segunda-feira, 19 de julho de 2010

Um pouco sobre Manoel de Barros.


Poesia de Viver e de Brincar.
por Altair de Oliveira


Para o deleite de nossos leitores, trouxemos hoje à nossa coluna uma pequena mostra da poesia do matogrossense Manoel de Barros, que há quase um século tem se dedicado a manejar palavras para compor uma obra poética inovadora. Esta, dia a dia tem conquistado e encantado leitores de poesia, uma espécie rara de clientela, nesses tempos de globatização em nosso país.

Manoel Wenceslau Leite de Barros, nasceu em 1916, em Cuiabá MT, filho de fazendeiros criadores de gado, ainda garoto o poeta mudou-se para Corumbá (hoje no Mato Grosso do Sul) e posteriormente, por influência do irmão mais velho (que viu nele "o dão da poesia") com 8 anos fora enviado à Campo Grande e depois ao Rio de Janeiro para estudar, onde formou-se advogado em 1949. No Rio, o jovem manoel teria feito amigos esquerdistas, lido Marx e ingressado "Juventude Comunista". Isto o teria o inspirado a escrever "Viva o Comunismo" em uma estátua, o que motivou a polícia a ir procurá-lo na pensão onde residia e só não foi preso porque a dona da pensão teria intervido, alegando que ele era um bom menino, que tinha até escrito um livro chamado "Nossa Senhora da Minha Escuridão". A polícia então apreendeu a única cópia de seu primeiro livro e liberou o subversivo autor. Anos depois, devido a um discurso de Júlio Prestes no Largo do Machado no Rio de Janeiro, em apoio ao ditador Getúlio Vargas (que teria entregado Olga Benário aos nazistas), o poeta abandonaria de vez o comunismo.

Formado, o poeta foi viver uns tempos na Bolívia e no Peru e depois seguiu para Nova York, onde estudou cinema e pintura. Mais tarde estabeleceu-se no Rio, onde conheceu e casou-se com a mineira Stella e tiveram 3 filhos. Nos anos 60 Manoel de Barros retornou ao Mato Grosso do Sul e passou cerca de 10 anos no Pantanal, para abriu a fazenda que havia herdado, o que garantiria-lhe o sustendo da família e o tão sonhado "ócio criativo". A partir daí ele pode estabelecer-se em Campo Grande-MS e dedicar-se à poesia, deixando a administração dos negócios por conta dos filhos.

Inicialmente impressionado por Arthur Rimbaud e padre Antônio Vieira, Manoel de Barros, que desde os 13 anos estava envolvido por encantamentos e tentativas poéticas, escreveu seu primeiro poema aos 19 anos e publicou seu primeiro livro no Rio em 1937 "Poemas concebidos sem pecado", numa edição atesanal de 21 exemplares, distribuídos aos amigos. Desde então, o poeta militou na poesia, e publicou regularmente (Face Imóvel - 1942; Poesias - 1956; Compêndio para uso dos Pássaros - 1960; Gramática Expositiva do Chão - 1966; Matéria de Poesia - 1974; Arranjos para um Assobio - 1982; Livro de pré-coisas - 1985; O Guardador de Águas - 1989). Durante este período de praticamente 50 anos o tímido poeta era pouco conhecido e passou mais ou menos ileso sobre os movimentos literários que aconteceram no Brasil até se tornar, na década de 80, em um dos peincipais poetas do país. Nos anos 80 o grande poeta Drummond de Andrade teria dito que o maior poeta brasileiro vivo se chamava na verdade "Manoel de Barros", vários depoimentos de amigos revelavam o valor do poeta que ele era, surgiu o filme "Caramujo-Flor" de Joel Pizzini celebrando à sua obra, seu livros passaram a ser publicados e divulgados pelas grandes editoras e sua obra passou a ser estudada e festejada nas universidades de letras.




