quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

INCONTROS


     Hoje vou falar um pouco sobre minha trajetória como fotógrafa. É interessante falar sobre nosso próprio trabalho, olhar para trás e perceber todo o percurso, o caminho que se percorreu, embora não seja também uma tarefa muito fácil. Afinal são trinta anos de fotografia que estarei comemorando agora em 2010 com uma exposição retrospectiva.  Nessa caminhada, já fiz um pouco de tudo em fotografia, do “rebobinamento” do filme (os fotógrafos mais antigos sabem bem o que é isso) à secagem manual das fotos em papel, trabalhando em áreas variadas. Mas por um tempo me especializei em fotos de moda e viagens, contratada durante doze anos no Jornal Gazeta do Povo. Aliás, quando fui admitida no final da década de 80, fui a primeira mulher a trabalhar como fotógrafa nesse jornal.

     Desse período, destaco como mais importante pela ligação afetiva, uma viagem à Polônia através de uma bolsa concedida pelo Consulado no Paraná aos artistas descendentes de poloneses, para conhecer e realizar um trabalho na terra de seus ancestrais. Dessa viagem, resultou o ensaio fotográfico “Alma Polaca”, um reencontro emocionado com minhas raízes, com a terra, o povo e a cultura dos meus avós paternos.



Convite da Exposição “Alma Polaca”, que teve como texto de apresentação comentários do então governador do Paraná, Jaime Lerner . (1995)

     Mas ainda nessa fase, me deparei com outro lado não tão glamuroso da profissão. Trabalhando na redação do jornal, mergulhei no chamado “mundo real” ou da realidade social: as fotos policiais, as invasões, os acampamentos dos sem-terra, enchentes, as barricadas da população por melhores condições de trânsito em seu bairro faziam parte do cotidiano de fotógrafos e repórteres. Muitas dessas fotos eram geradas para meu portfólio particular, juntamente com aquelas que eram publicadas pelo jornal, e que seguiam o padrão convencional.


 
Em jornal, esse tipo de imagem é chamada de “foto policial”, onde percebi que a maneira como os pés foram presos, rendia uma certa plasticidade visual. (1997)


Menino de rua é visto passeando sobre as marquises do ponto de ônibus da praça Carlos Gomes.
Fazíamos essas fotos curiosas para uma sessão do jornal chamada “foto do dia” (1998) 


Foto para uma matéria sobre as agremiações de motoqueiros.
Aqui os personagens simulam a famosa “quebra de braço”, brincando com aquela imagem que têm os participantes dessa atividade: aventureiros, heteros, “durões”. (1996)

     Esse foi um dos motivos que me levou a buscar o mestrado em Sociologia, onde pude exercitar  a reflexão sobre as sociedades humanas modernas, e a inserção da fotografia como ferramenta de conhecimento das mesmas. Uma viagem a Cuba nesse período, me ajudou a compreender as diferentes formas de organização das sociedades, a diversidade cultural, a adaptação das pessoas às situações impostas seja pelo regime socialista ou pelo assim chamado, sistema político democrático.

     Considero, nessa breve apresentação da minha trajetória profissional, que me encontro em um momento privilegiado onde, de posse de um vasto material de campo, posso fazer algumas reflexões acadêmicas e por que não, existenciais, e colocar de forma objetiva e racional alguns experimentos que fazia de forma sensível e intuitiva.


“Entardecer em Havana”, foto integrante do ensaio fotográfico realizado em Cuba.
Pausa tranquila na capital, bebendo Mayabe, uma cerveja local.

      Hoje, ainda trabalhando como fotógrafa, seguindo na captação digital de imagens, também me dedico ao conhecimento da linguagem fotográfica e da fotografia como expressão artística em seus 170 anos de história. E refletindo nessa perspectiva histórica, me descubro como fazendo parte de um grupo, de uma espécie de pioneiras nessa atividade.

     Faço parte de um grupo de mulheres que se aventuraram na fotografia já na segunda metade do século 20, e que provaram do doce e do amargo de sua escolha. Pois, mesmo nesse período e durante muito tempo, essa profissão foi considerada essencialmente masculina. Mas esta já é uma outra parte da história, ainda a ser pesquisada.






Izabel Liviski, Mestre em Sociologia na linha de Imagem e Conhecimento pela UFPR,  consultora da Contemporâneos, escreve quinzenalmente a coluna INCONTROS, às 3ªs.Feiras, na Revista ContemporARTES.

2 comentários:

Ana Dietrich disse...

querida izabel, q maravilha vc. nos brindar com parte dessa (bela) história. Ficarei no aguardo dos próximos capítulos e mto grata pelo ContemporARTES nos ter unido.
bjs

11 de fevereiro de 2010 23:50
Bárbara Lia disse...

Izabel, extremamente poético este entardecer em Havana...
parabéns pelo seu trabalho,
bjs

23 de fevereiro de 2010 07:21

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