segunda-feira, 31 de maio de 2010

Por um trix, a colunista entrevista



Poetrix: um terceto brasileiro
por Marilda Confortin & Mariana Braga


Há duas semanas, fui procurada pela repórter do Jornal Comunicação da Universidade Federal do Paraná, Mariana Braga. Queria saber que história é essa de terceto brasileiro e quais as diferenças entre o milenar haicai e o Poetrix.
Marcamos em frente à sala de empréstimos da Biblioteca Pública do Paraná. Cheguei uns quinze minutos antes e me plantei lá a espera da jornalista. Fazia um frio inesperado como só Curitiba sabe fazer.
Estudantes alegres, cobertos por casacos largos e cachecóis coloridos, amarrados com nós criativos, entravam e saíam da Biblioteca aos pares, trios, montes, tropeçando uns nos outros, sem me ver.
Senti saudades de quando eu freqüentava a Biblioteca Pública e também achava que o mundo era só meu e de quem estivesse comigo naquele instante.
Quinze minutos depois do horário marcado, o saguão esvaziou-se e ficaram só três pessoas. Uma garota que já estava lá conversando com um rapaz desde o princípio, o guarda e eu. Não deve ser ela, pensei. Parei de observá-la. Depois de um tempo, ocorreu-me que eu poderia estar na sala errada. Dancei, pensei. Já estava saindo quando vi um enorme ponto de interrogação na testa daquela mocinha.
- Mariana?
- Marilda?
Sim, éramos nós. Escolhemos uma mesa e conversamos muito, sem pressa. Seus olhos brilhantes e curiosos lembravam o olhar de meus filhos, pequenos, quando eu lhes contava uma história nova. Ela ainda não estava contaminada pela pressa dos jornalistas, pela limitação das laudas, pelos cronogramas e pelas matérias encomendadas. Ela escolheu escrever uma matéria sobre Poetrix. Uma poesia nova. Uma nova história. Que maravilha! E ainda melhor: Disse-me que faria um “tubo de ensaio”. Imaginei uma sementinha de poesia germinando dentro de um tubinho de vidro, crescendo, espreguiçando-se como um pé de feijão, sob o olhar deslumbrado de uma criança. É isso que ela faria. Depois de reunir a informação necessária, ela mesma se submeteria à experiência de produzir poetrix e contar aos outros quais foram suas dificuldades, facilidades, sensações e emoções. Confesso que essa imagem me emocionou profundamente. Eu plantei essa sementinha... e fiquei muito ansiosa para ver seu desenvolvimento.


Por isso, quero compartilhar com os leitores da Revista Contempoartes o resultado dessa experiência e desejar que outros profissionais e estudantes universitários façam o mesmo: Plantem sementinhas de poesias, (pode ser uma sementinha pequena, como a do Poetrix ou do Haicai), em tubos de ensaio e observem seu crescimento. Com certeza muitas germinarão e se transformarão em poesias, crônicas, contos e talvez até em romances.
A partir daqui, o texto é da repórter Mariana Braga, que vai apresentar o Poetrix e o resultado de sua experiência como cobaia dessa inseminação poética. Obrigada, Mariana por permitir a replicação da matéria. – Marilda Confortin.

Poetrix, um terceto que nasceu no Brasil

Gênero poético tem apenas uma década e é muitas vezes chamado de "filho bastardo" do Haicai.





Reportagem Mariana Braga
Edição Carolina Goetten


sol cores e flores
na Festa da Primavera
saia da menina


(Débora Novaes de Castro)




Al dente 
Não há futuro ao ponto
Quando o presente
É mal passado 
(Marilda Confortin)

À primeira vista, um leitor disperso incluiria os dois tercetos acima no mesmo tipo de classificação, pela forma aparentemente semelhante como foram construídos graficamente. Mas basta uma reflexão um pouco mais atenta para notar distinções essenciais nos poemas, que são enquadrados em gêneros diferentes de poesia: Haicai e Poetrix, respectivamente. 
“O Haicai é um terceto estruturado há milhares de anos e tem formatação de 5-7-5, com no máximo 17 sílabas poéticas”, descreve a poeta Marilda Confortin, membro do Movimento Internacional Poetrix. A métrica 5-7-5 correlaciona versos e sílabas: o primeiro verso, no haicai, deve ter cinco sílabas poéticas, seguido de um segundo com sete e o terceiro, conclusivo, com cinco. Dentro da categoria minimalista, o Poetrix não pode ultrapassar 30 sílabas poéticas, mas não determina normas para a distribuição destas sílabas dentro do poema. “O objetivo é dizer muito com o mínimo de palavras”, explica Marilda.

