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Dançando no escuro


Um dos raros momentos em que o protagonista de Moonlight (Chiron) parece à vontade consigo mesmo e com o mundo é na aula de dança, na escola. Diante de um espelho enorme – e, aparentemente, nem aí para as crianças que dividem a sala com ele –, o menino sacode o corpo como se o ar (e a vida) não oferecesse resistência.

Negro, pobre, gay, criado apenas pela mãe (que se droga e se prostitui) no subúrbio de Miami, o jovem – interpretado por Alex R. Hibbert na infância, Ashton Sanders na adolescência e Trevante Rhodes na fase adulta – tem uma extensa lista de motivos para se sentir marginalizado e se esconder numa casa escura e abandonada ao fugir dos colegas que o perseguem, no começo do filme.

É particularmente bonita (pois metafórica) a cena em que ele é resgatado de lá por aquele que virá a ser o pai que nunca teve: Juan surge arrancando o tapume de uma das janelas, permitindo assim que o sol finalmente incida sobre Chiron. É como se o personagem vivido por Mahershala Ali desse à luz o pequeno – “batizado” mais tarde no mar pelo mesmo Juan em outra cena lindíssima, igualmente inundada de significado.

Uma e outra sequências são marcadas ainda pelo silêncio do garoto, traço tão ensurdecedor de sua personalidade, que atravessa todo o longa. Sua dificuldade em verbalizar os sentimentos vai do instante em que é acolhido por Juan e resiste a falar (até o próprio nome), passa pelo episódio em que apanha de um amigo e atinge o ápice no último ato, quando hesita ao máximo em revelar a certo personagem o quanto este foi (e ainda é) importante para ele.

Tais silêncios ecoam a delicadeza do roteiro e da direção de Barry Jenkins, que jamais se rende aos acordes tentadores do melodrama. Não por acaso o cineasta usa uma simples frase para informar ao espectador que fim levou Juan, dispensando dessa maneira uma cena que, nas mãos de um diretor menos sutil, elevaria os decibéis de glicose a níveis estridentes. Da mesma forma, em outra passagem capital da trajetória de Chiron, o mar e a mão que roçam a areia são suficientes para que a plateia escute o alvoroço de sensações experimentado pelo protagonista.

Numa época em que parece ganhar atenção apenas quem fala mais alto (pouco importando o que é falado), traz certo alívio ver um filme como esse – que sussurra o grito de tantos excluídos – vencer um prêmio tão barulhento quanto o Oscar, ainda mais quando o superultramegafavorito da noite é um musical, talvez o gênero que mais berre sua natureza de faz de conta.

Nada contra La La Land, de que também gosto e cujas canções assobio há semanas, mas dar voz à trilha sonora de uma vida que, em outros carnavais, não ganharia os alto-falantes de Hollywood ajuda os ouvidos a reeducarem a própria audição – e a expandirem o repertório de melodias disponíveis na jukebox que toca no peito.







Fábio Flora é autor de Segundas estórias: uma leitura sobre Joãozito Guimarães Rosa (Quartet, 2008), escreve no Pasmatório, tem perfil no Twitter e no Facebook.
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Herói


Eu não tenho nada a esconder, diz Lindsay (Shailene Woodley) a certa altura de Snowden, o mais recente filme de Oliver Stone.

Usado por muita gente para defender a vigilância em massa praticada por potências como os Estados Unidos, o argumento esfarela quando Snowden (Edward Snow..., digo, Joseph Gordon-Levitt) conta para a namorada que sabe que ela bisbilhota os perfis de outros caras nas redes sociais. De repente, uma ruga de indignação risca o rostinho bonito da moça, desenhando nele a palavra privacidade. 

Podemos não ter nada a esconder – mas temos hábitos, manias, segredos que jamais revelaríamos se nos fosse dada a chance de guardá-los apenas conosco. 

Foi justamente o direito de escolher o que tornar público sobre a própria vida que acabou deletado quando a Agência Nacional de Segurança (NSA) norte-americana – em nome da... segurança – passou a monitorar o mundo inteiro. O mundo inteiro mesmo: incluindo você, seu vizinho paneleiro, sua ex-presidenta e até aquela famosa empresa brasileira do ramo do petróleo. Ingenuidade sua achar que o alvo era só o barbudinho com nome árabe que vende quibe perto da sua casa.

Ninguém escapa desse Big Brother de que todos nós participamos, à nossa revelia, e em que não recebemos cachê, muito menos corremos o risco de ficar milionários.

Mas e o combate ao terrorismo? Mera desculpa para o controle econômico e social, sublinha o ex-funcionário da NSA e da CIA (a Agência Central de Inteligência) em sequência-chave do longa-metragem – longa que acompanha sua trajetória desde a saída das Forças Armadas por problemas de saúde (e posterior admissão naqueles órgãos) até o momento em que ele resolve compartilhar o que sabia com o jornalista Glenn Greenwald (Zachary Quinto) e a cineasta Laura Poitras (Melissa Leo).

