domingo, 17 de abril de 2016

A solidão das próprias ideias.



Hoje é um dia de muita importância para o país, todos sabemos que está em processo o impeachment da presidente... não é fácil, muitas opiniões divergentes e neste pé a maioria quase absoluta já tem formada sua convicção a respeito do que considera melhor e não me cabe tecer qualquer comentário ou doutrinar a respeito.
Contudo, é difícil não falar sobre isso, é difícil ficar em silêncio num momento tão decisivo e todos: mesmo os naturalmente comedidos, sentem um pouco o nó na garganta e, talvez, no coração, de ver rechaçada por praticamente metade da nação, suas opiniões políticas - pois é assim que estamos hoje, tanto faz se insertos na esquerda (qualquer grau de esquerda) ou na direita (também em qualquer grau. Um único pensamento que se adeque a um dos lados já é suficiente para que você seja incluído em um grupo mesmo que divirja de outras muitas coisas daquele grupo, todos sabemos).
Eu particularmente, principalmente neste último ano, tenho aprendido muitas coisas. Poderia ter sido um aprendizado "colado" da convivência de pessoas mais ligadas do que eu na espiritualidade ou apreendido de uma religiosidade qualquer, mas não foi. Foi um aprendizado, como a maioria dos aprendizados eficazes, oriundo da dor, solidão e trabalho. E dele adveio um conhecimento muito novo, de dentro para fora, portanto, real, a respeito do silêncio.
Sou uma pessoa voltada para o silêncio, não sou avessa à minha própria companhia, é necessário para mim ouvir a voz do coração, caminhar sozinha no parque, estar perscrutando a mim mesma enquanto escrevo uma poesia ou uma história. Mas também adoro a companhia alheia, especialmente se ela me enaltece, se ela me alegra, deixa a vida mais easy. E ser aceita, para mim, como para a maioria das pessoas, era uma coisa importante, estar integrada com o grupo...
Contudo, a vida inteira tive que lidar com a rejeição, com a não-aceitação do outro ou do grupo, sempre com um sentimento de decepção e, talvez, de revolta. Mas nos últimos tempos isso tem se transformado. Tenho me apropriado de um conhecimento que diz que essa relação com o outro é muitas vezes prazerosa, mas não essencial. Que a relação vital é a vertical, do indivíduo para o ser superior que o orienta, e não a horizontal. E isso tem me fortalecido muito:  não ser imprescindível a aprovação do outro e até o convívio, é libertador e, de certa forma, vai ao encontro do que eu já fui, uma menina um pouco solitária, ensimesmada e, até por isso, incompreendida e algumas vezes excluída.
Não importa! A relação verdadeira, a que importa, a que engrandece e sustenta é divinal. É encontrada no silêncio e na prece e o que se procura fora, no céu, no espaço, não está lá, mas dentro, e o caminho mais fácil de alcançá-la é estar atento e conectado com a própria essência, sem medo da exclusão, da ausência ou da incompreensão do outro.
Falo isso porque casa bem também com os acontecimentos políticos de hoje e deste período do Brasil e com o fato de sermos rechaçados nas nossas opiniões hoje, por uns ou por outros, às vezes sozinhos na nossa convicção dentro do grupo a que "pertencemos", seja porque adeptos da ideia de outro grupo ou porque, simplesmente, não compartilhamos de tudo o que esse grupo argumenta.
Que possamos no dia de hoje e cada vez mais, conectar-nos com o deus interno, ouvir a voz do silêncio, a verdadeira espiritualidade, a opinião do nosso íntimo e estarmos seguros de que a solidão é ilusória: quando nos apropriamos dela o que surpreendentemente descobrimos é a libertação e a autonomia do ser.
Como seres cada vez mais autônomos, que formemos nossa própria opinião, que não nos sejam vendidas ideias prontas e que tenhamos cada vez mais coragem de encarar a solidão de pensar por si mesmo.
Boa sorte ao país!






Larissa Germano é autora de "Cinzas e Cheiros", e escreve nos blogs Palavras Apenas (naoapenaspalavras.blogspot.com) e Nunca Te Vi Sempre Te Amei (cafehparis.blogspot.com), tem perfil no facebook e no twitter e a página Lári Prosa e Trova no facebook. É também compositora intuitiva e tem perfil no Sound Cloud e Youtube.

Para adquirir o livro Cinzas e Cheiros, independente, entre em contato com a autora pelo email: slariger@hotmail.com. Remessa pelo Correio).


  

2 comentários:

Daniela Gerevini disse...

Nascemos e morremos sozinhos, contudo, o medo da solidão nos remete a vidas vazias e sem sentido. Estar de bem a sos consigo tem sido para poucos, pois é muito mais facil criticar o outro. De coração espero que a mudança aconteça, mas com certeza seria mais eficaz se partisse de dentro de cada um de nós. Ótima observação a sua Larissa, parabéns!!!

17 de abril de 2016 09:11
Daniela Gerevini disse...

Nascemos e morremos sozinhos, contudo, o medo da solidão nos remete a vidas vazias e sem sentido. Estar de bem a sos consigo tem sido para poucos, pois é muito mais facil criticar o outro. De coração espero que a mudança aconteça, mas com certeza seria mais eficaz se partisse de dentro de cada um de nós. Ótima observação a sua Larissa, parabéns!!!

17 de abril de 2016 09:12

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