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Berlim do avesso





O que será essa caixa? Vou descobrir...
      Hoje, dando uma volta no quarteirão na minha meia hora de almoço, vi uma das "caixas" que existem nas ruas daqui e que, às vezes, são espaço para lindos trabalhos artísticos. A de hoje tinha um super homem. Não tinha máquina e nem celular para fotografar... faço depois e vou descobrir o que são e para que servem essas "caixas" na calçada. Achei essa por aqui, no seu "estado natural".  A linha amarela é uma intervenção também, marca o espaço preferido do berlinense para mijar...



      Bom, e o super homem me causou uma enxurrada de associações até voltar ao Brasil e a situação a atual do país. Digo "voltar", porque é um pensamento constante.  Será que associação rolou quando lembrei da música de Gilberto Gil?

      E pensando no Brasil e pensando no Brasil e no que tá acontecendo, juntando com o que escrevi aqui na vez passada e ainda mais uma reportagem sobre o péssimo estado da "casa da Merkel"(Bundeskanzleramt), que já está quase caindo aos pedaços depois de apenas 15 anos de construção. Me vem a convicção  de que a doutrina política econômica coroada e posta em prática pela "Dama de Ferro" inglesa e do "Ator" americano no idos dos 80  está fazendo a Alemanha chegar mais próximo do Brasil do que o contrário.

      Na reportagem sobre  os alemães se colocam espantados, o título é "desaprendemos a construir?", e não se perguntam o que acontece. Logo dou uma risadinha e automáticamente mato a charada: "super faturamento de material de terceira...", "é com obra que se ganha muita grana..." No final do artigo há uma sutil constatação do que conhecemos muito bem.

Os Gêmeos em Berlim
      E não fica por aí a aproximação, a tesoura está se abrindo cada vez mais, e os jornais escrevem reportagens de que agora, quem nasce pobre está condenado a continuar pobre e quem nasce  rico está condenado a ficar cada vez mais rico. As filas crescem no postos de distribuição e comida - organizados por entidades beneficentes. Vejo velhinhos e não velhinhos recolhendo garrafas para pegar a grana do casco, muito mais gente pedindo no metro, e não são estrangeiros.

Caramba, há séculos e séculos o homem é o lobo do homem, e isso não muda!

É claro, a comparação entre os países é quase injusta, o que rola no Brasil já foi nomeado por especialistas como o  "capitalismo selvagem de fato".  Uma grande diferença é a escravidão, que marca até hoje as estruturas morais da nossa sociedade. Não nos causa estranhamento e não identificamos o comportamento escravocrata de ambos os lados na relação patrão e empregado, independente até do problema da cor da pele. Também não nos incomoda tanto ver gente morando na rua ou vivendo como bichos. Ver gente pobre ser espancado e mal tratado também não... Por que será?

Por que será que hoje, quando um Governo anuncia que vai jogar milhões de pessoas na miséria, sem educação, sem saúde, sem perspectiva, não são todos que vão para as ruas dizer não a tamanha barbárie? Por que será que um político não hesita em afirmar, na frente de uma câmara, que quem não tem dinheiro não estuda e ponto final e tá bom assim.
Por que será?


A reportagem sobre a casa da Merkel
http://www.sueddeutsche.de/kultur/architektur-deutschland-hat-das-bauen-verlernt-1.3198692

fotos:
http://www.berlin-du-bist-wunderbar.de/2015/05/street-art-in-berlin-35.html?m=0
http://just.blogsport.de/2010/07/27/berlin-tourism/


Ana Valéria mora em Berlim e observa a cidade há quase duas décadas, estudou história e trabalha como tradutora.

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Até quando a realidade do outro não é a nossa?




      Hoje me dei conta, com um sentimento diferente, que vivo no "centro do mundo". Vivo num país europeu ocidental rico, um dos mais de todos. Numa grande potência econômica mundial, como dizem hoje, um global player. E nada mais coerente do que este termo para tal país e tais países que nele cabem. Brincam, jogam com o mundo, seu parque de diversões. Estão aí pra isso, esta é a sua força, o poder que os definem como tais. "O poder de influenciar o mundo, em detrimentos de muitos para o proveito de poucos." Assim em uma frase simplória-panfletária, a base do nosso tão defendido sistema capitalista.

      A Alemanha está entre os maiores exportadores de armas e de armas de guerra do mundo. Ganhou rios de dinheiro com isso, assim como outros. A guerra gera lucro: primeiro ganha-se com o comércio de armas. Depois, se tudo der certo, "ganha-se a guerra indiretamente" com os aliados vencedores. Num segundo momento ganha-se com empréstimos ao país arrasado para sua reconstrução. Abre-se um mercado, por exemplo,  para "firmas" fazerem dinheiro em obras de infra-estrutura ou com a exportações de produtos básicos, já que o país arrasado provavelmente deve ter perdido suas industrias etc e e tal... Além destas, ainda acredito que existam várias outras formas de se fazer dinheiro com a guerra. A guerra é também um mercado.