Não custa lembrar que essa vocação do Tio Sam para meter o bedelho – e escutas – na soberania alheia é antiga. Isso fica evidente, por exemplo, no documentário O dia que durou 21 anos, de Camilo Tavares, que daria uma ótima sessão dupla com o filme de Stone e é altamente recomendável para os brasileiros, especialmente os patrioteiros, que carregam no peito e no gogó muito orgulho, muito amor.

De volta ao thriller stoneano, é importante observar como o diretor desmonta a imagem de judas que Snowden tem para muitos conterrâneos (e para quem subtitulou a fita, aqui no Brasil, com aquele cafona “herói ou traidor”). O rapaz é retratado como um sujeito que sempre quis servir seu país: ele sofre por ter de abandonar o Exército em razão das lesões causadas pelos exercícios militares; ele afirma que os Estados Unidos são a maior nação do mundo, num teste a que é submetido para entrar na CIA; ele se incomoda quando Lindsay critica Bush, o commander-in-chief na época em que a conhece.

Snowden delata a espionagem não porque seja contra a América ou seus valores, mas porque deseja preservar alguns dos pilares que a sustentam: de um lado, o óbvio direito à privacidade; do outro, o de qualquer cidadão questionar as atitudes do governo. Ao defender essas premissas, ele entende estar, mais uma vez, a serviço de seu país. Essa coerência – que permeia o arco dramático do personagem – só fortalece a simpatia e a admiração que o espectador desenvolve por ele.

Nem precisava o roteiro recorrer ao clichê da cena-em-que-a-plateia-levanta-e-aplaude-de-pé-o-herói para salientar a relevância de seu protagonista.

Só o fato de Snowden ter deixado para trás família, namorada, amigos, carreira promissora, bom salário, a liberdade de andar por onde quisesse (inclusive sua terra natal), somado ao tamanho do inimigo que ele enfrentava – o que se materializa na sequência em que Corbin O’Brian (Rhys Ifans) surge imenso e ameaçador na tela, à la Chanceler Sutler em V de vingança –, já seria motivo suficiente para não duvidarmos da força daquele moço, franzino apenas por fora.

Espiando a aventura vivida por ele e pensando na realidade brasileira – sufocada por um “governo” que exige os nomes de alunos que ocupam escolas em protesto contra medidas autoritárias, ou que perde tempo tentando bloquear os emojis de vômito em notícias relacionadas ao seu “presidente” no Facebook, numa demonstração clara de que não consegue conviver com a democracia –, me pergunto como cada um de nós gostaria de enxergar a si mesmo daqui a alguns anos...

... como alguém feito Snowden – que se rebelou contra um sistema opressor e já tem seu lugar entre os heróis de nosso tempo – ou alguém feito o engenheiro interpretado por Nicolas Cage (Hank Forrester), que se resignou diante de uma injustiça e acabou exilado dentro do próprio país, numa sala cheia de bugigangas sem serventia (ele entre elas), esquecido numa espécie de almoxarifado da História?

Responder a essa pergunta não deveria ser tão difícil quanto solucionar o cubo mágico que o jovem programador carrega como amuleto.







Fábio Flora é autor de Segundas estórias: uma leitura sobre Joãozito Guimarães Rosa (Quartet, 2008), escreve no Pasmatório, tem perfil no Twitter e no Facebook.
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A diferença é a gaiola


Era uma vez um ratinho muito fofo que vivia sozinho numa gaiola enoooorme e praticamente vazia. Suas únicas companheiras eram duas garrafas de plástico sem graça. A primeira só tinha água; a segunda, água e heroína. Um belo dia, o ratinho bebeu a mistura. E bebeu de novo. E bebeu mais. E se viciou. Noutro dia (não tão belo), o ratinho morreu.

Era uma outra vez um ratinho igualmente fofo que vivia numa gaiola igualmente enoooorme, só que cercado de queijo, de bolas, túneis e escorregadores coloridos, de outros ratinhos (e ratinhas). Praticamente a Disneylândia. Ah, aquelas duas garrafas de plástico sem graça também estavam lá. Uma com água, a outra com água e heroína. Um belo dia, os ratinhos beberam a mistura. Mas não beberam de novo. Não beberam mais. Não se viciaram. E viveram felizes todos os belos dias de suas vidas. 

Não, não são histórias da carochinha, queridos leitores. São apenas um resumo de dois experimentos realizados em laboratório já há algumas décadas. Mais detalhes sobre ambos podem ser encontrados no livro do jornalista britânico Johann Hari Chasing the scream: the first and last days of the war on drugs.

