quarta-feira, 27 de abril de 2011

Do Cinza ao Dark: 1955 à 1961 - O segundo surto de industrialização em SP






Este período podemos chamar de "boom" da indústria automobilística o que marca o Brasil como uma país que deixará por muito tempo a opção ferroviária como meio de locomoção prioritário. Além disso 1955 é marco para outras descobertas: O início do cinema novo com Rio 40 graus, direção de Nelson Pereira Santos, início da transmissão de Céu é o limite, programa de maior público na época, a realização da 3 bienal, lançamento do carro Romi-Isetta fabricado pela extinta Vemag, Brasil bate o número de 700 fábricas de autopeças, produção de 2 milhões de barris de petróleo, vôos regulares para Nova York pela extinta Varig. No mundo os EUA utiliza pela primeira vez um gerador de energia atômica e é assinado o Pacto de Varsóvia.
É possível perceber que a partir deste ano o Brasil passa a ter contato com um novo tipo de política e passa a ter acesso a novos produtos. Podemos afirmar que no que se refere ao progesso industrial é possível enxergar uma divisão entre antes de depois de 1955. Basta compararmos o setor de eletrodomésticos, por exemplo, enquanto os aparelhos de rádio dobrava neste período, os de televisão quintuplicava. Em um único ano, 1955-1956, a produção de máquinas de costura obteve um aumento de 331% e a de refrigeradores na faixa de 126%. Números pequenos perto do que houve com a chama indústria de base ou pesada, em que a palavra de ordem era crescimento.
Mas não eram apenas estes setores que fervilhavam. Enquanto isso havia uma grande tensão no que diz respeito ao momento político no país. Aliás vale ressaltar que o período de 1955-1961 começa e termina em meio a grandes turbulências políticas. Para se ter uma idéia em 1955 o Brasil deu posse a 3 Presidentes da República: Café Filho, Carlos Luz e Nereu Santos. Ano tumultuado ainda mais quando no mês de novembro houve uma tentativa de impedir a posse do nome que colocará a indústria automobilística como força motriz da economia brasileira: Juscelino Kubitschek Oliveira.
Na contramão da crise, JK se colocava para o país como o ícone de otimismo e confiança no futuro. E não podemos esquecer do famoso plano de metas que faria o Brasil acelerar devidamente motorizado 50 anos em 5. Em 31 de janeiro de 1956 JK toma posse e se inicia uma nova conduta política. Palavra de ordem era o desenvolvimentismo e o desafio era conciliar empresários,políticos, militares e assalariados urbanos para esta empreitada. O programa de JK se desdobrava em 30 metas, separadas em 5 setores: energia(43,4% investimentos), transportes (29,6%), alimentos (3,2%), industrias de base (20,4%) e educação (4,3%). Fora estas estatísticas estava o projeto mais ousado que apesar de não ter sido finalizado no prazo se tornou o marco do plano de metas: a construção de Brasília. Ousado ao vermos que o Brasil amargava uma renda per capita de US$ 205, além dos altos índices de mortalidade infantil e analfabetismo.
"Industrializar um país não é obra de mágica, que possa ser feita sem preparo ou sopros de inspiração" diria JK após sua posse. Ora, se não seria mágica JK teria que provar que meios iria utilizar para conseguir seu objetivo. O adjetivo "novo" parecia estar ecoando em todas as esquinas, assim como o filme rio 40 graus que marcaria exatamente o cinema novo, o manifesto concretista, no teatro a renovação por meio de grupos como o grupo Oficina. É possível perceber um momento de passagem que gerou esperanças e pitadas e euforia.
Mas desde a fabricação do primeiro Romi-Isetta em 1955 até a fabricação do Simca-Chambord em 1960 muitos kms precisaram ser percorridos. Para começar a fundição do primeiro motor diesel para caminhões Mercedes-Benz, produzido em escala industrial pela Sofunge, no final de 1955 quebrou com a persistente idéia de que era impossível produzir motores no hemisfério Sul. O presidente da Sofunge, Eduardo Simonsen: "A fabricação de motores abrirá nova era na indústria nacional e, em breve, em lugar da exportação de minério de ferro a talvez, Cr$ 0,60 0 quilo, estaremos exportando motores a razão de, aproximadamente, Cr$ 300,00 o quilo". Para realização disto JK não trabalhou sozinho, entre os diversos grupos de trabalho o mais importante destacar aqui foi o GEIA, grupo fundado para cuidar especificamente da indústria automobilística. Em 8 anos de existência o GEIA obteve um investimento total de US$ 356 milhões, aprovou 400 projetos para criação ou implantação de fábricas de autopeças e veiculos. Na década de 60 doze empresas brasileiras já produziam veículos automotores. As indústrias de autopeças em 1941 eram apenas 5, em 1962 1.650, das quais 1.470 estavam na grande SP.
São Paulo era o foco deste grande "boom" da indústria automobilística. Fiat, Ford, Vemag, Volkswagen e Mercedes Benz estavam no Ipiranga, Bom Retiro ou próxima a via Anchieta. A vemag por exemplo se encontrava ao lado da estação ferroviária que era conhecida como parada Vemag, hoje atual Tamanduateí. Para a ferrovia pouco se fez a não ser alimentar o que seria o grande inimigo para o investimento em transportes coletivos.
" O brasil acordou" disse JK. Assim como apareceu em uma revista americana business week: " São Paulo, a capital industrial do Brasil, está se convertendo, rapidamente, na Detroit da América Latina". Mas não podemos esquecer que todo este ritmo frenético foi subsidiado por recursos de capitais estrangeiros. Houve até o interesse do Bank de Washington investir US$ 125 milhões ao se interessar nas metas brasileiras de renovar o equipamento ferroviário e o reaparelhamento e dragagem dos portos. Em 1956 éramos um dos maiores receptores de capital de risco norte americano e um dos países mais liberais, ou seja, o brasil abre suas portas.
Para instaurar no povo brasileiro este entusiasmo todo o papel da mídia foi importante. Na década de 60 Roberto Carlos fazia sucesso a 300km por hora nas curvas da estrada de Santos. Não era mais o trem que o levaria até lá, no Brasil, que viveu no governo JK um significativo processo de substituição de importações de bens de consumo durável, a instalação da indústria automotiva significou a afirmação da identidade do país como moderno, por isso a ferrovia nesta fase era obsoleta, retrógada.

