sexta-feira, 17 de junho de 2011

"Na Estrada da Vida", Nelson Pereira em: "Veja Esta Canção". Parte I






“Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente.
Filosoficamente”.
Oswald de Andrade (Revista de Antropofagia, Ano 1, No. 1, maio de 1928.)
 Tema da Bienal Internacional de São Paulo de 1998, a antropofagia é uma instância quase secular de apropriação de culturas e técnicas que são digeridas e lançadas na beleza da carência e da falta. Foi como uma denúncia de Oswald para chamar a atenção para a dor de ser, de ser..., sabe se lá o que... A falta de (re) conhecimento de sua própria cultura é  a maior dor social brasileira.
Abaporu, 1928 (Tarsila do Amaral)
“ A arte como a redenção do que sofre – como via de acesso a estados onde o sofrimento é querido, transfigurado, divinizado, onde o sofrimento é uma forma de grande delícia”. (Nietzsche, 1983, VP, # 853, p.28).

A família enferma, 1920 (Lasar Segall)
Contam que a tela “Abaporu”, 1928, um presente de Tarsila do Amaral a Oswald de Andrade, propulsionou a criação do pensamento antropofágico. Grande quadro que gerou polêmicas, discussões e muitas criações nas artes plásticas, literatura, música e cinema: As Bachianas Brasileiras de Villa Lobos,  A Tropicália de Caetano .... o Cinema Novo de Nelson Pereira dos Santos e de Glauber Rocha...

Cena do filme "Na Estrada da Vida"

"A estrada da vida"
(José Rico)

Nesta longa estrada da vida      
Vou correndo não posso parar
Na esperança de ser campeão  

Alcançando o primeiro lugar
Na esperança de ser campeão
Alcançando o primeiro lugar       

Mas o tempo
Cercou minha estrada
E o cansaço me dominou           

Minhas vistas se escureceram
E o final da corrida chegou....

Este é o exemplo da vida
Para quem não quer compreender  

Nós devemos
Ser o que somos
Ter aquilo que bem merecer     

Nós devemos
Ser o que somos
Ter aquilo que bem merecer... 


Mas o tempo
Cercou minha estrada
E o cansaço me dominou        

Minhas vistas se escureceram
E o final desta vida chegou...


Uma música que inspirou um filme, foi assim em “Na Estrada da Vida”, 1979.  Nelson Pereira dos Santos reproduz, em parte, a longa caminhada da dupla sertaneja Milionário e José Rico em busca de fama e sucesso. Sem a produção e o sucesso de “2 Filhos de Francisco”, 2005, que conta a vida de Zezé di Camargo e Luciano,  “Na Estrada da Vida” encanta mais pela simplicidade e autenticidade das cenas do que pelo apelo dramático.  Com vontade de realidade documentária, Nelson Pereira fez a dupla vivenciar sua própria realidade,  veredando muito mais pelos campos suaves e aparentemente incrédulos da comédia do que pelo convencimento do drama. O sertanejo de raiz em confronto com a cultura de massa e suas exigências de mercado: esse é o centro da discussão fílmica.


