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Luzes do Norte: Desenhos e figuras do Renascimento Alemão, na Coleção Barão Edmond de Rothschield/ Louvre no Museu de Arte de São Paulo

 

Martin Schongauer, Três cabeças orientais, busto, gravura em buril com realce em guache, sem data, Coleção Barão de Rothschild/Louvre. 


Está em cartaz no Museu de Arte de São Paulo (MASP) a mostra Luzes do Norte, que se estende até 13 de janeiro de 2013.

Doado ao Museu do Louvre, de Paris, pelos herdeiros do barão, colecionador e filantropo Edmond de Rothschild, o fantástico conjunto de obras do Renascimento alemão chega a São Paulo, em mostra concebida exclusivamente para o museu. 
A atração imperdível traz 61 gravuras e desenhos sobre papel. O mais fascinante é acompanhar na seleção como os valores estéticos da época foram se desenvolvendo, da influência do chamado gótico internacional para as inovações de perspectiva herdadas pelo contato com a tradição artística do Note da Península itálica. 
Grande gênio do período, Albrecht Dürer - muitas vezes comparado a Leonardo Da Vinci no contexto das Artes plásticas  do Norte -  é mote de 3 eixos temáticos expositivos cujos destaques são as magníficas obras A Santíssima Trindade e Santo Eustáquio. Martin Schongauer aposta em tons grotescos e humorísticos em Três Cabeças Orientais. Complementam a exibição um rretrato do reformista religioso Matinho Lutero de Lucas Cranach, o Velho, e dois óleos pertencentes à instituição paulistana,  também o Retrato de Jovem Aristocrata de Lucas Cranach, o Velho, e um retrato do Poeta Henry Howard, Conde de Surrey, de Hans Holbein



A Santíssima Trindade, de Albrecht Dürer


 Albrecht Dürer, A Santíssima Trindade, sem data, de  Coleção Barão de Rothschild/Louvre. Obra em exposição no MASP



Santo Eustáquio, de Albrecht Dürer


 Albrecht Dürer, Santo Eustáquio, sem data,  Coleção Barão de Rothschild/Louvre. Obra em exposição no MASP




Retrato de Martinho Lutero com hábito de frei agostiniano, de Lucas Cranach


Lucas Cranach, Retrato de Martinho Lutero com hábito de frei agostinianoColeção Barão de Rothschild/Louvre. Obra em exposição no MASP






Lucas Cranach, o Antigo, Retrato de Jovem Aristocrata - Um Jovem Noivo da Família Rava, 1539, óleo sobre tela,  Museu de Arte de São Paulo. A obra pode ser vista na exposição Luzes do Norte





O Poeta Henry Howard, Conde de Surrey, de Hans Holbein

 Hans Holbein, O Poeta Henry Howard, Conde de Surrey, 1542, Museu de Arte de São Paulo. A obra pode ser vista na exposição Luzes do Norte




Texto de Introdução de Luzes do Norte, Museu de Arte de São Paulo




Desenho O imperador Sigismundo com o rei da Boemia e o rei da Hungria, de autor desconhecido, datada de 1450

Desenho de O imperador Sigismundo com o rei da Boemia e o rei da Hungria, de autor desconhecido, datada de 1450, Coleção Barão de Rothschild/Louvre. A obra marca os primórdios da gravura renascentista germânica. Obra em exposição no MASP




Retrato de Maximiliano I com armadura a cavalo, de Hans Burgkmair

  Hans Burgkmair, Retrato de Maximiliano I com armadura a cavalo, de Coleção Barão de Rothschild/Louvre. Obra em exposição no MASP




Mulher passando a cavalo pela porta de uma cidade, de Albrecht Altdorfer

Mulher passando a cavalo pela porta de uma cidade, de Albrecht Altdorfer, Coleção Barão de Rothschild/Louvre. Obra em Exposição no MASP


Gravura O Baile, de Mestre Mz, parte da coleção Barão Edmond de Rothschild/Museu do Louvre

Mestre Mz, O Baile, de  parte da coleção Barão Edmond de Rothschild/Museu do Louvre. Obra em Exposição no MASP



A Ressurreição, de Israhel van Meckenem

Israhel van Meckenem, A Ressurreição,  Coleção Barão de Rothschild/Louvre. Obra em exposição no MASP






Hans Baldung, O Sabbath das Bruxas,  coleção Barão Edmond de Rothschild/Museu do Louvre. Obra em exposição no MASP







