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Põe um som aí Deejay



Hoje dividirei com os leitores um pouco da minha trajetória como Deejay. Óbvio que inicialmente tive influência da minha família que sempre agitada, fazia freqüentes visitas aos parentes e amigos, aos feriados prolongados viajávamos para a casa do meu tio na praia e subíamos de fusca azul a Serra do Mar, cantando.

Sou caçula e tenho duas irmãs, meu pai Edu, tinha a coleção completa em discos do The Beatles, além de outros artistas de rock, principalmente, nacional. Minha mãe Dio, no geral, gosta música popular brasileira e de alguns 'sons do momento', assim como minhas duas irmãs Nadia e Daniela.

Bisa Dalila, dança muito aos 92 anos. 


Fiz aula de canto lírico no Budismo e tive algumas aulas de piano, mas parei de praticar e até hoje ainda não desenvolvi, luto para ter tempo e grana para investir em ambos aprendizados. Me recordo que com as raquetes de tênis, eu e minha prima Natália imitávamos a banda Secos e Molhados:


Depois ampliei meus conhecimentos com os amigos das minhas irmãs. Um deles é o Ronaldo Vetro, hoje meu amigo também, lembro das festas que ele fazia, chamavam de "bate cabeça", junto com meu pai os levava até lá, via os discos, as caixas de som e, mais ou menos 10 anos, já me interessava.

Ronaldo Vetro e So Xing


Por volta dos 12 anos, o ex-namorado de uma amigona, a Daniela Bianco, me deu uma fita com artistas do rock fim dos anos de 1970 - pós punk. Gostava daquela ritmo com ruídos e linhas de baixo, guitarra e bateria.


Nasci e morei até os 18 anos em SBC, convivia lá com vários amigos do bairro gostavam de reggae, ska, hard core… comecei a ouvir e ir à alguns shows das várias bandas independentes, aqui da região do ABC, inclusive algumas ainda resistem na luta da produção musical: BaboomDance of Dance, Sapo BanjoSuper Chaiz… 



Tive uma decepção amorosa e passei por um processo de metamorfose… Comecei a me relacionar com outras pessoas, freqüentar outros lugares. Esta época tinha uns 15 anos, ia para um clube que tocava eletrônico e rock em São Caetano, o Atlanta.

Toca da Haninha - Foto Reggie
Depois recebi um convite do  Luciano Felix para ir à uma festa rave de: techno e fui… Foi contagiantente energicamente falando, queria mais momentos iguais aquele. Comecei a freqüentar clubes underground em SP. Até que tive um convite para trabalhar no Bar do Susi In Transe fazendo drinks e como precisava de grana, aceitei.

Carnaval na Toca da Haninha - Foto Reggie
Lá conheci muitas pessoas que vivem da música, de festas. Comecei a freqüentar outros clubes, festas nas casas dessas pessoas e também a tentar remixar nesta época com influência de um dos pioneiros Deejays de SP, o Julião

Festival de Inverno Paranapiacaba - 2011
Saí do Susi e comecei a trabalhar no Dedge, como promoter da festa MotherShip com o China e o Techjun, depois comecei a trabalhar eventualmente em outras festas.



Undercover - Rocker club
Heat - Club SPKZ
Sundaway - Livraria da Esquina

Iniciei a graduação em Ciências Sociais no CUFSA e perder noites de sono em festas não estavam sendo mais saudáveis, muito menos produtiva. Via um convite feito pela Ana Laura, comecei a trabalhar com moda, porém continuei a pesquisa musical e a freqüentar clubes. Nesta época, comecei a estudar remixagem com o Leandro Bionic e junto com sua esposa Miriam começamos a nos apresentar como Xing Lee Duo em vários clubes: Vegas, fomos residentes do Tapas, das festas Altera e Sundway. Tivemos um ano com a agenda cheia de apresentações remunerada.

Alterola - Club Tapas

Alterola - Club Tapas

Sundaway - Club 8 beats



So "Xing" e Mirian "Lee"

Há tempos parei de discotecar e ouvir música eletrônica, comecei a pesquisar e ouvir diariamente rap, hip hop, afrobeat, funky, rock, samba, chorinho entre outras músicas brasileira de qualidade. Porém, agora com a dedicação ao mestrado ando com pouco tempo para me empenhar com mais assiduidade a remixagem, mas nunca deixei de pesquisar e de ampliar o acervo sonoro.


