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No dia da mulher, o amor.

                       




No meu primeiro post aqui, eu, pra facilitar e tornar um pouco atraente a exposição do "quem sou eu e porque estou aqui", quis me apresentar aos leitores desta revista contando um "causo". Mas fiquei bastante frustrada porque elaborei todo o texto durante a semana e não dei por mim que em pleno dia 8, eu não tivesse cogitado falar absolutamente nada sobre o dia da mulher e que a única referência no meu primeiro post aqui a respeito dessa data, fosse o fato de ser eu mesma, uma mulher.
Afora isso e modéstia à parte, uma mulher corajosa. Pode parecer fácil visto de fora, pode até parecer, ao contrário, uma coisa de quem é covarde e tem muito medo, mas entregar-se através da escrita, sem medo (ou com medo mesmo) do julgamento do outro e, principalmente, da exposição, é ato de coragem que tenho praticado há alguns anos, com afinco.

A maior dificuldade da minha escolha-escrever foi deparar comigo em cada linha, cada verso, cada sílaba...
Encarar meus próprios dramas, a exposição, o julgamento alheio, meus pais, meus amigos. 
O papa, Jesus Cristo, o inferno que a minha tia Terezinha descrevia com detalhes.
E, assim como no dia em que voltei pra casa depois de me separar, em que decidi que aquilo só ia dar certo se eu vivesse minha vida do jeito que queria viver, sem deixar que os limites da casa dos meus pais me devolvessem pra infância, pra um lugar em que eu não queria voltar, no dia em que decidi escrever, apanhei toda a porção de coragem e joguei o medo da exposição pro ar, como as cinzas de uma pessoa querida que se quer esparramar pelo mundo.
E assim, e por isso, e porque é a coisa de mais valia entre todas as coisas que eu faço, é que tenho a ousadia de autointitular-me: escritora. 
Muito prazer, amigos.


Na literatura, como na maioria das atividades, o número de homens é muito maior que o de mulheres e isso tem a ver com essa imposição social que por séculos persiste e que quer ditar o que a mulher deve sentir, o que a mulher deve pensar, como a mulher tem que agir e que, aproveitando da feminilidade que nos é natural (ainda bem), nos submete a conceitos arcaicos e repudia mulheres pelos mais diversos motivos, inclusive na literatura.
Por exemplo, mulheres que escrevem sobre si mesmas, entregam-se em seus textos, ousam poesia erótica ou divulgam, como eu, o que pensam, o que sentem, ganham um lugar específico no catálogo especialmente preparado para desqualificá-las na arte de escrever, tirando seus méritos, renomeando seu talento.
Enquanto isso, homens escrevem o que bem entendem e são aclamados por sua entrega:

"bato uma punheta no calor
e escuto Brahms e como
blue cheese com chili."

(Charles Bukowski, O amor é um cão dos diabos. L&PM Editores, 2014, fl. 49) 

Não sou uma escritora renomada, eu sei, contudo, posso dizer que faço minha parte sendo uma das pioneiras na cidade a escrever poesia autoral na rede, e quase diariamente. Por isso meu depoimento tem peso: senti na carne a dádiva e a dívida de partilhar na internet poesia inédita. E como minha escrita parte de mim, batendo e voltando nas minhas paredes, senti na pele, e ainda sinto, em pleno secúlo XXI, a discriminação alheia, o julgamento do outro (da outra) ainda que muito, muito antes de mim, corajosas mulheres tenham batido na tecla deste revelar-se, propondo-a como uma revolução.
Por exemplo, Simone de Beauvoir, é claro. Ela que teve coragem de viver no "mundo dos homens", de falar de si abertamente como só falaria um homem, de viver um casamento intelectual por um motivo superior, como só se diria serem capazes, os homens?? Que muito falou sobre si mesma e as pessoas de seu círculo nos livros autobiográficos que escreveu, que contou detalhes sórdidos e corriqueiros, como quem desbrava uma montanha, enfrentando-se, encarando-se e, principalmente, entregando-se integralmente no objetivo de transformar sua geração e as posteriores?
Todo mundo sabe dessa Simone transformadora, existencialista, inventora de uma aliança nova com o homem que ela mais admirava e com quem trocava de tudo, inclusive amantes.
Mas nestes tempos de bandeiras erguidas e revanchismos, em que é mais fácil catalogar pessoas que se aprofundar no pensamento, ninguém quer saber de uma Simone feminina, que se apaixonou, que teve ciúme e fragilidades como toda criatura humana. Mas ela, como eu, como a maioria de nós, existiu.