Hans Wechtlin (Skull in a Renaissance context) Art Poster Print Impressão de alta qualidade

Hans Wechtlin, Crânio com moldura ornamental, coleção Barão Edmond de Rothschild/Museu do Louvre. Obra em exposição no MASP. Tema de Vanitas, a Vaidade, Motivos "Vanitas" foram comuns na arte funerária medieval, com exemplos mais duradouros em esculturas. No século XVI isso podia ser mórbido e explícito, refletindo uma intensa obsessão pela Morte e pelo apodrecimento, também vista na Ars Moriendi(A arte de morrer), na Danse Macabre (Dança da morte) e no tema superposto do Memento mori (Lembra-te que morrerás). Da Renascença, tais motivos tornaram-se gradualmente mais indiretos, e o gênero "Still-life", que se tornou popular, encontrou morada lá. Pinturas feitas no estilo "Vanitas" querem lembrar a efemeridade da vida, da futilidade de agradar, e da certeza da morte. Também forneceram uma justificativa moral para várias pinturas de objetos atrativos. Símbolos "Vanitas" geralmente incluem caveiras, lembretes da inevitabilidade da morte, e pode ser compreendida como uma alusão à insignificância da vida terrena e à efemeridade da vaidade





Lovers Surprised by Death


Hans Burgkmair, O amor surpeendido pela morte (Mulher chorando e fugindo da morte), 
coleção Barão Edmond de Rothschild/Museu do Louvre. Obra em exposição no MASP. Tema da Dança Macabra, ou Totentanz, é uma alegoria artístico-literária do final da Idade Média sobre a universalidade da morte, que expressa a ideia de que não importa o estatuto de uma pessoa em vida, a dança da morte une a todos. Há representações de Danças macabras na literatura, pintura, escultura, gravura e na música. Estas representações foram produzidas sob o impacto da Peste Negra (1348), que avivou nas pessoas a noção do quão frágeis e efêmeras eram as suas vidas e quão vãs eram as glórias da vida terrena



No Renascimento, a Europa do Norte passou por mudanças radicais : os princípios fundamentais da Igreja estavam sendo questionados. Neste contexto, os artistas produziam obras diversas e admiráveis por sua tecnicidade.
Em finais do século XV, com a cultura cívica no seu apogeu, a pintura atingiu na Alemanha uma projeção jamais vista desde desde as iluminuras dos magníficos manuscritos da época otoniana e saliana. Em contraste com a primeira parte do século, em que os artistas alemães foram ofuscados pelas realizações assombrosas dos seus contemporâneos neerlandeses, a situação de inverteu e subta e surpreendentemente de um modo ainda não explicado, quer que termos de arte quer em termos de história cultural. 

Será que a agitação criativa que germinava em território germânico no período que levou à Reforma Protestante libertou novas forças em seus respectivos centros artísticos?




Estes tempos modernos que já emergem já no século XV com a impressa de Gutenberg
(o tipo móvel) e com a gravura. Isso porque são procedimentos que revolucionaram
costumes, uma vez que permitiram a multiplicação de textos e a circulação de imagens.
Apesar de a gravura se desenvolver antes em imagens de devoção e afins
(modelos de ornamento, cartas de baralho, etc.), ela só ganha estatuto de arte autônoma
com Schongauer, Dürer, entre outros pintores e ourives.




Virgem Transtornada, um Busto, de Martin Schongauer (1450-1491)

Virgem Transtornada, um Busto, de Martin Schongauer (1450-1491), Coleção Barão de Rothschild/Louvre





Albrertch Dürer , Autorretarto com casaco de pele, 1500 óleo sobre painel de madeira, Alte Pinakothek, Munich. Esta obra não está inclusa na exposição Luzes do Norte




Têm-se, entre as obras mais antigas, representantes das escolas do norte: a
linhagem de Dürer, por exemplo, é seguida na Alemanha por Aldegrever, Pencz. Já a
Holanda tem Rembrandt, mas também Jan van Vliet e Lucas van Leiden.
Inicialmente as obras convergem por serem narrativas cristãs bem como
helenizantes, o que significa que além da simples apreciação, elas podem ter caráter
moralizante que incita à meditação.




Portanto, neste contexto, destaca-se o vulto assombroso de Albrertch Dürer (1471 - 1528), que veio a assumir enorme importância tanto em nível histórico e artístico. Dürer começou a ser influenciado pelas tradições de seus mestres, recorrendo à linha como meio de expressão fundamental, sendo a sua obra inicial consequentemente dominada pelas gravuras em madeira e em cobre.