Cat's Barbacue 3.2. Brown Sugar
Poderia ficar horas digitando as referências, mas deixarei para outro momento. Agora vou parar de contar a biografia, todo esse lenga a lenga, e ouvir um som!!

E se quiser desfrutar um set, acesse:

https://soundcloud.com/so-xing/embola-bola-balan-ar

Até mês que vem,

Soraia Oliveira Costa, mestranda em História da Ciências (UFABC), bacharel e licenciada em Ciencias Sociais (CUFSA/2009).
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O Carnaval da Diversidade.




Salvador, realiza um dos melhores carnavais do mundo. A festa é reconhecida internacionalmente como uma das expressões populares de maior dimensão, seja na participação popular, ou na geração de dividendos para o Estado e emprego à população. Este ano, o carnaval da Bahia esteve ameaçado.


Na semana anterior ao carnaval, os policiais militares da Bahia entraram em greve. Alguns dos policiais grevistas cometeram diversos crimes pela cidade, às vésperas do carnaval, a Bahia viveu uma crise na segurança pública e o número de ocorrências aumentou consideravelmente.

As conseqüências da paralisação policial à festa foram enormes. Muitos turistas cancelaram seus pacotes turísticos comprados com bastante antecedência, isso resultou num fluxo menor de visitantes quando comparamos com outros anos. Apesar destes elementos, o carnaval ocorreu em clima de paz e respeito à diversidade. Este ano o carnaval se reoxigenou, graças ao investimento do Estado e do patrocínio de algumas entidades privadas, diversos artistas carnavalescos saíram com seus trios sem corda ofertando à população várias atrações. O folião pipoca , teve a oportunidade de ver estes artistas sem ser molestado pelo esquema de segurança montado pelos Blocos.





Além destas iniciativas de cunho privado, onde o patrocínio de algumas empresas possibilitou o desfile de trios sem cordas, a Secretaria de Cultura do Estado, financiou diversas atrações com o mesmo viés popular. Os blocos afros foram algumas das entidades que receberam apoio financeiro da SECULT, através de um programa especifico denominado Ouro Negro. A SECULT também apoiou os trios independentes através do seu programa de apoio denominado Carnaval Pipoca.

Outra iniciativa voltada para democratização do carnaval e promoção da diversidade de gêneros musicais se deu através da organização do Carnaval da Diversidade, no Pelourinho, onde artistas históricos como Armandinho, fizeram grandes espetáculos gratuitos para o público. Assim, através de ações com este perfil, democrático e popular, a Secretária de Cultura do Estado da Bahia, em conjunto com o Centro de Culturas Populares e Identitárias, está reconfigurando o carnaval baiano que, chegou ao limiar do esgotamento de um modelo elitista que privilegia os camarotes e os blocos com cordão de isolamento. A população da cidade está se mobilizando contra isso. Este ano um camarote ocupou, ilegalmente, uma área pública da cidade e armou sua estrutura neste local causando depredação do patrimônio público. Nas redes sociais houve uma série de debates que culminaram em manifestações contra a instalação do Camarote, ou seja, a população não tolera mais a privatização dos espaços públicos no carnaval que deve ser uma festa popular, gratuita e repleta de diversidade.



Diogo Carvalho é Historiador e Mestre em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia.

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Cultura para infância!




Dando continuidade ao processo de dialogo entre a sociedade civil e o poder público, a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, irá realizar a conferência setorial de Cultura da Infância. Trata-se de um evento inédito no que diz respeito à formulação de políticas públicas especificas às crianças. Este evento foi precedido por uma pré-conferência da cultura da infância onde as crianças foram os protagonistas, e elegeram suas prioridades que serão encaminhadas para a IV Conferência Estadual de Cultura.






Dialogar com a população é essencial para que as políticas desenvolvidas pelo Estado sejam realmente públicas, pois as ações governamentais só recebem o titulo de política pública após um intenso processo de dialogo entre a sociedade civil e as instituições que a representam. Para o campo da cultura isso é essencial, o setor é desorganizado e desarticulado, portanto, merece uma atenção singular do Estado no sentido de otimizar a sua organização, bem como, a dinamização do mercado cultural e seus agentes. Assim, uma conferência Setorial de Cultura da Infância cumpre um papel importantíssimo no sentido de prover subsídios para o Estado oferecer programas e ações que estejam de acordo com as expectativas dos pequenos.


