segunda-feira, 17 de maio de 2010

3 ou 4 Sonetos de Aníbal Beça.

Nunca desconheci Aníbal Beça!
                    por Altair de Oliveira 

Fingindo de morto para contradizer talvez a própria contradição da recomendação e da tradição de nossa coluna Poesia Comovida em publicar apenas poetas vivos e contemporâneos, apresentamos hoje 3 sonetos do poeta amazonense Aníbal Beça, que faleceu no ano passado, mas que deixou uma poesia capaz de nos iluminar ainda por muito tempo.

A primeira vez que "vi" o poeta foi no jornal "Hoje", quando virou notícia, na ocasião em que fora vencedor do então famoso "Prêmio Nestlé de Literatura", que pagava à poesia um dindim bem decente! Na época o poeta já era bem conhecido para os padrões de poeta brasileiro e, um pouco tímido e triste, falalava do prêmio como uma espécie de reconhecimento pelos seus 30 anos de militância poética e comentava que o seu livro vencedor "Suíte para os habitantes da noite" era quase que uma homenagem à musica, que ele tanto amava.

O pouco que ouvi da poesia do bardo naquele dia, com sua musicalidade e sensualidade incomum,  foi suficiente para que eu me tornasse de imediato fã dele, passei então a procurar o seu nome e seus poemas nas antologias, revistas literárias e nos sebos; com pouco e raro sucesso. O próprio livro premiado, que fora editado pela editora Paz e Terra em 1995,  eu nunca tive a felicidade de encontrá-lo nas muitas livrarias de diferentes cidades onde busquei-o.

Voltei a "reencontrá-lo" através da ferramenta de busca do orkut cerca de 3 anos atrás, então pude declarar-me como um leitor seu e adicioná-lo ao meu rol de amigos e pudemos trocar, por algum tempo, algumas figurinhas sobre poesia e, de vez em quando, receber do poeta Aníbal Beça, algumas de suas preciosidades poéticas.

Quando o poeta morreu não saiu na TV. Por isso eu continuei a enviar-lhe scraps esporadicamente em sua página do orkut, perdoando sempre sua falta de respostas e imaginando que ele deve estar discutindo a relação com suas musas ou simplesmente gestando belos poemas para nos comover... É isso aí!



"Como conheci Mário Quintana!"


Extraímos o interessante texto a seguir de uma entrevista recente, concedida ao poeta e escritor Rodrigo de Souza Leão, que também faleceu no ano passado, onde o poeta Aníbal Beça relata de como conheceu o poeta gaucho Mário Quintana, o despertar para a poesia e uma grande amizade e admiração:


" Mas o despertar mesmo para a poesia e a literatura, aconteceu aos doze anos quando fui estudar em Porto Alegre. Mais precisamente em Novo Hamburgo, interno no colégio marista S. Jacó. Nos finais de semana vinha a Porto Alegre e aos sábados e domingos: cinema. Numa dessa idas ao Cine Cacique, começo de inverno, não levei agasalho porque realmente não estava frio. Minha avô havia recomendado que eu levasse pullover, cachecol etc. que iria esfriar e eu, menino do norte, não sabia o que era o Minuano. Não ouvi os conselhos. Saindo do cinema, o Minuano zunia, meus lábios e orelhas começaram a rachar. Um frio cachorro. Caminhando pela Rua da Praia, já não aguentando, entrei na Livraria Globo. Disfarçando, como se estivesse à procura de algum livro. Só que um velhinho, que estava por trás do balcão percebeu, e veio em minha direção: "O que o jovem deseja. Está procurando o quê para leitura. “Inventei” um livro qualquer, mas não fui muito convicente e acabei contando o porquê de ter entrado lá. Disse que era de Manaus, que não estava acostumado e nem conhecia o frio. Contei a história da avô. Muito simpático ele perguntou se eu gostava de poesia. Eu disse que sim. E ele: Então vou lhe dar um presente. Foi a estante e tirou um exemplar que me dedicou. O livro? "Canções"finamente ilustrado com bicos de pena por Tarsila do Amaral. O autor? Mario Quintana. O próprio. O velhinho que veio ao meu encontro e me dedicou o livro. Desde esse episódio, voltei outras vezes a me encontrar com ele sempre que ia ao cinema. Uma vez o vi rodeado de normalistas, fascinadas com os seus versos, com a sua declamação e o seu jeito terno e carinhoso e brincalhão. Pensei comigo: eu quero é ser poeta. Ficar assim rodeado de tanta menina..." - por Aníbal Beça.


Sobre Aníbal Beça 

Aníbal Beça nasceu em Manaus AM, 13 de setembro de 1946  e faleceu em 25 de agosto de 2009, foi poeta, repórter, redator e editor de todos os jornais de Manaus. O poeta foi também  diretor de produção da TV Cultura do Amazonas, Conselheiro de Cultura, consultor da Secretaria de Cultura do Amazonas, vice-presidente da UBE-AM União Brasileira de Escritores, presidente da ONG “Gens da Selva”, membro da Academia Amazonense de Letras e presidente do Sindicato de Escritores do Estado do Amazonas e do Conselho Municipal de Cultura de Manaus.

O poeta iniciou seus estudos em Manaus e continuou em Novo Hamburgo (região metropolitana de Porto Alegre), onde mudou-se aos 12 anos e teve a oportunidade de conhecer o lendário Mário Quintana. Posteriormente, teve a formação de especialista em tecnologia educacional na área de Comunicação Social (UFRJ).

