sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Alain Resnais, mais de 144 semanas em cartaz com Medos Privados em Lugares Públicos.


Cartaz do Filme
Alain Resnais está com 87 anos e continua em plena forma. Seu filme, Medos Privados em Lugares Públicos, (Coeurs, 2006) está em cartaz há mais de 144 semanas com uma média de 130.673 espectadores no Brasil, 90.316 só em São Paulo. Atualmente o filme pode ser visto na sala Carmem Miranda do Belas Artes. Na semana passada fui conferir e constatei que a cópia está um pouco surrada e a sala não é lá essas coisas, no entanto, para quem gosta de cinema é uma ótima oportunidade de assistir ao filme em película e no escurinho do cinema. André Sturm, responsável pelo Belas Artes, garante que enquanto o filme tiver público, continuará em cartaz. Quem preferir, poderá assisti-lo em DVD. 


Thierry e Nicole


Medos Privados em Lugares Públicos foi baseado no livro "Private Fears in Public Places", de Alan Ayckbourn, aliás outra obra de Alan já inspirou Resnais em Smoking/No Smoking, 1993. Medos Privados em Lugares Públicos conta a história de seis personagens que estão de alguma forma interligados, porém nunca serão apresentados juntos em cena. O eixo central da trama está no relacionamento entre eles que acontece quase sempre de dois em dois personagens, alternando-se entre si, formando uma rede que define a trama central.







Gaëlle e Dan
Um final apoteótico, com o encontro de todos os seis personagens não é o objetivo de Resnais, que prefere oferecer a nós espectadores outras coisas como: as dores e os incômodos causados por conta desses relacionamentos. Dizendo assim, vocês podem até pensar que o filme é pesado demais, eu diria que é denso e belo, pois consegue mostrar com sensibilidade e profundidade,  seres solitários que se relacionam com alguém apenas para deixarem de serem sozinhos, aliás esse é um dos dilemas da humanidade. Esses encontros acontecem sempre em cenas internas de ambientes fechados como: um escritório imobiliário de vidro, um bar techno-kitsch, dois apartamentos pequenos e outros tantos que o corretor Thierry (Andre Dussollier), tenta encontrar para o casal, Nicole (Laura Morante) e Dan (Lambert Wilson).


Dan e Nicole
Os noivos, Dan e Nicole, vivem em crise e seus encontros são tão interessantes quanto os de Nicole e Thierry, o corretor de imóveis. Somente em poucos momentos do filme contracenam os três juntos, Nicole, Dan e Thierry. A opção do Fotógrafo, Eric Gautier, em filmar os apartamentos com uma grua chapada, expondo a planta dos cômodos que são divididos por paredes finas e inexpressivas, dá ao ambiente uma enorme sensação de frieza e desaconchego. Essa frieza dos apartamentos é reforçada também pelas cenas que mostram o inverno de Paris, pela neve que cai constante nas ruas (vista nos contra- planos). Os relacionamentos distantes e efêmeros das personagens contribuem com esse clima distante.



Gaëlle, Lionel e Dan no Bar

Gaëlle (Isabelle Carre), irmã de Thierry, é uma jovem solitária que consegue ser ao mesmo tempo carente e pudica. A personagem está sempre em dois lugares: chegando ao apartamento que divide com o irmão ou  sentada sozinha em um bar à espera de uma pessoa. Essas cenas do bar me fizeram lembrar Esperando Godot de Beckett.

O barman Lionel (Pierre Arditi) se relaciona com Dan, noivo de Nicole sempre no bar techno-kitsch em que trabalha Lionel. Esses encontros são meras conversas de bar e Lionel, o barman,  fala pouco com uma expressão quase congelada, como a dos jogadores de pôquer, ou seja,  imutável. Na verdade Lionel padece do mesmo problema todos os dias: precisa alguém para cuidar de seu pai doente enquanto trabalha.



Charlotte e Lionel

Lionel acaba contratando a cristã com ar misterioso, Charlotte (Sabine Azéma), que também trabalha com Thierry na imobiliária. Thierry e Charlotte trabalham juntos na imobiliária e Charlotte também trabalha para o barman Lionel. Dan, freqüenta o bar de Lionel que é noivo de Nicole e que conhece o corretor Thierry que trabalha com Charlotte. O ciclo se fecha quando Lionel contrata Charlotte para cuidar de seu pai. Charlotte trabalha na imobiliária durante o dia e cuida do pai de Lionel durante a noite. Outras relações serão formadas a partir desses encontros. O filme possui imagens expressionistas e surreais  e se passa em Bercy, uma área de Paris que foi grandemente renovada e modernizada, apesar de que esse fato não muda muito as cenas do filme, porém fortalece a idéia da Paris Moderna.

Enfim Viúva
Vale muito a pena assistir Medos Privados em Lugares Públicos, mas se saírem do cinema um tanto amargurados sugiro que se dirijam para o próximo cinema e assistam Enfim Viúva, (Enfin Veuve, 2007) uma comédia romântica francesa com direção e roteiro de Isabelle Mergault, em cartaz nos cinemas. Enfim Viúva é para vocês, leitores, aliviarem a tensão e ficarem com a sensação de que filme francês também pode ser leve e à toa. Também um bom filme.

Enfim Viúva

Assistam os Trailers:

Medos Privados em Lugares Públicos



Enfim Viúva



Assistam aos filmes franceses, Medos Privados em Lugares Públicos e Enfim Viúva.
Bom Filmes!


Kátia Peixoto é doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Mestre em Cinema pela ECA - USP onde realizou pesquisas em cinema italiano principalmente em Federico Fellini nas manifestações teatrais, clowns e mambembe de alguns de seus filmes. Fotógrafa por 6 anos do Jornal Argumento. Formada em piano e dança pelo Conservatório musical Villa Lobos. Atualmente leciona no Curso Superior de de Música da FAC-FITO e na UNIP nos Cursos de Comunicação e é integrante do grupo Adriana Rodrigues de Dança Flamenca sob a direção de Antônio Benega.










2 comentários:

andremelleroswald disse...

OI querida amiga....o mundo gira e nóis se afasta, mas ele vorta e nóis se vê de novo....como partículas quanticas estamos entrelaçados. Parabéns pela critica, quero ver esse filme a pelo menos três anos, agora fiquei na obrigação de vê-lo. beijo
jacó
ps: www.12dimensao.wordpress.com (meu blog sobre ciencia e tecnologia)
www.prefaciocultural.worpress.com (blog do adriano sobre, cinema, literatura e artes)

21 de outubro de 2010 09:44
CENEART disse...

Jacó amigo, que bom que a gente volta a se encontrar... beijos

21 de outubro de 2010 16:10

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