Diogo Carvalho é Historiador pela Universidade Federal da Bahia e Mestre em Cultura e Sociedade também pela UFBA.
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Entrevista exclusiva com Nehle Franke, Diretora Geral da Fundação Cultural do Estado da Bahia.









A Fundação Cultural do Estado da Bahia (FUNCEB), unidade da Secretaria de Cultura do Estado (SecultBA), reúne seus dirigentes para visitar seis cidades do interior da Bahia, realizando Encontros Setoriais com a sociedade, dentro do projeto FUNCEB ITINERANTE. A viagem se iniciou em 24 de agosto e segue por onze dias, até o retorno a Salvador em 4 de setembro, passando por Alagoinhas (24/8), Senhor do Bonfim (26/8), Itaberaba (28/8), Barreiras (30/8), Vitória da Conquista (1/9) e Ilhéus (3/9).



A equipe que integra o FUNCEB ITINERANTE é formada pela diretora geral da FUNCEB, Nehle Franke, os coordenadores de linguagens artísticas da FUNCEB, das áreas de Artes Visuais, Audiovisual, Dança, Literatura, Música, Teatro, da assessoria de Artes Circenses e de Relações Institucionais, além de assessores técnicos e da Assessoria Especial para Juventude e Cultura Digital da SecultBA.



Nehle Franke.





Qual objetivo do projeto FUNCEB ITINERANTE?



Nossa proposta é de estabelecer o diálogo com a sociedade civil para discutirmos juntos as políticas públicas para as artes na Bahia – Artes Visuais, Audiovisual, Circo, Cultura Digital, Dança, Literatura, Música e Teatro. Como a FUNCEB é sediada na capital, Salvador, o projeto se propõe a contribuir para a inclusão de cidadãos do interior do estado neste processo de articulação. A gestão cultural prescinde do movimento conjunto entre poder público e sociedade. A partir do debate, do conhecimento da realidade das regiões e cidades baianas, será mais efetivo o planejamento e a execução de ações, projetos e programas amplamente democráticos e eficientes. Nossa busca é de conseguirmos encontrar possibilidades de soluções para os nossos desafios, além de estimular a organização dos setores artísticos e seus agentes, mobilizando-os também para a participação nas Conferências Setoriais de Cultura, que serão realizadas no dia 5 de novembro, em Salvador, na Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia (UFBA), no bairro da Federação.



Por que foram escolhidas estas seis cidades da Bahia para a excursão – Alagoinhas, Senhor do Bonfim, Itaberaba, Barreiras, Vitória da Conquista e Ilhéus?


Não nos seria possível, numa excursão deste porte – composta pelos dirigentes centrais da FUNCEB –, visitar cidades dos 26 Territórios de Identidade da Bahia, tampouco de seus mais de 400 municípios. Assim, utilizamos como referência os seis macroterritórios do estado, elegendo em cada um deles uma cidade que pudesse representá-los. Nos articulamos com representantes territoriais da SecultBA presentes em todo o estado e dirigentes locais para que cidadãos de municípios vizinhos se mobilizassem também para participar dos eventos.



Quais pautas têm sido destacadamente debatidas?



Nos dois encontros já realizados – em Alagoinhas e Senhor do Bonfim –, os participantes têm nos apresentado questionamentos e propostas relevantes. O que se evidencia é justamente a preocupação de garantir que os cidadãos do interior sejam plenamente contemplados pelas iniciativas realizadas dentro do programa de gestão cultural da Bahia. As demandas mais representativas são as de encontrar meios de inclusão nos mecanismos de apoio existentes – editais e Calendário de Apoio da FUNCEB, por exemplo –, de haver outros mecanismos direcionados ao interior, de formar pessoas capacitadas para concorrer nestes concursos e de estabelecer uma comunicação mais eficiente com o interior.



Que tipo de direcionamento será dado às sugestões e propostas apresentadas pelos cidadãos durante estes encontros?