o casal desconhecido: Simone e Nelson
"Não estou triste. Atônita, talvez, muito longe de mim mesma. Incapaz de acreditar verdadeiramente que, a partir de agora, você estará tão longe, tão longe, você que estava tão próximo. Antes de partir, quero lhe dizer apenas duas coisas, depois não falarei mais disso, prometo. A primeira é a esperança de revê-lo, um dia. Eu quero, eu preciso. Entretanto, lembre-se, por favor, de que eu jamais pedirei para revê-lo, não por orgulho, você sabe disso, mas porque nosso reencontro só terá sentido se você assim o desejar. Então, eu estarei esperando. Quando você desejar, diga. Não concluirei com isso que você voltou a me amar, nem mesmo que quer ir pra cama comigo; não estaremos absolutamente obrigados a ficarmos juntos por muito tempo - no exato momento em que, e contanto que, você assim o deseje, saiba que eu desejarei sempre que você me peça". (Simone de Beauvoir. Cartas a Nelson Algren: um amor transatlântico, 1947-1964, Editora Nova Fronteira, 2000, fl. 356)


Não poderia seguir outra linha, um grito meu a favor da mulher. De uma mulher que possa ocupar todos os espaços e que seja livre pra sentir de todo o coração. Pra se apaixonar sem medo de repressão, da mesma maneira que luta contra a violência doméstica e por equiparação salarial. Meu manifesto é pra dizer que nada que venha de nós, partindo de nós, do mais profundo querer, pode ser julgado, condenado ou tido como menor, como vazio, inclusive as manifestações de afeto incondicional, sentimento de amor e paixão, vontade, desejo ou sonho.
Os mecanismos de proteção legais vieram pra ficar e garantir nossa incolumidade perante a violência doméstica e contra essa vulnerabilidade fruto de um sórdido patriarcado e séculos de supremacia masculina na sociedade. Apoiemo-nos nisso e lutemos não só pelo direito à igualdade, mas também pelo direito à individualidade e percepção do nosso querer verdadeiro, sendo ele também sentimental, também emocional, também apaixonado (por que não?).


tive tantas vidas numa só, fui tantas que às vezes me esqueço... a ordem do tempo às vezes invertida: fui criança, muito criança, depois velha, depois mulher e então adolescente, para novamente ser mulher e agora ainda sinto como se fosse uma menina...
muitas coisas e histórias e amores e segredos, alguns porres, alguns erros, muita reflexão, uma mão de amigos, uma centena de beijos, alguns retratos vivos, de lugares e personagens que irão comigo daqui pra não sei onde....
foram tantas vidas e companhias e conclusões e poesias e lágrimas e medos e desejo de viver tudo, e desejo de morrer logo e andanças e projetos e desistos e insistos e paixões (mais do que a razão recomenda)...
foi muita vida pra pouca estrada, muitos começos pra caminhos às vezes curtos, às vezes ermos. muitos finais pra muito cedo, muitos poréns pra pouco enredo.... 
foi muito por dentro, muito por fora, foi muito intenso e continua....
nem sempre entendo, às vezes penso, às vezes só vivo e por isso choro, é muito desgaste, muito empenho, muita entrega (haja coragem!) e ainda enfrento os desastres: gente como eu só acaba aos bocados.
(no fim de tudo, só fica o amor)

