domingo, 3 de abril de 2016

Catracas da desconfiança.



Está acontecendo hoje um fenômeno ao contrário da confiança e uma prova disso é a colocação de catracas em lugares em que antes não havia. Surpreendentemente, principalmente iniciativa de comércios bem localizados, com público "selecionado", em que apuseram catraca na entrada e na saída e com saída apenas permitida mediante a colocação do cartão de pagamento devidamente quitado. Parece uma aparelhagem muito bonita e moderna, mas é coisa da Idade Média, totalmente na contramão de lugares desenvolvidos, em que a confiança no cidadão é parte da estrutura (lembre-se que em muitos lugares da Europa, por exemplo, o próprio cliente põe a gasolina, faz e paga suas compras em muitos mercados pegue-pague e ele mesmo valida o cartão do metrô, não havendo catraca nem mesmo na plataforma).


Por aqui parte-se, ao contrário, do pressuposto de que todo mundo vai passar a perna no estabelecimento, no Governo, no colega, por isso as técnicas de controle, dando a impressão aos cidadãos de que devem fazer algo da maneira correta simplesmente porque não há jeito de fazerem diferente e não apenas pelo fato de que fazer a coisa certa é o certo a ser feito e ponto. Como se não havendo os mecanismos de controle, a distinção entre o certo e o errado não ficasse tão clara e a infração fosse menos proibida, e não é por aí.
Uma vez estive no Rio de Janeiro num verão muito quente e fui pegar uma prainha, não tinha guarda-sol nem cadeiras, mas lá isso não é problema, porque há barracas que alugam de tudo, até piscininhas. Peguei duas cadeiras, um guarda-sol e consumimos algumas bebidas. A mulherzinha dona da barraca não anotou nada.


 A praia estava apinhada de gente e cada um chegava e pedia e ela dizia pode pegar ali fia (fio), as cadeiras que precisa, e aparecia um menino pra pôr o guarda-sol. Ela não  anotava nada (nada absolutamente), e aquele monte de gente entrando, saindo, pegando, pagando, nossa, olha, quem quisesse largar tudo ali e sair sem pagar, era moleza. Mas, sabe, esse não é o objetivo, não é? O objetivo ao "contratar" um serviço não é passar a perna em quem está fornecendo, mas acertar o combinado, é o sistema que deveria viger em sociedade que se diz civilizada e aquela senhorinha, com aquele tanto de cliente que a tratava por tia e devia estar ali todos os fins de semana, sabia disso ainda que inconscientemente, "confiava" na contraprestação do seu serviço, porque não havia porquê as pessoas não cumprirem com o combinado (ou havia?).
Parece que quanto mais há esse controle, essa demonstração de desconfiança, menos as pessoas sentem-se intimamente obrigadas com as suas consciências a cumprir com seu dever, o qual vai ficando condicionado ao mecanismo de controle e se separando de seu verdadeiro sentido.
Eu acho um horror essas catracas, sou contrária mesmo às catracas de ônibus, sem aquilo, todos poderiam usar todas as portas e não ficava aquele empurra-empurra, aquele atravessamento do carro inteiro até chegar à porta de saída, apenas para que o empresário tenha certeza super absoluta de que cada pessoa que entrou naquele carro pagou a sua passagem e não lhe passou a perna. Muito ruim.
E na contramão, a sociedade também não confia nas suas instituições, representantes e naqueles que fornecem serviços. 


Assistimos hoje, principalmente, uma desconfiança crescente com relação à imprensa e ninguém mais sabe em quê pode acreditar e a maioria desmoraliza os informes, passando a acreditar em verdades "criadas", preferindo confiar no colega da rede social,o que não se pode admitir, porque todo mundo é parcial e uma imprensa livre, ainda que tenha se tornado motivo de piada nos dias de hoje, é pilar de um Estado Democrático, imprescindível, e deixar de acreditar nela também nos vulnerabiliza demais - passamos a acreditar em quê, em quem?, quem é o detentor da verdade (talvez aquele a quem a notícia não esteja favorecendo). 
Estamos navegando num mar de desconfianças, tempestade com ondas vindas de todos os lados, em que o índice de confiança no cidadão é diretamente proporcional ao índice de confiança social, e isso afeta tudo: os investidores também não confiam no país para investir seus recursos e a economia vai de mal a pior. 
Temos que virar este jogo, antes que seja tarde. Se você, dono de padaria, estiver pensando em aparelhar seu estabelecimento com uma senhora catraca, pense melhor.




Larissa Germano é autora de "Cinzas e Cheiros", e escreve nos blogs Palavras Apenas (naoapenaspalavras.blogspot.com) e Nunca Te Vi Sempre Te Amei (cafehparis.blogspot.com), tem perfil no facebook e no twitter e a página Lári Prosa e Trova no facebook. É também compositora intuitiva e tem perfil no Sound Cloud e Youtube.
Para adquirir o livro Cinzas e Cheiros, independente, entre em contato com a autora pelo email: slariger@hotmail.com).

3 comentários:

Daniela Gerevini disse...

Infelizmente o "jeitinho brasileiro" deturpado corrói o senso de coletividade e a ética individual. A catraca eh apenas um artifício dos muitos "poka yokes", que a sociedade gera para impor o que o cidadão furtivamente se faz ignorar. Felizmente existem ainda ambientes que criam um clima de ambiente mútuo e familiar, que o lado bom "jeitinho brasileiro" vira aliado!!!! Tipo conspirar a favor...Adorei o texto...

3 de abril de 2016 12:22
Daniela Gerevini disse...

Infelizmente o "jeitinho brasileiro" deturpado corrói o senso de coletividade e a ética individual. A catraca eh apenas um artifício dos muitos "poka yokes", que a sociedade gera para impor o que o cidadão furtivamente se faz ignorar. Felizmente existem ainda ambientes que criam um clima de ambiente mútuo e familiar, que o lado bom "jeitinho brasileiro" vira aliado!!!! Tipo conspirar a favor...Adorei o texto...

3 de abril de 2016 12:22
Lari Germano disse...

Obrigada Dani, pela participação! Gostei do termo poka yoke! Se puder explicar pra gente o que é. ... é um termo da indústria não é? Grande beijo pra você!

4 de abril de 2016 09:17

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