sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Será que um liquidificador pode refletir a respeito da existência? Se depender de André Klotzel, sim.




Banner explicativo das atracões do dia.

Nada contra os filmes que estão sendo exibidos em mais de vinte salas ao mesmo tempo dos Kinoplexes e Cinemarks dos grandes Shoppings da cidade, alguns deles: “Salt”, “A Origem”, “A Saga Crepúsculo: Eclipse”, “Os Mercenários”, etc. e tal. No entanto  é necessário,  saudável e inteligente fazer também um movimento no sentido contrário e pensar naqueles outros tantos que são exibidos em apenas três, duas ou até mesmo em uma sala, àquelas raras salas de cinema de rua, nicho dos filmes nacionais. Como é difícil emplacar com um filme brasileiro em cinemas brasileiros, nefasta tradição que sempre incomodou e preocupou atores, produtores e realizadores de filmes nacionais. Ao meu ver, existem pelo menos dois fatores que são determinantes e que contribuem para empurrarem os filmes brasileiros para fora das grandes salas; primeiro, brasileiro não costuma assistir filmes nacionais que não estejam, de alguma forma, relacionados a TV, mais especificamente a Rede Globo;  segundo, não há interesse de investidores por falta também de políticas públicas que privilegiam o cinema nacional,  então os donos das grandes salas de cinema não querem “arriscar” com projetos que incluam cinema nacional pois prevêem perdas de capital. Jurássico círculo vicioso que retrata nossa triste realidade cinematográfica. A mídia televisiva continua muito forte na cabeça do brasileiro e a Rede Globo ainda é uma grande referência dos gostos e costumes dos telespectadores e conseqüentemente do público do cinema nacional. É por esse viés que se justifica, por exemplo, o motivo pelo qual os filmes de Daniel Filho: “Se eu Fosse Você” e “Se eu Fosse Você II”, se tornaram os filmes mais vistos da Retomada, com público de mais de 6.000.000 pessoas, ultrapassando “2 filhos de Francisco”, com 5.319.677 de espectadores. O que está na Globo está na mente dos brasileiros. Grandes realizadores de cinema nacional ficam fora, à margem, do grande público, e quem sai perdendo são os realizadores, o cinema brasileiro e o público, que deixa de ver grandes filmes nacionais. Dos 34 longas nacionais que chegaram neste ano às telas, apenas cinco ultrapassaram a casa dos 100 mil espectadores; 22 deles venderam menos de 10 mil ingressos.

André Klotzel
Ana Lúcia Torre
Vocês devem estar pensando o que isso tudo tem a ver com o liquidificador com capacidade de refletir, pensar e opinar? Pois é, “Reflexões de um Liquidificador”, 2010, de André Klotzel é um exemplo de um filme nacional de qualidade que está sendo exibido em apenas uma sala da cidade: Espaço Unibanco Augusta. Porém, neste caso é de propósito, tomando como base um jeito de estrear filmes americanos nos anos de 1970, “Road-show”, no qual produtores americanos colocavam o filme em uma sala de Los Angeles e em outra de New York para criar um sabor de exclusividade, a produção de “Reflexões de um Liquidificador” optou em colocar o filme apenas no Espaço Unibanco Augusta.
Outro diferencial importante são as sessões terem preços variados. Na sessão das 14h, a inteira custa 4R$,  na das 16h, R$ 8,  e assim por diante e quem for às últimas sessões, nas das 20h e 22h, terá como bônus:
·      Curta-metragem selecionado pela equipe do Festival Internacional de Curtas
·      Show de stand-up com quatro atores que se revezarão (Marcelo Mansfield, Carol Zoccoli, Murilo Gun e Criss Paiva).

Obs: Toda segunda-feira após a sessão das 22h, o diretor do curta selecionado para a semana, participará de um debate com o público.

Toda quarta-feira, o diretor André Klotzel ou outro integrante da equipe de “Reflexões de um Liqüidificador”, conversará com os espectadores no final da última sessão.
Eu não podia deixar de conferir este evento, fui com o Matias, a Gege e o Leo

No carro indo para o Espaço Unibanco
Fomos conferir o Evento - Geisly e Leo
André falando a respeito do evento
Ana Lúcia Torre e André

