quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Olhares...



 Nas primeiras páginas da magistral obra O País das Neves  (雪国=Yukiguni), o Nobel de literatura de 1968, Yasunari Kawabata, descreve um universo de sensações, devaneios e imagens (com melancolia e sensualidade ímpares), criando uma atmosfera difícil de ser traduzida do japonês. Atmosfera cheia de signos que, para aqueles que vivem no Japão, passa a ter significados quase imediatos, mesmo que em um primeiro, segundo e até terceiro instante inicial, pareçam ser inescrutáveis para os neófitos “gaikokujins”. Você até consegue compreendê-los, mas nunca decodificá-los de maneira inconsciente, natural, a não ser que você seja japonês e olhe lá...rsss

            No início do romance, o autor descreve um momento de olhar/devaneio entre um dos principais personagens (Shimamura) e uma bela jovem (Komako), a qual mostrar-se-á uma das principais personagens da trama. O que me chamou a atenção, desde a primeira vez em que li a obra em português - traduzida do francês - e a reli depois  - agora traduzida diretamente do japonês pela professora e tradutora Neide Hissae Nagae – foi a necessidade de tentar compreender não apenas as ocorrências relatadas, mas o significado simbólico do(s) olha(res) naquele contexto, como também no próprio cotidiano nipônico. “Olhar”, diga-se de passagem, sempre indireto, literalmente furtivo.

            Aqui um trecho, para lhe dar um “gostinho”, caro leitor, do universo narrativo de Kawabata:

Quanto mais se afobava em resgatar com clareza a lembrança dela, mais se perdia em meio à falta de confiança na memória escorregadia e fugidia. Somente esse dedo ainda parecia umedecido pela sensação de tocar a mulher, atraindo-o para junto dela num lugar tão distante aproximou o dedo do nariz, cheirou-o e depois o passou na janela embaçada. Um olho de mulher apareceu nítido e claro à sua frente. Ele se assustou e quase gritou, mas isso porque seu pensamento estava longe. Ao cair em si, viu que aquilo era apenas o reflexo da mulher que estava do outro lado. Lá fora, a noite caía, e o interior do trem estava iluminado. Com isso, formara-se um espelho na janela, que, embaçado pelo vapor do aquecedor, não existira até que ele limpasse o vidro com o dedo.”
            E um pouco mais adiante:

A moça estava na diagonal, de frente para Shimamura, e assim ele até poderia olhá-la diretamente. Quando embarcaram no trem, ele ficara surpreso com a beleza da moça, que parecia invadi-lo com um suave frescor, mas baixou os olhos e viu a mão pálida do homem segurar firme a dela, e teve a impressão de que não deveria olhar mais na direção dos dois.

            Entre as várias imagens/sensações produzidas pela narrativa de Kawabata, lembro-me do primeiro instante que me “incomodou”. Trata-se do trecho em negrito acima. Essa possibilidade do olhar não realizado, mas comprometido, me fascinou...

            Vivendo no Japão e observando o modus operandi do olhar nipônico, passei a compreender (será?)  um pouquinho mais o que autor descreveu nos trechos acima.

            A título de comparação, na Terra Brasilis a ação do(s) olhar(es) é mais direta: seja na rua, no restaurante, no supermercado ou no trem, olhamos mesmo, por curiosidade, por surpresa ou por explícita atração. Uns mais direta, outros mais acanhadamente. Aqui no Japão isso não chega a ser “impossível”, pois algumas pessoas dirigem, sim, o olhar para você também, mas é raridade... Como já disse, aqui existem outros signos sociais difíceis de compreender e, na minha experiência, impossíveis de incorporar – dá apenas para percebê-los e, diante deles, se deleitar ou estranhar. E o interior dos trens - que tão magistralmente Kawabata nos apresenta - e dos ônibus, par excellence, são maravilhosos para vivenciar isso.


            Geralmente cheia, quando não lotada, a rede ferroviário-metroviária japonesa é famosa não só por sua modernidade, limpeza e pontualidade, mas também pelo assédio sofrido por mulheres (fato recorrente nos trens e metrôs brasileiros também...), praticados por voyeurs, chamados de Chikan (痴漢), literalmente “tarados do metrô”. Existem vagões para uso exclusivo de mulheres na hora do rush. Eu mesmo já entrei em um por engano e só percebi isso uns vinte minutos depois, quando minha esposa começou a rir - e eu olhei ao meu redor e só havia mulheres... Felizmente, não houve maiores consequências.