Outra história também interessante sobre vício vem da Guerra do Vietnã, durante a qual um em cada cinco soldados americanos consumia heroína. A revelação, feita pela imprensa na época, gerou o temor nos Estados Unidos de que, terminado o conflito, o país tivesse de conviver com milhares de drogados. Não foi o que aconteceu: nove em cada dez soldados “viciados” largaram a heroína assim que voltaram para casa.

Convenhamos: se você fosse enviado a uma selva distante, coagido a lutar por uma causa que não a sua, obrigado a matar; se você corresse o risco de perder a vida a qualquer momento, visse de perto a morte de companheiros, lidasse com corpos mutilados diariamente – injetar uns mililitros de heroína na veia para fugir desse cenário não seria uma ideia tão mirabolante assim. Uma ideia que dificilmente passaria por sua cabeça se você estivesse em seu lar doce lar, ao lado de sua família e de seus amigos – se você estivesse, em outras palavras, na sua Disneylândia.

Ainda em outras palavras: quando botamos o ser humano na primeira gaiola – estimulando seu isolamento em relação ao que está ao redor –, aumentamos muito as chances de ele buscar uma fuga ou pelo menos um alívio. Uns procuram essa anestesia contra a realidade nas redes sociais, outros na pornografia, no álcool ou no jogo. E há ainda aqueles que a procuram nas drogas ilícitas.

Posso estar enganado, mas, se o que aproxima as pessoas dos entorpecentes e as torna dependentes é menos a composição química deles e mais a relação delas com o mundo (o fato de se conectarem ou não com ele e com os seres que o habitam), não ajuda nem um pouco no combate às drogas a mais recente tentativa da União e de alguns estados, como o Rio de Janeiro, de desmantelar nosso ainda fragilíssimo Estado de bem-estar social – nossa ainda megaprecária Disneylândia.

Ou alguém acha que o que ajuda a construir aquela segunda gaiola é investir menos em saúde e educação e tornar ainda mais difícil a vida de quem precisa de escolas e hospitais públicos? é impor um ajuste fiscal que protege os ricos e castiga os pobres? é aumentar a jornada de trabalho e diminuir ainda mais o convívio entre pais e filhos? é fechar restaurantes populares e colocar em risco a única refeição diária de moradores de rua e desempregados? é suspender o aluguel social e despejar de suas moradias temporárias as vítimas de desastres naturais (como o da Região Serrana e o do Morro do Bumba, em Niterói)? é acabar com programas de complemento de renda e devolver à miséria milhares de pessoas? é confiscar trinta por cento do salário de servidores públicos (inclusive aposentados) e prejudicar ainda mais quem já não tem recebido seu pagamento em dia?

Nem vou citar o caso dos que estão do lado de lá da gaiola (os presidiários), aos quais já é imposta uma rotina de maus-tratos e sem perspectiva de reintegração à sociedade.

Moral da história: talvez tudo isso explique, em parte, a recente ascensão política de tantos pastores; enquanto deixamos nossos ratinhos cada vez mais abandonados à própria sorte, crivellas e malafaias fazem culto na cadeia e levam conforto espiritual às comunidades ignoradas pelo Estado – distribuem lá, entre os mais vulneráveis, suas garrafas plásticas cheias de uma água aparentemente pura. 

Uma água certamente batizada.







Fábio Flora é autor de Segundas estórias: uma leitura sobre Joãozito Guimarães Rosa (Quartet, 2008), escreve no Pasmatório, tem perfil no Twitter e no Facebook.


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Aos estudantes, com carinho


Jovens vão a uma igreja para ter suas canetas abençoadas antes do Enem (o Exame Nacional do Ensino Médio). O fato é registrado numa entrada ao vivo no jornal da hora do almoço, na emissora campeã de ibope no país. Uma ajudinha do céu nunca é de mais, diz o apresentador. Bênção é sempre importante, completa a repórter, que termina a matéria informando o horário das próximas missas do dia.

A mesma imprensa que critica um prefeito ou um deputado por misturar política e religião mistura, sem o menor pudor, jornalismo e religião. Cinismo deveria ser pecado.

Mais tarde, no jornal da noite, líder de audiência há séculos, é exibida uma reportagem com adolescentes acampados na fila do show de Justin Bieber, que só vai acontecer (pasmem) em março do ano que vem – daqui a CINCO MESES. A repórter surge dentro da barraca dos fãs e anuncia, toda pimpona, a razão de estarem ali, no meio da rua, em plena madrugada. Explica que meninas e meninos se revezam, cumprem uma escala. Eles têm que estudar, ela adverte, certamente receosa da possibilidade de a notícia dar a impressão de que são irresponsáveis ou desocupados. Diz ainda que, para fazer a hora passar mais rápido, a turma apela para jogos (a câmera foca uma adedanha), troca ideias sobre o novo crush (a paixonite do momento) e canta músicas do ídolo.

A mesma imprensa que não tem tempo para ouvir os jovens acampados nas escolas tem tempo para ouvir os jovens acampados na fila do show. Hashtag prioridades. 