Em 1496 e em 1506-1507, porém, realizou duas viagens à Itália, que iriam influenciar decisivamente a sua poética. Tal como Joahhann Wolfgang von Goethe (1749-1832) mais a frente, já em tempos envoltos pelas brumas da cultura romântica, Dürer experimentou na arte italiana tratamento orgânico e holístico da composição que se situa na extremidade oposta do espectro da arte dos Alpes, onde a pintura continuava sendo entendida como a combinação cumulativa de elementos individuais.

Com os venezianos, e sobretudo como Giovanni Bellini, aprendeu a modular os contornos com a cor. Finalmente, ainda reconheceu a necessidade de uma sólida abordagem teórica na representação dos objetos, que transcendia a mera intuição. A sua Madonna das Grinaldas de Rosas, A Adoração da Santíssima Trindade, -  o equivalente à Disputá de Rafael nas Estâncias do Vaticano -, assim como os seus Quatro Apóstolos constituem exemplos notáveis da fusão entre a percepção germânica e italiana da forma.




Obra O Rinoceronte, Impressão feita em 1620 por Albrecht Dürer


 O Rinoceronte, Impressão feita em 1620 por Albrecht Dürer, Coleção Barão de Rothschild/Louvre. Obra em exposição no MASP. O caso deste desenho é extremamente curioso. Dürer jamais viu um rinoceronte ao vivo. Não era comum aparecerem rinocerontes na Europa, mas em 1515 o rei Manuel I de Portugal havia trazido um da Índia (assim como um elefante), e a notícia causou grande impacto. Os dois animais foram enviados de Lisboa para Roma, de navio, como presente para o papa Leão X, mas o navio com o rinoceronte afundou, e o animal morreu. Dürer realizou seu desenho baseado em um esboço feito por um português, conseguindo apesar disso dar à figura uma aparência real, viva, tridimensional. O desenho não representa de modo totalmente correto o animal. Dürer, baseando-se em sua fonte, desenhou o corpo do animal como se fosse coberto por placas duras (um tipo de armadura) e colocou nas costas do rinoceronte um pequeno chifre que aponta para a frente, que não existe. O serrilhado na parte de trás do animal também não existe, as patas são um pouco diferentes, não possuem escamas, etc. Apesar disso, o desenho é extraordinário, e foi reproduzido como se fosse uma autêntica representação do rinoceronte, até o século XIX




Retrato de Rapaz, Albrecht Dürer

Albrecht Dürer, Retrato de Rapaz, sem data, Coleção Barão de Rothschild/Louvre. Obra em exposição no MASP



A pintura germânica à volta de 1500 atingiu um extraordinário fôlego. Se Dürer partira inicialmente para a linha, Mathias Grünewald (c. 1470-1528) centrou-se na composição cromática. O seu retábulo de Isenheim, iniciado em cerca de 1512, representa o mais importante contributo da arte germânica para a tradição da cor na arte. A questão de saber em que medida Grünewald se baseou nas novas teorias cromáticas de Leonardo e nas obras de Giorgionne é algo que merece uma investigação mais cuidada. A modulação da cor consistiu também o ponto de partida para os pintores da chamada Escola de Danúbio (abordada na esposição no MASP) e nomeadamente o jovem Lucas Cranach (1742-1553), Albretch Altdorfer (c. 1480-1538) e Wolf Huber (c. 1485-1553), em cujas mãos a pintura paisagista assumiu uma importância antes desconhecida a norte dos Alpes. Confrontados com as paisagens atmosféricas produzidas pela Escola do Danúbio, somos tentados a falar de uma primeira fase de "Romantismo" na arte germânica.



A gravura de paisagem se impõe apenas no século XVII concomitantemente
com o seu desenvolvimento em pintura. Muitos são os temas gravados: topografia de
cidades, cartografia, edificações, ruínas, marinhas, mundo mineral, flora, fauna.
Nos Países Baixos da época, a gravura logo se identifica com o ambiente exterior:
Jan van de Velde II aparece como um dos precursores da paisagística holandesa por
representar aspectos rurais outrora ignorados, no que suas águas-fortes sobressaem
pelos efeitos atmosféricos e por linhas de horizonte rebaixadas. Também ativo em
Holanda, Anthonie Waterloo se especializa em cenas à céu aberto nas quais a figura
humana é pretexto para suas visões arbóreas. Já o francês Claude Gelée se volta à
paisagem italiana representando portos imaginários, entre outros, em que os efeitos de
luzes predominam. Quanto à Callot, ele é exortado tanto por suas inovações técnicas
quanto por ser um dos primeiros artistas a se dedicar exclusivamente à gravura.