Quem planta armas, colhe refugiados
      Agora este país está vivendo um fenômeno há muito tempo previsto, o deslocamento de milhares e milhares de pessoas para o centro do mundo. A maioria dos refugiados que alcançam a Europa fogem da guerra. A Inglaterra quer repetir a sua política do pós 2. Guerra: fechar as suas portas para pobres miseráveis. A Alemanha tem uma mancha maior no seu passado, não pode fazer isso. E é, acima de tudo, um imã para estas pessoas desesperadas, porque afinal aqui está o dinheiro!

     Extremistas de direita vão às ruas protestar contra a chegada de mais pobres no país, simpatizantes concordam e engrossam o coro. Covardes urinam em duas crianças estrangeiras no trem em Berlim. Locais que seriam abrigos para refugiados são incendiados em outras cidades. Políticos de partidos oportunistas lançam mentiras na internet sobre como refugiados tiram dinheiro do povo.

    E tudo isso eu vejo pela TV, pela internet ou pelo facebook. Parece surreal, parece coisa de cinema, não me toca, não muda o meu dia a dia. Eu nunca pensei em fazer "qualquer coisa para ajudar não sei o que". Tenho uma opinião, mudei a foto de capa do meu perfil no facebook em protesto... Mais que isso não me passa pela cabeça. Eu não sou a única. Seremos nós os cidadãos a nos responsabilizar por esta catástrofe anunciada? Cabe tal pergunta? Ou nossa obrigação agora é "ajudar", como estão fazendo milhares de pessoas aqui na Alemanha e em outros lugares? Isso não aconteceu de repente, como um tsunami ou um terremoto. Isso vem sendo denunciado há anos - a minha foto de capa do face é de abril de 2014... Poderia ter sido evitado? Tenho a impressão que a "incompetência" dos Estados é uma posição política. Não pretendem organizar algo que funcione, que acolha e alente tais pessoas, para não estimular a chegada de outras mais.

      E os que ainda não se sentem tocados - como eu -  seguirão assim, até que um dia a realidade invada a zona de conforto? Assim como aconteceu com um inglês que mora em Hamburg? Estes dias ele foi pegar a bicicleta no porão do prédio e descobriu uma mulher que se escondia no local. Ele tentou conversar, ela fugiu de medo... Lendo o texto percebi que não tenho a menor ideia do que irá acontecer daqui pra frente, e que essa realidade vai deixar de ser "algo surreal" e distante. Seja por nos confrontarmos com os recém chegados ou com a reação de extrema direita... Imagino que as convicções se mostrarão e se mostrarão de forma acirrada.

      Viver no centro do mundo via passar a ter um outro significado, e nem sei e nem sabemos qual será. 

Aqui: quem ganha no comércio de armas, o artigo de Bernie Duffy sobre a mulher no porão e um statement do primeiro ministro da Hungria. 


Ana Valéria é historiadora e mora em Berlim. Terminou dois “estudos de História” uma vez no Brasil outra na Alemanha. Hoje trabalha como tradutora.


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Berlim in Progress II




Um pouco mais sobre as mudanças na cidade que se refaz metrópole. Ainda pensando na formação daquela estética do feio e do abandonado. Aqui, a esquina de casa quando me mudei, para mim foi  como um alívio do tudo "bonitinho e certinho" e uma familiaridade com muitas esquinas do Brasil. Fiquei feliz quando consegui o apartamento!




Mas voltando à história. Em novembro de 89 o muro caiu diante das conjunturas econômicas e de um mal entendido. Nos anos que que seguiram, os primeiros da década de 90, a cidade viveu uma espécie de "ausência de poder" ou melhor um: "e agora". Os jovens alternativos do lado capitalista se aventuraram no antigo lado comunista, em muito quase abandonado. Era comum as famílias saírem de suas casas às pressas e com apenas alguns pertences, pois não sabiam se as fronteiras continuariam abertas. Amigos relatam sobre apartamentos abertos, abandonados completamente mobiliados e até com a mesa posta. Prédios foram ocupados por grupos autônomos e outras pessoas passaram a morar nos apartamentos abandonados.
A paisagem dos bairros era triste e chocante para quem conhecia a Alemanha "bonitinha" capitalista.



Passaram-se os primeiros anos as coisas foram tomando sua ordem - tão cara ao povo alemão - e, como disse, a cidade passa a ser reformada sistematicamente. Vale clicar nesta página, que mostra de uma maneira bem genial esta transformação. 