Agora imagine que louco seria se o mesmo jornal da hora do almoço – que tantas vezes nos fez sentir os piores da classe, diante daqueles japinhas fofos passando pano no chão e servindo merenda nas “exemplares” escolas nipônicas – entrasse ao vivo num desses colégios ocupados por “baderneiros” e flagrasse alunos varrendo o pátio, lavando os banheiros, fazendo pequenos consertos, cozinhando a própria refeição.

Que doido seria se o mesmo jornal da noite – que tantas vezes entrevistou aquele especialista em educação que é diretor-executivo de um banco (oi?) – entrevistasse os voluntários que oferecem atividades extracurriculares (de plantio de horta a oficinas de grafite e teatro) nas unidades ocupadas, entre os quais professores que doam sua garganta não só para debater temas como ditadura, racismo, feminismo e identidade de gênero, mas também para promover aulões para vestibulandos. 

Que insano seria se o principal âncora do mesmo jornal da noite – que certa vez leu em tom dramalhático uma transcrição de áudio da ex-primeira-dama mandando que os vizinhos “enfiassem as panelas no...” – lesse com voz solene a nota na qual os alunos do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, se comprometiam a não interferir no Enem por prezarem o “direito de todos e todas as estudantes de realizarem o exame”.

Segunda época já! para quem não aprova os secundaristas que cabulam a inércia do resto da população e metem a caneta vermelha em retrocessos – como a reforma do ensino médio via medida provisória e a PEC 241 (agora 55, no Senado), que congela investimentos sociais por vinte anos. Segunda época já! para quem não aprova a aluna paranaense que tem dado aula de consciência política a parlamentares Brasil afora. Segunda época já! para quem não aprova o aluno-problema que, de repente, tira dez em solidariedade ao ser o primeiro a se oferecer para limpar os banheiros do colégio. Segunda época já! para quem não aprova os pais que, em razão das ocupações, se (re)aproximaram da escola e ajudaram a ressignificar a expressão “comunidade escolar”.

Não posso deixar o sinal bater sem lembrar a sequência final do já clássico Sociedade dos poetas mortos, na qual o mestre John Keating (Robin Williams) é homenageado por seus alunos. Só que aqui somos nós – professores, pais, cidadãos lúcidos de todo o país – que subimos nas carteiras em respeito e reverência a vocês, estudantes.

Oh captains, my captains.







Fábio Flora é autor de Segundas estórias: uma leitura sobre Joãozito Guimarães Rosa (Quartet, 2008), escreve no Pasmatório, tem perfil no Twitter e no Facebook.
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Monstros S. A.


Já encheu de teias de aranha aquele fla-flu que ressurge feito Jason todo Halloween e – em vez de doces ou travessuras – exige que a gente escolha o Saci ou o Drácula, a Iara ou a Malévola, o Boitatá ou o Freddy. Ô bate-boca mais trouxa. Prefiro mil vezes a turma do arrepio inteirinha no caldeirão da Cuca dançando “Thriller”. (Leva uma mordida de zumbi quem errar a coreografia.) 

A antropofagia me encanta: mas essa que devora a exclusão e fortalece a inclusão, não aquela que devora cérebros e dementa o senso crítico. Não aquela que devora as bruxas gringas e expele as cópias mais paraguaias de Bellatrix Lestrange ou Elvira a Rainha das Trevas – como certa jurista que vê, na instalação de uma base militar russa na Venezuela, uma iminente invasão comunista no Brasil.

Nunca antes na história fez tanto sentido a máxima que diz mais ou menos assim: quanto mais o país reza (e paga dízimo), mais assombração aparece.

De repente, uma horda de múmias invadiu ruas e redes. É incrível como tais criaturas se deixam enrolar dos pés à cabeça por (1) manchetes sensacionalistas (sempre à procura de um sarcófago quentinho, as preguiçosas não leem as respectivas matérias, que em geral mostram uma realidade bem mais complexa do que os títulos fazem parecer), (2) notícias falsas (por causa da retirada de massa cinzenta durante a mumificação, as ingênuas jamais suspeitam delas, nem quando a fonte é anônima e nenhum jornal de grande circulação ou megaportal da internet as publicou) e (3) memes toscos (pela mesma razão do item 2, as bobas acreditam que uma frase entre aspas, sobreposta à fotografia de uma pessoa, é prova cabal de que a primeira saiu da boca da segunda).

Piores ainda são os frankensteins: múmias que ficam muito tempo longe de seus túmulos e passam a ser compostas não só de gaze, mas também de remendos de manchetes sensacionalistas, pedaços de notícias falsas, fragmentos de memes toscos e demais restos de desinformação. Maçarocas ambulantes, os franks têm como principal característica a incoerência. São capazes de levantar a faixa “Somos milhões de cunhas” e ao mesmo tempo gritar “Fora, corruptos”; são capazes de ocupar avenidas para reivindicar mais saúde e educação e, meses depois, apoiar uma lei que congela investimentos nessas áreas por vinte anos; são capazes até de compartilhar oração de São Francisco e – com diferença de segundos – dar like na página do Bolsonaro.