Na quarta-feira, dia 11 de agosto fomos conferir esta, digamos, “mini-maratona cult”. Chegamos antes das 22h, o Espaço Unibanco estava numa noite privilegiada com muitos banners do filme e a presença de Ana Lúcia Torre, André Kotzel, Criss Paiva, Fábio Yamaji e convidados. As apresentações iniciaram com a fala de Klotzel contando-nos o propósito do evento, depois veio a fala de Yamaji sobre seu curta, seguida das considerações de Ana Lúcia Torre, que por sinal estava lindíssima e se mostrou muito simpática. Na seqüência entrou Criss Paiva com o Stand up leve, engraçado e criativo que conseguiu arrancar algumas gargalhadas da platéia, incluindo a minha. Assistimos o curta de Yamaji de 6 minutos, com repentes de Ubiraci Crispim de Freitas, o “Divino”, que contou sua vida num espirituoso documentário repleto de desenhos animados que deram um charme todo especial ao curta. Depois, assistimos ao filme “Reflexões de um Liqüidificador”, logo após a exibição, tivemos a oportunidade de trocar algumas palavras com os realizadores e atores do evento.

Adorei a experiência, uma coisa de esquete teatral com direito a debate e tudo que um espectador de cinema gosta. Não foi nada pesado, tudo teve um tom de 'belo sorriso', foi, sem dúvida, uma noite agradável.

Quanto ao filme de André, posso dizer que é leve, engraçado e ao mesmo tempo filosófico e fantástico. Um liquidificador que fala, reflete, tem memória e ainda tem a voz do Selton Melo, isso dá ao liqüidificador um tom acolhedor de confiança e paz. O liqüidificador contracena com Elvira, Ana Lúcia Torre, uma dona de casa aparentemente comum, casada há 40 anos e que se vê as voltas com o sumiço de seu marido de 67. Bela encenação da atriz que coloca em Elvira as dores e as insatisfações oriundas de uma vida pacata marcada pelo marasmo e pela falta de prazeres, denunciando muitas das angústias existenciais humanas. O liquidificador, um cúmplice perfeito, tem uma potente hélice que o faz pensar e moer. Moer é pensar.... pensar é moer.... , esses dizeres estão em um dos banners do filme. O sorriso do espectador surge da surpresa ao vivenciar dois sentimentos opostos porém muito bem articulados pelo diretor: O macabro está fazendo um belo par com a tranqüilidade dos monges budistas. Vale muito a pena assistir o filme e participar desse evento fantástico de André Klotzel..... Super recomendado!


Bom filme


Kátia Peixoto é doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Mestre em Cinema pela ECA - USP onde realizou pesquisas em cinema italiano principalmente em Federico Fellini nas manifestações teatrais, clowns e mambembe de alguns de seus filmes. Fotógrafa por 6 anos do Jornal Argumento. Formada em piano e dança pelo Conservatório musical Villa Lobos. Atualmente leciona no Curso Superior de de Música da FAC-FITO e na UNIP nos Cursos de Comunicação e é integrante do grupo Adriana Rodrigues de Dança Flamenca sob a direção de Antônio Benega.

4 comentários:

Matias disse...

Ola!, eu fui ver o filme, muito bom, o show de Stand Up excelente e uma idea muita inovadora, Parabens pela coluna, capricho indo ate o local!!

20 de agosto de 2010 18:21
Katia disse...

Querida,é uma delícia esta sua coluna.Que vontade de ir...Mas para este programa falta transporte que me leve (por ser 22:00) ou melhor, que me traga rsrsrsrsrs. Nem penso em uma companhia pois ando sózinha quando se trata de cultura. Mas lendo sua coluna , concordo com que diz e de uma certa forma assisto de uma maneira ligeira os filmes que jamais passarão aqui (infelizmente) em Osasco.Pena!!!!bjks

22 de agosto de 2010 09:57
CENEART disse...

Querida Katia, quando quiser estou disponível para passeios, é só me falar, mil beijocas....

22 de agosto de 2010 14:22
gegeDoida disse...

Um liquidificador gira, moe, corta, transforma uma coisa em outra, ou várias em uma.

Viver é girar em torno de certezas, de dúvidas, em um ciclo vicioso de consciência, pensamentos, razão e ilusão.

Moer é cortar a carne de quem o fere, de quem você sente prazer em machucar: com palavras, objetos cortantes ou mesmo uma arma qualquer. E do outro lado, ser moído é estar no oposto de quem moe.

Moer e remoer é pensar e tentar chegar a uma conclusão que pode magoar, é pensar e não chegar a lugar algum.

Viver cheio de voltas, cheio de ciclos que moem, que transformam, que libertam... ou não. Cheio de vícios estranhos e comportamentos anormais. Mas tudo parece tão normal que o normal parece anormal.

Viver é um liquidificador que vive girando, mesmo quando não está ligado - principalmente quando não está ligado. Viver são reflexões de um liquidificador.

22 de agosto de 2010 23:02

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