Depoimentos sobre o poeta:

"Na humildade diante das coisas. (...) Sob a aparência surrealista, a poesia de Manoel de Barros é de uma enorme racionalidade. Suas visões, on ricas num primeiro instante, logo se revelam muito reais, sem fugir a um substrato ético muito profundo. Tenho por sua obra a mais alta admiraçã e muito amor." - Antônio Houaiss, filólogo.

"A poesia de Manoel de Barros tem a força de um estampido em surdina. Carrega a alegria do choro.", João Antônio, escritor.

"Rica e inaugural, o apogeu do chão!" - Millor Fernandes, poeta, sobre a obra de Manoel de Barros.


"Desde Guimarães Rosa a nossa língua não se submete a tamanha instabilidade semântica" - Geraldo Carneiro, poeta, sobre Manoel de Barros.


Frases do Poeta:


"As três coisas mais importantes para mim são duas: o amor e a poesia.", MB, em entrevista à Cláudia Timarco.

"Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.", In: "De noite o silêncio estica os lírios"

"A mim me parece que é mais do que nunca necessária a poesia. Para lembrar aos homens o valor das coisas desimportantes, das coisas gratuitas. [...] Há que se ter umas coisas gratuitas para alimentar os loucos de água e estandarte." em entrevista a José Otávio Gizzo.


"Minha poesia é feita de palavras, não de paisagens. Ela é também impregnada da água e do solo da minha infância.. A poesia é a infância da linguagem.", em alusão ao Pantanal, da matéria "Manoel de Barros, o poeta que veio do chão", do "O Estado de São Paulo".



Obras:


1937 - Poemas concebidos sem pecado
1942 - Face imóvel;
1956 - Poesias
1960 - Compêndio para uso dos pássaros
1966 - Gramática expositiva do chão
1974 - Matéria de poesia
1982 - Arranjos para assobio
1985 - Livro de pré -coisas
1989 - O guardador das águas
1990 - Poesia quase toda
1991 - Concerto a céu aberto para solos de aves
1993 - O livro das ignorãças
1996 - Livro sobre nada
1998 - Retrato do artista quando coisa
1999 - Exercícios de ser criança
2000 - Ensaios fotográficos
2001 - O fazedor de amanhecer (infantil)
2001 - Poeminhas pescados numa fala de João
2001 - Tratado geral das grandezas do ínfimo
2003 - Memórias inventadas (A infância)
2003 - Cantigas para um passarinho à toa
2004 - Poemas rupestres
2005 - Memórias inventadas II (A segunda infância)
2007 - Memórias inventadas III (A terceira infância)


Prêmios recebidos pelo poeta:


1960 Prêmio Orlando Dantas - Diário de Notícias, com o livro "Compêndio para uso dos pássaros"
1966 Prêmio Nacional de poesias, com o livro "Gramática expositiva do chão"
1969 - Prêmio da Funda o Cultural do Distrito Federal, com o livro "Gramática expositiva do chão"
1989 Prêmio Jabuti de Literatura, na categoria Poesia, como o livro "O guardador de águas"
1990 Prêmio Jacaré de Prata da Secretaria de Cultura de Mato Grosso do Sul como melhor escritor do ano
1996 Prêmio Alfonso Guimarães da Biblioteca Nacional, com o livro "Livro das ignorãças"
1997 Prêmio Nestlé de Poesia, com o livro "Livro sobre nada"
1998 Prêmio Nacional de Literatura do Ministério da Cultura, pelo conjunto da obra
2000 Prêmio Odilo Costa Filho - Fundação do Livro Infanto Juvenil, com o livro "Exercício de ser criança"
2000 Prêmio Academia Brasileira de Letras, com o livro "Exercício de ser criança"
2002 Prêmio Jabuti de Literatura, na categoria livro de ficão, com "O fazedor de amanhecer"
2005 Prêmio APCA 2004 de melhor poesia, com o livro "Poemas rupestres" 06 Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira, com o livro "Poemas rupestres"


***


Poemas deManoel de Barros



Poema da Lesma

se no tranco do vento a lesma treme
o que sou de parede a mesma prega
se no fundo da concha a lesma freme
aos refolhos da carne ela se agrega
se nas abas da noite a lesma treva
no que em mim jaz de escuro ela se trava
se no meio da náusea a lesma gosma
no que sofro de musgo a cuja lasma
se no vinco da folha a lesma escuma
nas calçadas do poema a vaca empluma!