Entretanto, independente do contato direto com a arte produzida na Península Itálica, começava a fazer-se sentir na Europa uma tendência comum num sentido de formas amplas e equilibradas e da integração do real e do ideal, como é patente nas obras da maturidade do artista neerlandês Gerard David (c. 1460-1523), por exemplo. As obras de David não abrem, porém, novas sendas para o futuro, remetendo a Jan van Eyck, na sua compreensão da figura humana, enquanto volume vigorosamente modelado.


Para além da migração, quer de obras de arte de artistas, a partir de meados  do século XV surgiu um outro intercâmbio artístico. Aproximadamente na mesma altura, e de ambos os lados dos Alpes, houve duas técnicas de impressão que evoluíram para gêneros da pintura por direito próprio: a xilogravura, que se desenvolveu a norte nos Alpes em início do século XV , e - mais importante ainda - a gravura em bobre, cujas origens mergulham provavelmente também nos princípios  do século XV na prática artística ao sul do território germânicoO primeiro exemplo datado registra o ano de 1446. 


As primeiras gravuras em cobre italianas provem das oficinas de Andrea Pollaiuolo (1432-1498). As estampas proporcionam um meio inteiramente novo de difusão de ideias artísticas mesmo nos cantos mais recônditos da Europa. A xilogravura e a gravura em madeira assinalam, pois, o início do desenvolvimento dos modernos meios de comunicação visuais . Por volta de 1500, é de crer que as gravuras estivessem disponíveis em larga escala - tanto mais, na verdade, porque se torna muitas vezes difícil ajuizar se um artista se apropriou de uma nova linguagem formal na sua obra como consequência de um confronto direto ou indireto, com sua fonte.É certo que a história da Arte se faz de empréstimos culturais e de reelaboração das tradições e novas tendências. 


Por outro lado, uma tendência nova, historicamente documentada, surgiu por volta de 1510, envolvendo artistas que se deslocavam em ambos sentidos. Na sequencia da partida de Jean Gossaet (c. 1478/88 - 1533/36) para Roma em 1508, uma viagem ao território italiano passou a fazer parte da preparação de qualquer artista. Isto particularmente verdade no caso dos Romanistas do sul dos Países Baixos. A expansão do Renascimento italiano a norte dos Alpes foi, por sua vez, fomentada  por alguns importantes pintores italianos permaneceram algum tempo no estrangeiro, designadamente na corte francesa. Leonardo da Vinci, que aceitou um convite de Francisco I (1494-1547) para viver em terras francesas em 1516, foi seguido por Rosso Fiorentio (1494-1540) e, um ano mais tarde, por Francesco Primaticcio (1504-1570), de Bolonha. 


Contudo, no momento em que a arte europeia começava a experimentar um processo de internacionalização, a unidade do Renascimento estava já a se desagregar numa voragem contracorrentes. Logo os estilo renascentista de Michellangelo Buonarrotti influenciaria a arte sinuosa, afetada e sensual do Maneirismo.


A exposição Luzes do Norte no MASP vale uma visita com tempo, tempo suficiente para o espectador se deixar perder nas linhas e se absorver pela riqueza de detalhes das belas gravuras. Um bom exemplo é Adão e Eva, ou A Queda, de Dürer.







Albrecht Dürer,  Adão e Eva, 1504, Coleção Barão de Rothschild/Louvre. Obra em exposição no MASP








In Ars veritas

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Bibliografia: 


CHILVERS, Ian (Org.). Dicionário Oxford de Arte. Trad. Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: Martins Fontes, 2007.


O Renascimento. São Paulo: Folio, Coleção Grande História Universal,  2007.


Renascimento. História Viva, Grandes Temas, Edição Temática N° 5.


MUSEU DE ARTE DE SÃO PAULO ASSIS CHATEAUBRIAND. Luzes do Norte: Desenhos e gravuras do Renascimento alemão na Coleção Baron de Edmond Rothschild (catálogo). São Paulo: Museu de Arte de São Paulo, 2012.


