quarta-feira, 14 de maio de 2014

MAN RAY, UMA VIDA EM AVANT-GARDE...



"Eu não fotografo a natureza, eu fotografo as minhas fantasias." (M.R.)

Emanuel Rudzitsky (1890-1976) era seu nome verdadeiro, mas ficou mundialmente conhecido pelo seu nome artístico, Man Ray. Nasceu na Filadélfia nos EUA, mas viveu grande parte de sua vida em Paris. Talvez o que melhor o descreva seja o epíteto de artista modernista, mas ele deu contribuições significativas tanto para o movimento dadaista e para os movimentos surrealistas, apesar de manter laços informais com cada um deles. 

"Auto Retrato"
Mais conhecido no mundo da arte por sua fotografia vanguardista, Man Ray produziu grandes obras em uma variedade de meios e considerava-se um pintor acima de tudo. Ele se tornou um renomado fotógrafo de moda e retratos, e ficou conhecido por seus fotogramas, que renomeou de "rayographs", com uma alusão a si mesmo, descrevendo esse processo como "dadaísmo puro".

Radnitzky era o filho mais velho de imigrantes judeu-russos.  No início de 1912, a família Radnitzky mudou seu sobrenome para Ray, um nome escolhido por um irmão de Man Ray, devido à discriminação étnica e ao forte anti-semitismo presentes na época. Emmanuel, que tinha o apelido de "Manny" na família, mudou seu primeiro nome para Man, e aos poucos começou a usar Man Ray como seu nome oficial.


O pai de Man Ray era operário em uma fábrica de roupas e depois criou uma pequena confecção em casa, contando com a colaboração de seus filhos desde tenra idade. A mãe, costurava as roupas da família e tinha seus próprios projetos, inventando ‘patchworks’ a partir de retalhos de tecidos. Apesar do desejo de Man Ray de dissociar-se de seu passado familiar, essa experiência deixou uma marca permanente em seu trabalho artístico.

"Lee Miller, fotografada por Man Ray"
Aparecem em todas as fases de sua obra, manequins de alfaiate, ferros de engomar, máquinas de costura, agulhas, alfinetes, fios, amostras de tecido e outros itens relacionados ao vestuário e costura.  Os historiadores da arte também notaram semelhanças em suas técnicas de colagem e pintura aos utilizados na confecção de vestuário. 

Man Ray demonstrou grande habilidade artística e mecânica desde a infância, tendo uma sólida formação em técnicas básicas de arte e redação. Ao mesmo tempo, ele educou-se com frequentes visitas aos museus de arte locais, onde estudou as obras dos antigos mestres. Após a formatura no ensino médio, ganhou uma bolsa para estudar arquitetura, mas optou por seguir uma carreira como artista.


Com essa decisão, Ray desapontou as aspirações de seus pais que como imigrantes, sonhavam com uma maior integração e ascensão social. Mesmo assim, os modestos aposentos da família foram reorganizados, para que ele pudesse usar um dos quartos como estúdio. Ele trabalhou durante quatro anos com muito empenho para ser um pintor profissional, ao mesmo tempo ganhando dinheiro como artista comercial e ilustrador técnico em várias empresas de Manhattan.

"The Rope Dancer Accompanies Herself with Shadows" 
Inspirou-se nos modernistas europeus, como Alfred Stieglitz criador da famosa “Galeria 291". Em Nova York, foi influenciado pelo que viu no Armory Show 1913 e em galerias que exibiam obras contemporâneas da Europa. As primeiras pinturas de Man Ray já mostravam facetas do cubismo. Após fazer amizade com Marcel Duchamp, suas obras começam a descrever o movimento das figuras, por exemplo, nas posições repetitivas das saias da bailarina em The Rope Dancer Accompanies Herself with Shadows (1916).

Em 1915, Man Ray fez a sua primeira exposição individual de pinturas e desenhos, onde exibe seu primeiro objeto proto-Dada: um conjunto intitulado Auto-Retrato, mas suas primeiras fotografias mais significativas foram produzidas em 1918. Abandonando a pintura convencional, Man Ray envolveu-se com o Dada, um movimento anti-arte radical, fazendo objetos e desenvolvendo métodos mecânicos e fotográficos originais na produção de imagens. 



"Gift"
Sua readymade Gift (1921) é um ferro de passar com tachas de metal acoplado na parte inferior, e Enigma de Isidore Ducasse é um objeto invisível (uma máquina de costura) envolto em pano e amarrado com corda. Outro trabalho a partir deste período, Aerograph (1919), foi feito com aerógrafo em vidro.

Ray e Duchamp fizeram, em 1920, uma máquina e produziram um dos primeiros exemplos de arte cinética, as placas de vidro Rotary compostas por placas de vidro acopladas a um motor. Naquele mesmo ano, juntamente com Katherine Dreier e Duchamp, Ray fundou a Société Anonyme, uma coleção itinerante que na verdade foi o primeiro museu de arte moderna nos EUA.


