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SOBRE A FELICIDADE...






Da felicidade não há muito que dizer, a não ser que todos a buscamos loucamente. Quem não quer ser feliz? Corremos atrás da felicidade como quem busca o Santo Graal. Não sabemos onde está, não temos certeza de como encontrá-la e ainda assim, vivemos à sua procura.  Sabemos do seu valor. Mas como será? E o que faremos quando encontrá-la?

Para alguns, a felicidade pode estar em uma carreira bem-sucedida, em um emprego dos sonhos com um alto salário. Para outros, está no encontro do grande amor, de sua alma-gêmea. Para outros ainda, a felicidade pode estar na tranquilidade de uma aposentadoria após uma vida toda dedicada ao trabalho.
Vivemos sempre atrás de alguma coisa, sem nos dar conta de que estamos vivendo e é nesse momento de vida, nessa rápida passagem de tempo, que podemos estar sendo felizes sem perceber.


Eu me perguntei há algum tempo atrás se sou uma pessoa feliz. Isso me levou a refletir sobre o que é a minha vida e o que estou fazendo com ela.  Será que sou feliz onde estou, com quem estou, com o que faço? Então me dei conta de que não há felicidade absoluta, só momentos felizes, instantes em que o mundo, nem que seja só por um segundo é tudo e exatamente o que a sua alma tem buscado. Um estado de plenitude absoluta em que todo o resto deixa de existir e aquele momento único e fugaz acontece.



Foi assim por exemplo quando meu filho nasceu. Eu chorava, ele também mas, quando alguém o trouxe perto de mim e encostou seu rosto no meu, ele ficou quietinho na hora, os grandes olhos abertos para a vida; eu o vi e aquele amor me tomou.  Parei de chorar também e naquele momento fui absurdamente feliz.


Quando me casei, na hora de dizer o sim, uma emoção tão grande me tomou ao olhar para o homem que amava que quase não consegui falar. Eu sabia que precisava dizer sim, mas não conseguia, estava engasgada com o choro contido. Então com muito esforço consegui finalmente dizer “sim”. E naquele momento, sem dúvida nenhuma, eu fui loucamente feliz.


Quando recebi meu primeiro salário fiquei orgulhosa de mim mesma por ter conseguido.  Porque me senti uma verdadeira profissional. Após terminar o magistério, estudei muito, fiz um concurso público, fui aprovada, trabalhei e recebi. E receber pelo trabalho, experimentar essa sensação de ter feito algo bom e receber um salário por isso, tudo isso me fez muito feliz.


Quando minha mãe saiu do hospital comigo, após ter sido desenganada e ter ficado na UTI, assim que entramos no carro, ela me olhou e sorriu. Disse que não acreditava que estava indo para casa. Sua recuperação, seu sorriso e sua alegria me fizeram feliz.

Quando pisei num palco, pela primeira vez dirigida profissionalmente para apresentar uma peça, o coração batia rápido, parecia que ia explodir. O teatro cheio, aquele burburinho, as luzes, os sons, o corpo trêmulo e o texto na ponta da língua. Quando finalmente acabou e os aplausos ecoaram, enquanto todos da companhia dávamos as mãos para agradecer ao público, eu estava plena de felicidade.



Quando passei no Doutorado, após tanto investimento, tantas lutas e tanto estudo, uma grande amiga me ligou e me deu a notícia. Então eu comecei a chorar e a rir ao mesmo tempo e naquele momento, entendi  que felicidade também pode te fazer chorar.


São muitos os momentos em que vivenciamos a felicidade. Mas não só quando coisas importantes ocorrem. Também os acontecimentos mais simples, quase cotidianos podem nos fazer felizes. Isso aconteceu quando pisei no mar de Bombinhas e uns peixes vieram nadar ao meu redor. Alguns deles, mais atrevidos, beliscaram meus pés. Eu ri de alegria e susto e claro que naquele instante tão singelo, eu fui feliz.


Quando eu conheci o borboletário em Belém e centenas de borboletas voaram à minha volta, esvoaçando suas asas de luz em meu rosto,  eu senti uma profunda gratidão pela natureza e mais do que isso, me senti parte dela.  Aquelas borboletas me fizeram feliz.




