domingo, 6 de novembro de 2016

DESISTA



Um mundo íntimo com dificuldades de dizer não, de fechar portas: é o que vislumbramos hoje, pelo menos aqui no Brasil.
Uma época de muito acesso e permissão, fronteiras abertas pelas redes sociais e rede mundial de computadores, perdido com isso, muitas vezes, o exercício do não, o saber fechar portas, o sabor da renúncia.
Lembro de um livro em que o personagem, menino nordestino, faz uma promessa e deixa de comer rapadura. E sente com esta privação do doce um imenso prazer, verdadeiro poder, como se a disposição de privar-se de algo bom, (talvez essencial, se considerada sua dieta), fizesse sentir-se melhor, mais capaz, menos susceptível e de alguma forma conectado com o Misterioso, com este Algo a Mais que rege o destino e do qual geralmente estamos distantes.
Hoje temos dificuldade com o não. Dificuldade em ouvi-lo, dificuldade em dizê-lo. Um contrassenso considerando que deixamos cordas ao acaso, ligando-nos a um e outro que às vezes nem conhecemos, porque essa dificuldade demonstra que apesar da quantidade de laços, não sabemos enxergar quantos caminhos há por trilhar, gostamos ainda, em nome do amor, de insistir. 

Não

Num mundo
Em que se quer tudo
Em que tudo é opção
Difícil dizer
"Não"
Mas existe 
Poder na renúncia
Força na definição
_ Segue seu caminho!
"Não"
Dito em voz alta
Ou em palavra escrita
Corta como espada
Defende como guarita
"Não"
Num mundo sem divisas
Em que tudo é opção
Basta!
"Não"
Num mundo 
De pontes e escadas
Cancelas jamais cerradas
Retrinjo
: não!
E erijo nas escolhas
E renúncias que exerço
Um forte de intenções
Cerzidas 
No q tenho
E abstenho: "Não".

(Lári Germano, "Não")

