quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Eleições e ética na mídia

    Sempre quando se aproxima a data de publicação da minha coluna, já começam a ferver assuntos diversos que gostaria de escrever ao leitor Contemporartes. A era da informação nos traz esse grande benefício de ficarmos sabendo de todos e de tudo sem sair da nossa cadeira do computador. E nessa semana não foi diferente. Aconteceu o primeiro turno das eleições presidenciais, algo que movimentou o Brasil em debates, propaganda e muita discussão. A candidata petista Dilma Rousseff somou 46,90% e o tucano José Serra ficou com 32,61%. Em terceiro lugar, Marina Silva com 19,33%.

                                            Candidatos à presidência: Dilma e Serra

     Porém, chamou a atenção a falta de ética na mídia sobre a campanha de Dilma Roussef, principalmente em correntes mentirosas na internet. Dispostos a abafar a popularidade conquistada pelo apoio do presidente Lula, foram divulgadas notícias que a vinculavam a assassinatos, bombas, terrorismo etc. Eu me espantava a cada dia quando aparecia uma "novidade" no meu email. O que me assombrava mais era quem eram as pessoas que estavam ajudando a disseminar tais informações: parentes, alunos (será que eles haviam esquecido as aulas sobre Ditadura Militar e sobre a importância dos movimentos de resistência? Do filme Zuzu Angel na parte principal - a meu ver - que ela clama no tribunal, por justiça?), amigos próximos.

   Felizmente havia vozes em contrário também.  O blog Seja dita a verdade fez uma compilação das mentiras publicadas sobre a candidata, principalmente rebatendo as mentiras relacionadas a seu passado durante a ditadura militar. No link Central de Boatos, respondendo a cada uma delas. Rebatendo as informações sobre o papel de Dilma na luta armada e à divulgação de uma foto-montagem na qual Dilma aparece com um fuzil, o blog denuncia:

"Dilma já falou, seus companheiros da época já declararam e é público: Dilma nunca pegou em armas, nunca participou de assaltos à banco e nunca participou de ações armadas em geral quando lutou contra a ditadura."


   Alguns amigos intelectuais me informaram da demissão da jornalista Maria Rita Kehl pelo Estadão por ter publicado um texto cuja indignação pelo tratamento da mídia a candidatura da candidata petista fica evidente. Em uma das respostas às supostas correntes de internet, Kehl escreveu:

"Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por “uma prima” do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola."

Sua denúncia de fundo se referia a como as tão analisadas pela historiografia "classes médias urbanas" se revoltavam com o que seria de mais transformador no governo Lula, a diminuição da desigualdade social por meio de programas sociais como o Bolsa Família. Logicamente, sentiam-se ameaçadas por tais "pés de chinelo" que calados durante a história republicana brasileira, passam a conquistar o mínimo básico de direitos, o de comer.


Outro texto, enviado por um grande amigo historiador, foi publicado no blog da Cidadania com o sugestivo título Ovo da Serpente mediática.  O autor - Eduardo Guimarães - faz remissão ao filme de Ingmar Bergmann, o Ovo da Serpente (1977), cuja metáfora foi utilizada pelo diretor em alusão a sociedade da república de Weimar cujas frustrações e ressentimentos econômicos, sociais e políticos representariam o ovo do que estaria por vir, o regime nazista (1933-1945). A semelhança com o cenário político brasileiro é que a mídia cujo papel primário deveria estar  intensamente associado à proteção e promoção dos valores democráticos estaria dando vazão a fundamentalismos ideológicos que colocariam o saudável debate eleitoral em uma sinuca de bico. Escreve Guimarães:

"A serpente midiática colocou seu óvulo entre a sociedade civil. Na última quarta-feira, denunciei aqui o efeito maciço que as campanhas difamatórias de Globo, Folha, Veja e Estadão contra Dilma insuflaram em grupos de classe média alta, levando pessoas comuns a promoverem verdadeiros arrastões político-ideológicos intimidando a qualquer um que manifeste opiniões favoráveis à candidata do PT à Presidência.
O fundamentalismo religioso tem sido estimulado pelos grandes meios de comunicação eletrônicos e impressos, gerando milhões de e-mails e de panfletos contendo calúnias sobre a petista. Ataques à sua honra como mulher, acusações de ser homicida, prostituta, ladra se espalham e chegam a atingir, de forma estarrecedora, até a crianças.
Enfim, esta é a campanha eleitoral mais suja que vi."

Outro amigo também historiador me enviou o manifesto dos intelectuais e artistas pró Dilma assinado por Chico Buarque, Leonardo Boff, Fernando Moraes, Emir Sader entre outros. Em uma das frases mais significativas a meu ver, estava:

"Entendemos que, muito mais que uma candidatura, o que está em jogo é o que foi conquistado." Diretos básicos? Cidadania aos excludentes?

Fazia referência às inúmeras conquistas em termos sociais e educacionais do governo atual.

Perante tal quadro, deixo aqui minha singela opinião. O jogo eleitoral é composto de adversidades e pluralismos, mas atrás dele deve se manter a ética, por que se não assinamos um decreto que vivemos em terra de ninguém. Ninguém manda, não há normas a ser seguidas, a arbitrariedade composta de confusas sombras impera.


