sexta-feira, 3 de setembro de 2010

As relações de poder em O Profeta e Estômago: O cárcere é o meu lugar.




Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões (...)
 (...) A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria, tenho mátria
E quero frátria (...)
(Caetano Veloso)


Estômago


O Profeta 
Cena de Estômago (Raimundo Nonato)
Quando assisti Estômago (2008), direção de Marcus Jorge, fiquei surpresa ao ver um filme brasileiro com cenas de cadeia bem menos pretensiosas e glamurosas que outras tantas que versam sobre o mesmo tema. Estômago, dá conta de contar uma história simples e direta sem medo de parecer redutiva. O enredo foca em algumas questões de poder estabelecidas dentro do cárcere, sendo a mais relevante: a estratégia encontrada pelo protagonista para conseguir se destacar e ganhar confiança e respeito dos demais detentos. Raimundo Nonato, o protagonista, tem uma meta: proporcionar prazer às pessoas usando sabores e iguarias distintas, amolecendo até os mais durões dos humanos. Nonato consegue agradar pelo estômago, prática antiga; peguei-o (a) pelo estômago. Ele é um bom cozinheiro, usa os temperos e aromas para “pegar” todos pelo estômago.
Malik em O Profeta 
Quando assisti o filme francês O Profeta (2009), direção Jacques Audiard, há poucos dias atrás, senti a mesma sensação que tive ao ver Estômago. Talvez a parecença entre os dois filmes esteja na construção das personagens principais: Malik El Djebena, o protagonista-narrador analfabeto, meio árabe, meio córsico, em O Profeta, e Raimundo Nonato, imigrante nordestino vindo de Curitiba, em Estômago. As duas personagens não apresentam raízes étnicas bem definidas e conseqüentemente sentem-se depreendidas de costumes religiosos, sociais ou culturais. Assim sendo, podem caminhar entre espaços e  grupos fechados distintos com certa tranqüilidade e autenticidade. Antes do espaço da prisão não possuíam um lugar, uma pátria, um gueto que os merecessem. As personagens são circunstanciais e se adaptam ao meio conforme necessidades próprias. As habilidades das personagens, tanto em O Profeta como em Estômago, são a frieza e a coragem, audácia e perspicácia, advindas principalmente do não lugar, oriundas da falta de credibilidade em suas origens e em seus laços familiares. Esses fatores de desapego, fazem com que eles se sintam sem uma frátria e/ou pátria. Falta-lhes princípios éticos e morais definidos, sobram-lhes a frieza de um  enxadrista.
Malik
Raimundo Nonato e os companheiros de cela
Como camaleões, inseridos no espaço claustrofóbico da prisão, Malik El Djebena em O Profeta e Raimundo Nonato em Estômago, se apropriam da pátria, da língua, dos costumes dos lugares dos quais querem conquistar o poder. A não lugaridade os fazem suscetíveis às transformações. Adaptam-se a cadeia, pois para eles é o meio ambiente adequado (Mc Luhan) para exercerem a capacidade de percepção do outro (outrificação). Frios e contundentes, conseguem arrancar da tristeza da solidão às suas próprias identidades. A cadeia lhes proporciona a condição ideal para exercerem suas territorialidades.
Esses filmes tratam mais da espacialidade, da lugaridade, do que da temporalidade, apesar de O Profeta se situar na virada do milênio, quando a União Européia adota a moeda única. Na cadeia, Malik vive entre dois grandes pilares de poder:  a  dos mafiosos ítalo-franceses da Córsega e dos muçulmanos franceses. Pela presença marcante dessas diversidades, vindas dos ancestrais de Malik, somado ao seu desapego aos princípios culturais dessas duas comunidades dominantes na prisão, ele sente-se livre para construir seu próprio lugar,  aproveitando-se das circunstâncias, ora com os muçulmanos franceses, ora com os córsicos para atingir seus objetivos.
Em Estômago, Raimundo Nonato é uma ser que vem de lugar nenhum, ele está conquistando novos espaços e respeito. O domínio do lugar é efetivado a medida em que Nonato consegue mudar o cotidiano dos lugares e consequentemente das pessoas, via o prazer de comer bem. Por não pertencer a um grupo de valores determinados, a personagem constrói sua lógica individual e a aplica naquela comunidade carcerária. É interessante notar como Malik em O Profeta e Raimundo Nonato em Estômago são frios e montam estratégias inteligentes e eficazes para estabelecer o poder mediante o lugar.
O Profeta revive cenas da máfia que no filme é representada por César Luciani (Niels Arestup), o líder da facção dos córsicos. Malik passa a ser protegido por eles,  em troca deve realizar algumas missões para a máfia. Com questões mais complexas que ultrapassam os muros do presídio e invadem o cenário europeu da virada do milênio, o filme também dá conta de pensar no ambiente de fora do cárcere,  como observa Bruno Cava em seu comentário no Quadrado dos loucos:

“Como comentário de seu tempo, O Profeta sublinha o crescente contingente de imigrantes islâmicos, vindos do Oriente Médio ou do norte da África. Multidão que se organiza e gradativamente aumenta a sua força. Êxodo dos outrora colonizados que põe em risco o pacto norte-sul, implodindo a divisão capitalista do trabalho entre os hemisférios. Por isso mesmo, tais imigrantes --- assim como os árabes do filme --- enfrentam o racismo das direitas na Europa. O fenômeno Sarkozy, por exemplo. No longa, a ascensão dos imigrantes conclui-se na tomada do poder sobre os corsos, dentro e fora da prisão --- sucede a vitalidade do Islã a "ameaçar" o Ocidente branco e cristão” (Bruno Cava em Quadrado dos loucos).



Tanto em Estômago com em O Profeta, os protagonistas não possuem nação, laços familiares e tradições. Estão livres para se lançarem no mundo das possibilidades, invadindo os espaços e estabelecendo neles seus próprios princípios, conquistando o domínio do poder.
Assistam aos dois filmes, vale a pena.

Bons filmes!

A seguir os traillers:

Estômago 

O Profeta 




Kátia Peixoto é doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Mestre em Cinema pela ECA - USP onde realizou pesquisas em cinema italiano principalmente em Federico Fellini nas manifestações teatrais, clowns e mambembe de alguns de seus filmes. Fotógrafa por 6 anos do Jornal Argumento. Formada em piano e dança pelo Conservatório musical Villa Lobos. Atualmente leciona no Curso Superior de de Música da FAC-FITO e na UNIP nos Cursos de Comunicação e é integrante do grupo Adriana Rodrigues de Dança Flamenca sob a direção de Antônio Benega.

3 comentários:

Matias disse...

Parabéns!! muito boa a idéia de colocar os dois filmes lado a lado, assisti os dois filmes é são excelentes, sobre tudo o Profeta, uns dos melhores filmes que já assisti.

3 de setembro de 2010 12:03
Leo disse...

Ótima equiparação entre as duas personagens..! Vale mesmo assistí-los!

4 de setembro de 2010 00:25
Katia disse...

Se "O Profeta" tem a mesma caracteristica do "Estômago" com seu personagem principal , Nonato, simplista e ao mesmo tempo tão marcante, valerá a pena assisti-lo. Equipara-los demonstra muita sensibilidade de quem esta coluna escreve.Com certeza vou conferir...

5 de setembro de 2010 09:59

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