Com uma poesia marcadamente musical, Aníbal Beça, que foi também um grande haicaista, teve vários de seus poemas musicados e gravados por diversos músicos brasileiros e, em 1994,  recebeu o Prêmio Nacional Nestlé, em sua sexta versão, com o livro Suíte para os Habitantes da Noite concorrendo com 7.038 livros de todo o Brasil.


O poeta publicou os seguintes livros:


    * Convite Frugal, Edições Governo do Amazonas (1966),
    * Filhos da Várzea, Editora Madrugada (1984),
    * Hora Nua, Editora Madrugada (1984),
    * Noite Desmedida, Editora Madrugada (1987),
    * Mínima Fratura, Editora Madrugada (1987),
    * Quem foi ao vento, perdeu o assento, Edições Muraquitã (teatro, 1988),
    * Marupiara – Antologia de novos poetas do Amazonas, Edições Governo do Amazonas - organizador, 1989),
    * Suíte para os habitantes da noite, Paz e Terra (1995),
    * Ter/na Colheita, Sette Letras (1999),
    * Banda da Asa – poemas reunidos, Sette Letras, (1999),
    * Ter/na Colheita, Editora Valer (2006, segunda edição),
    * Noite Desmedida, Editora Valer (2006, segunda edição),
    * Folhas da Selva, Editora Valer (2006).
    * Chá das quatro, Editora Valer (2006)
    * Águas de Belém, Editora Muhraida( 2006);
    * Águas de Manaus, Editora Muhraida( 2006).
    * Palavra Parelha reunindo os livros Cinza dos Minutos, Chuva de Fogo, Lâmina aguda, Cantata de cabeceira e Palavra parelha no prelo Editora Topbooks 2007.


Os Sonetos


LAVOURA

Calma colheita do verbo sereno
Madura mansidão que se apresenta
Nessa escolha do fruto mais ameno
Servido à mesa suado e tão sedento.

Palavras semeadas num terreno
Quintal comum, adubo que se inventa
Na lida da lavoura em plano pleno
De quem se sabe longe da tormenta.

O fruto verde envolto nas lianas
Há muito debelado do seu travo
Hoje se escolhe o doce em filigranas.

No duro aprendizado fiz-me escravo
Cavalo de um arado em terra plana
Transpirando crepúsculos no estábulo.


   ***

ABOIO DE TERNURA PARA UMA RÊS DESGARRADA

                            (Para a poeta  Astrid Cabral)

Fora de tua tribo peixe fora d’água,
bordando as muitas dores no ponto de cruz,
alinhavas rebanhos reunidos na frágua
dos rios da tua infância com escamas de luz.

Versos tecidos na cambraia das anáguas
de alices caboclas, yaras-cunhãs do fundo,
encantadas dos peraus, afogando mágoas,
mas que sabem, sestrosas, dos botos do mundo.

E os teus pés desgarrados pisaram em nuvens
de ventos sem mormaços, no azul de outras línguas:
águas despidas do alfenim de nossas chuvas.

Te sabias folha de relva da ravina
irmã de Whitman e do Khayam simum
próxima do teu gado e rês da própria sina.


  ***

Sonata para ir à Lua


Desnudo já me dou de mim doendo
na doação das folhas da floresta
que vão caindo sem saber-se sendo
pedaços de nós na noite deserta


A lua imponderável vai ardendo
cúmplice em nossa luz de fogo e festa
Meus braços são dois galhos te dizendo
que o forte às vezes treme em sua aresta


Esta outra face frágil de aparência
que só aos puros é dado conhecer
no abraço da paixão e sua ardência


Mesmo cego de mim eu pude ver
e sentir no teu beijo a clara essência
que faz do nosso amor raro prazer
 



   ****

MULHER DE SEDE SEDENTA 

Finge a mulher que não se quer vulcão
num eufemismo frágil de inverdade.
Onde existiu fogueira, abrasação,
basta um sopro na lenha da saudade.   .

A sede que se faz sede serena
chega filtrada em gotas bem dosadas
regando tantos tântalos na cena
roubando-a como amante acalorada.

O verde que queimaste já  não conta
pela falta madura dessas montas
na pressa sem primícias do alunado.

Hoje não. Os chamados escolhidos
são bem poucos, didáticos bandidos
que não querem morrer sem ser matados.




Para ler mais Aníbal Beça:

http://www.overmundo.com.br/banco/cantata-de-cabeceira-para-os-do-meu-chao-e-do-coracao
http://www.germinaliteratura.com.br/naberlinda_ab_mar06.htm
http://poesiaemtodaparte.blogspot.com/2009/06/renga-de-anibal-beca-e-jose-felix.html
http://www.anjoscaidos.jor.br/a_beca/poemaseroticos.html


Ilustrações: I- foto do poeta Aníbal Beça; II- "Mulher Tocando Badolim", do pintor Pablo Picasso; III- trabalho da artista plástica gaucha Marli Sassi.


Altair de Oliveira (poesia.comentada@gmail.com), poeta, escreve às segundas-feiras no ContemporARTES. Contará com a colaboração de Marilda Confortin (Sul),  Rodolpho Saraiva (RJ / Leste) e Patrícia Amaral (SP/Centro Sul).

1 comentários:

marilda confortin disse...

All, o Anibal foi o avô do Poetrix. "Foi Aníbal Beça, um dos maiores pesquisadores brasileiros de Hai-Kai, quem gentilmente me falou: "Goulart, pode chamar seus inventivos tercetos do que quiser, menos de Hai-Kais". E ele estava absolutamente certo. Não podemos dizer que suco de uva é vinho sem álcool." - Goulart Gomes - pai do poetrix.

Anibal e Calvino, são leituras obrigatórias de quem quer escrever haicai ou poetrix. Eu não sabia que você gostava dele...
Beijo

19 de maio de 2010 15:09

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