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Outros assuntos:

Opinião Contemporâneos

Copa do Mundo no Brasil

Mande sua opinião para Contemporâneos - Revista de Artes e Humanidades/ (revistacontemporaneos@gmail.com) sobre a realização da Copa do Mundo no Brasil. Aos cuidados de Franklin Lopardi Franco - editor assistente.

1. Sendo o Brasil o país do futebol você concorda com o projeto de sediar a copa do mundo? Você acha que ele será capaz de atender todas as expectativas e prazos?
2. Você conhece as exigências da FIFA para um país sediar a copa? Se sim opine se estas exigências demonstram um interesse da instituição pela questão social?
3.Você acha que a violência é um obstáculo a ser superado para realização da copa? Se sim qual seria a melhor solução para tal problema?
4. Suas expectativas, extra-campo, para a copa do mundo realizada no Brasil são boas ou ruins? Você conhece algum projeto de mesma natureza que tenha tido um balanço positivo, explique por que você acha este projeto positivo?

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Estão abertas até 3 de novembro as inscrições para o simpósio acima, organizado pelo Programa de Mestrado em História da Universidade Severino Sombra (Vassouras, RJ) que se realizará nos dias 1, 2 e 3 de dezembro de 2010 na USS – Vassouras – RJ.

Mais informações pelo site: http://www.uss.br/web/page/simposiopol.asp

Junto a Rosângela Dias e Katia Peixoto (colunista da Contemporartes) estarei coordenando um Simpósio Temático sobre Cinema.


1. Cinema e História: discussões de linguagens historiográficas
Coordenação:
Katia Peixoto dos Santos (PUC-SP)
Rosangela de Oliveira Dias (USS)
Ana Maria Dietrich (UFABC/USS)
Inaugurada por Marc Ferro na década de 60, a intersecção entre as duas áreas de conhecimento Cinema e História será objeto de reflexão desse seminário temático. Pretendemos agregar pesquisas que explorem os questionamentos teóricos e metodológicos que demandam dessa discussão interdisciplinar, assim como conhecer os atuais estudos que privilegiam a análise de imagens audio-visuais e/ou a linguagem cinematográfica. O cinema enquanto narrativa específica elaborada como resultado da composição de diversos elementos fílmicos e polissêmica ao utilizar o som e a imagem também serão foco de análise.

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Seminário Argumentos do Corpo
Essa nota foi enviada pela também colunista Alyne Vilaça (Bar Contemporartes).

O I Seminário Argumentos do Corpo tratará de questões pertinentes ao corpo, estética e criatividade. Propõe estimular a pesquisa, divulgar a produção artístico-acadêmica, integrar e promover intercâmbio entre artistas, docentes, discentes do curso e entre outros cursos da UFV. Concretizar ações interdisciplinares, confirmando e efetivando o papel socializador da arte na sociedade brasileira

http://www.argumentosdocorpo.blogspot.com/




Ana Maria Dietrich é coordenadora junto a Vinicius Rennó, da Contemporartes-Revista de Difusão Cultural.
contemporartes@gmail.com

4 comentários:

Filipe disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Filipe disse...

Texto MUITO, MUITO, MUITO bem escrito !! VC sabe qual é o meu candidato, + mesmo assim, o importante é nos darmos bem !! Sou suspeito para te elogiar, porém, te adoro minha querida !! Chefa mulher maravilha !! :-) Bjão.

13 de outubro de 2010 14:25
Diogo C. Scooby disse...

É lamentável que alguns tipos de absusrdos sejam divulgados dessa maneira. Hoje receberam aqui uma imagem de UM FRAME do debate onde a mão da Dilma fazia um simbulo parecido com os chifrinhos que metaleiros tanto gostam de fazer com um texto AFIRMANDO que isso é um sinal de que ela é uma criatura do mal, endemoniada! Sem falar de montagens toscas que ja vi dela com armas e da famosa ficha policial dela, feita de maneira tosca. O pior é pessoas acreditando nesse tipo e coisa. Acho vergonhoso que se tente ganhar uma campanha utilizando métodos baixos assim. Lamentável essa demonstração que estão dando na luta pelo poder. Me deixa triste que pessoas até integentes acreditem em coisas que são mentira. Que deveriam desqualificar os mentirosos.
Mas é isso ai... O Brasil é esse.

Abraço

14 de outubro de 2010 14:37
ContemporARTES disse...

enviado pelo orkut

Ei Ana, como esta?
ha quanto tempo que nao cvs hein?! Li seu artigo sobre as eleiçoes e a ética na midia, gostei muito. Me identifiquei muito com o sentimento e opinioes que vc expressou ali.
Agora querem forçar Dilma a assinar um acordo no qual se compromete a vetar qualquer lei que vise a descriminalizaçao do aborto ou criminalize a homofobia (PL122). Que democracia é essa que esse povo defende?
só esta faltando fazerem a "Marcha da familia com Deus pela liberdade"....

Abs...e parabens querida professora!!

Por Ana Luiza (UFV/ Viçosa)

16 de outubro de 2010 14:22

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