WUNDRAM,  Manfred. Renascimento. Colônia, Alemanha:Taschen, 2007.


 WOLF, Norbert . Albretch Dürer.  Colônia, Alemanha:Taschen, 2007.



Para saber mais:


http://masp.art.br/masp2010/exposicoes_integra.php?id=124&periodo_menu=








Mariana Zenaro é graduada e licenciada em História pelo Centro Universitário Fundação Santo André e bacharel em Comunicação Social, com ênfase em Jornalismo, pela Universidade Metodista de São Paulo. Tem Pós-Graduação, MBA em Bens Culturais: Cultura, Economia e Gestão, pela Fundação Getúlio Vargas. Frequentou os cursos livres de História da Arte na Escola do Museu de Arte de São Paulo (MASP) por dois anos e meio. Trabalhou em Museus, Arquivos e Instituições Culturais. Foi voluntária no Centro de Documentação e Biblioteca do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Dá cursos e palestras sobre história da arte em fundações, centros culturais. 



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Adriana Varejão: Mares, Vísceras e novas narrativas de nossa História





"Artes Plásticas não é questão de talento. Não é preciso ser um prodígio técnico, como Nelson Freire ou Mozart. É uma linguagem adulta, que depende  do conhecimento. da bagagem cultural, da sensibilidade. Está ligada ao pensamento, à criatividade".

Adriana Varejão à Revista Personalité, N° 2, MARÇO DE 2008, ANO I





Adriana Varejão, Figura de convite, 1997, óleo sobre gesso, obra em exposição no MAM-SP





Está em cartaz até 16 de dezembro no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP) a mostra Adriana Varejão: Histórias às margens, um panorama do trabalho da artista carioca que caiu no gosto dos colecionadores de arte contemporânea, além de ser um dos grandes nomes que inserem o Brasil no cenário internacional. Ainda pouco conhecida pelo público brasileiro, Adriana Varejão traz uma plasticidade intensa, articula narrativas pitorescas, que muito têm a ver com nossa gênese cultural. Evoca o passado colonial brasileiro de exploração da terra às custas de suor e sangue dos povos conquistados e o exotismo que transbordava do olhar do colonizador, e que marcaram a imagem identitária do país, lançando mão dos artifícios de crítica, ironia e pastiche em muitas de suas obras.

A exposição,  de curadoria de Adriano Pedrosa, traz 39 obras, muitas de acervos de instituições de renome internacional, como Guggenheim de Nova Iorque, Tate Modern, Londres, e da Fundación "La Caixa", Barcelona, e ainda mais três obras realizadas especialmente para a exibição em São Paulo, que seguiram para o MAM do Rio de Janeiro.

 Adriana VarejãoMapa de Lopo Homem II , 2004 
óleo sobre madeira e linha de sutura, obra em exposição no MAM-SP




Adriana VarejãoPaisagens , 1995 
óleo sobre madeira, obra em exposição no MAM-SP


Adriana Varejão, Azulejaria em Carne Viva series «Lingua com Padrão Sinuoso» 1998óleo sobre tela, poliuretano sobre madeira e alumínio, obra em exibição no MAM-SP



Adriana Varejão nasceu no Rio de Janeiro em 1964, o fatídico ano do Golpe. Iniciou sua trajetória de forma descompromissada, frequentando os cursos livres na Escola de Artes Visuais do Parque Lage ( EAV- Parque Lage), no Rio de Janeiro, entre 1981 e 1985. Como o passar do tempo seu fazer artístico foi ganhando corpo, densidade, e elementos de sua busca cultural, com referências das viagens que fazia, dos livros que lia, das lembranças das páginas da coleção de artes visuais Gênios da Pintura que a mãe comprava nas bancas na sua meninice. 

Em 1988, faz sua primeira exposição individual na Galeria Thomas Cohn, no Rio de Janeiro e na mesma época participou de uma coletiva no Stedelijk Museum,Amsterdã. Participou de importantes Bienais como Veneza e São Paulo e sua obra já foi mostrada em grandes instituições internacionais como MOMA (NY), Fundação Cartier em Paris,Centro Cultural de Belém em Lisboa e Hara Museum em Tóquio. Em 2008, foi inaugurado um pavilhão com obras suas no Centro de Arte Contemporânea Inhotim em Minas Gerais. O seu trabalho está presente em acervos de importantes instituições, entre elas Tate Modern em Londres, Fundação Cartier (Paris), Stedelijk Museum (Amsterdã), Guggenheim (Nova Iorque) e Hara Museum (Tóquio).


