folhas de louros que formavam as coroas com as quais condecoravam os poetas da antiguidade, mal serviam para temperar o feijão. Também eu quero dizer que a poesia independe das palavras. Segundo Décio Pignatari, é um tipo de arte visual. Existem pessoas que são extremamente poéticas e nunca escreveram um verso. Da mesma forma que algumas sensações poéticas que vislumbramos, jamais conseguiram ser traduzidas plenamente pelas palavras. O que eu quero dizer é que, de certa forma, a poesia não depende do poeta. A poesia existe apesar de nós, criadores, decodificadores da expressão poética.

PC7- Outra citação interessante sua "Escrevo poemas pra disfarçar meus escudos.", isto quer dizer que o poeta Lau Siqueira é uma pessoa defensiva? Poderia esclarecer-nos?

LS7- Eu sou extremamente exposto, visceral. Lembro que Quintana também dizia que se alguém quisesse saber algo da sua vida, deveria ler seus livros. De certa forma, mesmo a poesia experimental é um ato de confissão. Mas, eu acho que te enrolei na reposta (hahaha). Disfarça e muda de assunto. rsrsrs.

PC8- A cultura gaúcha e a cultura nordestina são 2 condimentos fortes da cultura brasileira. Qual o impacto que teve em sua forma de escrever e de expressar-se pelo fato ter ido viver no nordeste?

LS8- Eu sou do pampa e acho que o homem pampeano tem costumes e comportamentos extremamente semelhantes ao homem sertanejo. Acho que a minha vinda para o nordeste me permitiu amadurecer um estilo por ter saído de outro contexto. Na verdade eu amadureci poeticamente aqui na Paraíba, terra que eu amo tanto quanto o meu pampa. Concordo com Antônio Cândido quando ele diz que não existe uma literatura nordestina ou sulista, mas uma literatura brasileira se revelando de forma diferente nas diferentes regiões.

PC9- Entendemos que o processo de escrita de poemas muda de autor para autor, e que vai evoluindo com o tempo. Como é o seu processo de composição poética hoje?

LS9- É muito irregular. Eu exercito muito, mas, existem épocas que eu travo completamente. Por exemplo, escrevo uns 400 poemas para aproveitar apenas 40 ou 50. Pra mim a escrita é uma coisa visceralmente ligada à leitura dos livros e da vida. Ler Barthes e Edgar Morin, por exemplo, me inspira mais que ler os poetas. Os poetas eu leio por deleite estético, por prazer e não para construir referências. As referências dos meus poemas saem dos livros, mas principalmente da vida e da minha condição de gente.

PC10- Tem algum novo livro seu a caminho? Poderia nos falar a respeito dele?

LS10- Tem e está me dando um trabalho enorme para concluir. O título é Poesia Sem Pele e eu espero que saia este ano. Na verdade, creio que ando escrevendo de uma forma absolutamente igual, ando questionando a qualidade da minha poesia... o que eu acho que é normal porque tenho um senso crítico aguçado. Mas às vezes me escapam umas mixórdias incompreensíveis. O que me consola é que até os grandes poetas escreveram poemas medíocres algum dia. Também preciso te dizer que sinto uma coisa tipo “depressão pós-parto” após cada lançamento de livro. Mas, este é um livro que deverá reunir os poemas escritos de 2007, quando lancei Texto Sentido, até o dia de ir pra editora.

PC11- Lau, com 35 anos de militância poética e 5 livros de poemas publicados e outros por virem: vale mesmo a pena escrever poesia? Qual o grande barato que a poesia dá?

LS11- Acho que é inevitável. Sempre digo que somente escrevo o que não consigo não escrever. Não creio que a gente possa escolher ser poeta. Tem gente que somente começa a escrever poesia aos 50 anos. Rimbaud escreveu apenas na juventude. A poesia tem seu próprio tempo. Acho que a poesia dá barato sim. Mas, somente a boa poesia. Acho que o ensino da literatura deveria ser invertido. Os jovens deveriam ter mais contato com a poesia contemporânea para depois conhecer os canônicos, os clássicos. É que, inicialmente, seria muito mais fácil um jovem começar a gostar de poesia após ler Leminski, Alice Ruiz ou Ademir Assunção que ao ter a obrigação de ler Cláudio Manuel da Costa. Sem nenhum demérito para ninguém nem para a história da poesia. A poesia dá o barato de despertar um senso crítico diante do mundo, um senso estético que contrubui profundamente para a consolidação de uma coisa chamada cidadania. Sei lá... acho que é isso. Na verdade o que eu acho é que a boa poesia dá barato sim, extirpa o marasmo, ensina a ver o mundo com olhos de pássaro.



