sábado, 22 de junho de 2013

Voodoo Hop e intervenções Timalina


- Conhecem os eventos promovidos pela VOODOOHOP em SP? 

- Já ouviram falar da Tima?

Sem maiores delongas, esboçarei um pouco a respeito do coletivo VoodooHop e a intervenção da Aline Arcuri, mais conhecida como Timalina. 

A VOODOOHOP realiza festas na cidade de São Paulo e tem como objetivo a organização de festas incomuns e hedonísticas. Atuam, principalmente, no centro da cidade de São Paulo e realizam manifestações culturais em espaços públicos.

Matéria na Folha com VOODOOHOP

Uma das características do coletivo é ser itinerante, já percorrem cinco estados brasileiros e três países europeus. O motivo é a busca pelo inédito, pelo proposta de interagir com outros espaços e públicos, assim o ambiente da festa é composto pela união das instalações artísticas, com as músicas selecionadas pelos  DJs,  o público e o local da realização.

No coletivo, a Timalina participa como performer, DJ, auxilia na produção da decoração e seu principal trabalho é ser hostess - recepciona o público da festa todas as noites. Ela viu a necessidade de criar objetos para compor um personagem na festa e iniciei a confecção de suas primeiras máscaras e, hoje, semanalmente é produzida uma nova mascara. Acredita que a máscara funciona como um dispositivo para incorporar suas ações no coletivo, um meio facilitador para o relacionamento com o público.


Timalina, integrante do coletivo VOODOOHOP

Acredita que conseguiu construir um persona - palavra latina usada por atores da época clássica que significa “máscara”. Jung utiliza este termo referindo-se “ à máscara ou face que uma pessoa põe para confrontar o mundo”. Ela exerce a função de facilitar as relações sociais, nas situações cotidianas. A confecção das máscaras teve como consequência, de início inconsciente, a criação de uma persona que facilitou a recepção e a interação com o público. 

"Com a máscara tenho a potência de encarnar todas as características da festa e, apesar da distância que existe entre o mundo contemporâneo e as práticas ritualísticas, com esse dispositivo acredito ativar a força de um ritual para meu trabalho." (ARCURI, Aline F.)

A primeira e mais próxima referência para a produção das máscaras é o grupo/banda Keroøàcidu Suäväk, que faz apresentações de música experimental e performance nas festas da VOODOOHOP e em outros ambientes como exposições de arte. O grupo é composto por músicos e artistas, sua potência vem da experimentação musical, visual e corporal, as apresentações tem um caráter ritualístico. 

Pilantröpóv Pausãnias

Conta que outro referencial é a artista Lygia Clark e sua produção dos “objetos relacionais”. No seu trabalho chamado Máscara Abismo os participantes/receptores vestiam a máscara confeccionada com o objetivo de experimentar em um âmbito mais focado na Arte Terapia e de se relacionar o sensorial dos materiais utilizados. Partindo do conceito da produção dos “objetos relacionais”, Aline define as máscaras como dispositivos relacionais e ao ser ativado a transforma em uma coerência com a produção do coletivo.

Fundamentou também a respeito da referencia nas cores e no material da confecção de suas máscaras: a cerimônia andina Takanakuy realizada na província de Chumbivilcas no Peru. Tem suas raízes nos predecessores da cultura hispânica-inca e acontece anualmente no dia 25 de dezembro. Nesse dia pessoas de todas as idades se preparam fantasiando-se para participar da cerimônia, que se resume à uma grande briga de rua, onde todos se batem aos murros e chutes. As máscaras produzidas aqui também tem o objetivo de encarnar um personagem no momento da cerimonia. São referência nas cores e no material (lã).
Cerimônia Andina Takanakuy

                     Poster Takanakuy, Peru.

Os festivais dos Mascarados encontrados na região do oeste africano tem a tradição de confeccionar a fantasia para esses festivais era muito forte nessa região da África. O fotógrafo Phillip Galembo registrou em uma série de fotos das fantasias criadas pelas tribos. Aqui produção colorida e bizarra a atraiu, o afinco da população local em confeccionar as fantasias foi inspirador e isso fez da série de Galembo uma forte referência.