Roberto Carlos 120,150, 200 km

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O automóvel transformou-se no meio de transporte diário de uma expressiva parcela da classe média, mas os centros urbanos não se desadensaram e os transportes coletivos não foram alvo de investimentos significativos. Já o slogan do candidato Juscelino, 50 anos em 5, afirmava ser necessário acelerar a história, colocá-la em uma autovia e trazer o futuro para o presente.
A internacinalização da economia proporciona à São Paulo 35% de suas indústrias ampliadas, a formação do CNPq e a comissão de energia nuclear. os novos materiais de vida inauguram uma nova sensibilidade nos programas de televisão. para dar impulso a idéia de modernidade do automóvel uma das séries mais vistas no Brasil, o vigilante rodoviário, é uma das séries que incita o espectador a ver o automóvel como moderno:


vigilante rodoviário - abertura.
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A estrada e o automóvel brasileiros, repetindo o seriado americano Route 66, patrocinado pela GM, também seriam personagens de um dos primeiros seriados brasileiros para a TV, o Vigilante Rodoviário que, ao lado de seu fiel cão Lobo, fazia merchandising da Simca.
Aero Willys e o Simca Chambord, inspirados no“rabo-de-peixe”. A Willys Oveland, a Vemag, a
Simca e a FNM, seguindo a tendência internacional de apresentar protótipos futuristas e velozes,passaram a produzir carros fora de série para serem expostos no Salão do Automóvel.

Em poucas palavras, Paulinho da Viola expressou criticamente toda a sensibilidade deste projeto de modernidade: o olhar sempre para frente, o viver rapidamente, a fragmentação das relações,a rápida circulação do capital, a lógica da circulação individual em detrimento ao coletivo:

Sinal Fechado:

Olá, como vai?
Eu vou indo e você tudo bem?
Tudo bem eu vou indo
Correndo pegar meu lugar no futuro, e você?
Tudo bem eu vou indo em busca de um sono
tranqüilo, quem sabe?
Quanto tempo, pois é quanto tempo...
Me perdoe a pressa, é a alma dos nossos negócios
Oh, não tem de que, eu também só ando a cem
Quando é que você telefona, precisamos nos ver por aí
Pra semana prometo talvez nos vejamos, quem sabe?
Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na
poeira das ruas
Eu também tenho algo a dizer mas me foge à lembrança
Por favor telefona eu preciso beber alguma coisa
rapidamente
Pra semana, o sinal, eu procuro você, vai abrir, vai
abrir, prometo não esqueço, por favor não esqueça,
não esqueça, adeus...

Paulinho da Viola.
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Marina Rosmaninho é formada em Ciências Sociais no Centro Universitário Fundação Santo André(2008). É socióloga, amante da linguagem audiovisual, documentários, ferrovias, indústrias e escombros e procura juntar todas suas paixões para analisar a sociedade. Convida a embarcar neste trem sem descarilhar!

















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