Sua pintura começa ser investida de materialidade, de tridimensionalidade. Elabora formas tornando-as corpos, instalações e transformando espaços. Em boa parte de sua sua produção, evoca repertório iconográfico associado à história do período colonial brasileiro, como azulejaria portuguesa, paisagens e mapas de registros do  Brasil dos Viajantes. A artista evoca também o barroco. A sensibilidade barroca lhe inquieta, associando pintura, escultura e arquitetura em seus trabalhos. Não  casualmente que o Barroco era um dos elementos artísticos e culturais ressaltados pelo grupo dos modernistas, liderado por Rodrigo  Mello Franco de Andrade, que formaram o antigo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN, hoje chamado de Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Isso fica no painel que Cândido Portinari confeccionou para o Palácio Capanema, no Centro do Rio de Janeiro. 




Cândido Portinari, Painel de  azulejos no Palácio Gustavo Capanema, Antigo Ministério da Educação e Cultura, no Centro do Rio de Janeiro. A obra evoca a herança cultural portuguesa, tanto nos temas maritmos quanto pela importância dada pela arte decorativa de azulejaria no Barroco




Adriana Varejão, Proposta para uma catequese azulejaria de cozinha, 1995, óleo sobre painel de gesso, obra em exposição no MAM-SP





Adriana Varejão, Varal Rack, 1993, óleo sobre Tela,obra em exposição no MAM-SP



Adriana Varejão, Reflexo de Sonhos no Sonho de Outro espelho. (Estudos sobre o Tiradentes de Pedro Américo), 1998, óleo sobre tela, obra em exibição no MAM-SP






 Adriana VarejãoAzulejaria Verde em Carne Viva , 2000 
óleo sobre tela e poliuretano em suporte de alumínio e madeira, obra em exposição no MAM-SP



Em obras que se situam entre a pintura e o relevo, emprega freqüentemente cortes e suturas em telas e outros suportes que permitem entrever materiais internos que imitam o aspecto de sangue e vísceras. 


No fim da década de 1980, Adriana Varejão produz telas com espessas camadas de tinta, tendo como parâmetro as igrejas barrocas brasileiras e sua azulejaria, como em Altar I, 1987. 

Paulo Herkenhoff comenta sobre a referência barroca que Adriana traz para enfatizar a circulação cultural por intermédio da presença do conquistador português, conquistador de terras e mares distantes: 

"Adriana Varejão se detém em questões como a patologia do Barroco, a presença de um longo processo de influência da China na cultura brasileira, e os traumas do processo de expansão colonial e dos encontros consequentes aos descobrimentos, como tendência a uma visão unificante do mundo". 

Herkenhoff prossegue:

"O que era esquecimento e opacidade na história se torna visível. A cartografia agora é violência. O processo de presentificação do passado é uma nova transparência. Esse é o seu nível sutil de politização da arte, distante da vassalagem ideológica. Cada tela é uma produção de evidências, no agenciamento da história (...) A obra de Varejão trata da interação de planos de representação: a história da arte serve para rever criticamente a pretensa totalidade da história que molda e é moldada pela arte. (...) História da arte, história do conhecimento, história das trocas culturais e história do corpo - tudo se contagia inesperadamente". 


Posteriormente, passa a apropriar-se de imagens da história do Brasil, retomando representações etnográficas de indígenas e negros, como, por exemplo, as ilustrações do livro Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, de Jean-Baptiste Debret (1768 - 1848), para comentar o processo de miscigenação no país e do processo de colonização, uma história de violência, barbárie, exclusões, crueldade e sofrimento que deixaram marcas profundas na elaboração da cultura brasileira .

Segundo Isabel Diegues: "Nos Charques, o azulejo vulgar dos botequins substitui aqueles carregados de História - das navegações, da colonização e da arte, e o mundano faz sobrepor o particular ao coletivo. Nos botequins, as navegações são as dos homens an^nimos, e se dão sobre pisos sujos; são trocas entre indivíduos, não entre nações".



Adriana Varejão, Altar I, 1987, acrílica s/ tela, Col. Gilberto Chateaubriand



Imagem retirada da obra Viagem pitoresca e histórica ao Brasil, de Jean Baptiste Debret. Tomo I. Imagem proveniente de: Biblioteca Virtual do Estudante de Língua Portuguesa. A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo.