Isso seria muito bom, se eu estivesse falando do amor correspondido (que maravilhoso é, e também perdido, o "não" dito pra defender o ser amado!, ao amor em curso poucos querem se dedicar com tamanho afinco quanto ao amor findo) - mas falo do amor perdido, do amor que partiu, nos deixou ou merece por nós ser deixado.
Há hoje um milhão de formas, livros, consultas sobre o amor, sobre manter o amor, sobre reconquistar o amor e não me lembro de ter visto por aí fórmulas e ajuda para aqueles que, acreditando sentir amor, precisam de um apoio pra fechar a porta, respeitar a vontade do outro (ou falta de vontade) e seguir a própria vida.
As pessoas têm até dificuldade em ouvir isso de um amigo, desconfiadas da sinceridade dele, afinal, "tudo" deve ser feito em nome do amor e poucos dominam que dá pra terminar um relacionamento ou ainda aceitar o término de uma relação, amando, principalmente se não foram autores da iniciativa de pôr fim à relação ou precisem fazê-lo para extinguir o sofrimento.
Não é coisa fácil de se fazer, está claro. No passado, ainda que a dificuldade maior fosse a mesma (a separação, o desgarrar do outro, a construção de uma nova rotina e principalmente o aceitar a rejeição, porque sim, não somos unânimes, nem todos irão gostar de nós), era mais fácil  fechar portas.
Hoje a falta de uma análise sincera dos próprios sentimentos e a falta de propriedade em encarar que a perseverança nem sempre vence nestes casos (na maioria das vezes só maltrata), faz com que pessoas que precisam esquecer e reconstruir a vida persistam, por exemplo, em manter o contato virtual com a pessoa que se foi, dificultando uma reconstrução da própria história principalmente se nutrem esperança, (porque para o esperançoso parece nunca chegar ao fim as artimanhas de esperar o arrependimento do outro, que voltará para si, qualquer dia, finalmente ciente do equívoco da decisão de não prosseguir ao seu lado ou disposto à transformação necessária para a continuidade do relacionamento).
Temo-nos em alta conta e é muito difícil aceitar que alguém que tanto nos quis ou que pouco nos queria, mas que queríamos muito, de repente (ou não tão de repente assim), já não nos queira. E tudo o que desejamos ouvir do outro para quem desabafamos é: lute, persevere, persista, use uma tática, agora outra, raiva, ciúme, indiferença, não, indiferença  não, brigue, use as crianças, difame, chore, implore, corrija seus atos passados, etc., etc., etc..
Poucos amigos terão coragem de dizer a verdade neste mundo de mentiras e de pouco autoconhecimento, apesar da tamanha exposição: DESISTA. Porque tudo o que o amoroso implacável não pode ouvir é a verdade: aprenda a respeitar a escolha do outro, viva sua vida e não faça mais nada, não chore, não grite, não ligue, não implore, não comente nas redes sociais, e isso, não apenas para não lhe dar ibope, mas sim para VOCÊ seguir em frente.
Ninguém quer ouvir que pra seguir em frente é preciso desistir e fechar a porta. Porque nestes dias sem fronteiras virtuais, parece que desconhecemos haver outros caminhos, outros milhares de caminhos, outros milhares de pares. Apesar do amor líquido, a insistência no convívio, ainda que virtual, nos deixa incapazes de coisa extremamente necessária se é preciso esquecer: MUDE O FOCO.
Mude o foco não para que o outro tenha ciúme (o que certamente vai acontecer, mas não vem ao caso), mude o foco não para que o outro volte correndo (o que raramente acontece, a não ser para garantir que você está ali a amá-lo e não porque realmente quer rever a decisão), mude o foco pra sobreviver, pra se reinventar, pra se refazer. Mude o foco por você.
E se pra isso for preciso cortar o contato, que se dane o que pensam seus contatos em comum, talvez eles também tenham que rodar por um tempo. [Não se envergonhe: era assim que as coisas se davam há pouquíssimo tempo atrás e não há necessidade alguma de continuar a se ligar a quem já não faz parte de nós, ou de quem precisamos, ainda que momentaneamente (ou não), nos separar].
Ainda somos donos de nós mesmos, apesar  dessa transcendência virtual. Como aquele(a) que nos rejeitou, também temos direito de escolha, temos direito de exercer o não e, isso, quando você se apega, dá um prazer imenso e uma autonomia sem preço.
Às vezes a gente tem que lançar mão da indiferença, às vezes apenas do amor próprio, mas acho difícil romper sinceramente sem o ímpeto da raiva (uma raiva sem vingança, apenas para ser forte), que nos compele a sair do buraco, a não ter dó de nós mesmos. Aquela primeira marcha com força suficiente pra pôr o motor a andar em outra direção (e não em marcha-ré).
Isso não quer dizer arrumar outro(a). Provavelmente seja necessário um tempo só.
Isso quer dizer arrumar outros afazeres, talvez refazer o círculo de amigos (ou reaproximar-se do antigo), ingressar finalmente naquela aula de dança ou curso de inglês sempre adiados, cuidar da dieta, comprar umas roupinhas, renovar a autoestima, enfim e, muito importante, se proteger, na medida do possível, do que não pode ainda suportar - e pra isso é necessário ter coragem de encarar que nem sempre o que a gente sente é o que é considerado correto pelos outros. Aliás, em caso de sobrevivência, o julgamento do outro não deve contar nem um pouco e vamos combinar, hoje em dia, está tudo "upside down".
Enfim, estas são palavras de alguém que já desistiu antes e portanto sabe que há vida no fim do túnel - como há!, principalmente se houver coragem para se reinventar e rever velhos padrões e escolhas (o que não é fácil, sequer indolor, mas vale a pena).
Na primeira vez que tive que fazer isso, e estava naquele chove não molhe de quem não ousa fechar a porta apesar de extremamente ferida, revelando assim ainda estar nas mãos do outro, uma amiga verdadeira, odiada momentaneamente, lançou a pergunta: Você tem que decidir: você quer reconquistar ou quer esquecer? 
E é esta a primeira recomendação que faço, pergunte-se isso, e, acrescento, se concluir que quer reconquistar, tem que se perguntar por quê, pois pode ser apenas orgulho ferido e que nem queira realmente de volta as coisas de antes, - e aí não vale a pena.
Quando decidir esquecer, então desista, e deguste o prazer e poder em dizer "Não".









Larissa Germano é autora de "Cinzas e Cheiros", e escreve nos blogs Palavras Apenas (naoapenaspalavras.blogspot.com) e Nunca Te Vi Sempre Te Amei (cafehparis.blogspot.com), tem perfil no Facebook e no Twitter e a página Lári Prosa e Trova no Facebook. É também compositora intuitiva e tem perfil no Sound Cloud e Youtube.


3 comentários:

Vocalizzi Instituto da voz disse...

Mudar o foco e se reinventar é uma forma de se redescobrir também! As vezes é preciso para achar a nossa própria pessoa. Muito bom o texto. Parabéns!

6 de novembro de 2016 20:56
Lari Germano disse...

Obrigada querido professor! Bom tê-lo por aqui! Beijos.

6 de novembro de 2016 21:08
Anônimo disse...

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14 de abril de 2017 17:30

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