Manoel de Barros, In: Gramática Expositiva do Chão.

***

As lições de R. Q.

Aprendi com Rômulo Quiroga (um pintor boliviano):
A expressão reta não sonha.
Não use o traço acostumado.
A força de um artista vem de suas derrotas.
Só a alma atormentada pode trazer para a voz um
formato de pássaro.

Arte não tem pensa:
O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê.
É preciso transver o mundo.
Isto seja:
Deus deu a forma. Os artistas desformam.
É preciso desformar o mundo:
Tirar da natureza as naturalidades.
Fazer cavalo verde, por exemplo.
Fazer noiva camponesa voar – como em Chagall.

Tirar da natureza as naturalidades.
Fazer cavalo verde, por exemplo [...]
Agora é só puxar o alarme do silêncio que eu saio por
Aí a desformar.
Até já imaginei mulher de 7 peitos para fazer vaginação comigo.


Manoel de Barros, In: Livro Sobre Nada.


SABIÁ COM TREVAS


IX

O poema é antes de tudo um inutensílio.

Hora de iniciar algum
convém se vestir roupa de trapo.

Há quem se jogue debaixo de carro
nos primeiros instantes.

Faz bem uma janela aberta
uma veia aberta.

Pra mim é uma coisa que serve de nada o poema
enquanto vida houver.

Ninguém é pai de um poema sem morrer.


Manoel de Barros, In: Arranjos para um Assobio.

***

O CATADOR


Um homem catava pregos no chão.
Sempre os encontrava deitados de comprido,
ou de lado,
ou de joelhos no chão.
Nunca de ponta.
Assim eles não furam mais - o homem pensava.
Eles não exercem mais a função de pregar.
São patrimônios inúteis da humanidade.
Ganharam o privilégio do abandono.
O homem passava o dia inteiro nessa função de catar
pregos enferrujados.
Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.
Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.
Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.
Garante a soberania de Ser mais do que Ter.


Manoel de Barros, In: Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo.

***

Filmes:

- Caramujo-Flor (1988), de Joel Pizzini, com Ney Matogrosso, Araci Balabanian, Rubem Corrêa, Tetê Espindola, Almir Sater; Sinpse: O itinerário da poesia de Manoel de Barros, através de uma colagem de fragmentos sonoros e visuais.
- Só dez por cento é mentira (2007), documentário de Pedro Cezar, sobre a vida do poeta. Veja site oficial: http://www.sodez.com.br/



Ilustrações: 1- foto do poeta Manoel de Barros; 2- foto do pantanal matogrossense ; 3- Desenho do poeta M. de Barros; 4- Capa do livro "Guardador de Àguas".



Altair de Oliveira (poesia.comentada@gmail.com), poeta, escreve às segundas-feiras no ContemporARTES. Contará com a colaboração de Marilda Confortin (Sul), Rodolpho Saraiva (RJ / Leste) e Patrícia Amaral (SP/Centro Sul).

3 comentários:

Armila disse...

Que maravilha esta reportagem . Eu amo a poesia de Manoel de Barros !
O filme " Só dez por cento é mentira" de Pedro Cezar é uma obra de arte.Como
sempre Altair nos presenteia com pérolas, como estas poesias de Manoel de
Barros.

20 de julho de 2010 04:24
Sheila Duarte disse...

Bonito trabalho que nos põe em contato com a obra deste autor que nos faz refletir sobre as delícias do "ocio criativo". Pensar, falar, escrever sobre a vida, a natureza, sobre o estado das coisas...de fato muito bem empregado seu ócio!!!

20 de julho de 2010 09:22
Cheap Tap disse...

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11 de dezembro de 2014 01:29

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