A partir desse entendimento, os tercetos de Paulo Leminski, por exemplo, são erroneamente chamados de haicais, porque a essência do gênero poético milenar, oriental e de métrica rigorosa não era seguida à risca. No artigo Poetrix: um jeito brasileiro de fazer tercetos, a escritora Lilian Maial explica que o haicai se consagrou como poema descritivo: enquanto tal, costuma identificar a estação do ano – no Japão, chamada de kigo – em que acontece o momento retratado nos versos.
Outras diferenças: A poeta Kathleen Lessa explica algumas diferenças fundamentais entre as duas vertentes poéticas. 
Quanto ao tema 
 
O haicai versa sobre a natureza: estações do ano, flores, frutos, animais, tempo, clima, mudanças, etc. Ele “acontece” no momento em que é escrito. É como um flash fotográfico, apresentando a inspiração que o autor captou ao observar uma cena, obrigatoriamente no tempo presente.


O poetrix tem temática livre e pode acontecer no passado, presente ou futuro.


Quanto ao narrador 
 
No haikai, o autor não interfere na ação. Só observa e narra o momento.
No poetrix o autor pode aparecer, interferir, falar de si, expor sentimentos. 
Quanto às rimas 
 
No haicai tradicional, a rima não é admitida (a menos que seja interna, no verso);
No poetrix, a rima é opcional.
Ao contrário do Poetrix, que instiga, o haicai não deve deixar dúvidas para o leitor. Segundo Marilda, é um terceto contemplativo. “Se ele diz que as folhas estão no chão, elas realmente estão no chão”, assinala a escritora. “O poetrix é mais nosso. É mais livre”. 
Os tercetos tropicais foram organizados pelo poeta baiano Goulart Gomes no gênero Poetrix. Marilda explica que o novo gênero de terceto, criado em 1999, admite ironia, metáforas, neologismo e estrangeirismo, não aceitos em haicais, além de ser urbano e atemporal. A etimologia deriva de Poe (poesia) e Trix (três). 
Ter definido um novo gênero de terceto não significa que existe uma guerra entre haicaístas e poetrixitas. “Nós não somos uma frente de combate ao haicai. Temos muito respeito. O poetrix é um terceto que resolveu assumir sua diferença e não ficar brigando”, assinala a poeta. 
Existem outros detalhes que distinguem os dois tipos poemas. O haicai não admite título, enquanto este é muitas vezes um complemento do Poetrix. “Ele [o poetrix] conversa muito com todas as mídias”, ressalta Marilda. 
O mínimo é o máximo 
 
Pelas figuras de linguagem e pluralidade de sentidos, não basta que alguém leia um poetrix em voz alta para outra pessoa. Muitas vezes o terceto lança mão de jogos de palavras que só podem ser compreendidos através da leitura, como no caso do poema (con)tato, de Marilda Confortin: 
(con)tato 
dedilho improvisos
teu corpo jaz(z)ido
acorda blues
A nova vertente poética conquista cada vez mais adeptos. O Poetrix já fez surgir mais de cem mil poemas na internet, realiza prêmios às melhores poesias e começa a se tornar referência literária no Brasil e no mundo. Nos versos, trabalha-se a intensidade literária, os termos non-sense, a crítica, o erotismo, a intertextualidade - o máximo de conteúdo em até 30 sílabas poéticas. 
Movimento Poetrix 
 
“O hai-kai é uma pérola; o poetrix é uma pílula”. É assim que o coordenador do Movimento Internacional Poetrix (MIP), Goulart Gomes, distingue o recente gênero de poesia. Ele explica na Bula Poetrix que esse tipo de poema é "um projétil em direção ao alvo”. 
A Bula (uma espécie de beabá Poetrix) surgiu depois de a novidade confundir alguns leitores e poetas que pediram por uma organização das regras estruturais do gênero de poema. Além da regulamentação das características que devem estar presentes no Poetrix, Goulart Gomes lançou O MIP, que surgiu em 2000 e tem o objetivo de divulgar os poemas e seus autores. 
Goulart é professor, mestre e doutor em Literatura e autor premiado. Mas embora o fundador do movimento seja envolvido com ambiente acadêmico, isso não é regra entre os poetrixistas: o Poetrix é arte de qualquer profissão. “Existem professores, mas também médicos. Eu sou analista de sistemas”, conta Marilda Confortin. Para ela, poesia é para todos os bons leitores. Alguns desses poetrixistas possuem poemas publicados nas antologias Poetrix, que ano passado chegou à 3ª edição. 
O Poetrix já é rebelde por sua própria essência, e dentre os próprios poetrixistas houve quem se manifestou para ampliar as características do poema, que são aceitas pelo MIP. Carlos Fiore criou o Tautotrix, baseado no tautograma. Ou seja, é um Poetrix que se utiliza de palavras que começam pela mesma letra: 
Pulsação 
Podem pintar poemas,
Prosas, poesias, palavras.
Pessoas pensam. Pulsam.
Existem outras formas múltiplas desse gênero de poema, como o Duplix criado por Pedro Cardoso e Tê Soares, que apresenta dois Poetrix se entrelaçando através da intertextualidade.