Vi nesse último 8 de março, dia do meu primeiro post aqui,  um cartaz muito triste na rede social, dizendo: queremos direitos, não flores. Eu não sei vocês, mas eu quero direitos e também quero flores. Quero falar de política, mas também de amor. Quero usar a roupa que eu entender, mas também aquele vestido de florzinha que me deixa tão feminina e meu amor gosta que eu use.
Estamos num estágio de luta em que é possível, já, reequilibrar-nos. Admitir a gama de intensidades que nos acomete todos os dias, o sentimento de amor e de ódio e de raiva, de ciúme, de desejo ou ternura, sem sermos taxadas de nada, de mulherzinha ou de feminista, afinal, ser mulher é muito mais, é quase tudo, somos muito amplas, muito sábias e capazes de um fazer múltiplo e não aceitar limite ou rótulo pra nossa expressão, pro nosso estar no mundo, será nosso mais decisivo passo.
Outra coisa que quero frisar aqui hoje e conclamar a todos, mulheres e homens deste Brasil, é que, neste tempo de protestos, não se abra mão da elegância, da educação, enfim. Ainda que não se concorde com tudo (o que, particularmente, acho de bom tom, face a tudo o que tem sido revelado pela boa ou má imprensa e sabemos ser verdade - a revelação de um Brasil corrupto e vendido não é novidade pra ninguém), saibamos reconhecer que uma mulher é a autoridade máxima do país e jamais deixemos que nossa divergência política seja porta aberta para preconceitos resistentes, ofensas morais com base no gênero, repúdio à presidente usando de palavras jamais usadas pra repudiar seus antecessores. Que o protesto se paute em fatos e não se esvazie em xingamentos e não se perca em impropérios e não diminua  o mérito de uma mulher pela primeira vez na história ser governante do Brasil. Conclamo.
No mais, este é um apelo por todas as mulheres, por mim inclusive. Que possamos falar sobre o que quisermos, que nada nos rotule, estigmatize, diminua. Que principalmente as mulheres estejam juntas na defesa de si mesmas, que possamos olhar pra fora e atuar no mundo, bem como olhar pra dentro e transformar (ou contemplar) a vida, respeitando nossos momentos, nosso ritmo, às vezes nosso vagar.


"Continuo sempre me inaugurando, abrindo e fechando círculos de vida, jogando-os de lado, murchos, cheios de passado. Por que tão independentes, por que não se fundem num só bloco, servindo-me de lastro? É que eram demasiado integrais. Momentos tão intensos, vermelhos, condensados neles mesmos que não precisavam nem de passado nem de futuro para existir." (Clarice Lispector. Perto do Coração Selvagem: Rocco, 1998, fl. 101)

Enquanto mulheres, estamos neste processo de reconstrução. Enquanto mundo, também, e é isso o que jamais devemos subestimar, pulando etapas ou permitindo sejam renomeados, velhos estigmas. Não subestimemos o estar em processo...

parece estranho, mas me sinto mais forte, quando me assumo fraca 
não almejo mudar o mundo, apesar de querer que ele mude 
mas o que sinto, principalmente, é que tenho que encarar a realidade e o momento atual e falho (meu, do outro, do mundo) como algo natural e parte de um processo de progresso, ainda que impossível de identificar com esta alma míope e olhos semiabertos. 


E quanto ao amor, ah!, digam o que quiserem, mas seja em que contexto for e sob quais bandeiras forem, o amor sempre será o que nos move (homens e mulheres).


estado de amor

uma alegria
de existir e de ser
e transitar entre montes, esquinas
dizer coisas impossíveis
e dançar em plena avenida
sem música, sem companhia
estado de amor ilumina
os olhos e acaricia
o coração maltrapilho
transforma o mar em magia
e o pôr-do-sol em lembrança
de se guardar escondida
como amuleto da sorte
pra momentos difíceis
estado de amor
quando ocorre
faz a gente querer tudo
ser o tempo sempre curto
renova a esperança
quer hastear bandeira
gritar como maluco
: isso é que move o mundo!
estado de amor.


as pessoas correm pro amor 
as pessoas correm do amor 
as pessoas correm ... 
quando vai cessar esse medo?? 



ouça esta canção e perceba com o coração o que não está dito.






Larissa Germano é autora de "Cinzas e Cheiros" e escreve nos blogs Palavras Apenas (naoapenaspalavras.blogspot.com) e Nunca Te Vi Sempre Te Amei (cafehparis.blogspot.com), Tem perfil no facebook e no twitter e a página Lári Prosa e Trova no facebook. É também compositora intuitiva e tem perfil no Sound Cloud e Youtube.