Um dia eu abri o portão de casa e em frente a ele estava um dos meus gatos. Quando vi aquele gato parado, olhando para mim como se já me conhecesse, o pelo todo branco, um olho de cada cor, sua figura explodindo em beleza como uma pintura, eu soube que ele já era meu. Então naquele instante fugaz em que nossos olhares se encontraram, eu fui feliz.



Quando nadei em Bonito, no Aquário Natural e me misturei àquela vida aquática, bela e selvagem, os peixes se aproximaram de mim e me olharam nos olhos, sem medo.  Alguns até me acompanharam, enquanto eu flutuava, perdida e atônita com tamanha beleza. E apesar do frio que senti, eu fui feliz.


Quando plantei minha primeira rosa, não sabia de que cor era, pois comprei uma muda sem flores. Quando ela surgiu no meu jardim, eu acompanhei cada passo seu. Do pequeno botão à gloriosa abertura de suas pétalas. Era uma rosa branca, mas não toda, pois caprichosamente tinha as bordas rosadas. Quando eu a vi pela primeira vez, sabendo que eu a tinha plantado e também a nutrido com meu amor e minha esperança, eu me senti feliz.


A vida é feita de vitórias e derrotas, de alegrias e de tristezas. Ninguém pode ser feliz o tempo todo (e nem triste!). Mas compreendi que a felicidade está sempre associada ao sentimento de gratidão. Porque em todos os momentos em que fui feliz, também fui grata. Por isso cada momento, se bem aproveitado e aceito com gratidão pode ser um instante de felicidade. Para isso é preciso sensibilizar os sentidos, olhar para além do que se coloca em primeiro plano e valorizar o instante. A felicidade pode estar em qualquer momento e em qualquer lugar. Basta estar atento a ela, respirar fundo e abrir o coração.






* Imagens retiradas da Internet sem fins comerciais.






Vanisse Simone Alves Corrêa é doutoranda em Educação pela UFPR e co-editora da Revista Contemporartes. Ela sente gratidão e felicidade cada vez que escreve esta coluna.
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Eu era feliz. Eu sabia.

                       

Sempre repeti o chavão de que quando se é feliz, não se sabe. Mas não acredito nele. Acho que quando se está a vivenciar a felicidade, é impossível ignorá-la.
Quando eu estava na terceira série, tinha consciência de que era meu melhor ano até ali. A professora gostava de mim, eu sentava no primeiro lugar da fila, tinha uma melhor amiga que também era minha melhor amiga e na minha classe havia um menino que eu gostava e que era legal comigo. Eu estava a viver o meu melhor ano na escola e tinha convicção disso. Não é verdade que eu era feliz e não sabia.
Acho que isso vale para todos os momentos incendiados de plenitude: por mais que se saiba da transitoriedade dela e que a incompletude está mais para a pessoa do que o preenchimento, ao nos pegarmos "naquele" momento, sabemos exatamente que ele jamais desmarcará a pele da nossa alma.
De uns tempos pra cá, vêm-me flashes de lugares, de passagens vividas em viagens, paladares e perfumes de flores e estradas, que me transportam novamente por paisagens distantes, as quais talvez eu nem chegue, um dia, a rever outra vez. E o que eles tem em comum é que, a cada instante que passava por elas, eu sabia estar acontecendo um momento inesquecível da vida, uma alegria sem tamanho, inigualável, que jamais iria me deixar.
O meu primeiro reveillon segurando a mão de um homem foi assim. Os fogos estouravam na noite limpa e estrelada do Paraná e eu sabia estar estreando uma espécie de momento, inédito até ali, na companhia do amor.
O mesmo quando entrei naquele trem português, de Lisboa a Coimbra, vendo as casinhas esparsas pelo caminho, naquele comboio quase vazio e tão confortável, com mesinhas pra reunião de quatro pessoas, enquanto seguia viagem. Meu coração exultava pela alegria do novo, mas também comprimia, pela iminência da saudade, a qual, mal eu chegava a meu porto, já me inundava o coração por conta dos meses que se seguiriam na distância daqueles que eu amava.