Enquanto esta parte da cidade que mostra o link acima se tornou um concentrado de pequenas galerias de arte e um lugar bem frequentado por turistas. A minha esquina se transformou numa zona residencial, primeiro dos "alternativos" e pobres estudantes. Agora de jovens conformes, cada vez mais os vizinhos parecem ter saído de uma vitrine de loja. Suas roupas são sempre novas e os cabelos estão sempre penteados, era exatamente da maneira contrária à essa que se apresentavam os antigos moradores...
O Bairro, chamado Prezlauer Berg foi carinhosamente apelidado de Pregnance Hill por conta do número absurdamente alto de crianças - exceção no quadro geral da Alemanha. Mas diante das minhas observações de anos, feitas durante o café da manhã (eu morro no térreo), já se pode acusar uma queda nesta tendência, sendo agora ultrapassada pelos "malucos do Jogging", citando André Dahmer. 
Meu bairro agora tem um tom pastel, assim como mostra o link acima. Quase todos os prédios foram renovados com excessão de poucos que ainda esperam a sua vez. Posso dizer que essas imagens já são documentos. 


Eu imagino que em questão de duas décadas acabará a transformação da cidade, esta Berlim vai desaparecer, por que afinal também tem a substância dos prédios que precisa ser salva. Quem vai viver nessa cidade é essa cara aqui, to curiosa pra saber como vai ser. 








An Valéria Celestino é historiadora e mora em Berlim. Terminou dois “estudos de História” uma vez no Brasil outra na Alemanha. Hoje trabalha como tradutora.

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Berlim in progress




Há quase duas décadas morando em Berlim pude e posso observar as mudanças que a cidade vem passando. Uma das mais visíveis, a reforma da paisagem urbana, principalmente nos bairros do antigo lado comunista. Onde antes havia o aspecto do abandono, que entristecia os primeiros visitantes, onde antes havia o improviso e a criatividade como solução e uma vida realmente alternativa, agora há fachadas bonitas em tom pastel e a apropriação deste "alternativo" com estética e, consequentemente, como mercado. 

Berlim criou uma estética do "feio" do "velho", que é aceita agora por pessoas que talvez, há alguns anos atrás, nem sequer pensariam em descer as escadas de um porão úmido e necessitado de uma boa reforma para comer e beber entre amigos. O caos, o feio e o velho está domesticado.
Se isso é bom ou ruim, não quero aqui julgar. Fato é, Berlim se transforma e ninguém pode prever se em algumas décadas ainda haverá prédios que testemunham este momento pós queda do muro. Mesmo porque eles realmente precisam de uma reforma! 


Entrada do prédio Schwarzenberg, Rosenthaler str 39, Berlim

Um desses prédios é o Schwarzenberg, na Rosenthaler str 39, um prédio cheio de histórias, construído na segunda metade do século 18. primeiro como moradia, depois também como espaço para oficinas e mais tarde pequenas fábricas. Durante a ditadura nazista o prédio abrigou entre 1936 e 1945 a fábrica de escovas e vassouras de Otto Weidt. Nesta fábrica Weidt empregava judeus em sua maioria cegos e surdos, protegendo seus trabalhadores da deportação.
Hoje uma associação, fundada em 1995, que leva  o nome da casa - http://haus-schwarzenberg.org - administra o prédio e abriga galerias, ateliês, bares, cinema alternativo, lojas e museu. A concessão termina este ano e seus organizadores não sabem se será renovada.

Neste pátio está o Cinema Central, onde passa filmes na lingua original que não são blockbusters.


Esta cantinho de Berlim sobrevive no meio da nova Berlim, na mesma rua um pouquinho mais a frente está a loja da Hugo Boss e a sede da SAP. Logo ali numa outra rua a loja de Karl Lagerfeld e muitas outras lojas chiques que dão uma pista de como a será essa transformação. Quem sabe a cidade, agora novamente capital da Alemanha, retome seu glamour dos idos tempos da República de Weimar, na década de 20, quando era a maior cidade industrial do continente e uma metrópole da cultura e do entretenimento, da boêmia e da vanguarda intelectual.


Ana Valéria Celestino é historiadora 
e mora em Berlim. Realizou dois “estudos de História” uma vez no Brasil outra na Alemanha. Sempre voltada para a leitura de manuscritos, o que quase significa: “quanto mais ruim for o garrancho melhor”. trabalhou no Brasil como paleógrafa,  mas a vida quis a tradução, trabalho que exercia durante os estudos e continua fazendo até hoje em Berlim.


Dentre as “realizações” teve a oportunidade de organizar um arquivo pessoal com documentos inéditos no Instituto Ibero-americano em Berlim, trabalhar com um manuscrito do século XI e, finalmente, saber o latim. Ainda por vir, a escrita de um trabalho historiográfico, o doutorado. 


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