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Um brinde a Heloneida Studart!



Hoje quero convidar a tod@s a fazer um brinde à Heloneida Studart! Para quem não sabe quem é essa mulher admirável, vamos conhecer um pouco de sua vida e obra.





Um brinde à Heloneida Studart Soares Orban, ou simplesmente Helô!






Heloneida Studart foi múltipla: mãe, política, feminista, radialista, dramaturga, escritora e jornalista. Teve uma vida profícua e lutou bravamente pelo direito das mulheres e pela realização de seus sonhos.
Heloneida se alfabetizou com 5 anos, com a ajuda
 de sua babá, fato que surpeendeu a todos.


Sua vida é inspiradora e exemplar. Helô nasceu em Fortaleza, Ceará, em 
9 de abril de 1925. Com 16 anos foi para o Rio de Janeiro, atrás de seus sonhos. Estreou como colunista no Jornal O Nordeste. Em 1952 casou-se com Franz Orban, com quem teve seis filhos homens. O casal adotou uma filha também. 

Heloneida e seu marido Franz

Em 1953 publicou seu primeiro romance A primeira pedra em São Paulo e em
1957 publicou Dize-me o teu nome, romance que foi premiado pela 
Academia Brasileira de Letras ainda recebeu o prêmio Orlando Dantas. Em 1960 começou a trabalhar no Correio da Manhã e a partir daí trabalhou muitos anos como jornalista. Mais tarde, trabalhou dez anos como redatora da Revista Manchete.  Filiada ao Partido Comunista Brasileira desde 1965, Heloneida começa a se envolver com as questões sociais e populares e em 1966 assume a presidência do Sindicato das Entidades Culturais Senambra. 



Heloneida foi presa durante a Ditadura Militar em 1969. Em 1970 volta a trabalhar para a Revista Manchete. Presa, teve inspiração para escrever dois roteiros: Quero meu filho  e Não roubarás. Mais tarde, esses roteiros foram gravados e exibidos pela TV Globo. Helô também escreveu, em 1975, junto com Rose Marie Muraro, a peça Homem não entra, que ficou cinco anos em cartaz e foi pioneira por defender bandeiras relativas ao avanço e promoção das mulheres. Essa peça foi encenada por Cidinha Campos e mereceu destaque em vários jornais internacionais. Foi a primeira peça que proibiu a entrada de homens.

Cidinha Campos, no monólogo Homem não entra

Em 1978 Helô vence a eleição e se elege como deputada estadual, no Rio de Janeiro pelo MDB, com 58 mil votos. Começa sua luta contra a ditadura militar. Em 1982 se candidata novamente, mas não se elege e volta a trabalhar como jornalista, como redatora do Programa Cidinha Livre, na Radio Tupi. Em 1986 volta a se eleger pelo PMDB. Em 1988 vai para o PSDB, mas não se adapta e entra para o PT em 1989, onde se manteve até o final. Durante a Assembléia Constituinte, fez parte do "lobby do batom" onde trabalhou duramente pelos direitos trabalhistas específicos das mulheres, entre os quais a licença-maternidade de 120 dias.  O lema do "lobby do batom" era "Constituinte pra valer, tem que ter palavra de mulher". 


Em 1990 e 1994 Helô se reelege como deputada estadual. Em 2001 assume como suplente. Em 2002 volta a se reeleger, com 30.000 votos.
Em 2004 se candidata e recebe 16.979 votos, mas não consegue se reeleger pois não atinge o mínimo. Heloneida foi deputada estadual por seis mandatos em sua carreira política. Como legisladora, se destacou por criar muitas leis que beneficiaram as mulheres trabalhadoras. Entre estas, ressaltam-se a Lei 2.649/1996, que garantiu o exame de DNA para mães de baixa renda. Também a Lei 4103/2003 que obriga as unidades públicas e conveniadas de saúde a realizar a cirurgia reconstrutiva de mama em mulheres que sofreram mutilação pelo câncer.

