quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Uma fotógrafa americana no Brasil




Genevieve Naylor, esse era seu nome. Nasceu em Massachusetts, EUA em 1915, e morreu em 1989.
Ela foi uma das primeiras fotógrafas da Agência Associated Press e trabalhou nas revistas Life, Time e Fortune. Veio para o Brasil com o marido integrando o corpo artístico da divisão brasileira do Office of Inter-American Affairs (OIAA). Esteve por aqui entre 1940 e 1943, e sua estadia foi patrocinada por esse escritório do Departamento de Estado, uma das primeiras agências de intercâmbio cultural dos Estados Unidos. Esse órgão tinha como função implementar a Política da Boa Vizinhança norte-americana na América Latina.

Naylor e seu marido Micha Reznikoff residiram no Rio de Janeiro, ficaram amigos de brasileiros ilustres, muitos dos quais foram ainda fotografados por Naylor, como Manuel Bandeira, Vinícius, Niemeyer, Aníbal Machado, Di Cavalcanti, Villa Lobos, Murilo Mendes entre outros.
Ela viajou extensivamente pelo Brasil, vivendo com muito sentimento o cotidiano das grandes cidades e do interior do país. Em sua galeria, se encontram fotos de intelectuais e artistas, a elite consumista das metrópoles brasileiras, o sindicalismo, a propaganda integralista e a sátira ao nazismo, favelados, e trabalhadores das grandes cidades e do campo.

Vinícius de Morais publicou esse comentário sobre o casal:
"Life é a única revista que eu conheço que distrai pela falta de assunto. A gente passa aquilo como criança passa livro de figuras, constatando rapidamente a aparição de uma curiosidade ou outra: ‘totó’, ‘neném’, ‘fon-fon’, e assim por diante. Mas é impossível resistir-lhe à fotografia. Quem por acaso, já teve ocasião de conhecer algum fotógrafo de Life, sabe perfeitamente disso. São criaturas de conto de fadas, capazes de lambuzar de caramelo toda uma ‘panzerdivisionem’, verdadeiros gênios do instantâneo, sabedores de todas as infantilidades da alma grande. Eu já conheci dois, sendo que em ambos senti esse mesmo adejamento endiabrado, uma mesma alegria de vaga-lume que vai queimando as suas lâmpadas sobre as coisas surpreendidas. Um deles é uma americanazinha adorável que se acha aqui no Rio. Genevieve se chama, mulher desse grande Micha que conquistou a nossa pequena cidade artística com a sua simpatia e sua sensibilidade plástica. Genevieve parece ter saído de uma história de Robin-Hood, com seu arzinho de jovem pajem, sua elegância bem colorida, uma pena sempre atrevidamente espetada no chapéu. Nada escapa, no entanto, à maquinazinha dessa enfeitiçada. Perto dela não há momento fotográfico que passe sem cair naquela arapuca bem armada. Genevieve dá um pulinho — e a vida ali ficou batendo asa na sua chapa impressionada."  (Jornal A manhã, Rio de Janeiro,1941)


                                                Mary Jane Russel, fotografada por Naylor em 1950

Naylor chega ao Brasil em outubro de 1940, e, para realizar seu trabalho como fotógrafa, precisou de um salvo-conduto assinado pelo diretor geral do Departamento de Imprensa e Propaganda, o DIP, órgão censor e repressor das atividades culturais no Brasil nessa época. A morosidade da burocracia fez que o passe necessário só tenha sido emitido em 1942, como se registra no documento acompanhado de sua foto: “A senhora Genevieve Naylor, de nacionalidade norte-americana, trabalhando para o Coordinator of Inter-American Affairs, está autorizada por este departamento a tirar fotografias de aspectos turísticos de nosso país. Rio de Janeiro, 7 de junho de 1942”.

Naylor não tinha muitos recursos técnicos à sua disposição: uma câmera Rolleiflex e uma Speed Graphic, utilizando-se sempre de luz natural, sem filmes muito rápidos. Para compensar, ela contava com algo que destacou como uma característica especial: a boa vontade dos brasileiros. Numa de suas cartas ela diz: “O que ajuda é a absoluta cooperação dos brasileiros. Eles são tão naturais, tão espontâneos e afetivos, que a câmera simplesmente os adora”.


O Funileiro

A fotografia era para Naylor uma forma de expressar seu encantamento pelo mundo que a rodeava. A beleza de suas fotografias provinha do fato de que ela estava vendo tudo pela primeira vez. Ao contrário das fotografias teatralizadas do DIP, tipicamente de propaganda política, suas fotos registraram como o cotidiano poderia ser extraordinário. Ela achava os brasileiros simples e comunicativos. Imagine-se à época, uma estrangeira carregando uma grande câmera,vestindo roupas estranhas e sem muita habilidade para falar a língua nativa com pessoas que também não tinham muito contato com o exterior. Mesmo nessas circunstâncias, o resultado foi surpreendente. As pessoas fotografadas por Naylor aceitavam a sua presença, sem que esta atrapalhasse o que estavam fazendo, ou assumiam uma cumplicidade com a sua câmera.


Carnaval, 1941.


Sua estratégia era a de capturar a espontaneidade nas pessoas contribuindo para que as fotografias de Naylor tivessem uma singularidade, sem cair no estereótipo de apresentar seus personagens como exóticos.
Em suas fotos pode-se perceber um olhar apaixonado pelo Brasil, sentimento que não se perdeu ao longo dos quase três anos que permaneceu aqui. Suas viagens para o interior com Misha, realimentaram essa impressão inicial, a cada novidade que o Brasil lhe apresentava.

Genevieve Naylor retornou aos Estados Unidos em agosto de 1942. No início do ano seguinte, 50 de suas fotografias sobre o Brasil foram exibidas na exposição chamada “Faces and Places in Brazil”. A imprensa norte-americana a anunciou como complemento à exposição “Brazil Builds”, organizada com as fotografias de Kidder Smith, e ambas viajaram pelos Estados Unidos, marcando a aproximação entre os dois países.



Copacabana por Naylor

 
 
Fonte:
Ana Maria Mauad- Revista Brasileira de História



 
 
Izabel Liviski, Mestre em Sociologia na linha de Imagem e Conhecimento pela UFPR e consultora da Contemporâneos, escreve quinzenalmente às 5ªs.noContemporARTES.

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