"Larmes, Tears"




Man Ray conheceu sua primeira esposa, a poeta nascida na Bélgica, Adon Lacroix, em Nova York, casando-se com ela em 1914, mas logo separando-se dela em 1919.  Ao se mudar para Paris em 1921, Man Ray declarou que "a experimentação de dada não era páreo para as ruas selvagens e caóticas de Nova York”, acrescentando que: “O Dada não pode viver em Nova York. Toda Nova York é dada, e não irá tolerar um rival.”


Em julho de 1921, vivendo e trabalhando em Paris, Ray se estabeleceu no bairro de Montparnasse, local favorito de muitos artistas. Pouco depois de chegar a Paris, ele conheceu e se apaixonou por Kiki de Montparnasse (Alice Prin), modelo de artistas e frequentadora dos círculos boêmios parisienses. 

"Kiki de Montparnasse"

Kiki foi companheira de Man Ray durante quase toda a década de 1920. Ela tornou-se o tema de algumas de suas imagens fotográficas mais famosas e atuou em seus filmes experimentais. Em 1929 ele começou um caso de amor com a fotógrafa surrealista Lee Miller. Durante 20 anos em Montparnasse, Man Ray estabeleceu sua marca na arte fotográfica. Membros importantes do mundo da arte, como James Joyce, Gertrude Stein, Jean Cocteau, Bridget Bate Tichenor, e Antonin Artaud posaram para sua câmera.

Em 1925, participou de uma exposição coletiva surrealista, juntamente com Jean Arp, Max Ernst, André Masson, Joan Miró e Pablo Picasso, na Galerie Pierre. Um trabalho importante desta fase da vida de Man Ray é o Violon d'Ingres, uma fotografia impressionante de Kiki de Montparnasse, inspirado no pintor (e também músico) Ingres. Este trabalho é um exemplo popular de como Man Ray poderia justapor elementos díspares na sua fotografia, a fim de gerar significado.

"Violon d'Ingres"

Em 1934, o artista surrealista Meret Oppenheim, conhecida por sua xícara de chá coberta de pele, posou nua para Man Ray no que se tornou uma série bem conhecida de fotografias retratando-a de pé ao lado de uma máquina de impressão. Juntamente com Lee Miller, que foi sua assistente de fotografia e amante, Man Ray reinventou a técnica fotográfica de solarização.


"Dora Maar" (foto solarizada)
Ray dirigiu uma série de curtas-metragens de vanguarda que muito influenciaram gerações posteriores de artistas, conhecidas como Cinéma Pur, também foi assistente de Marcel Duchamp em seu filme Anemic Cinema (1926) e Fernand Léger com seu Ballet Mécanique filme (1924). Man Ray também apareceu no filme de René Clair Entr'acte (1924), em uma breve cena jogando xadrez com Duchamp.

Mais tarde, Man Ray retornou aos Estados Unidos, ao ser forçado a deixar Paris, devido aos desdobramentos da Segunda Guerra Mundial. Residiu em Los Angeles, Califórnia, de 1940 até 1951, e foi lá que conheceu Juliet Browner, uma bailarina represenante da primeira geração americana de linhagem judeu-romena. Eles começaram a viver juntos e casaram-se em 1946 em um casamento duplo com seus amigos Max Ernst e Dorothea Tanning. No entanto, ele retornaria a Paris, para viver em Montparnasse.

"Observatory"


"The Kiss"
Em 1963 ele publicou sua autobiografia, chamada Auto-Retrato, que teve uma nova edição em 1999. Ray morreu em Paris em 18 de novembro de 1976 de uma infecção pulmonar, e foi enterrado no Cimetière du Montparnasse, em Paris. Em seu epitáfio está escrito: “Despreocupado, mas não Indiferente”.  Juliet Browner foi enterrada no mesmo túmulo, em 1991. Em seu epitáfio está escrito: “juntos novamente”.

A revista ArtNews em 1999, conceituou Man Ray como um dos vinte e cinco artistas mais influentes do século XX, citando a sua fotografia inovadora, bem como "as suas explorações no cinema, pintura, escultura, colagem, assemblage, e protótipos do que viria a ser chamado de arte da performance e arte conceitual. Esse artista usou em todos os meios de sua inteligência criativa na "busca do prazer e da liberdade". 






"Meret Oppenheim" -detalhe(M.R.)

Izabel Liviski é fotógrafa e doutoranda em Sociologia pela UFPR. Pesquisa História da Arte, Literatura e Artes Visuais. Edita a coluna INCONTROS quinzenalmente.
Contato: izabel.liviski@gmail.com






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