Heloneida dedicou sua vida na luta pelos direitos das mulheres

Em 2005 Heloneida retoma a literatura e publica dois livros na França. Infelizmente, dois anos depois, em 2007, Helô nos deixou, vítima de parada cardíaca.


A mulher que escrevia sobre mulheres


Heloneida escreveu sobre a condição da mulher e seu livro Mulher Objeto de Cama e Mesa (1974), merece destaque . Este livro se transformou em um ícone do  feminismo brasileiro. Com sua linguagem ácida, clara e direta, sua leitura nos  leva à reflexão sobre a condição da mulher. Foi graças à ele que tive os primeiros insights sobre as desigualdades que as mulheres sofrem. Eu o li pela primeira vez em 1989 e ainda o considero uma leitura atualíssima e  imprescindível para quem quer conhecer e estudar as questões femininas.  


Trecho do livro: Mulher Objeto de cama e mesa

Também escreveu Mulher, a quem pertence seu corpo? Publicou também Mulheres Brasileiras, obra que a fez ser indicada como uma das cem brasileiras mais importantes do século XX. Em 2005 a Fundação das Mulheres Suiças escolheu mil mulheres  para concorrerem ao Prêmio Nobel da Paz. Heloneida estava entre as 52 brasileiras indicadas. Foi uma mulher admirável e pioneira do movimento feminista no Brasil. Em 1975 inaugurou o Centro da Mulher Brasileira - CMB, considerada uma das primeiras entidades de defesa dos direitos das mulheres. Seu legado permanecerá em nossos corações e mentes,  e nos inspira a ir em busca de nossos direitos e  de nossos sonhos.








REFERÊNCIAS:

Blog Cidinha Campos. In: http://cidinhacampos.com.br/linha-do-tempo/
Acesso em 05/03/2015


CUNHA, C. Uma escritora feminista: fragmentos de uma vida. In: Revista de Estudos Feministas. vol.16 no.1 Florianópolis Jan./Apr. 2008


Biografia da Ex-deputada Heloneida Studart. .In: http://www.alerj.rj.gov.br/common/noticia_corpo.asp?num=23478
Acesso em 15/03/2015

RODRIGUES, M. Heloneida Studart, a feminista
In: http://heloneidastudart.blogspot.com.br/ 
Acesso em 05/03/2015

http://www.nominuto.com/noticias/brasil/luta-pelos-direitos-das-mulheres-na-constituinte-ficou-conhecida-como-lobby-do-batom/12927/

http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Heloneida+Studart&ltr=h&id_perso=901

* Imagens retiradas da Internet, para fins didáticos.



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O GLASS CEILING NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA


GLASS CEILING NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA
Hoje é sexta-feira 13, dia que considero extremamente auspicioso. Pois é hoje, neste dia tão especial, que inicio minhas atividades aqui na Coluna Planetário. Nessa primeiro coluna apresento minha pesquisa de Mestrado, em que analisei o acesso de homens e mulheres aos cargos de maior poder dentro da escola (direção e vice-direção). Boa Leitura!


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O que é o glass ceiling (teto de vidro)

É como se denomina o fenômeno que se manifesta em forma de barreiras invisíveis que impedem o acesso das mulheres aos maiores cargos. Normalmente é estudado em profissões dominadas por homens. Segundo Steil (1997), o conceito do glass ceiling surgiu nos Estados Unidos, na década de 1980, para descrever a barreira profissional que, de tão sutil, é transparente, mas suficientemente forte para impedir o avanço profissional das mulheres. Nomear essas barreiras como teto de vidro se dá exatamente pelo fato de elas serem quase invisíveis e possuírem certa transparência, como o vidro. Apesar de invisíveis, são barreiras muito fortes e presentes no cotidiano profissional de muitas mulheres, o que as impedem de seguir adiante e alcançar os níveis profissionais mais altos. Tal impedimento se dá exclusivamente em função da hierarquia de gênero.

O glass ceiling é uma barreira quase invisível, porém  resistente....