            Nos trens apinhados ou mesmo vazios, as pessoas evitam o contato direto dos olhares, muitos dormem, leem ou mergulham no universo autista de seus “esperto-fones”. Mas há aqueles japoneses que se aventuram no universo dos olhares furtivos, usando o reflexo dos vidros. E ai está a minha eureca! com o trecho citado no início da coluna: os olhares através dos reflexos nos vidros dos transportes públicos (até dos espelhos!). Observar sem ser observado, nem mesmo percebido... Maneira segura de exercitar a arte do olhar, do espiar ou do flertar. Sim, os japoneses (homens e mulheres) se entreolham indiretamente. Alguns fingem uma cochilada e dão aquela espiadinha de olhos semicerrados ao seu redor ou em algum alvo preferido - por exemplo: estrangeiros e   japoneses de meia-idade entreolhando jovens garotas com roupa “um pouco” mais curtas ou estudantes secundárias, grande objeto de fetiche nipônico. Perguntei sobre esse comportamento - evitar o olhar escancarado - para os meus alunos e alguns colegas de trabalho, e muitos disseram que desde crianças foram condicionados a “não olhar diretamente”, e essa contemplação velada terminou se tornando algo muito natural para eles. Mirar sem sutileza: atitude desrespeitosa e invasiva. Alguns disseram se sentir muuuuuito incomodados/envergonhados com um olhar mais “despudorado”, mesmo que de relance. Portanto, “olhos nos olhos”, por aqui, é um ato de extrema rudeza.

 Já havia lido e ouvido falar sobre isso antes de aqui chegar, mas não conhecia a amplitude dessa interdição social, no qual o “não visto não dito” tem muito mais significado do que a nossa “cara dura” ocidental. Tenho de confessar que, inicialmente, essa sensação de ser olhado sem poder olhar me incomodava; com o tempo, a sensação de estranhamento deu lugar a de contra-observador privilegiado.

            Do universo descrito por Kawabata, em fins dos anos de 1930 até a realidade dos trens/metrôs de hoje, talvez os japoneses, interiormente,” tenham mudado bem pouco no quesito “olhar”... Ou será que estou errado?

Para terminar, mais um pouquinho dos olhares sutis e complexos de Kawabata:

No fundo do espelho, corria a paisagem do entardecer, isto é, o que se via através do vidro e o que se refletia no espelho moviam-se como imagens sobrepostas de um filme. Os personagens e o cenário não tinham nenhuma relação entre si. Além disso, sendo eles de uma fugacidade translúcida, e a paisagem de uma fluidez vaga de cair de tarde, a fusão de ambos desenhava um mundo simbólico. Particularmente, quando os últimos raios de sol da mata iluminaram em cheio o rosto da moça, Shimamura chegou a sentir o coração palpitar diante daquela beleza inexprimível.”

Um ótimo fim de ano a todos! Feliz 2014!
また今度!! Até a próxima, em fevereiro!

Todas as imagens publicadas na coluna possuem direitos autorais:  Copyright ©2013AkitiDezem
Fontes:
O Pais das neves, Yasunari Kawabata. (trad. Neide Hissae Nagae). São Paulo; Estacão Liberdade, 2004. p. 160.
Sobre os Chikan:
http://kumagumi.com/warning-sign/chikan-metro/
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,privilegio-a-custa-de-assedio,789245,0.htm

http://www.ipcdigital.com/br/Noticias/Japao/Presos-mais-de-40-homens-por-assedio-sexual-nos-trens_17052010








 Rogerio Akiti Dezem é professor visitante de língua portuguesa e cultura brasileira da Universidade de Osaka, no Japão. Mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Matizes do Amarelo - A gênese dos discursos sobre os orientais no 

3 comentários:

Unknown disse...

Grande Rogério, inspirado como sempre! Belo texto, descrevendo com sensibilidade essas diferenças culturais todas... De fato, acho que o Japão é, como nenhum outro, o país da sutileza; nas cidades grandes, também por vezes nos deparamos com o contrário disso: a crueza total, como no caso dos "tarados dos metrôs"; é um país sem meios-termos, eu diria... E os trechos do Kawabata são um presente à parte... Um abração saudoso, um excelente fim de ano e maravilhoso 2014!!!

18 de dezembro de 2013 09:16
Anônimo disse...

Rogerio, toda essa sinestesia me levou às cenas descritas. E certamente me ajudou a refletir e tentar entender melhor a maneira de se comunicar de nossos alunos orientais, alguns já terceira geração no Brasil, mas ainda carregando essa forte marca cultural. Difíceis, mas lindas diferenças. Ficarei aguardando o próximo trem, em fevereiro. Feliz fim de ano a vocês!
Eloisa Galesso

18 de dezembro de 2013 11:50
Adriana disse...

Mais um artigo inspirado e inspirador....bom ver o Japão pelos olhos de Roger,
beijos
feliz Natal querido amigo,
adri

18 de dezembro de 2013 20:21

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