Outra figura assustadora que tem se reproduzido feito gremlin após a meia-noite são os lobisomens. Seres acima de qualquer suspeita e dóceis quando em sua forma humana (sua vó pode ser um deles), transformam-se em animais ferozes quando veem suas convicções – normalmente baseadas no senso comum – questionadas. Basta alguém evocar os direitos humanos de um presidiário vítima de tortura, ou de um assaltante prestes a ser linchado, para a besta uivar “Bandido bom é bandido morto”, “Tá com pena? Leva pra casa!”. Basta alguém defender o debate sobre gênero nas escolas para o bicharoco rugir “Você é viado”, “Quer ensinar as crianças a serem gays”. Basta alguém lembrar a importância de um programa de transferência de renda no combate à pobreza para o lobão grunhir “Não vou pagar imposto pra sustentar vagabundo”.

Um trem-fantasma como esse, claro, não funcionaria sem um bom maquinista. E é aí que surge o vampiro. Intelectualmente superior, ele tira proveito de sua imortalidade para se eternizar no poder. Entra século, sai século, o dentuço continua se alimentando do sangue de suas vítimas, aparentemente enfeitiçadas pelos caninos sorridentes que renascem a cada quatro anos. Convém desfazer dois mitos sobre esse ente do mal: não tem medo de crucifixos – às vezes até os usa para se aproximar de alguns pescoços – nem de luz – prova disso é que muitos exemplares da espécie construíram seus castelos no ensolarado Planalto Central, e lá permanecem desde a inauguração de Brasília.

Eu cá com meus cachimbos e abóboras: quando essa hora do pesadelo vai passar? quando essa aparentemente eterna sexta-feira 13 vai virar sábado? quando essa festa onde só os fantasmas do retrocesso se divertem vai acabar? quando vamos enfim deixar de bancar os curupiras às avessas, que têm os pés virados para frente mas teimam em andar para trás?

“No dia em que as mulas sem cabeça não procriarem mais” – subitamente me sussurra uma voz do aquém do além, adonde que veve os mortos.







Fábio Flora é autor de Segundas estórias: uma leitura sobre Joãozito Guimarães Rosa (Quartet, 2008), escreve no Pasmatório, tem perfil no Twitter e no Facebook.
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Eta, mundo bom


Quem conta a história é o professor Clóvis de Barros Filho. Tinha levado a família inteira para almoçar fora. Comemorava a aprovação num concurso. Terminada a refeição, ele comentou com o garçom que achara a conta alta. Ouviu em troca: é mais do que eu tiro no mês. Provocado pela revelação, lançou então uma pergunta ao jovem: te parece justo que alguém gaste no almoço mais do que você tira no mês?

O funcionário respondeu que sim. Afinal, quem tinha estudado muito e se preparado tanto merecia ganhar mais do que alguém como ele, que não tinha podido frequentar uma escola. Clóvis não se satisfez: e te parece justo que uns possam frequentar uma escola e outros não? O rapaz devolveu: sim, eu vim do Nordeste para trabalhar, tinha que ajudar meus pais. O mestre insistiu: e te parece justo que alguns tenham que se deslocar de onde nasceram para conseguir trabalho?

Sim. E sim. E mais um sim. E assim foram trezentos te-parece-justos e trezentos sins. Até o sujeito levantar as mãos para o céu e agradecer a Deus o fato de o patrão dividir com ele e os outros empregados a carne que sobrava (quando sobrava) para que pudessem fazer um churrasquinho ao final do expediente.

Impressiona a resignação.

Como impressiona o sumiço das multidões que, há apenas alguns meses, saíam às ruas com a camisa amarela exigindo mais saúde e educação. Como impressiona o silêncio dos vizinhos que, há apenas alguns meses, iam às janelas bater panelas exigindo o fim da corrupção. Como impressiona – talvez o que mais impressiona – a aparente indiferença (aprovação?) das pessoas em relação ao presente e ao futuro do país.

A aparente cadeia de sins em que a maioria se acorrenta – como aquele garçom – sem oferecer resistência.

Há quem diga que eu ando pessimista demais. Que o momento é de esperança, já que a sociedade, ao afastar “aquele partido” de centenas de prefeituras e não reeleger vereador o filho do “comandante máximo da organização criminosa”, deu mostras de que não tolera mais corrupção e mau uso do dinheiro público.

Será? Não vejo essa intolerância toda (nem consigo ser otimista) quando constato que os dois partidos recordistas de barrados pela Lei da Ficha Limpa saíram ainda mais fortes das urnas. O PMDB – sócio com cadeira cativa na roubalheira nacional desde que meu tataravô batia ponto na porta da Colombo – continua a ser a legenda com mais prefeitos; já o PSDB – que pretende revolucionar a educação brasileira fechando escolas e superfaturando merenda – foi a que mais cresceu.