Pequena Biografia de Lau Siqueira:


Lau Siqueira nasceu em Jaguarão, no Rio Grande do Sul e reside atualemente na capital da Paraíba. Nascido no Dia Internacional da Poesia, 21 de março de 1957, o poeta publicou O Comício das Veias (Editora Idéia-PB, 1993), Um livro de poemas, com contos de Joana Belarmino. Em 1998, publicou pelo selo Trema, dirigido pelos poetas Antônio Mariano, José Caetano e André Ricardo Aguiar, o livro O Guardador de Sorrisos. Em 2002, também pela editora Idéia, publicou Sem Meias Palavras e em 2007, pela editora Bagaço-PE, publicou Texto Sentido. Atualmente está em fase de conclusão do livro Poesia Sem Pele e em busca de editor. Teve poemas em antologias importantes como Na Virada do Século - Poesia de Invenção no Brasil, pela Editora Landy (SP), onde aparece junto a nomes expressivos como Arnaldo Antunes, Antônio Risério e Glauco Mattoso. Anualmente seus poemas são distribuídos nacionalmente pela Editora da Tribo,no conhecido Livro da Tribo (SP). Participa de projetos alternativos como o projeto Dulcinéia Catadora, um priojeto social de grande relevância desenvolvido em São Paulo e referenciado em vários países. Teve poemas traduzidos para o inglês, francês, italiano, espanhol e catalão. Participou da coletânea de poetas de língua portuguesa, Eispoesia, publicada na cidade do Porto, em Portugal. Escreve para jornais e sites sobre artes plásticas, literatura, música, políticas culturais, políticas públicas e mantém dois blogs: Poesia Sim (www.poesia-sim-poesia.blogspot.com) e Pele Sem Pele (www.lau-siqueira.blogspot.com). Além da poesia, incursiona pela área musical com diversas parcerias com amigos músicos da Paraíba.



Poemas:




Rio Jaguarão



e assim

fui engolindo o tempo


bebendo as vinhas

do esquecimento


minhas mentiras íntimas

doces folias de momento


a vida

eu mesmo invento



Poema de Lau Siqueira.


***

Cataplaft



com seus tacapes digitais

e tangas pierre cardin

os cariris contemporâneos

invadem o shopping

e jantam champignons

com xerém

no self-service



ajustando as penas

desajustam os cocares

da cultura pagã



cultuam o corpo

em academias

e investem fortunas

da floresta tropical

nas delícias

da nova moda verão



já sem matas

matam-se nas guerras

da pós-modernidade



disputas sangrentas

por hectares de asfalto

ou pontos de venda

de coca

(ou pepsi)



e dançam o rap

da globalização



com as mãos enfiadas

nas algemas ideológicas

do terceiro milênio




Poema de Lau Siqueira.


***


cartão vermelho


encontro em tuas mãos o meu silêncio

meiáguasanáguas perfiladas em seus veios



comento de mim mesmo

o esquecimento



a dor estampada nosossos do peito



cataplasma de efeitos

ruptura de órgãos conjugados


cada ponto da retícula que cobre meus olhos

permanece aceso



estou com medo

há um tropel de palavras em meus segredos



é cedo

mas tenho vontade de sonhar

beber nos seios a covardia da musa

lamber os grandes lábios do indulto

libertar meus pulsos

navegar no justo

e no que me deixa puto


quem sabe

meu coração seja

definitivamente expulso



Poema de Lau Siqueira.


***

blindagem


vivo neste redemoinho

como um cogumelo de ondas

invisíveis sobre a areia



um nada que se avoluma cada

vez que domino a palavra

como amante que permanece

esguio diante do amor



começo a tecer meus rios

paralelos como os rios que em

mim permanecem



cálidos e recorrentes


... uma vez vencido sou outro



Poema de Lau Siqueira, In: "Texto Sentido".

***

simulacro


sempre tive esta
cara de lata disfarçada
na fumaça

mantendo minhas córneas
com exercícios abdominais
de visualização do mundo

puro como um búfalo
persigo o limite da miragem
na espreita do abismo

sou o que a poesia acode
quando flautam as brumas

em suma.


Poema de Lau Siqueira, In: "Texto Sentido".



Para ler mais: http://www.germinaliteratura.com.br/ls.htm
Para comprar o livro "Texto Sentido": http://www.lausiqueira.com/


***

Ilustrações: 1- foto da capa do livro "Texto Sentido"; 2- foto do poeta Lau Siqueira; 3- obra da artísta plástica gaucha Marli Sassi; "Ciclista", obra do gaucho Iberê Camargo.