Há cerca de um ano, aprendeu a técnica de tricô com agulhas e encontrou uma grande sintonia entre os fios e a trama. Foi em busca de referências de artistas contemporâneos que utilizam do tecer como matéria-prima. Permeou sua pesquisa nos coletivos e artistas que interviam com as tramas a paisagem urbana no Brasil e na Europa. 

Ao pesquisar percebeu que muitos artistas estão optando pela técnica de tecer com as agulhas criando trabalhos coletivos nas cidades. Essas manifestações estão espalhadas pelo mundo todo, um exemplo é o coletivo aberto  Yarn Bombing [Bombardeio de Fios] que reúne na internet em um site (http://yarnbombing.com/) artistas de varias partes do mundo que reinventam a paisagem da cidade 
utilizando o crochê ou o tricô.

Outro exemplo inspirador são as ações da artista polonesa Agata Oleksiak que vem colorindo com o tricô vários locais do mundo, agregando com seus trabalhos essa nova atividade conhecida como Crochê de Guerrilha. A artista veio para o Brasil colorir com sua trama de tricô, na Mostra Sesc de Artes 2012. Ela trabalha em colaboração com artistas e costureiros locais, vestindo enormes monumentos com o crochê pelas cidades que passam.


Instalação Agata Olek


 Em uma palestra foi discutida a inexistência de ligações entre o IAC (Instituto de arte Contemporânea) e o muBA (Museu Belas Artes de São Paulo). Com isso a Aline propos uma ação que simbolizasse essa ligação, do IAC com o muBA e durante a I Semana de Artes Visuais do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo organizou uma ação, Tear Humano. Unindo a técnica do tear de mão, com as mãos de quinze ou vinte pessoas, a rede foi produzida. No final da semana produzimos uma rede de 40m de comprimento, que equivalem a distância entre os espaços IAC e muBA.

Tear Humano, Belas Artes


Aldo Lanzini, Nick Cave e Piers Atkinsons são exemplos de artistas plásticos que produzem máscaras utilizando a trama e que encontra relação com o aspecto bizarro e sufocante das formas das máscaras, as cores e técnicas. 



10 Crazy Creeby Crocheted Masks
10 Crazy Creepy Crochet
Piers Atkinsons, Knitted Balaclava with Pom-Poms
'All the World's a Stage' collection, S/S 2009, © photo: Leigh Keily.

Com essas referências inúmeras possibilidades se afincaram na sua produção de máscaras, nesse ponto, outras técnicas de tramar foram experimentadas, tricô de dedo, tricô de braço, o crochê e a construção de teares para simplificar a confecção da trama. 

Esse aprendizado se somou com os encontros informais com amigas e amigos, em que as trocas de experiências com essas técnicas foram essenciais. Além de ter reencontrado as amostras de crochês feitas pela sua avó.


Intervenção VOODOHOP no Morro do Vidigal, RJ. 
 Máscaras Timalina. Foto: Pitty Nascimento

Uma importante característica da máscara é o emprego das cores fluorescentes, elas também são atribuídas na estética as decorações da VOODOOHOP, que combinadas à luz negra auferem realce. As cores aplicadas à máscara se destacam na pista escura quando próximas à uma luz negra. Essas cores também agregaram para chamar mais atenção as suas performances de dança.

Matéria elaborada com base no TCC da Aline Ferreira Arcuri, concluso neste ano de 2013 e as referências utilizadas são as seguinte:

OITICICA, Hélio. Carta a Aracy Amaral, 13 de maio de 1972. cf. Amaral, Aracy. Arte e Meio Artístico; entre a feijoada e o X-burger. (S. Paulo: Nobel, 1983).
SAMUELS, Andrew. Dicionário de Crítica Junguiana. Rubedo, 2003. Disponível em: http://www.rubedo.psc.br/dicjung/verbetes/ritual.htm Acesso em: 5 de abr. 2013, 17:00

Soraia e Alina (Timas)  Foto: Aniel Lara Espindola

Soraia Oliveira Costa, mestranda em História da Ciência/UFABC, licenciada e bacharel em Ciências Sociais/CUFSA.

Aline Ferreira Arcuri, bacharel em Artes Visuais/Belas Artes, integrante do coletivo VOODOOHOP. 


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