segunda-feira, 6 de abril de 2015

GRAVADOR OU GRAVURISTA?





GRAVADOR OU GRAVURISTA?



      Semana passada, atropelado pelo calendário e 
pressionado pela  absoluta falta de tempo e  de inspiração para escrever, deixei de publicar meu segundo  texto  na coluna Art&fato, nesta conceituada revista eletrônica. Decidido a me  penitenciar dessa “falha literária”, vasculhei arquivos antigos e   encontrei, em esquecida gaveta de minha desorganização cotidiana, um estudo  que iniciei  na EMBAP - Escola de Música e Belas Artes do Paraná,  abordando  a polêmica sobre duas expressões de uso corrente dos amantes do ofício da gravura:  gravador e gravurista e resolvi publicá-lo. O  assunto  é  árido e sempre causa confusão e  críticas, mas esse é o objetivo de quem escreve:  provocar reações. 
              A maioria dos  aficionados da arte da gravura sequer admitem  a menção do termo gravurista , que consideram  pejorativo e inadequado. O argumento mais forte que utilizam esses artistas, entre os quais destaco meu professor de xilogravura e amigo, grande mestre André de Miranda,  é que gravura é a arte de gravar, sulcar,  marcar a matriz de madeira ou  metal. O  artista grava, isto é, faz sulcos, marcas na  placa ou chapa que vai ser impressa depois, o que resulta numa estampa onde  a imagem aparece invertida. Portanto, o artista que grava só pode ser   gravador.  O  termo gravurista,  para eles,  não caracteriza adequadamente  esse ato de gravar, sulcar ou  marcar   a chapa ou placa.  Parece  termo  frouxo, mais conveniente  a  quem  coleciona ou aprecia  gravura, ou àquele que faz  cópias em xerox ou  por outro meio fotomecânico  de pinturas ou desenhos.  Não representa, portanto, o  artista que faz gravura.   
       Acontece que  termos  e expressões linguísticas não levam em conta argumentos, mesmo sendo  legítimos. É o uso corrente que faz com que se popularizem ou sejam erradicados da língua e nem sempre  o mais adequado  predomina. Às vezes permanece em uso aquele que mais chama a atenção ou  que tem pronúncia e escrita mais fáceis. Os  livros especializados de gravura   que pesquisei  utilizam invariavelmente  o  termo gravador. Por outro lado, os   textos   de jornalistas, comentaristas, marchands e escritores em geral referem-se aos artistas da gravura, quase  sempre, como  gravuristas. Na  internet, o termo gravurista aparece  com destaque para denominar quem pratica o ofício da gravura. No Wikipédia, por exemplo,  assim que se digita o termo gravador,  aparece a  seguinte  nota: Se procura o artista que faz gravuras, veja Gravurista. O Gravador é um dispositivo eletrônico, criado para registrar e reproduzir sons em uma fita magnética. No conhecido e apreciado livro  A Gravura, de autoria de Jordi Catafal e Clara Oliva, da Editora Estampa,  de Lisboa, edição 2003, na página 11,  que trata da definição de gravura e estampa original, o termo gravador aparece  na 1ª linha:  “Quando o gravador concebe e realiza a gravura”;  e, ainda,  na 5ª e 6ª linhas : “… executada pelo mesmo gravador”.  O excelente  manual   Gravura em metal, organizado por  Marco Buti e Ana Letycia , da Editora Edusp, ed. 2002, na página 16 registra: “… o gravador trabalha com probabilidades, e não com certezas”. Também o pequeno mas  importante  livro  A gravura, de Iberê Camargo, mestre dos mestres de gravura, registra na página 13 o termo gravador: “… para um gravador o que importa é examinar a obra dos mestres…”. O termo é citado ainda  na  coletânea  Gravura brasileira hoje – Depoimentos, volume III, da Oficina de Gravura  Sesc – Tijuca – RJ, pág. 14,  no Informativo do Núcleo de Gravura do Rio Grande do Sul, Ano III, nº  9, agosto 2003, pág. 3, e no livro A arte maior da gravura, de Orlando da Silva, pág. 18, e  ainda na Coletânea Brasileira na Coleção Mônica e George Kornis, edição da Caixa Cultural, ano 2008. Vários outros livros e manuais de gravura registram o termo ( a relação completa ficaria por demais extensa e cansativa), mas o fato denota que os profissionais da área preferem o termo gravador, pelo motivo exposto no início deste texto.   