Altair de Oliveira (poesia.comentada@gmail.com), poeta, escreve às segundas-feiras no ContemporARTES. Contará com a colaboração de Marilda Confortin (Sul), Rodolpho Saraiva (RJ / Leste) e Patrícia Amaral (SP/Centro Sul).
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ARTE e/na Rua, Inclusive



Aline Serzedello Vilaça
Era fim de tarde cinzenta, de uma sexta- feira levemente fria. Saia da saída, do lado ímpar da Paulista, da estação Brigadeiro, sentido Brigadeiro Luís Antonio, estava indo para aula de espanhol, do Projeto Espanhol para São Paulo com professores licenciados pela USP, projeto este, que é uma das várias coisas que realmente funcionam com qualidade, a preço popular, na capital paulista.
Com o frenético vai e vem das milhares de pessoas que corriam na hora do Rush, parecia mais um dia comum na cidade que não dormi, quando...
Ao sair do subsolo do metrô vejo ao fim da escada rolante, um belo jovem, com libertário cabelos Black Power para cima, um elegante blazer, e o case de seu violino, com bons trocados, trazendo em suas cordas um pouco do calor do xote para o cinza gélido da capital, alguns atenciosos assistiam, outros milhares apenas passavam.
Olhei, parei um pouco e continuei andando. Alguns metros dali, parei e pensei, “como eu iria deixar passar essa entrevista? E mais, semanas atrás morri de remorso de não estar com minha câmera fotográfica quando surpreendentemente encontrei e conversei muito sobre Cats e ser mulher e negra neste país, com a maravilhosa cantora Paula Lima na Livraria Cultura, ou quando perdi de entrevistar Tito Matino e sua Jazz Band, também na Livraria Cultura, ou quando mais uma vez não estava com a câmara e perdi cenas (fotografias) de verdadeiro horror poético nas ruas sujas da cidade da garoa.
Assim, voltei para ouvir o jovem músico, e logo que ele parou para respirar pedi a honra de entrevistá-lo, pois teria mais uma chance de continuar refletindo sobre o fazer artístico diante do contexto que cerca, envolve, abraça ou engole o artista.
“Sou Antonio de Souza, Músico de Rua, e estudante de violino, morador de Niterói, Rio de Janeiro. Estou por aqui, (São Paulo) pois foi onde iniciei este trabalho de rua. Eu sou um ser humano que procura trabalhar com a sensibilidade, por que vejo que é esse o caminho, não gosto desta palavra, mas acho que é a salvação da humanidade.”

· REVISTA CONTEMPORARTES _ Você começou aprender a tocar violino com quantos anos?

Com 17 anos, comecei por intermédio de uma entidade religiosa, e depois continuei em busca, pesquisando, no interior do Pará, Marabá, cidade a qual nasci, (deliciosa, grifo meu) dois rios, praia de água doce, sai de lá, meus pais já moravam aqui, vim tentar a sorte, como nunca consegui entrar em uma escola, a partir da rua as coisas mudaram. Um dia, da necessidade, faltou grana pra pagar a condução, como eu sempre andava com o violino nas costas, resolvi tocar, e as coisas começaram a virar, conheci uma galera que tocava na rua, fizemos um projeto juntos, que não deu certo, mas abriu portas. E a partir da rua que realmente tive um incentivo, consegui um bom professor, fiz aula com dos Santos que é um violinista da OSESP. Depois fui peregrinar para o Rio e lá foi bem legal pra mim, tem dado mais certo, mais oportunidades de estudar.

· E você compõe?

Componho, não me acho exatamente um compositor, mas somos um canal, então tem hora que vem alguma coisa, mas para a área que eu realmente procuro estudar é a interpretação, sonho em ser um bom intérprete. Mas componho, escrevo algumas poesias, textos em prosa, verso, e já fiz algumas coisas em teatro, então acabo criando algumas coisas.

· Pará, São Paulo e Rio de Janeiro, há uma diferença completa de meio, de pessoas, de cultura, culinário, hábitos, isso influência no seu trabalho?

Bastante, por que assim, da forma com que trabalho, eu acho que não consigo viver sem o clima próprio, preciso de um local com fluxo grande de pessoas, automaticamente a grande variedade de conhecimento encontrado em cada pessoa, pessoas com gosto mais apurado, mais refinado, e pessoas que realmente queiram saber entender o que você faz, talvez necessário seja na metrópole. A influência de cada lugar é o seguinte, brasileiro de forma geral é muito parecido, solidário, só que em alguns locais há um hábito maior, não conheço o nordeste, mas dizem que o pessoal é mais aberto, eu comecei aqui em São Paulo, que são vistos como mais fechados, mas fui criado em São Paulo então talvez eu já tinha a manha para me virar aqui, e tenho pessoas que me incentivam até hoje. No Rio o Carioca é mais aberto e curioso para vir e conhecer o trabalho do artista, para incentivar, conheço Curitiba também trabalhando com arte de rua, e destes três lugares, acredito que o Rio tem mais abertura.

· Você toca erudito também?

Estudo um pouco de erudito, música barroca. Toco na Orquestra de Cordas da Grota, em Niterói, que é de um projeto social, e a Orquestra é regida por um violista, Pessanha da Orquestra Sinfônica Brasileira.

· Coragem! Realmente costumo dizer que mesmo sem opção, pois não somos nós que escolhemos, ser artistas ou trabalhar em prol da arte, mas mesmo assim é fundamental tê-la, sem coragem não se entrega corpo e alma a arte. Qual é o papel da coragem em sua vida?

