sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Especial XIV ENEArte - Observando o Master




Comunicamos que por dificuldades técnicas e pessoais, infelizmente não foi possível publicar a coluna de ontem. Pedimos desculpas aos nossos leitores pelo transtorno. Hoje damos sequência à nossa programação especial.



O objetivo deste artigo é analisar o documentário Edifício Master de Eduardo Coutinho. Para isso, buscamos primeiramente, entender o que seria um documentário. Em seu livro Introdução ao documentário, Bill Nichols, cineasta norte-americano, nos mostra uma visão geral dessa forma de fazer cinema. Segundo ele, os documentários:

Abordam o mundo em que vivemos e não um mundo imaginado pelo cineasta, os documentários diferem, de maneira significativa, dos vários tipos de ficção. Eles estão baseados em suposições diferentes sobre seus objetivos, envolvem um tipo de relação diferente entre o cineasta e seu tema e inspiram expectativas diversas no público.[1]

Os primeiros filmes documentários foram os filmes produzidos pelos irmãos Lumière, a partir de 1885 como: Saída dos trabalhadores das fábricas Lumière, A chegada do comboio à estação, O regado e O almoço do bebê, que serviram como “origem” do documentário. Esses filmes pareciam registrar o cotidiano conforme ele acontecia, um dos primeiros temas abordados pelo documentário e no filme Saída dos Trabalhadores das fábricas Lumière.

As produções do cinema documentário brasileiro são indissociáveis do nome de Eduardo Coutinho. Diretor de filmes como Cabra marcado para morrer, Santo Forte e Edifício Master (filme que iremos apresentar), seu tema essencial são as entrevistas, porém o próprio Coutinho gosta de chamar essas entrevistas, de conversa que realiza com pessoas desconhecidas, anônimas. Seus trabalhos são preenchidos por uma sucessão delas.[2]

Edifício Master surgiu, com a ideia de Consuelo Lins [3], de realizar um filme em um prédio no bairro do Leme, no Rio de Janeiro, porém o prédio estaria um pouco fora do que Coutinho realmente gostaria de fazer, pois o prédio era situado na Avenida Atlântica, e seus moradores tinham um poder aquisitivo elevado. O que Coutinho procurava era a classe média, com indivíduos concretos. Então Eliska Altman, que tinha participado da equipe de Babilônia em 2000, propôs que o edifício fosse o Master, localizado em Copacabana, prédio no qual ela havia morado. O prédio teria sido, há alguns anos, ponto de prostituição e estaria passando por uma transformação para se tornar um prédio “familiar” como iremos ver no depoimento do síndico do prédio, que teria aceitado as filmagens em nome da cultura. O Master tem 12 andares, com 23 apartamentos por andar. Ao todo, 276 apartamentos conjugados.[4]

Antes de começar a filmagem, a equipe de produção realizou uma pesquisa para confirmar ou não a viabilidade do trabalho. Alugaram o apartamento 608 no edifício, em julho de 2001. A equipe era composta por cinco pesquisadores, que colocaram um aviso na portaria do edifício informando sobre as três semanas de pesquisa. Com o auxílio do síndico e do porteiro, foi passada uma lista entre os moradores que eles consideravam mais interessantes. A partir daí, a equipe fez um mapa com os números dos apartamentos e dividiu os andares entre duas equipes para começar as visitas.[5]

O documentário tinha o título provisório de Copacabana 2001. Foi editado, exibido em 110 minutos, padrão estabelecido muitas vezes pelos filmes de longa-metragem. E o que é bem interessante é o fato de que o bairro não aparece e nenhuma imagem de rua, lojas ou calçadas, a única coisa que se vê além dos apartamentos são janelas.

No filme os entrevistados, ainda que não se conheçam ou, se conheçam muito pouco, são entrelaçados por compartilharem de uma mesma geografia. Com este documentário, Coutinho mostra um pouco das experiências humanas sem que as particularidades de cada pessoa sejam apagadas, ele permite que elas se expressem e cada cena é uma história reveladora, que nos chega através das entrevistas feitas por Coutinho acompanhado de sua equipe. Percebe-se que ele gosta de mostrar o poder que o cinema tem sobre os homens e a sociedade, que o filme é uma representação do real.

Eduardo Coutinho, diretor de Edificio Master.
Esse filme mostra um pouco dessa relação do cineasta com os personagens que retrata. É desfeita a distância entre sujeito o objeto que fazia parte dos primeiros documentários. Eduardo Coutinho não filma para produzir conhecimento no sentido conceitual. Ele mostra apenas rostos e vozes que são livres. O interessante também, é que pessoas totalmente anônimas se tornam personagens principais do filme. O que pude perceber no filme é que mesmo com um monte de histórias diferentes um sentimento me pareceu comum entre os moradores: a solidão. Mesmo com histórias alegres ou tristes ela sempre esteve presente nos depoimentos. Como no caso de uma senhora chamada Esther, mesmo ela falando que nós devemos nos amar, se não quem irá fazer isso, ela demonstra claramente um sentimento de solidão em relação a tudo o que ele viveu, é muito bonito seu relato.

Veja a entrevista de Ester:

1- NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. São Paulo: Papirus, 2005, pág. 17.
2- A entrevista como método: uma conversa com Eduardo Coutinho, por Fernando Frochtengarten, Mestre e doutorando em Psicologia Social, Departamento de Psicologia Social e do Trabalho, Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.
3- Professora associada da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisadora da área de Comunicação
4- Filme: Edifício Master, Brasil. Eduardo Coutinho. 2002.
5- Idem.



Talita Barbosa Gomes de Araújo é estudante de graduação do curso de História da Universidade Severino Sombra (Vassouras- RJ) e editora-assistente da Contemporâneos - Revista de Artes e Humanidades.

1 comentários:

ContemporARTES disse...

delicada analise... com o toque talita de ser. amei as palavras de esther...espantando a solidao e os fantasmas de uma grande metropole. bjs ana

1 de outubro de 2010 11:59

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