Há quem diga também que, agora que o impeachment passou e o período eleitoral está terminando, o presidente temerário poderá fazer as reformas de que o país tanto precisa, a começar pela lei que fixa um teto para os gastos públicos. Pasmem: tem gente toda alegrinha porque testemunhou deputados trabalhando em plena segunda-feira, até altas horas, a fim de aprovar a tal PEC 241. Estaria aí a prova de que, pelo bem do Brasil, Congresso e Planalto voltaram a se entender.

Posso lhes contar uma coisa, fofildos? Voltaram a se entender (leia-se: negociar cargos e vantagens) para congelar investimentos em saúde e educação por vinte anos, causando um baita prejuízo aos que mais carecem dos serviços públicos. Querem repassar a conta da crise apenas para a parcela mais vulnerável da população. Enquanto isso, nossos trumps e suas megafortunas – que proporcionalmente sempre foram menos taxados por estas bandas – se safam mais uma vez, protegidos pelos legisladores que eles mesmos ajudaram a eleger com suas doações de campanha.

Como nada é tão ruim que não possa piorar, amiguitos chegam a corroborar o neopentecostalismo de coalização que paira sobre nossa titubeante democracia ao rogarem a Deus que o pai do Michelzinho conclua, até o fim de seu mandato, a reforma da Previdência e a trabalhista. Dizem que só com a modernização de nossas leis – antigas e tão fascistas quanto um Mussolini, segundo eles – os empresários retomarão a confiança, a economia voltará a crescer e os pais de família recuperarão seus empregos.

Cá entre nós, estou tentando entender não só de onde vem tanta compaixão pelos senhores de engenho, essas vítimas da ditadura do proletariado, como também de que maneira cortar direitos – no lugar de investir em infraestrutura, qualificar a mão de obra e estimular o consumo – vai transformar recessão em retomada.

No caso das reformas, de novo são os mais pobres e a classe média – só eles, amores – os escolhidos para o abate. O que se planeja é um cenário que rivaliza com a mais cruel distopia: homens e mulheres trabalhando até a última idade, CLT “flexibilizada” (com a terceirização das atividades-fim e a prevalência do negociado sobre o legislado) e saúde ainda mais deficiente. Tudo isso justamente quando os estudos demográficos apontam para o envelhecimento dos brasileiros, contexto em que a demanda por médicos, remédios e hospitais só tende a aumentar. É a antecipação do Apocalipse (para usar um termo bíblico, tão caro a uma parcela cada vez maior do eleitorado).

Sério: o olhar encantado diante do engajamento decorativo da primeira-dama ou a expressão apática frente aos jornais pendurados nas bancas alimenta minhas melhores teorias da conspiração; entre elas, a de que uma novela das seis cujo protagonista (Candinho) tinha como lema “Tudo que acontece de ruim na vida da gente é pra meiorá” – e cuja exibição se deu nos meses imediatamente anteriores a essas PECs e picas no povo – não pode ter sido mera coincidência.

É nessas horas que me lembro do romance A casa das sete torres, de Nathaniel Hawthorne. Lá pelas tantas, um personagem afirma que “o mundo deve todo o seu progresso a homens infelizes, enquanto os felizes se confinam em moldes antigos”. A frase completa à perfeição o sentido de um meme que tem circulado nas redes sociais, segundo o qual PEC é a sigla para “Pobres, Enganados e Contentes”.

Não é difícil fazer o link entre esses textos e o conformismo daquele garçom – convencido de que só ele é responsável pela própria condição e de que o perfume da carne assando é sinal de que tudo cheira bem ao seu redor.







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A era de


Parafraseando a canção de Taiguara que abre e fecha o filme de Kleber Mendonça Filho, Aquarius traz no corpo as marcas de seu tempo.

Hoje a mulher diz não.

Clara (Sonia Braga em modo musa) se recusa a vender para a construtora Bonfim o último apartamento do edifício Aquarius – onde mora há décadas, onde seus filhos cresceram e onde discos e livros e lembranças contrastam com a assepsia das cidades erguidas cada vez menos por pessoas, cada vez mais por criaturas que se formam em business schools e trocam sonhos por metas, a exemplo do jovem Diego (Humberto Carrão, excelente como o tubarão em pele de golfinho).

Certeza de que doeu ali, entre as pernas dele e do avô, escutar a dona do imóvel repetir “Eu não vou vender, seu Geraldo. O senhor já sabe disso”. Duas frases que ela profere sem elevar a voz; com a suavidade quase blasé de quem está “puta mas não estressada”, como revela mais tarde, numa conversa dura com as crias, especialmente com Ana Paula (Maeve Jinkings, amarga sem ser azeda).