Ela concretiza, com a coragem você olha nos olhos do seu medo, e vai em frente, para superar esse homem que você é, e tornar-se algo além, por que o artista vive em outra dimensão, se transformando em um ser humano melhor, interagindo melhor com a sociedade.

· E Racismo? Você passou por alguma situação?

Ele existe, mas a arte tem esse papel de transformar, e quando você faz arte você toca nas pessoas, e sempre haverá críticas, sempre haverá preconceitos, mas quando você faz alguma coisa que está além do discurso, além das palavras, vai diretamente do sentimento verdadeiro da sua alma, para o sentimento verdadeiro de outras almas, esses preconceitos todos são quebrados. Que eu me recorde, assim diretamente não, talvez, desdenhas na rua, às vezes de outros músicos, por eu estar tocando na rua, mas diretamente não, não me recordo agora, prefiro guardar os gestos de carinho das pessoas que passam pela rua, do sorriso das crianças, do agradecimento dos mais velhos quando me vêem tocando. Outro dia vi o Saramago no Roda Viva, e ele foi questionado, “O que você fala para a crítica” Saramago responde, “eu fico em silêncio, só vou me estarrecer e eles vão continuar criticando, então permaneço em silêncio” e neste assunto também dou meu silêncio. Por que nesta área estamos sozinhos.

Antonio agradeceu a entrevista e afirmou que
“Fico contente de poder contribuir de alguma forma para a valorização cultural dos artistas deste país”.
E eu terminei aquela sexta-feira após a aula de espanhol, a apreciação de um espetáculo de dança no SESC Vila Mariana e está pequena entrevista, encantada com as milhares de possibilidades que uma cidade daquele tamanho oferece, mas ainda tomada pelo desconforto, desespero, raiva que quase me engole ao lembrar que a grande maioria das maravilhosas obras, pessoas, criações, locais (museus, teatros, cinemas, cafés, livrarias, sebos, e etc) ficam limitados e acessíveis a grande minoria que economicamente pode se inserir nos belos acontecimentos (bons espetáculos, bailarinos, bons músicos, bons escritores, cineastas, mostras, festivais, etc) da metrópole.
Este foi mais um dos ocorridos nesta vivência paulistana do meu primeiro semestre de 2010, espero compartilhar mais algumas histórias com vocês, agradeço, pois não foi fácil trabalhar com tamanha sensibilidade artística (da Cia que eu estagiava), diante de tanta fumaça, congestionamento, e tanta arte, pois São Paulo também nos oferece arte, e também nos oferece outros e os mesmos vocabulários, instrumentos, ferramentas para buscar um caminho próprio e entregue suficiente para ser considerado caminho artístico!
Daqui alguns dias contarei meu encontro com Amelita Baltar!!!

Obrigada,
Atenciosamente
Serze Vilaça
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Pequena Entrevista com Lúcia Gönczy

A poeta LÚCIA GÖNCZY
por Altair de Oliveira


Quem puder ter o prazer de conhecer a poeta e articuladora cultural paulista Lúcia Gönczy certamente irá constatar que se trata de uma pessoa especialíssima, que tem como um de seus principais combustíveis à poesia. Geralmente simpática e de um humor-refinado, uma das principais marcas da poeta é a sua prontidão nas lutas das causas artísticas e culturais. Nos últimos anos, Lúcia tem articulado, apoiado, incetivado e divulgado diversos eventos de poesia e de música independente, tais como saraus, exposições, lançamentos e shows. Não raro, a poeta participa também de eventos literários de poesias em vários pontos do país e daí geralmente contata novos artistas ou grupo de artistas, que acabam podendo contar com a ajuda da poeta quando vêm divulgar seu trabalho em São Paulo.

Moderna, concisa e lírica; a poesia de Lúcia Gönczy é geralmente intimista e tem ímpetos de traduzir, sempre que possível, o que a comove ou a inquieta. Com um forte acento feminino, seu poemas trazem também imagens, sons e ritmos que buscam captar os momentos intensos e bonitos da vida, daquilo que ela tem de melhor, sua poesia. Vem talvez daí, a vontade latente que a poeta tem em ajudar mostrar trabalhos artísticos de pessoas que ela mal conhece, mas que sabe que operam, muitas vezes no anonimato, por uma vida com mais arte e poesia. Coisa que ela, apaixonadamente, preserva. Quando escreve, Lúcia declara agir mais por inspiração do que por uma composição cuidadosamente planejada, uma poesia sem maquiagem. Esta forma de escrever não garante portanto que seus poemas sejam melhores que os que supostamente ela teria que suar mais a camisa para escrever, mas faz com que eles sejam mais honestos.

Nesta semana, trouxemos aqui um pouco da produção poética de Lúcia e também uma pequena entrevista que ela gentilmente nos concedeu, a qual temos aqui um grnade prazer de compartilhar.



Quem é Lúcia Gönczy?