Em outras obras, utiliza cacos de louça e pratos da Companhia das Índias, que são moldados e pintados pela artista, como em Linha do Equinócio II, 1997, e Carne à moda de Frans Post, 1996.


 Adriana Varejão faz também incisões e suturas em suas telas, como ocorre em Filho Bastardo II, 1997 ou em Parede com Incisões a la Fontana, 2000, nas quais, por meio dos cortes, deixa entrever uma matéria interna, que tem a aparência de carne.  A artista também discute as relações paradoxais entre sensualidade e dor, violência e exuberância.

 Também reproduz em seus quadros fragmentos anatômicos, fazendo referências a esquartejamentos e canibalismo, em obras de grande densidade simbólica.



Adriana Varejão, Carne à moda de Franz Post, 1996, gesso, tinta óleo e porcelana, obra em exposição no MAM-SP



Adriana Varejão, O Filho Bastardo I, 1992, óleo sobre madeira



Adriana Varejão, Filho Bastardo II, 1997óleo sobre madeira



Detalhes de pinturas de Frans Post representam os tipos exóticos dos trópicos, século XVII



Reprodução


Albert Eckhout, Índia Tapuia, 1641, óleo sobre tela. A imagem da mulher que traz um pedaço de perna umana no cesto representada pelo pintor alude aos hábitos antropofágicos de algumas tripos nativas do Brasil colonial que tanto apavorava os viajantes


Sobre a obra de Adriana Varejão, o Crítico Paulo  Herkenhoff tece seus comentários: 

Sua obra é uma operação iconológica com imagens extraídas da história da arte (...), passando à condição de pintura, seu filtro e denominador. Cada obra é uma consolidação de imagens de origens díspares na teatralização da história".






Adriana Varejão, Prato com mariscos, 2011, óleo sobre gesso, obra em exposição no MAM-SP. Esta obra é interessante pois traz vários elementos da iconografia artística oriental em miniatura nas conchas, vale a pena observar mais atentamente

Detalhe: 






Referência para o polvo de dentro da concha na obra de Adriana Varejão é esta gravura, de 1814, do gravador japoneês da Era Edo, Hokusai


A voz de Adriana Varejão eleva-se alto e forte; como o estrondo de um trovão que sacode o mundo com o fim de reivindicar a existência das diferenças e conquistar um lugar, não no centro, mas nas extremidades, onde a subjetividade é móvel e capaz de se libertar de todas as convenções sociais.



In Ars Veritas


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Bibliografia:

Adriana Varejão. Brasília: CCBB, 2001. catálago

Adriana Varejão: entre carnes e mares. Rio de Janeiro: Cobogó, 2009.

Panorama da arte brasielira: desarrumando - Dezenove arranjos. São Paulo: MAM, 2003.


Adriana Varejão: secos e molhados. Madri: Galeria Soledad Lorenzo, 2002.

Adriana Varejão: trabalhos e referências - 1992-1999. São Paulo: Galeria Camargo Vilaça, 1999.

XXIV Bienal de São Paulo. Arte Contemporânea brasileira: em e/entre outro/s. São Paulo: Fundação Bienal, 1998.

Adriana Varejão, Pintura/Sutura, Painting/Suturing. São Paulo: Galeria Fortes Vilaça, 1996.

História de uma catequese: Adriana Varejão. São Paulo: Thomas Cohn Arte Contemporânea, 1993.



Para saber mais: 

http://www.youtube.com/watch?v=svJ3whzVqTo

http://www.adrianavarejao.net/

http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=artistas_biografia&cd_verbete=941

http://dasartesplasticas.blogspot.com.br/2008/03/adriana-varejo-rio-de-janeiro-brasil.html

http://www.revista.art.br/site-numero-10/trabalhos/28.htm







Mariana Zenaro é graduada e licenciada em História pelo Centro Universitário Fundação Santo André e bacharel em Comunicação Social, com ênfase em Jornalismo, pela Universidade Metodista de São Paulo. Tem Pós-Graduação, MBA em Bens Culturais: Cultura, Economia e Gestão, pela Fundação Getúlio Vargas. Frequentou os cursos livres de História da Arte na Escola do Museu de Arte de São Paulo (MASP) por dois anos e meio. Trabalhou em Museus, Arquivos e Instituições Culturais. Foi voluntária no Centro de Documentação e Biblioteca do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Dá cursos e palestras sobre história da arte em fundações, centros culturais. 


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