O campo da educação


É sabido que a Educação é um campo profissional dominado por mulheres, em termos numéricos. De fato, em pesquisa realizada na  Rede Municipal de Ensino - RME de Curitiba, constatou-se que aproximadamente 97% dos/as profissionais da Educação são do sexo feminino (dados de 2008). Apesar da superioridade numérica, quando mulheres e homens disputam os cargos mais altos dentro da escola (direção e vice-direção), os homens  levam vantagem. É uma vantagem sutil e disfarçada, mas que garante aos homens maiores possibilidades de serem eleitos para os cargos de mando. Isso se explica, em parte, pela crença de que tudo que é associado ao homem é melhor, mais competente, mais forte, que advém, basicamente,  do conceito de que o  mundo é masculino (Bourdieu, 2007).

O universo de professores na RME de Curitiba é um espaço rico de 
experiências femininas. Em tese, o poder é ou deveria ser exercido 
por elas, que estão em maioria. Em contrapartida, os homens 
deveriam estar em desvantagem no que se refere à disputa por funções 
de mando. Entretanto, isso não acontece. Na escola e em seu entorno 
social, o discurso recorrente é de que ter um diretor homem agrega mais 
respeito e mais segurança ao ambiente. Assim, respeito e 
segurança estão intrinsecamente ligados à figura masculina, de forma 
naturalizada. Já à figura da mulher, são associados outros elementos 
como fraqueza e delicadeza. Mesmo na Educação, onde as mulheres 
são a maioria absoluta, os homens são considerados naturalmente 
mais "aptos" aos cargos de liderança.


Mulher vota em mulher ou vota em homem?

A pesquisa comprovou que as mulheres, quando têm a possibilidade de escolher entre um homem e uma mulher para os mais altos cargos dentro da gestão escolar,  quase sempre escolhem os homens. E fazem isso de forma tão automática, tão mecânica, que não se dão conta de que ajudam a perenizar as desigualdades, reduzindo para si mesmas as possibilidades de acesso aos cargos de liderança. 



Os números não mentem jamais!

Nas eleições diretas para diretores/as das escolas municipais  de Curitiba, em 2008, O número total de concorrentes aos cargos de diretores e vice-diretores
foi de 535. Desses, somente 17 eram homens, ou seja, havia 518 mulheres concorrendo, o que dá um percentual de 96,8% de mulheres e 3,2% de homens. O número de homens concorrentes, em termos percentuais, se aproxima bastante do número de homens na RME de Curitiba (2,7%). O total de
homens candidatos foi de 17, sendo que 10 concorreram aos cargos de diretores e sete aos cargos de vice-diretores. O resultado da eleição confirma
a tese de que os homens conseguem chegar mais facilmente aos cargos superiores na gestão escolar. Dos dez candidatos a diretor, oito conseguiram vencer a disputa, o que dá um percentual de 80% de sucesso! Dos sete candidatos a vice-diretor, cinco conseguiram se eleger, o que contabiliza 71,4% de êxito.
Muitas mulheres podem eleger poucos homens!


A vantagem evidente dos homens nas eleições
escolares configura a existência do glass ceiling
na educação brasileira.

Aqui é interessante notar que, quando disputaram o cargo mais alto (diretor), os homens tiveram mais resultado do que quando disuputaram o cargo auxiliar (vice-diretor). Se levarmos em conta o número de candidatos, independente do cargo ao qual concorriam, considerando que 13 foram eleitos dentre 17, o percentual de aprovação masculina fica em 76,47%!


Cartaz de campanha contra o glass ceiling, techo de cristal
Todas as chapas que tinham homens conseguiram se eleger. É possível pensar, que ao agregar homens como candidatos, essas chapas agregaram também toda a imagem positiva que o masculino carrega. O movimento que levou esses homens ao poder, como se fosse seu lugar natural, desde sempre, são as profundas estruturas simbólicas que permeiam as relações sociais. Dentre essas estruturas, a visão androcêntrica do mundo permanece como uma força subjetiva que leva as pessoas, homens ou mulheres, a eternizar a força do masculino. A vantagem que os homens levam em relação às mulheres se apresenta como uma coisa natural, motivada pelo fato de que são homens. Para Bourdieu (2007), a força da ordem masculina se impõe naturalmente, sem necessidade de justificação.