Lúcia Gönczy é paulistana, poeta e produtora de eventos diversos no ramo das Artes. É coordenadora musical do Proyecto Cultural Sur Paulista. Participou de 4 Antologias (Congresso Brasileiro de Poesia - Proyecto Cultural Sur - 2007/2008), II Antologia Confraria dos Poetas(2008) e 1 Prefácio - P.O.E.M.A.S (2009, Editora Mattos). Apresentou-se em diversos espaços da cidade, como Casa das Rosas, Sopa de Letrinhas, Sarau da Camarilha dos 3, Sarau P:PP, Politeama , Parque da Aclimação, Hospital Brigadeiro, Hospital São Matheus, bares, pubs, agitos culturais diversos... Escreve para seu blog (http://luciagonczy.blogspot.com/), Projeto palavra Porrada, Clube Caiubi de Compositores (Sopa de Letrinhas), Leo Lobos, Planeta Literatura, Recanto das Letras, blogs de amigos da Cultura, como o poeta Altair de Oliveira.


PC- Gostaria que você nos falasse um pouco sobre a sua infância. De como a menina Lúcia encontrou com a poesia e o que aconteceu para ela decidisse adotá-la para a sua vida?
LG- Venho de uma família ligada às Artes; principalmente Música, Literatura e Artes Plásticas. Portanto, tive uma infância onde o desenho e, posteriormente, a escrita, foram minha principal referência.

PC- Poderia falar-nos sobre esta tua descendência húngara e se ela influenciou na tua formação cultural?
LG- Bom, uma educação mais de 50% européia, costuma influenciar muito na formação cultural e pessoal; aprendemos que os valores básicos, aqueles que nos sustentarão pelo resto de nossas vidas, estão intimamente ligados aos princípios morais, éticos e filosóficos.

PC- O que é poesia para você? E porque esta necessidade de guardá-la em poemas e até em publicá-la?
LG- Poesia é algo natural; intrínseco; latente. Quanto à necessidade, não sei... Acho que a minha, é a mesma que a sua e a de todo mundo. É um processo, só isso.

PC- Você sempre esteve de alguma forma envolvida com a poesia, mas por que só recentemente decidiu divulgar os seus escritos?
LG- Sempre. Tenho poeminhas que fiz com 7 anos de idade. Escolhi divulgá-los agora, porque é o momento; nunca tive pressa.

PC- Quais os principais poetas que você gosta de ler, os que admira ou lhe inspiram?
LG- Ah, essa é difícil. Tanto na música como na poesia, sou eclética; gosto de tudo, ou quase tudo. Mas, como referência, citarei alguns atuais: Paulo Leminski, Hilda Hilst, Adélia Prado, Gilka Machado, Carpinejar, Caio Fernando Abreu, Guimarães Rosa, e por aí vai...

PC- Gostaria que falasse-nos um pouco sobre o teu processo de escrita poética. Quais os passos de sua configuração? Qual a porcentagem de inspiração e de transpiração utilizada neste processo?
LG- Não tem processo. Como citei acima, o poema existe desde sempre; está apenas adormecido. Escrevê-lo é expulsá-lo - um parto, entende? Sinto-me grávida de poemas.

PC- Além das atividades de dona de casa, você exerce outras atividades, entre elas a de promotora cultural independente, onde promove e apoia eventos de poesia e de música em espaços oficiais e alternativos. Gostaria que falasse-nos um pouco sobre este trabalho. Que tipo de retorno você obtém daí?
LG- Além de tudo, sou uma pessoa muito mística e curti uma comparação feita por uma amiga: "Lúcia tem algo a ver com o Terceiro Raio- Rosa." Isto é, sou alguém que está sempre pronta a descobrir talentos e ajudá-los a encontrar seu lugar ao Sol; lugar este que deveria ser fácil e de direito, mas nem sempre o é. Meu retorno financeiro é, praticamente ou nenhum. Nulo. Trabalho por Amor, por mais incrível que isso possa parecer, atualmente.

PC- Sabemos que você tem participado de várias antologias de poesia e que tem divulgado o seu trabalho em sites e em eventos de poesia e que está preparando o teu primeiro livro de poemas. Poderia falar-nos um pouco sobre o livro e sobre quando o poderemos tê-lo em mãos?
LG- Estou. Tenho material para uns 3 livros, mas isso é, financeiramente, inviável. (não deveria). Não tem mistério; será um livro de poemas, óbvio, com alguns textos - coisa que também gosto muito de fazer. Quanto à publicação, se dependesse de mim, estaria pronto "ontem", mas penso que, até o final deste ano ou início de 2011.


POEMAS


Grau


sorte sua,
a minha
hipermetropia.
por conta disso,
de perto,
nunca enxerguei
direito
seus defeitos.

Poema de Lucia Gönczy


***

saí de mim
entrei
em
você
de repente
tudo
parecia
transparente

aconteceu

inevitável

me ferrei

agora
entro
em
mim
sem você

evitar
não
posso

levitar sim!