Se dependesse da filha, Clara já tinha aceitado a oferta “generosa” da Bonfim e se mudado para um desses condomínios de segurança máxima e alma mínima, os estrangula-céus de nossas metrópoles. Mas quem perdeu o marido e até uma parte do corpo (o seio direito) não aceita novas perdas tão facilmente; ela aprendeu a valorizar cada conquista. Não por acaso conserva os cabelos longos – símbolo óbvio, mas não menos poderoso, de sua vitória sobre o câncer.

Símbolos, aliás, não faltam no álbum de metáforas montado pelo diretor e roteirista pernambucano. Um dos mais emblemáticos – porque rima à perfeição com o apê de Clara, que também guarda mais que objetos pessoais e, por isso, transcende o tal “valor de mercado” – é a cômoda que guarda mais que as camisolas de tia Lúcia (Thaia Perez). Aqui é particularmente interessante o efeito que causa no público a descoberta do que representa aquele simples móvel para uma senhora de setenta anos.

Kleber gosta de provocar. E faz isso em diversos momentos, como na sequência angustiante em que mulheres e homens surgem na praia gargalhando, numa espécie de ginástica do riso, e de repente o treinador que os orienta – contrariando a expectativa gerada pelo preconceito da plateia – convida a participar do exercício os “estranhos” que se aproximam.

Passagens como essa ajudam a retratar o país que a lente crítica do diretor vê. E se espalham nas mais de duas horas de projeção. É a parede do bistrô que ostenta fotos em preto e branco de homens brancos-ricos-velhos, numa alusão aos donos do poder local – e, por que não, nacional, se lembrarmos o ministério machocrata do atual “governo”. É o rapaz de “boa aparência” que vende drogas na orla. É a louça na pia em dia sem Ladjane (Zoraide Coleto, brilhante nas menores falas), numa referência aos direitos recentemente conquistados pelas domésticas. É a manchete do jornal (“Eu gosto de mp3”) que resume a manipulação midiática.

Nenhuma delas se compara, no entanto, à que denuncia uma colônia de insetos infestando certo lugar e comprometendo sua estrutura. A cena põe para formigar a mente do espectador sessão afora. É inevitável relacionar o ninho à oligarquia de parasitas que, ao envenenar o frágil alicerce da democracia brasileira, mostrou ser possível expulsar uma personagem incômoda – de um apartamento ou de um palácio presidencial – sem usar a força bruta. Afinal, como observou Zuenir Ventura em artigo sobre o filme, “há meios mais eficientes que os tratores ou os tanques”.

Por apresentar um forte teor político, explicitar sua visão ideológica e se entregar a um desfecho catártico, há quem acuse Aquarius de dispensar a sutileza e se render a maniqueísmos. É evidente que Kleber recorre a um cinema mais tradicional, no qual heroína e vilão são rapidamente identificados. Mas ele não cria, a partir desses elementos, uma realidade menos verossímil. Longe disso. Na verdade, ultimamente tem sido até fácil encontrar claras dando aulas em nossas universidades e diegos dando entrevistas em programas de economia da Globonews.

O que o cineasta faz é apenas fotografar a velha flor que fura o asfalto – que resiste à fossa e à fome causadas pelo tumor da ganância. Esse que ainda vai acabar nos levando ao fim do mundo.







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Guerra contra a estrela


Muitas coisas chamaram a atenção na coletiva de imprensa de Darth Dallagnol e seus stormtroopers. Uma delas foi a apresentação no PowerPoint, que lembrou aquelas palestras motivacionais inspiradas nas lições dadas a Luke Skywalker pelo mestre Yoda. Difícil acreditar que alguém aumente os níveis de midichlorians ou maneje um sabre de luz com mais tesão ao ouvir “Comandante máximo de sua vida, você é”, “De suas convicções, seu sucesso depende” e por aí vai.

Também causou perplexidade, pelo menos aos simpatizantes da Resistência, a acusação de que o ex-presidente Lula seria o Supremo Líder Snoke, chefe maior da organização criminosa conhecida como Primeira Ordem. A “prova” oferecida pelo Ministério Público Galático para ratificar a denúncia foi a reforma (em tese, feita com dinheiro de propina) de uma cabana triplex na distante lua de Endor, famosa por ser o lar dos ewoks. Detalhe: não há qualquer documento que ateste a ligação do acusado com a referida propriedade.

Ademais, como levar a sério uma narrativa segundo a qual o cabeça de um grupo tão poderoso, mesmo depois de anos saqueando o universo, só tenha auferido uma quitinete num planetinha mequetrefe? Ou ele é um cabeça-oca – ou as viúvas do Império são.

Deixando por ora as metáforas deste humilde padawan das letras, o que mais me incomodou no episódio, porém, foi uma intrigante lacuna: se, de um lado, rotulou-se Lula como o “comandante máximo” da corrupção que reuniu o “consórcio” PT-PMDB-PP – com a justificativa de que, como número-um do governo por oito anos e nome mais importante do Partido dos Trabalhadores, “ele não tinha como não saber” –, de outro, não se fez qualquer menção aos presidentes das duas legendas restantes.