Gestão escolar e gênero: o que pensam os/as profissionais da Educação de Curitiba?


A pesquisa disponibilizou aos/às profissionais da Educação um questionário online. As respostas referentes às chances que as mulheres têm de  alcançar as funções mostram que 60% dos homens acreditam que, quando há homens concorrendo contra as mulheres, as chances delas diminuem; das mulheres, 16,6% têm essa crença e somente 4,9% delas acreditam que suas chances aumentam. Por outro lado, um grande número de mulheres (78,5%) acredita que as suas chances não aumentam nem diminuem quando concorrem contra os homens. Dos homens, 40% acreditam que não haja diferença quanto ao sexo neste quesito e nenhum homem acha que as chances delas aumentam quando há homens concorrendo contra elas no acesso aos cargos de direção e vice-direção. 


Se levarmos em conta o alto percentual dos homens que acreditam que as mulheres estão em desvantagem quando concorrem contra os homens (60%) e em vantagem quando concorrem ao lado deles nas chapas mistas (52,4%), é evidente que os homens têm noção de seu valor simbólico e atribuem a si mesmos a capacidade de angariar votos para a conquista da direção ou vice-direção.
Esses números mostram que as mulheres e os homens reconhecem a existência da discriminação e das dificuldades potenciais para as mulheres. Esse reconhecimento é muito importante para a superação do quadro de discriminação.Quando foi perguntado sobre as chances das mulheres, no caso de concorrerem junto com os homens (em chapas mistas), observa-se que somente 14,3% dos homens acreditam que as chances das mulheres diminuem e 52,4% acreditam que as chances aumentam. Já entre as mulheres, apenas 2,7% afirmam que as chances diminuem, 18,8% avaliam que as chances aumentam. Entre os homens, 33% avaliam que não há alteração nas chances para chapas mistas. 



Esse entendimento de que a simples associação com o homem leva a mulher a uma posição de vantagem decorre, como já dito anteriormente, da crença já naturalizada de que ao homem cabem as funções mais nobres, de mais prestígio e poder. Sendo a função de direção uma possibilidade de acesso (em alguma medida e de um modo muito específico) ao poder, importa entender essa “divisão de poderes” baseada no sexo. Perrot (1988), ao falar sobre a divisão dos poderes entre homens e mulheres, esclarece que os homens teriam o poder do Estado, o poder político, o poder de decidir, enfim. Quanto às mulheres, elas teriam os poderes informais (domésticos, de bastidores, etc). Essas crenças, baseadas em conceitos há muito perpetuados, ainda hoje fazem eco na gestão escolar municipal de Curitiba.



Quanto ao preparo para as funções, o questionário demonstrou que 40% dos homens acreditam que estão mais preparados para assumirem as funções de direção e vice-direção do que as mulheres, enquanto que 5,3% das mulheres também acreditam nisso. Das mulheres, somente 12% acreditam que estão mais preparadas do que os homens para assumir cargos de comando na escola, com o que concordam 10% dos homens. Quanto à crença de que ambos estão igualmente preparados para esses cargos, metade dos homens e 83% das mulheres acreditam nisso. As respostas encontradas demonstram traços muito perceptíveis da desigualdade profissional a que as mulheres são submetidas por crenças há muito enraizadas. Os homens acreditam mais no seu potencial para liderar do que as mulheres em sua própria capacidade. 





A luta das mulheres parece ser mais pelo reconhecimento e pela igualdade, enquanto que para os homens parece ser natural se assumir em posição de chefia. Isso é resultado das desigualdades de gênero. Scott esclarece que “o gênero é um elemento constitutivo das relações sociais baseado nas diferenças percebidas entre o sexo”. Além disso, continua a autora, o gênero implica quatro elementos relacionados. Entre eles destacam-se os “símbolos culturalmente disponíveis que trazem evocações simbólicas”; em “conceitos normativos que expressam interpretações dos significados dos símbolos” (Scott, 1995, p. 86). Esses conceitos se originam nas doutrinas religiosas, científicas, jurídicas jurídicas e asseveram “de maneira categórica e inequívoca o significado do homem e da mulher, do masculino e do feminino” (Scott, 1995, p. 86). Tais conceitos, arraigados no subconsciente de cada um, seja homem ou mulher, atuam fortemente para manter as desigualdades entre os sexos.