Poema de Lucia Gönczy

***

véu



em
linha
reta
leio
tua
retina

Poema de Lucia Gönczy

***

o arquiteto do momento capta
sua rota de fuga
ainda que dentro dela exista
deseja palavras simples
sem construções mirabolantes
verdades implícitas
por isso a paisagem
não é mais nossa
viajou
virou estrela
desintegrou.

Poema de Lucia Gönczy

***

condicional


para a moldura
[paredes]

para o silêncio
[a fúria das cores]

para a liberdade
[o ventre]

para a vida
[intensidade]

no caminho

[somente]

aqueles que pulsem juntos


Poema de Lucia Gönczy

***

À flor da pele



Percebo
seu desalento
que aos poucos
sorve o meu ser

E olho
com olhos de lince
o gato
que existe em você

O peixe
deixo pra ceia
e cerceio
a cerca que anseias

Que tens de ser
do meu ser


Poema de Lucia Gönczy

***

adoro quando diz meu nome
não importa a hora nem as flores
adoro quando tudo se disforma
e o grito sai mudo quase a queima roupa
adoro quando seu pensamento me toca
e triste me acha ausente
são nestes momentos, exatamente,
em que me acho mais presente

não negue: Você SENTE!


Poema de Lucia Gönczy

***


Evento Literário da Semana em São Paulo:


SARAU POÉTICO "QUINTA POÉTICA" - NÃO PERCAM!

Local: CASA DAS ROSAS - Avenida Paulista, 37 - Metrô Brigadeiro
Quando: Quinta-feira (29/07/2010), a partir das 19:00 hs.
Nota: Com a participação da poeta LÚCIA GÖNCZY


Ilustrações: 1- foto da poeta Lúcia Gönczy; 2- outra foto da poeta; 3- Trabalho do russo Marc Chagal; 4- Gato amarelo com flor, de Aldemir Martins.


Altair de Oliveira (poesia.comentada@gmail.com), poeta, escreve às segundas-feiras no ContemporARTES. Contará com a colaboração de Marilda Confortin (Sul), Rodolpho Saraiva (RJ / Leste) e Patrícia Amaral (SP/Centro Sul).
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Entrevista: João Luiz de Souza

O Ativista de uma Política Poética
por Altair de Oliveira e Rodolpho Saraiva.

O poeta que apresentamos hoje não se diz poeta, pelo menos não se apresenta como tal, nunca tive a oportunidade de ler seus poemas, mesmo assim ele é uma das pessoas mais envolvidas e comprometidas com a poesia que já tive a oportunidade de conhecer.

João Luiz de Souza é professor de literatura na Universidade Salgado de Oliveira (Universo) em Niterói –RJ, criador e maestro de um delicioso encontro de poesia falada denominado “Corujão da Poesia e da Música” que acontece semanalmente em vários “points” do Rio de Janeiro e também do projeto “Biblioteca Solidária” que, através de doações de livros, possibilitou que mais de 80 bibliotecas pudessem ser instaladas em escolas, hospitais, presídios e comunidades carentes do Grande Rio.

Enfim, João Luiz é uma pessoa grande, verdadeiro ativista de uma política poética e cultural, como ele mesmo gosta de ser chamado. Gentilíssimo, ele nos concedeu esta bela entrevista que aqui compartilhamos.

Um pouco sobre o “Corujão da Poesia e da Música”.

Conhecido simplesmente como “Corujão da Poesia”, o sarau cultural promovido por João Luiz reúne poetas, músicos, atores e amantes da poesia, num encontro cultural que é um verdadeiros show em homenagem à poesia. Ali, num ambiente descontraído, além da possibilidade de se falar e ouvir bons poemas, pode-se ouvir boas músicas ou até assistir a performances teatrais e ainda informar-se sobre eventos culturais que estão acontecendo na cidade.

Não raro, há edições especiais do “Corujão da Poesia” para homenagear determinado autor ou para fazer lançamento de livros de poemas ou de CDs.
Em sua edição do Leblon, na Livraria Letras & Expressões, o Corujão assume um caráter de vigília poética e atravessa a madrugada feito um farol, indo até às 06:00 h. da manhã. É uma rara maneira que os artistas, boêmios e amantes da poesia em geral encontram para terminar ou iniciar o dia com alguma poesia!

Para participar deste sarau declamando ou fazendo leitura de poemas, a inscrição pode ser feita na hora, junto aos organizadores. Para auxiliar nestes eventos, o João conta sempre com um pequeno grupo de amigos, solidários poetas e músicos e que também participam das apresentações, contribuindo para que o evento mantenha sempre um bom nível.

Quem participa do Corujão da Poesia ganha carinhosamente e automaticamente o simbólico título de “coruja”. Se assumido, este título pode ser levado para sempre, calado e colado junto ao coração. Ser “coruja” significa que a pessoa foi uma vez marcada pela poesia e que agora está vigilante para nunca mais permitir que a poesia venha a perecer neste mundo. Grandes nomes da literatura, da música e da dramaturgia brasileira, se tornaram afiliados de João Luiz e hoje são orgulhosos “corujas”!