    Quanto aos dicionários, consultei  os mais utilizados na atualidade.  Apenas dois não registram o termo gravurista: o  Dicionário  Michaelis – Moderno Dic. Da Língua Portuguesa, Edit. Melhoramentos, ano 2002, pág. 1052, registra  apenas gravador: adj. (lat gravatore). Que grava. S.m. 1 Aquele que grava em madeira, aço, cobre, prata etc;  Dicionário  Brasileiro da Língua Contemporânea Caldas Aulete, volume III, da Edit. Delta, 5ª ed., ano 1986, pág. 956, também registra somente o termo gravador, na mesma acepção. O Dicionário Aurelio da Língua Portuguesa, Ed. Positivo, 5ª ed. , ano 2010, registra  gravador, pág. 1051, e gravurista, pág. 1053:[de gravura + ista]S. 2g. "Pessoa que exerce a arte da gravura", e abona o uso com a  seguinte citação da jornalista Marília Martins, do Jornal do Brasil, em 14.04.1992: “A retrospectiva da gravura brasileira parte dos anos 30 e percorre os anos seguintes marcados pela regionalização dos núcleos de gravuristas.” Isso  significa que a abonação foi dada por pessoa leiga no assunto. O Dicionário  Houaiss da Língua Portuguesa, Edit. Objetiva, 1ª ed., 2009, pág. 988, registra os dois termos citados, apresentando gravurista como substantivo de dois gêneros, no sentido de “artista especializado nos processos de gravura”. Já o termo gravador, na pág. 987, é apresentado com um verbete bem mais específico e de acordo com a atividade de gravar em placa ou chapa de matéria dura. O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, Edit. Global, 5ª ed. 2009, pág. 411, registra os dois citados termos como de uso corrente na língua. Por fim, encontrei ainda registros dos dois termos  no Dicionário de Usos do Português do Brasil, Edit. Ática, 1ª ed., 2002, de Francisco S. Borba.   
    As consultas referidas  anteriormente apontam  a  preferência clara  do meio artístico pelo termo gravador, nos manuais, livros de gravura, coletâneas, apostilas etc., enquanto  os dicionários  reforçam  a questão do uso  corrente da língua, demonstrado pelos registros de ambos os termos em verbetes,  abonando  tanto um quanto outro. A  Arte abrange um círculo social  muito vasto, a nomenclatura artística  não é veiculada apenas por artistas,  atinge também o público aficionado por arte, admiradores,  galeristas, marchands, colunistas etc.  Esse vasto universo de pessoas é que dita o uso  dos termos linguísticos,  no tempo e no espaço. Por mais que artistas prefiram usar  gravador na fala  cotidiana e em seus escritos,  essa preferência  não é suficiente para fazer com que o termo gravurista perca espaço e  deixe de ser usado.     
   A polêmica é fruto da natureza humana, e no meio artístico não é diferente: artistas são temperamentais e às vezes os ânimos se  acirram.  Nessa disputa, acredito que  só  o tempo vai  mostrar qual dos  termos  permanecerá  em uso no futuro. O provável é que permaneçam os dois. Mas, para os artistas, o que importa não é serem   chamados gravadores ou gravuristas: o importante para nós artistas é continuarmos a fazer gravuras.


Thelmo Olisar Silveira

Thelmo Olisar, natural de Porto União-SC, é graduado em Letras, bacharel em Gravura pela EMBAP e pós-graduado em Arte-Educação. Foi ilustrador gráfico e revisor de textos do Departamento de Ensino da SME de Curitiba-PR. Como artista plástico, participou de coletivas, individuais  e salões, com  premiações. Como professor, atuou em colégios particulares de Curitiba e S. Paulo e na rede pública estadual do Paraná e da Prefeitura Municipal de Curitiba-PR. Foi revisor do jornal O Estado de S. Paulo e redator do BCN-SP. Atualmente, desempenha funções de consultor gramatical do serviço de Telegramática, da Prefeitura Municipal de Curitiba-PR.

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