sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Tropa de Elite 2, osso duro de roer.....








Todo filme é uma obra de criação e como tal denuncia sua subjetividade na mão forte do criador...  não importa se o produto final é intitulado de documentário ou ficção. Certa vez durante uma aula, depois de algumas considerações do professor Arlindo Machado,  um aluno perguntou: Arlindo, como  se reconhece um filme documentário mediante tantas objeções e conceitos distintos atribuídos a esse gênero? Ele respondeu sorrindo: Se o realizador for um documentarista então o filme é um documentário.
Tropa de Elite 2 começa com estes dizeres: “Este filme é uma obra de ficção portanto .. blá, blá, blá ......” Com a utilização de atores e esse texto acima antes de iniciar o filme, seus criadores se eximem da responsabilidade das autorias dos crimes e castigos, que poderiam ser atribuídos a vários autores.... bela sacada do diretor. No entanto, a alusão à realidade é muito intensa durante todo o filme; na criação das personagens, na história, nos cenários ou nas situações apresentadas. O “documentarista” José Padilha mandou bem.
















José Padilha é produtor, diretor e roteirista de filmes documentários e ficcionais, ele tem essa coisa de produzir nos dois gêneros com a mesma levada: a da seriedade e do compromisso social. Seus filmes são como tapas na cara da sociedade, como podemos ver em Os Carvoeiros, 1999 e em Garapa (2008), documentários premiadíssimos. Nos filmes de ficção ele conserva o mesmo intuito: Ônibus 174, 2002 e Tropa de Elite e Tropa de Elite 2, 2007, 2010, respectivamente. 



Em Tropa de Elite 2, o casting de primeira faz a diferença, e ao meu ver, alguns atores dão o tom do filme: Wagner Moura conduz a personagem do Tenente Coronel Nascimento com extrema naturalidade tornando-a muito convincente. O talentoso músico e ator, Seu Jorge surpreende mais uma vez com sua pegada forte dando visibilidade a personagem Beirada. Seu Jorge já participou em seriados de TV e em vários filmes como: Cidade de Deus, 2002 como Mané Galinha … Amparo de Jesus, 2008 e outros. Outra atuação impressionante foi do ator André Mattos na pele da personagem Fortunato, um apresentador de TV, daqueles de programas sensionalistas estilo Datena, que leva o público a dar aquela risada dolorida: rir da própria  desgraça. 
Outro fator que merece destaque no filme é a trilha sonora,  com a música da banda de rock Tihuana, Comboio do Terror, acerta mais uma vez e define o slogan do filme: Tropa de Elite 2 osso duto de roer..... Outros nomes do rock  dão ritmo ao filme, como: Paralamas do Sucesso, com O Calibre, O Rappa, com Tribunal de Rua, Legião Urbana, com Que País é Este? e Cazuza, com Brasil. Ainda tem Marcelo D2, (Candidato Caô Caô), Mc Leonardo e Junior (Tá Tudo Errado), Leci Brandão (Zé do Caroço) e Zeca Pagodinho (Quem é Ela).
Mediante tantas matérias escritas sobre o filme, não queria que o leitor da Contemporartes padecesse ao ler repetições daquilo que já está publicado em jornais, revistas e afins,  então tive uma idéia fascinante para acrescentar algo de novo e relevante ao nosso debate fílmico. Que tal um antropólogo para falar do filme? Então convidei o Leandro Daniel que resolveu dar sua contribuição e escreveu especialmente para a coluna AS HORAS. Aproveitem e acompanhem a leitura.

Leandro Daniel Santos Carvalho é formado em Ciências Socias pela USP, bolsita CNPQ - INCT, no NEV (Núcleo de Estudos da Violência da USP ).

Tropa de Elite 2 atropela qualquer resquício de inocência. Apesar da lembrança irônica, no início do filme, que  nos avisa que o filme é uma obra de ficção, o que vemos até o último minuto é uma alusão mais que direta à pura realidade, se ela existe. Personagens, situações, objetos inseridos no filme, falas, todos elementos com referência à acontecimentos ligados a segurança pública no Rio de Janeiro.
E ele aborda questões delicadas, vamos dizer assim. Investiga quem são os grandes diretores da guerra cotidiana abordada em Tropa 1. Do 1 para o 2, distando 15 anos terrestres entre um e outro, existem diversos pontos de virada: a paulatina conscientização da personagem do Capitão Nascimento (agora tenente-coronel Nascimento), a mudança estrutural na política do crime no Rio e  a transformação da tragédia de uma escala micro em uma de grandes proporções.
O filme mexe com questões de valores, busca culpados, provoca o espectador. Isso não é novo, mas a forma que o filme adota, tendo o Nascimento como fio condutor, nos faz entrar na pele da personagem, que se atraca com todos os fatores que compõem sua existência. E, se pensarmos bem, o filho do capitão torna-se uma peça central nessa continuação do primeiro para o segundo filme.
Vamos descortinando os envolvidos, refazendo as ligações, tudo isso guiado pelo grande personagem representado por Wagner Moura, um monstro em cena. 