A Entrevista

PC- João, inicialmente gostaria de pedir-lhe para falar-nos um pouco de como foi esta tua trajetória de menino de São Gonçalo que, com muita poesia, um dia veio fazer os olhares ascenderem e acenderem-se no baixo Leblon e daí para o mundo, como bem disse a nossa amiga poeta Natália Parreiras!?

JL- Nasci 1961, em São Gonçalo, cidade do Grande-Rio, com população de maioria operária e de classe média modesta. Estudei em boas escolas nas quais a literatura eram privilegiadas. Levei do Jardim de Infância à sétima série, a vida numa escola particular no meu bairro, onde éramos tratado pelos pré-nomes e sobre nomes. Isto me conferiu uma identidade forte. E nessa escola, havia muito espaço para poesia. E eu o ocupava, movido pelas professoras, por minha mãe e por minha madrinha. Em seguida, fui para o Instituto de Educação Clélia Nanci, escola estadual, que era um centro de excelência. Lá, a cultura, mesmo em período de ditadura militar tinha um espaço sagrado e desde então tornei-me ativista. Daí para frente, fosse na UFF, UERJ ou UNIVERSO, universidades nas quais sentei nos bancos de aprendizagem, sempre fui um agitador literário. Eu era um leitor compulsivo e, naturalmente, falava do que lia. E estas falas foram abrindo portas, até que em 2003, invadi a Zona Sul do Rio com os projetos de POESIA FALADA que desenvolvi coletivamente desde os 17 anos em São Gonçalo e Niterói. Hoje, moro em Niterói, mas devo tudo à São Gonçalo, pois foi lá que aprendi a fazer. A realizar. Mesmo que não houvesse recursos ou equipamentos.

PC- E está idéia do projeto "Corujão da Poesia", poderia contar-nos como tudo começou e como está o projeto agora?

JL- Ah, o Corujão da Poesia e da Música-Universo da Leitura nasceu de minha insônia e da insônia de outros poetas e artistas. Ficava matutando sobre como poder ter um projeto profissional, via Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO), onde sou Assessor de Cultura, que contemplasse as minhas horas insones e que pudesse atender às expectativas de outros insones.
Escrevi o projeto, submeti à Magnífica Reitora Marlene Salgado de Oliveira, que o aprovou e propus a parceria à Livraria Letras&Expressões, no Leblon, que funciona 24 horas por dia. Toparam. Era o casamento perfeito. Daí surge um projeto de extensão universitária bastante original e que tornou-se a única vigília de periodicidade semanal de poesia, leitura, música e literatura de toda a América. Quando fizemos um ano de existência, começamos a arrecadar livros usados e novos e já montamos 84 Bibliotecas Solidárias, que são as nossas maiores alegrias e realizações, pois o principal compromisso do projeto é com a difusão do prazer da LEITURA.

PC- Quem milita nas artes poéticas há algum tempo em nosso país sabe o quanto é difícil reunir um grupo de bons poetas num sarau de poesia, ainda mais se fizer a apresentação destes eventos por longo tempo. A falta de incentivo, a indisponibilidade de tempo, os interesses políticos, a competição, o conflito de egos, o estrelismo, etc; enfim, há uma porção de fatores que normalmente fazem estes eventos de poesia serem esporádicos e de curta duração. Gostaria que você nos revelasse qual o segredo que faz com que você mantenha o Corujão da Poesia como um evento de sucesso e com bons poetas se apresentando por tanto tempo e em tantos lugares?

JL - A razão de nosso reconhecimento social e cultural e de nossa permanência é porque somos uma OFICINA aberta para qualquer um que venha apresentar-se, sem roteiro prévio e com um profundo sentimento de acolhida a todo os que chegam. Em novembro de 2010 faremos 5 anos e não para de chegar pessoas. Nós as abraçamos e dizemos "És coruja!" e muitas delas ficam. Outras não. Isto nos permite a continuidade da grande maioria e a permanente renovação dos novos talentos independentemente da idade ou do estilo de obra. Somos uma oficina viva, dinâmica e aberta aos que queiram militar em nossas fileiras poéticas ou sociais.

PC- Gostaria que agora você falasse como o professor de literatura que é; sabemos que quem morre são os poetas, não a poesia. Mas, que tipo de poesia sobrevive ao seu autor? Ou seja, que a poesia precisa ter para conquistar a sua longevidade?

JL- Para ser longeva, a poesia carece de ser atemporal. No mais, os caminhos que os poemas fazem são misteriosos. Quem dera se um professor pudesse definir os rumos dos poemas e o que fazem eles sobreviverem. Nem os poetas podem imaginar o que de suas obras será lembrado no futuro. São mistérios. É o território sagrado da POESIA.