Tudo que tem sido e será debatido nos dará suporte para a execução de ações a partir da FUNCEB. Tentaremos dar retorno às demandas com a prática, em realizações. Sabemos que novos desafios serão descobertos, mas poderemos ter mais clareza de como atender às demandas dos setores artísticos. Estamos trabalhando, por exemplo, para que os editais e mecanismos de apoio sejam cada vez mais simplificados, e agora temos esta questão como prioridade, visto se tratar de um ponto definitivo na democratização e interiorização da distribuição dos recursos públicos. Como dar possibilidade de um artista não-afalbetizado ter acesso a isso? Como equilibrar a burocracia com exigências mais simples? Estas são algumas das questões que nos foram dadas e que teremos de investir em encontrar soluções para elas.






Diogo Carvalho é Historiador pela Universidade Federal da Bahia e Mestre em Cultura e Sociedade (UFBA). Trabalha com os seguintes temas: História, cinema soviético, cinema, cultura digital, política, humanidades e literatura beatnik.

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Nova Moscou








A definição oficial contendo estatutos da definição clássica do modelo artístico e cultural criado, a partir das influências dos pensadores e políticos soviéticos que queriam homogeneizar a produção cultural na URSS, só aconteceu em 1934. Isto se deu no Primeiro Congresso dos Escritores Soviéticos, cujo estatuto definiu a fórmula doutrinária que deveria ser seguida. A parte principal deste documento pode ser lida abaixo.
O realismo socialista é o método básico de literatura e da crítica soviética. Isto demanda do artista uma representação verdadeira, historicamente concreta da realidade, no seu desenvolvimento revolucionário. Além disso, a veracidade e concretude histórica da representação artística da realidade devem vincular-se com a tarefa de transformação ideológica e a educação do s trabalhadores no espírito do socialismo (TERTZ,1960 apud KENEZ, 2003, p.143).