A experiência da repórter Mariana Braga como poeta
no Universo Poetrix

Poetrixando na prática
A sensação de construir versos no formato Poetrix é tão instigante quanto a de lê-los
Poetrixar 
(ar)risco versos
algumas palavras f o g e m
perdem-se nas inspirações 
Mariana Braga



Sentei-me à escrivaninha para escrever meus próprios Poetrix, após conversar com a poeta Marilda Confortin na Biblioteca Pública do Paraná e ler Lua Caolha, sua coletânea de poemas do estilo. O amor com que ela se referia ao Poetrix me cativou. Ao folhear diversos livros e arrastar a barra de rolagem de incontáveis sites sobre a vertente poética, fiquei fascinada com os efeitos que esses pequeninos tercetos atingem. Foi quase viciante. Lia um e corria para outro, enquanto algumas ideias me surgiam à mente. 
Achei que minha missão seria dizer muito com poucas palavras, mas colocar sentimentos em apenas três versos não é o mais difícil. Poetrix exige muito além da palavra em si. E, pequeno, lança mão de uma linguagem na sua maior intensidade e clama por ousadia ao utilizar todas as ferramentas linguísticas possíveis. 
Por ser recente, alimenta-se de todas as mídias, como explica Marilda. Procurei aplicar aos meus poemas imagens que representassem na maior dimensão possível os meus sentimentos ou interpretações. Às vezes, podem aparecer imagens ou sons. Mas boa parte dos poetrix apresentam letras entre parênteses ou mudanças sutis no texto para explorar o sentido da palavra. Utilizei em um poetrix a mudança de tamanho da fonte: 
Cidade sou riso? 
esconde o sol na manga
o curitibano
frio
Nesse poema, registrei uma impressão que tive ao passear pela Rua XV em uma cinzenta manhã de sábado. Apesar de descrever aquele momento em meu próprio Poetrix, o sentimento narrado é atemporal, aplicável a diversas ocasiões. Caso eu quisesse produzir um haicai, eu talvez não pudesse dar à palavra “frio” mais de um sentido, trazer-lhe ambiguidades e confusões e misturas de significados. "Frio" significaria apenas o registro de tempo e estação do ano e não poderia indicar, ao mesmo tempo, a característica de um personagem. Meu poema ficaria incompleto. 
“Quanto mais se extrair de uma palavra tudo aquilo que ela foi feita para dizer, melhor. Sempre tem duplo, triplo, quádruplo sentido". É o que Marilda chama de "privilegiar a inteligência do leitor", que não pode ganhar tudo de bandeja, já pronto. "Queremos que ele mastigue, engula, faça a digestão”. 
A estrutura do poema permite a inovação, as aventuras, apostas, riscos, jogos. O título, que não entra na contagem de limite de sílabas métricas, pode interagir com o Poetrix. Em vez de usar a palavra mar em um deles, escrevi As três primeiras letras do meu nome, o que significa que, além de referir-me ao próprio mar, discorro sobre algo que faz parte de mim de uma forma especial. 
As três primeiras letras do meu nome 
Poesia embalada pela brisa
Água e sal que tem graça
Ah-mar!




Esse Poetrix foi inspirado em um texto que escrevi há alguns meses, constituído por três parágrafos por onde se distribuíam 1.283 caracteres. Sua essência não se perdeu por ter de se apertar em apenas três versos: o que eu queria transmitir de mais importante naquele texto ganhou evidência no formato Poetrix. 
Fiz isso porque Marilda me recomendou sintetizar textos ou matérias jornalísticas através do Poetrix. Ela costumava criar poemas para resumirrelatórios prolixos. “Estamos em um mundo sem tempo para grandes leituras”, constata a poetrixista. Além de o Poetrix contribuir para facilitar a criação de textos resumidos, é uma saída para quem tem o fator "pouco tempo" como pretexto para a falta de leitura.
Mas, para quem escreve, o melhor parece ser encontrar termos polissêmicos, ironias e jogos de palavras do cotidiano que caibam bem ao papel. Depois de ensaiar alguns Poetrix, meus sentidos estão mais atentos. Poetrixar é a atividade de deliciar-se com tudo o que se vê,
ouve e sente. Por isso, eu parafraseio Goulart Gomes: Haicai é uma bela fotografia, mas Poetrix… Poetrix é um delicioso chocolate. 
Ilustrações: 1- o olhar de Mariana Braga; 2- a poeta Marilda Confortin; 3- imagen de Araquém Alcântara; 4- foto de um poetrix da poeta Marilda.


Altair de Oliveira (poesia.comentada@gmail.com), poeta, escreve às segundas-feiras no ContemporARTES. Contará com a colaboração de Marilda Confortin (Sul), Rodolpho Saraiva (RJ / Leste) e Patrícia Amaral (SP/Centro Sul).

1 comentários:

Mariana disse...

A Marilda é inspiração. Ela transmite vontade de poetrixar tanto em seus próprios poetrix quanto quando ela fala em ser poetrixta.

Mariana Braga.

3 de junho de 2010 13:10

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