Milícias ou máfias?


O filme aborda o que seria o surgimento das chamadas milícias no Rio, nome que foi adotado pelos meios de comunicação nos fins de 2006. Tratam-se basicamente de grupos armados irregulares formados por agentes do Estado, como policiais militares e civis, bombeiros, guardas civis (quase sempre associados a políticos), que utilizam um discurso de proteção aos habitantes como argumento para estabelecer o controle coativo em determinado território.
Apesar de parecer um fenômeno  recente, é de conhecimento de todos a ocorrência de grupos de extermínio desde a década de 70, preponderantemente na Baixada Fluminense. Esses grupos, também compostos por agentes do Estado, eram amparados por comerciantes, empresários e políticos, que se beneficiavam publicizando seus feitos de “limpeza” (execuções sumárias).
As chamadas milícias “abocanham” toda uma parcela de poder quando implementam, através da força e do medo, o domínio de comunidades. Esse poder passa de “mão em mão”, distribuindo lucros, influências e prestígios.
Desde o controle de instalação de TV a cabo clandestina, cobrança de taxas por serviços, negociações com pessoas envolvidas com tráfico de drogas e armas, bicheiros, até o fino trato com deputados e vereadores, alçados eletivamente a seus postos graças a esse apoio. As chamadas milícias, apesar de sua dinâmica de posições e meios de atuação, tem como fator central o estabelecimento de uma rede que tem seu nó fundamental no Estado: por ele e pela sua falta elas devem sua existência. Nas comunidades o Estado é deficitário, abrindo espaço para esse poder paralelo; mas ele é realmente paralelo, já que ele é alimentado pelo próprio Estado?
Nesse sentido que as “milícias” assimilam-se às máfias, tal qual conhecidas na Itália, atuando no intercâmbio entre legal e ilegal, dentro e fora do Estado, tudo isso acobertado por uma cortina de fumaça, que nem é tão densa assim. O filme nos joga isso na cara, sem pena...as respostas? Saídas? Muito debate, informação e ação...
Indicação de leitura para saber sobre o tema:

Coletânea de artigos “Segurança, tráfico e milícias”, organizada pela Justiça Global e com apoio da Fundação Heinrich Böll

Filmes relacionados com o tema:

                                   Gomorra, 2008 (Itália)
O Profeta, 2009 (França), já citado em coluna anterior.

Filmes de grande sucesso no Brasil serão sempre ligados a sangue?
Ou à Globo Filmes?

Bom filme!


Kátia Peixoto é doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Mestre em Cinema pela ECA - USP onde realizou pesquisas em cinema italiano principalmente em Federico Fellini nas manifestações teatrais, clowns e mambembe de alguns de seus filmes. Fotógrafa por 6 anos do Jornal Argumento. Formada em piano e dança pelo Conservatório musical Villa Lobos. Atualmente leciona no Curso Superior de de Música da FAC-FITO e na UNIP nos Cursos de Comunicação e é integrante do grupo Adriana Rodrigues de Dança Flamenca sobre a direção de Antônio Benega.


5 comentários:

Filipe disse...

O texto está MARAVILHOSO, e agora fiquei com ainda +++... vontade de assistir !!
:-)

29 de outubro de 2010 20:32
edel disse...

Gostei muito da matéria generosamente enriquecida com o texto de Leandro Daniel.Edel Elliott

1 de novembro de 2010 21:06
Luciano Fortunato disse...

filipe, o texto está bem legal. você teve - e expressou de forma bastante autoral - boas idéias. e, cá entre nós: o padilha teve em mente um "documentário disfarçado", não é?

3 de novembro de 2010 12:42
CENEART disse...

Luciano, obrigada pelo comentário também acredito que o documentário "disfarçado" é um dos caminhos para expressar o cotidiano de forma mais livre e solta. Ah, o texto foi escrito por mim e pelo o Leandro..... bjs e continue acompanhando a coluna, vi que vc gosta bastante de cinema. Obrigada.

3 de novembro de 2010 22:14
Patrícia Hipólito disse...

O texto está ótimo!!!
Há um paradigma: Tropa de Elite 2 rendeu 600 cópias em todo o Brasil, o que é muito difícil, pois a Publicidade acaba sendo um dos últimos tópicos lembrados pela 'direção do filme' no momento de gastar o dinheiro do Patrocínio. 600 cópias significa muito dinheiro, cinema significa muito dinheiro, mas de onde tiraram tanto dinheiro para 600 cópias?? Essa é a pergunta de todos os cineastas do Brasil. Mistério... Se 'Hotel Atlantico' da Suzana Amaral, gastou cerca de 2 milhões e meio e não rendeu Publicidade e não foi lançado no Mercado, como lançaram 600 cópias de Tropa de Elite 2? Quanto dinheiro foi investido? Qual o segredo??

15 de novembro de 2010 20:41

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