PC- Agora, por favor, esqueça que o professor de literatura que é, e fale-nos desta vez como leitor. Quais os grandes autores deste país, aqueles cuja leitura te tocam e te trazem deleite, crescimento e aprendizado e que, com certeza, você recomendaria?

JL - Meus poetas amados são Manuel Bandeira, Cruz e Sousa, Manoel de Barros, Hilda Hilst, Solano Trindade, Eugénio de Andrade, Adélia Prado, Baudellaire, Gonçalves Dias, Mário de Sá Carneiro, Federico Garcia Lorca, Fernando Pessoa e muitos outros. Dos vivos não direi os nomes, mas o Antônio Cícero é uma de minhas paixões. Chega!

PC- Muitos poetas populares são questionados nas universidades. Há críticos que enaltecem autores acadêmicos, de escrita hermética e há também poetas populares que desconsideram os cânones da crítica. Afinal, qual é a importância da crítica literária na formação da Poesia Brasileira?

JL- A crítica é necessária pois é um exercício de conhecimento e pesquisa, compartilhado nos meios especializados, mas, nós sabemos que ela não é definidora daquilo que o público consagra. A academia pode consagrar um autor e o povo desmerecê-lo ou vice-versa. O importante é que haja espaços de reconhecimento e leitores para todos. E aí entram os saraus, os eventos, os blogs etc.

PC- Muitos poetas afirmam escrever por catarse. Fazer poesia pode ser terapêutico?

JL - Tudo pode ser terapêutico, especialmente, o exercício de escrever-se ou a tentativa de cometer alguns poemas. Não sei julgar esta questão. Sei que a poesia é mais libertária do que qualquer terapia.

PC- A poesia inevitavelmente é influenciada por sua época. Qual é a cara da poesia dos dias atuais? Do que ela trata?

JL - A poesia dos dias de hoje é tão plural. Ela não tem cara nos dias de hoje. Ela é um movimento de infinitas faces. Está tudo aí. Só precisamos ter antenas plugadas para percebermos, o que também é uma atitude poética. Estar aberto para perceber a poesia do hoje é uma atitude poética. É dialógica.

PC- A internet, blogs e redes sociais são uma realidade. Muitos críticos afirmam que essas tecnologias ameaçam a literatura. Você concorda?

JL- A teconologia tem ajudado a literatura e a poesia até aqui. Nós, os seres das palavras é que precisamos invadir com nossos conteúdos o mundo da internet. E vamos lá. Estamos fazendo isto aqui agora quando eu respondo-lhe estas perguntas. Vamos invadir às redes sociais com poesia e literatura. E com o afeto que nos caracteriza.

PC- Você é um estudioso da realidade brasileira, principalmente das grandes cidades, o que você acha que ainda falta para o Brasil se tornar realmente um grande país?

JL - O Brasil é um grande país. Precisamos acertar mais na educação pública e privada. Precisamos ler mais. Precisamos resgatar as idéias do Mestre Darcy Ribeiro. Precisamos defender a escola de horário integral e rica de imaginação criativa para todas as crianças e adolescentes, de modo que elas apaixonem-se pelo aprender coletivamente e por produzir conhecimentos. No mais, a sociedade vem avançando e o Brasil nos últimos anos disse ao mundo: PRESENTE!

PC- Nos eventos do Corujão, a participação é aberta a todos. Para alguém de fora, que esteja de passagem no Rio de Janeiro, como proceder para assistir ou para participar deste eventos?

JL- É só acessar o www.corujaodapoesia.com e conferir a nossa agenda. Ou ainda: http://corujaodapoesiaedamusica.blogspot.com/. No Leblon, é toda madrugada de terça para quarta, na Letras&Expressões, da Rua Ataulfo de Paiva, 1292. Começamos meia noite e terminamos às seis da manhã de quarta. Toda semana, enquanto Deus e a História nos permitirem.

PC- Gostaria que você informasse-nos como proceder para fazer doações de livro para o teu projeto de bibliotecas, quem contar e se é possível enviar-lhe livros também de outras cidades ou de outros estados?

JL- Todo livro é recebido com festa. Muita festa. Podem entrar em contato conosco pelo e-mail corujicespoeticas@gmail.com, sempre com cópia para a.cultura@nt.universo.edu.br. Será um prazer responder aos e-mails e conversarmos sobre como faremos para procedermos a retirada da doação. Gratidão. Muita gratidão sempre.

* Fotos de vários eventos do Corujão da Poesia, por Júlio Pereira: 1- João Luiz; 2- panorama do Corujão da Poesia na Barra da Tijuca; 3- panorama do Corujão da Poesia no Leblon; 4- João Luiz e a atriz Letícia Sabatela.


Altair de Oliveira (poesia.comentada@gmail.com), poeta, escreve às segundas-feiras no ContemporARTES. Contará com a colaboração de Marilda Confortin (Sul), Rodolpho Saraiva (RJ / Leste) e Patrícia Amaral (SP/Centro Sul).
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