Enquanto o trem rangia sobre os trilhos, vindo
Eu vagava cansada, entre nuvens
Procurando enxergar através dos vidros
A fumaça das casas
Viajava há um dia pelos ares
E porque podia medir a distância em tempo
A separação em mim se alongava
Como definitiva
E, nas árvores ao contorno dos morros
Eu 'inda não via as folhas que faltavam
E o cantado da língua não era bonito
Só mais um artifício do desconhecido
Só outro enigma em terra de gringo
Vi minha avó nos olhos de uma velha distinta. E a mim mesma
: olhos atrevidos, amendoados, que riem sozinhos
Às malas quadradas, difíceis de levar,
Reservei os sonhos de peso
Ainda assim, quando as abri, tudo faltava
Parece praxe dizer isso a uma semana de casa
Mas medir o espaço em meses é poema
Com nome predestinado de saudade
Porque quando a distância é tamanha
Que se possa medir em águas
Já se aporta com o peito cheio dela
O oceano transbordando pelos olhos
Ao desembarcar da caravela


Quando em criança eu brincava aquelas tardes de verão com minhas primas e uma criançada boa que se reunia pra brincar de esconde-esconde no escuro, ao cair da noite em Santa Mariana, eu sabia que era feliz. Quando naquelas férias, os primos da minha mãe foram passar um tempo na casa da minha avó, eles com seus quatro filhos, sendo três deles, meninas, e a gente pegava piscina todo dia, jogava baralho e trocava biquínis umas com as outras (a cor da minha pele num tom de cobre. Porque é assim, o bronzeado: pega a tonalidade do ambiente em que se está, na praia, reflete da areia pra pele, no interior, da terra para ela, ofertando à tez, um caboclês inconfundível), eu sabia que era feliz.
E então quando eu entrei na faculdade, aconteceu uma coisa diferente. Eu sabia que seria feliz ali, mesmo antes de ser. E cumpriu-se a profecia: quando eu andava com meus amigos de braços dados, cantando ou rindo, dançando nas noitadas, ou estudando junto pras provas, eu sabia que estava sendo feliz.
Uma vez, ainda criança, meu pai nos levou ao teatro, eu e meu irmão. No teatro de Santo André, no período da tarde, pra assistir uma peça infantil. Era raro ele sair conosco sozinho e aquela tarde atípica, repleta de uma pasmaceira característica das tardes de semana, foi maravilhosamente invadida pela felicidade do novo, na companhia daquele que sempre será o personagem mais especial de todas as histórias: meu pai.

Eu era feliz. Eu sabia.

Isso se deu em inúmeros outros momentos. Tive a graça de ser feliz muitas vezes até aqui. Talvez o mesmo número de vezes que fui infeliz, porque o ser humano é isso. Não dá pra desfrutar de uma única coisa a vida inteira e, se se deseja experimentar o júbilo, tem-se que estar preparado pra viver também o martírio, algumas ou muitas vezes.
Acho que esse desejo de fazer determinada coisa ser especial e inesquecível, influencia no torná-la o que se deseja. Apesar de alguns momentos felizes não se consumarem como esperávamos, não há momento de felicidade consumada, sem que tivéssemos o lapso, a percepção de se estar vivendo um episódio especial.
Minhas viagens, os lugares por que passei, as cores e algum breu revelados nelas, são especiais pra mim. Não todos, é claro!, apenas alguns eleitos, não se sabe ao certo se antes, ou durante o acontecimento. 
Por exemplo, quando iniciei o caminho de Santiago, aquele pôr-do-sol alaranjado alastrando-se no horizonte e sob as ancas dos touros em Pontes de Lima; ou quando andava pelas ruas da baixa de Coimbra, o saxofonista empunhando seu instrumento, que ressoava pelas vielas e arcos; ou quando vi apontar no dobrar de uma esquina de Paris, a Torre muito ao longe e quis persegui-la a pé, até alcançá-la... todos esses, momentos em que eu sabia estar vivendo e, ao mesmo tempo, construindo o que vale a pena ser lembrado e re-experimentado muitas e muitas vezes,  em memória.