Cartaz de campanha contra o glass ceiling, techo de cristal

Para concluir...

Os dados demonstraram, de maneira geral, a vantagem que os homens têm para ascender às posições de comando na gestão escolar.
A vantagem não é numérica, pois há muito mais mulheres diretoras do que homens diretores. É uma vantagem implícita, quase escondida, proporcional. Essa vantagem masculina, que se traduz em desvantagem para as mulheres,
essa quase invisibilidade do fator vantajoso é característica do fenômeno
do teto de vidro, que, de tão sutil, é quase “transparente”, daí o nome tão sugestivo. A superioridade masculina acontece de maneira muito natural, quase sem ser questionada, quase imperceptível. Na esteira de Bourdieu (2007), a dominação masculina é exercida naturalmente, sem necessidade de justificação. Ou seja, os homens, cujo conceito no imaginário coletivo é sempre associado ao melhor, ao mais competente, ao mais correto, chegam muito mais facilmente do que as mulheres aos cargos. E o grupo de homens e mulheres atua nesse sentido, fortalecendo essa crença, de maneira quase automática.




O estudo concluiu que o fenômeno do glass ceiling está presente em Curitiba e se manifesta de maneira inquestionável. Quando há um homem concorrendo contra uma mulher, o coletivo acredita que ela fica, automaticamente, em desvantagem. 




A recíproca também é verdadeira: quando concorre em parceria com os homens, acredita-se que a mulher leva mais vantagem nas eleições.

A discussão passou pelo gênero e, nessa perspectiva, acredita-se que as mulheres têm uma história e que ajudam a escrevê-la (Perrot, 2008), em meio a embates e relações de poder. Na gestão escolar municipal de Curitiba, as mulheres e homens que lá se relacionam exercem o poder, uns sobre 

os outros, em um movimento contínuo (Foucault, 2004). 




O poder se movimenta continuamente, de um polo a outro, podendo estar
em vários polos ao mesmo tempo.




Em termos numéricos, as mulheres são superiores aos homens. A mulher profissional da educação não é uma vítima oprimida dos homens, ela é ativa neste processo histórico e atua politicamente. Se há a manutenção da imagem da superioridade masculina e essa se reflete nas eleições, é porque as próprias mulheres ajudam a perenizar esses conceitos, auxiliando a criar e a manter para si mesmas, as barreiras quase invisíveis que as prejudicam na disputa de poder com os homens. A divisão sexual, fundamentada em uma visão androcêntrica de mundo (Bourdieu, 2007) leva à perpetuação da dominação masculina.


O glass ceiling, presente em praticamente todas as áreas profissionais, na educação revela seu lado mais cruel: persiste, apesar do número absolutamente superior das mulheres.

O fato de a Educação ser uma profissão “feminizada” não impede os homens de assumirem os cargos de mando, como se fosse o seu lugar natural. Para além de uma discussão teórica, quer-se, com a pesquisa realizada, promover uma reflexão sobre o tema e, a partir disso, possibilitar mudanças que concorram na busca de uma sociedade mais justa e igualitária entre homens e mulheres em todos os campos, inclusive no profissional.

É preciso avançar para derrubar conceitos e estereótipos que impedem a mulher de alcançar os cargos de mando.




*Texto adaptado/retirado da dissertação da autora, defendida junto ao Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Paraná em 2010 e orientada pelo Prof. Dr. Ângelo Ricardo de Souza. O texto completo pode ser acessado em http://www.ppge.ufpr.br/teses/M10_correa.pdf

Referências: 
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• Imagens retiradas da Internet, para fins puramente didáticos.





Vanisse Simone Alves Corrêa é doutoranda em Educação pela UFPR e co-editora da Revista Contemporartes. Ela acredita que mulheres e homens podem e devem trabalhar juntos para conquistar um mundo mais justo e livre de desigualdades.

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