Na prática, estas decisões do Congresso de Escritores Soviéticos, homologaram uma situação que já estava ocorrendo há muito tempo. Este congresso só fez oficializar uma doutrina de gestão e representação cultural que já estava sendo implementada, desde o final dos anos 1920’s.
Não demorou muito tempo para que a homologação oficial da doutrina do realismo socialista impactasse, diretamente, na história da organização do cinema soviético.
Clark (2003), ao se referir ao realismo socialista, questionou a ampla aplicabilidade deste conceito. Para esta autora só alguns romances soviéticos con seguiram expressar, em sua totalidade, os códigos verbais, e de signos, característicos da cultura stalinista. Esta autora coloca que a chave do conceito está nos heróis positivos, encarnados neste tipo de literatura e que incorporaram, nas suas histórias, valores públicos, relacionados ao progresso da nação em direção ao comunismo. Eles também legitimavam o status quo como situação social benéfica para o caminho correto da trilha marxista-leninista. Ainda de acordo com Clark (2003, p. 14), estes heróis tinham como função principal mediar as relações entre as províncias e Moscou: “Sua principal função era fazer a mediação entre as províncias (periferias) e Moscou.”
Geralmente, estes romances da literatura soviética eram ambientados na periferia das cidades, ou nas áreas rurais. Os motivos que levaram às representações periféricas dos heróis positivos podem ser compreendidos melhor, quando consideramos que houve, na URSS, a presença de dois sistemas binários de referências culturais.
Quando utilizamos o vocábulo binário estamos nos referindo, à coexistência de dois sistemas culturais: um que representava os valores do passado imperial russo, e outro que estava sendo construído pelos bolcheviques. Nesta conflituosa perspectiva, relativa ao modelo cultural que os comunistas almejavam hegemonizar na URSS, os heróis positivos, principal característica do realismo socialista, tinham aspectos que os identificavam com os espaços sociais limítrofes aos grandes centros urbanos, pois historicamente a periferia sempre foi o local onde estavam as massas. Já o espaço urbano foi identificado com os grandes líderes do partido, portanto foi representado como um lugar especial, destinado às grandes personalidades. O que pode ser interpretado como uma forma inconsciente de absorção de valores culturais oriundos do czarismo russo, pois na Rússia dos czares, as cidades também tinham esta aura de lugar reservado às pessoas importantes.
Este fenômeno narrativo propiciou segundo Clark (2003), a antropomorfização de determinados símbolos espaciais, dentre eles, as novas construções e monumen tos que os comunistas estavam planejando erguer, durante a vigência da URSS.
Em outros campos artísticos, onde a narrativa não existe, ou é um componente pequeno, não havia possibilidade dos códigos serem expressos da forma como foram na literatura soviética da década de 30. Porém, ela faz uma observação muito sutil, mas extremamente válida para um entendimento da complexidade em que se manifestou o realismo socialista. Clark (2003, p. 5) advoga que, de forma diferente da literatura, a arquitetura desempenhou um elemento singular da propagação dos valores relacionados à cultura staliniana, principalmente no que se refere ao remodelamento do espaço. “A purificação ou re-purificação do espaço provou ser uma obsessiva preocupação com a cultura stalinista.”
Segundo esta autora, a arquitetura foi a expressão artística que melhor contribuiu para sacralizar, no espaço, os valores da cultura stalinista. Em 1931, mesmo ano em que Gorki retornou à Rússia, diversos líderes do partido discursaram sobre a necessidade de o governo soviético reconstruir o país, através do remodelamento estético dos conjuntos arquitetônicos, existentes na URSS, e que remetiam ao passado pré-revolucionário, caracterizado pelos bolcheviques, como uma época de atraso industrial, referente à ruralização da Rússia. Para alguns líderes do Partido, o período socialista deveria ser eternizado, através de grandes obras que expressassem os benefícios que o sistema social soviético trouxe para os cidadãos. Levando em consideração que era necessário eternizar ícones que ajudassem a consolidar no imaginário social, elementos voltados para a construção de uma identidade nacional soviética, o uso da arquitetura como mecanismo de re-significação das relações entre o sujeito e o espaço foi bem articulado, do ponto de vista estratégico.
Termos da arquitetura como: edificação, fundação, recons trução se tornaram usuais na sociedade. Isto foi tão evidente que também em 1931, o plenário do Partido decidiu e anunciou que a maioria das cidades soviéticas deveriam ser reconstruídas, segundo valores estéticos, oriundos do Marxismo-Leninismo. Para verificar a eficácia destas decisões, relacionadas à reconstrução e reordenação das cidades, diversos supervisores foram encarregados de verificar o sucesso das obras.
Em seguida, no plenário do Partido, em junho de 1931, um plano para reconstrução de muitas das cidades soviéticas foi anunciado. Posteriormente, ao longo das décadas, os planos de construção de cidades e edifícios foram supervisionados, de perto, por líderes do Partido, especialmente por um dos líderes do Partido em Moscou, Lazar Kaganóvich que, em 1933, foi apontado como chefe do corpo de supervisores do Arkhplan . Seja como causa, ou como efeito, a retórica do Partido, em reconstruir as cidades soviéticas, serviu para elevar as transformações morais e políticas de toda a sociedade em direção ao comunismo. (CLARK, 2003, p. 4).