É possível entender como a música sertaneja de raiz foi se modificando para entrar nos hits de sucesso nas rádios de todo país. O  filme mostra o sertanejo que sai de seu lugar, de sua terra,  carregando consigo sua arte e cultura, evidenciada no seu jeito de falar, andar e vestir.  No decorrer da estrada da vida, vão surgindo  modificações, agregando outros valores ao "purismo" sertanejo. Este movimento é bem interessante pois proporciona o entendimento da gênesis das misturas.
Falar de cultura do povo brasileiro é sempre uma tarefa árdua, pois esta questão perpassa  por muitas variantes histórias e sociais, numa rede de hibridismos e miscigenações. A cultura popular brasileira foi sendo modificada na medida em que entrou em contato com a cultura de massa, midiática e erudita.
Se nos voltarmos para o início do sec. XX , vemos no surgimento do modernismo e do pensamento antropofágico uma necessidade do Brasil alcançar o mercado artístico mundial e ser visível lá fora. Os artistas intelectuais brasileiros queriam mostrar para o mundo o povo, a terra, a dor e a alegria de ser brasileiro.
Mas como fazer isso dentro de uma estética ultrapassada? Foi necessário um movimento grande por parte destes artistas para dar uma reviravolta nos conceitos estéticos arraigados no academicismo da época. Implantar o conceito de uma arte que deveria mostrar o povo miscigenado e sua terra.
Para tanto, foi preciso denunciar nas obras os arranjos e desarranjos sociais, evidenciados nas moradias dos morros e na pobreza; no entanto também era preciso mostrar as belezas do clima, das mulheres e das frutas tropicais.  
Da intelectualiade dos artistas brasileiros e das visões destes a respeito da cultura popular brasileira, nasceu o nosso “ismo”. O êxodo, o índio, a mulata, a pobreza, o caipira, o negro, a favela passaram a ser temas das obras. Este movimento não poderia ser chamado de Expressionismo, Cubismo, Futurismo, Dadaísmo, Impressionismo, porque estes já existiam. A Antropogafia seria o caminho para fortalecer o nosso Modernismo. Do canibalismo dos “ismos” europeus, engolido na marra, nasce o nacionalismo brasileiro, nasce a Antropofagia. Para o bem e para o mal, o  reconhecimento do povo brasileiro pela ótica intelectualizada dos modernistas fez perpetuar o estereótipo tupiniquim .
Por ser o Brasil um país marcado pela grande extensão territorial, é possível encontrar uma diversidade cultural enorme, desde o pequeno vilarejo às grandes metrópoles. É muito difícil para o brasileiro conhecer o Brasil.
A dupla Milonário e José Rico
A falta de identidade é característica do povo brasileiro, como Macunaíma, o herói sem caráter. Sem dar conta da  própria grandeza e magnitude cultural é que nasce-se, vive-se e morre-se aqui no Brasil.  É obvio que há nisso tudo a contribuição  de políticas públicas e interesses sociais sedimentados  na nossa tradição escolar e política de não valorizar e estudar o próprio povo. Desde a Educação Infantil até o Ensino Superior não se conhece, não se valoriza nossas raízes étnicas, nossas tendências primeiras e derivadas. É por esse motivo que não se discute temas como cultura e sociedade. Simplesmente não fomos acostumados a pensar sobre nós mesmos seriamente. Fica para os magnatas da mídia instruir, “educar” e mostrar aquilo que lhes convém. 
 "Na Estrada da Vida"  faz algumas pessoas tremerem pelo medo de que o Brasil, de alguma forma, possa se parecer com o retrato mostrado no filme. 
Os Brasis;  dos sertões,  dos caipiras,  dos morros, da miscigenação cultural, continua. É preciso ver, crer e se apropriar dele.
Na próxima coluna, AS HORAS , vou analisar o filme "Na Estrada da Vida". Enquanto esperam, que tal ouvir a dupla em um programa de auditório. Programas de Auditório, herança americana de misturar cultura popular com cultura de massa.  De novo, para o bem e para o mal, estes são, muitas vezes,  os únicos lugares em que povo brasileiro pode, mesmo que  enlatado, se reconhecer. 



Bom filme!

Nelson Pereira dos Santos


Kátia Peixoto é doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Mestre em Cinema pela ECA - USP onde realizou pesquisas em cinema italiano principalmente em Federico Fellini nas manifestações teatrais, clowns e mambembe de alguns de seus filmes. Fotógrafa por 6 anos do Jornal Argumento. Formada em piano e dança pelo Conservatório musical Villa Lobos. Atualmente leciona no Curso Superior de de Música da FAC-FITO, na FPA -Faculdade Paulista de Arte e na UNIP nos Cursos de Comunicação e é integrante do grupo Adriana Rodrigues de Dança Flamenca sob a direção de Antônio Benega

2 comentários:

Ana Dietrich disse...

querida katia,
gosto da maneira que vc. provoca e propòe novos olhares para nossa época. Realmente pensar a cultura e identidade dos brasileiros, sem cair em extremismos ou modismos, problematizando e vendo as nuances e diferenças, não é fácil. Compartilho da sua tarefa e adorei a ponte abaporu com sertanejo... certamente, antropofágico. bjs, sempre na escuta, sempre no gargarejo de seu palco.

19 de junho de 2011 00:34
CENEART disse...

Obrigada Ana, vc é um anjo que apareceu na minha vida.

19 de junho de 2011 14:30

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