sábado, 7 de setembro de 2013

Best-seller colombiano: Marquez e as marcas editoriais


E quem diria que hoje o conceito de “best-seller” estaria tão intrínseco às discussões literárias acadêmicas. Esses livros que já foram dados apenas como um produto de mercado, estampando páginas de jornais e revistas como os mais vendidos, hoje assumem uma característica peculiar: não são apenas uma literatura de compra e venda, porém fazem parte de um nicho editorial.
É cômico pensarmos que, na verdade, esse conceito de literatura de mercado e as discussões literárias acadêmicas só hoje ganharam força devida, uma vez que há mais de 40 anos, por exemplo, a revista Veja dispõe de uma relação dos livros mais vendidos. Não apenas a Veja, como outros nomes de revistas e jornais de grande importância em todos os países. São muitos e não nos cabe enumerar aqui.
Nomes como Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino e Luis Fernando Verissimo já entraram nessa lista Veja, por exemplo, sendo Drummond até responsável por uma propaganda de um computador, na década de 1980. Eu diria que é bizarro, para os tempos de hoje, um ícone literário brasileiro fazendo propaganda de tecnologia, tempo em que ser “best-seller” e estar envolto à indústria cultural não é visto com bons olhos. Mas não direi que isso é ser bizarro, poderia soar como ofensa. Deixo apenas como ironia!
Contudo, ainda falamos em literatura brasileira. Entrando no mercado literário vizinho, temos, nada mais, nada menos, que outro grande nome da literatura contemporânea nas teias academicistas e industrias: Gabriel García Marquez. O colombiano nascido nos fins da década de 1920 também já entrou nessas inúmeras listas de livros mais vendidos, desde as listagens de seu país, bem como as do Brasil, EUA e de outros países europeus. Não obstante, mas um tanto paradoxo, ao mesmo tempo em que estampa/estampava essas listas, o escritor já foi até coroado, entre tantos prêmios, com o Nobel de Literatura, em 1982. De suas obras mais conhecidas e premiadas, o destaque que damos para a discussão de mercado é para “Cem anos de solidão”, por também encabeçar uma das obras mais vendidas no mundo.
O livro de Marquez foi traduzido para mais de 50 idiomas e se consagrou como “best-seller” no final da década de 1960 e início da década de 1970. Hoje, ainda mais que ontem, é garantido como uma literatura de qualidade. Acontece, porém, que os conceitos hoje se misturam e acabam por perder o sentido quando a proposta de “análise” é generalista. Muito se critica o que é vendido, mas pouco se analisa esse mesmo produto. Aconteceu isso com Jorge Amado, no Brasil, e com tantos outros escritores “queridinhos” pelo público. Logo, partindo desse pressuposto, nos indagamos: Como, então, Gabriel García Marquez pode ser um postulado como escritor de literatura e também um “best-seller”, enquanto outros que, talvez possuam qualidade e singularidade, são apenas escritores de “best-seller”?

Falta, portanto, uma análise das obras em si e não de autores ou de seu berço. Nem todas as obras consagradas pelos críticos e teóricos nascem ou nasceram envoltos a Odisseia e afins. Algumas nascem da manifestação social e cultural das massas, de um “apelo leitor”. Por essa razão, não questiono o autor ou a obra de García Marquez, pois esse conseguiu driblar essa generalizada percepção crítica, todavia, proponho uma reflexão sobre esses conceitos cristalizados de oque seja literatura: obra academicamente reconhecida ou que tenha um público leitor?


Renato Dering é escritor, Mestre em Letras (Estudos Literários) pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), sendo graduado também em Letras/Português pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás (FL/UFG). É professor de Teoria da Literatura e Literaturas de Língua Portuguesa na Universidade Federal de Goiás - Câmpus Jataí (UFG/CAJ). Desenvolve pesquisas na área de contística, cinema, literatura contemporânea e literatura e cultura de massa.

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