Estas ambições, referentes à sacralização arquitetônica dos pr essupostos de organização social do marxismo-leninismo, presentes nos modelos artísticos e de comportamento, oriundos dos paradigmas do realismo socialista foram expressas, explicitamente, através de alguns filmes.
Nestes filmes, confirmamos a opinião de Fitzpatrick (1999) de que boa parte da reconstrução espacial foi enfocada na construção de palácios: Palácios dos Esportes, Palácio do Trabalho, Palácio da Cultura: o que deve ser encarado como uma contradição, com a renegação do passado, objetivada por estas construções, pois os palácios sempre foram identificados com as classes dominantes, em especial, com a nobreza.
Um destes filmes que expressa estas mudanças arquitetônicas, vislumbradas pelos adeptos do realismo socialista durante 1930’s, se chama “Nova Moscou” (1938) e foi dirigido por Alexander Medviêdkin. Mesmo sendo um filme com claro teor propagandístico das transformações arquitetônicas, ele não foi autorizado pela censura a ser exi bido nos cinemas. Porém, ao contrário de muitos filmes soviéticos que foram engavetados durante década os anos 1930, é possível analisá-lo na atualidade, pois uma de suas cópias foi preservada.
Neste filme estão contidos alguns dos projetos de reconstrução de Moscou, baseados nas diretrizes de reformulação das cidades soviéticas. As tomadas mais interessantes se passam em um cinema. Neste local, há uma tribuna na frente da tela de exibição, cuja moldura contém imagens de Stalin vislumbrando Moscou, reconstruída. No púlpito, uma personagem responsável pela apresentação da película dirige-se à tribuna e desculpa-se por um erro do projetor que está transmitindo a imagem de trás para frente. Ao perceber este erro, ela se espanta e comenta: “Quem está fazendo isso? Moscou está voltan do no tempo”. O seu espanto está no fato de que o erro do projetor criou imagens onde as novas intervenções arquitetônicas dos bolcheviques são implodidas e substituídas por símbolos espaciais, oriundos da arquitetura czarista e da igreja ortodoxa.
Após consertar o erro de projeção, inicia-se o “filme” dentro do filme, cujas primeiras cenas foram elaboradas a partir de técnicas de montagem, que justapuseram imagens artificiais e reais de locais – igrejas ortodoxas, ruas estreitas sem calçamento, favelas – com os projetos de remodelamento urbano, almejados pelos líd eres do partido. Cadencialmente, os símbolos da Rússia pré-revolucionaria foram apresentados e substituídos por construções modernistas. Durante o filme, fica claro que a intenção do roteiro, e da edição, foi comparar os modelos arquitetônicos do regime czarista, demonstrado-os como reflexo do atraso medieval, com os planos de urbanização do Partido, identificados no filme, como o ideal de progresso e prosperidade.
A partir de um determinado momento do filme, as imagens de “Nova Moscou” foram planejadas para demonstrar o efeito progressista que e stas construções teriam na paisagem de Moscou, ou seja, estas tomadas visavam demonstrar como a capital soviética iria se transformar com as intervenções arquitetônicas edificadas durante o regime soviético que, em tese, iriam melhorar a qualidade de vida da população. Da mesma forma que a parte anterior do filme caricaturou o passado czarista e atrasado da Rússia, o futuro também foi construído a partir da justaposição de imagens reais e artificiais da velha Moscou com maquetes que simulava m a paisagem após as intervenções.
Nesta película, é possível visualizar alguns ícones destas mudanças espaciais e arquitetônicas propostas pelos bolcheviques: construção do Palácio dos Soviets , Praça Puchkin, Praça da Revolução, Avenida da Academia de Ciências. Vários destes projetos nunca saíram do papel. Mesmo alguns que chegaram a ser executados não foram concluídos, como o Palácio dos Soviets, cujas obras começaram em 1937, mas devido à invasão alemã, e problemas com as fundações, sua construção teve que ser interrompida. Após a guerra, os soviéticos não conseguiram terminar o projeto e transformaram a planta original numa piscina recreativa. Além destes problemas técnicos, houve uma série de rumores, entre a população soviética, de que o “trabalho do diabo tinha sido devidamente punido” (FITZPATRICK, 1999, p. 68), pois o local escolhido para a construção do palácio era o mesmo da Catedral do Cristo Salvador, demolida pelos bolcheviques no começo dos anos 1930’s.
Segundo Fitzpatrick (1999), atrás do novo mundo pretendido pelos ideólogos do Partido, estava o velho mundo. Medviêdkin sabia disso ao filmar “Nova Moscou” (1938). O filme incomodou as autoridades soviéticas por dizer aquilo que não poderia ser dito, mesmo que de forma pejorativa e anedótica. O passado imperial russo ainda existia. Para a burocracia partidária, a maximização das realizações soviéticas não deveria ser abordada em uma comédia, gênero no qual “Nova Moscou” se enquadra.

As figuras, a seguir, foram frames retirados de “Nova Moscou”. Elas remetem ao passado pré-revolucionário, e ao futuro pre tendido pelos soviéticos.




























Diogo Carvalho é Historiador pela Universidade Federal da Bahia. Atualmente desenvolve mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade (UFBA), onde realiza pesquisas sobre o cinema soviético. Membro da Oficina de Cinema-História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (UFBA). Trabalha com os seguintes temas: cinema, culturas, História, cultura digital, política humanidades e literatura beatnik. diogocarvalho_71@hotmail.com


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