Pôr-do-sol alaranjado de Pontes de Lima.
A primeira visão da Torre.
O contato com o mundo diretamente, sem a interferência do outro: uma relação que se desenvolve com o todo, sem passar por mais ninguém, um envolvimento pessoal com o mundo, que o sertanejo faz tão bem e muitas vezes -  não durante um ano, mas durante um dia e todos os dias.
Acho que por isso as pessoas do campo sentem-se mais felizes do que nós. Porque para elas esse contato com o Universo faz-se o tempo todo e por mais que possuam amigos, pessoas com quem podem conversar, compartilhar a vida, nos seus assuntos e silêncios, sabem contactar-se, sem nenhum intermédio, com a natureza.
No filme "Into the Wild", o personagem fala disso. De conseguir a felicidade por outro meio que não através de relações. Ao final, ele conclui que só tem sentido aquilo que se compartilha, mas por muito tempo ele alcançou o sentimento de felicidade no exclusivo usufruto do mundo.


Na cidade, está-se mais distante da natureza, mas não do mundo, não do todo. Contudo, aqui, quanto maior a solidão que sentimos, menos nos permitimos essa interação com o ambiente de que fazemos parte sem que recorramos ao outro, à intermediação do outro, que parece nosso único referencial da felicidade e do encontro.
Outro dia me disseram: você não tem muitos amigos. E isso ecoou fundo em mim, posso dizer mesmo que me deixou doente, tão impactada eu fiquei com a revelação verdadeira: não tenho muitos amigos.
Identifiquei-me com a música de Dominguinhos, num trecho em que diz "eu quase não saio/ eu quase não tenho amigo". Senti-me a própria sertaneja e a dor daquele lamento entranhou-me tanto o ser que infeccionou-me a alma, deixou-me doente, cheia de enxaqueca e vômitos, porque me reconheci no nordestino solitário, cuja poesia confunde-se um pouco com uma angústia perniciosa "eu quase não falo/ eu quase não sei de nada", cuja patologia fundiu-se à minha dor física, em forma de melodia, numa performance inexorável.
Essa identificação, ou simples constatação, constituiu num choque : é claro que eu não queria ser uma mulher sem amigos, que eu não queria ser uma mulher solitária, que confia mais nos animais de estimação que na maior parte das pessoas que conhece. Eu sei a importância de ter amigos. 
Mas, refletindo melhor, não posso também dizer que sou muito infeliz por não ter muitos amigos. Porque eu aprendi um pouco (não totalmente) essa relação mundo X pessoa e muitas vezes me sinto integrada: quando me permito sair pelas ruas e respirar o mundo de fora, olhar pra desconhecidos, ouvir o rumor dos trilhos do metrô e a buzina dos automóveis nas grandes avenidas, contemplar uma obra de arte numa galeria desconhecida ou degustar um doce de maçã no meu café preferido, enquanto aguardo aquele filme que só passa na capital.

Hoje eu vou levantar
Abrir as janelas, arrumar a cama
Vestir uma roupa bem viva
Ir pra longe.
Hoje eu vou deixar a vida
O mundo, as avenidas
Andarem em mim.
Hoje eu quero sair.

Desta maneira eu consigo continuar construindo momentos inesquecíveis, mesmo quando não há uma mão pra entrelaçar na minha - na carteira levo meus amuletos: um ticket do metrô de Paris, um cartão de hotel em Florença, um ingresso de Mr. Paul Mac'Cartney no Brasil.
E consigo também despistar o medo quando, no viger daquele ato inestimável em que está a desenrolar-se o amor da vida, desesperamo-nos em cogitar, mesmo que em remota hipótese, a perda da pessoa amada... 
Afinal, o mundo, o que nos envolve, sempre vai estar ali. Como Deus, como a própria vida, o que está around, diferentemente de uma pessoa, é grande demais pra se perder.














ouça esta canção e entenda com o coração o que não está dito
















Larissa Germano é autora de "Cinzas e Cheiros" e escreve nos blogs Palavras Apenas (naoapenaspalavras.blogspot.com) e Nunca Te Vi Sempre Te Amei (cafehparis.blogspot.com), Tem perfil no facebook e no twitter e a página Lári Prosa e Trova no facebook. É também compositora intuitiva e tem perfil no Sound Cloud e Youtube.






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