Ué, por onde andava o mundialmente afamado Mr. Fora Temer, presidente do PMDB há mais de uma década? Estaria ele tão dedicado assim aos concursos de miss que não percebeu o quanto seu partido desfilava na passarela da roubalheira? E o atual governador do Rio de Janeiro, Francisco “Calamidade Pública” Dornelles, que entre 2007 e 2013 foi o dirigente-mor do PP e ainda hoje é seu presidente de honra? Em que sarcófago hibernava que não viu seus correligionários evacuando fora da pirâmide?

Para o bem da Lava-Jato e, consequentemente, do país, ou o raciocínio que incrimina Lula – o célebre “domínio do fato” – vale para todos ou não vale para ninguém. Caso contrário, a operação corre o risco de acabar na UTI da História como mais uma vítima da síndrome da seletividade, e de servir tão somente como fonte infinita de memes.

O retorno do jedi: eu adoraria ter convicção de que a Força(-tarefa) está conosco, de que seu despertar está enfim passando o Brasil a limpo; mas a parcialidade das investigações, a fragilidade dos argumentos e a espetacularização das denúncias me parecem provas tão cabais de que testemunhamos apenas uma vingança dos sith contra seus inimigos, que prefiro declinar da ideia de que tal saga “contra a corrupção” represente, de verdade, uma nova esperança para a República.







Fábio Flora é autor de Segundas estórias: uma leitura sobre Joãozito Guimarães Rosa (Quartet, 2008), escreve no Pasmatório, tem perfil no Twitter e no Facebook.

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Como eliminar seu chefe



Que os empregados não se animem e os patrões não se desesperem: não vou socializar nenhuma cartilha homicida a ser aplicada em diretores, gerentes e afins. Só quero falar um pouquinho do filme de mesmo nome estrelado por Jane Fonda, Lily Tomlin e Dolly Parton nos anos oitenta (Nine to five, no original). É que eu o revi recentemente e ele se mostrou ainda melhor do que a memória supunha.

Um resumo para quem não conhece a história: cansadas de sofrer diariamente as humilhações impostas pelo Sr. Hart (Dabney Coleman) – um chefe acostumado a assediar funcionárias e usar suas boas ideias como se fossem dele –, Judy (Fonda), Violet (Tomlin) e Doralee (Parton) se unem para derrubá-lo.

A premissa simples apenas disfarça as horas extras que o desenvolvimento do enredo deve ter exigido dos roteiristas Patricia Resnick e Colin Higgins (que também dirige o longa). Ali cada fala, cada gag, cada cena aparentemente passível de demissão por justa causa cumpre um papel fundamental na comédia de erros que toma a vida das protagonistas. Não é à toa que Doralee, após a enésima cantada do patrão, o adverte de que falsifica sua assinatura como ninguém. Não é por acaso que a cadeira do cafa quase o derruba quando o vemos pela primeira vez. Não é sem motivo que Violet mostra tamanha habilidade ao instalar um portão de garagem automático.

Entre tantas passagens hilárias (como a que envolve o roubo de um cadáver ou a que reúne Judy, seu ex, um suposto amante, S&M e... M&Ms), talvez a que mais se destaque seja a da happy hour, quando o trio dá umas tragadas antes de imaginar maneiras de se livrar de Hart. Particularmente inspirados são o delírio country de Doralee – em que o patife surge na condição de secretário assediado e Coleman pode exercitar sua versatilidade – e a fantasia disneyana de Violet – que conta com recursos de animação e uma princesa perversa para recuperar o lado sombrio dos contos de fada. 

Não bastasse isso, a sequência revela elementos que serão retomados ao longo da trama (os tiros, o chefe amarrado, o veneno de rato), o que rende um divertido jogo de espelhos entre sonho e realidade.

Igualmente divertido (e inteligente) é o uso das cores. Se nos minutos iniciais da projeção somos apresentados a um ambiente de trabalho mergulhado no branco, no gelo, no cinza, e supervisionado por uma criatura (Roz Keith) fardada com um tailleur verde-oliva (o que sugere sua severidade militar), nos finais – após as mil mudanças promovidas no setor, como creche para os filhos dos funcionários e horário flexível – o mesmo espaço aparece imerso no amarelo, no laranja, no vermelho, refletindo um clima menos frio e impessoal.

Ainda as cores mais quentes: em sua primeira aparição, Violet desponta apenas com detalhes vermelhos (batom, brincos e broche); já no último ato, exibe um figurino inteiramente nesse tom (saia, camisa e sobretudo), como se ela própria metonimizasse a atmosfera do lugar. Interessante notar que Judy e Doralee surgem ao seu lado vestidas, respectivamente, de azul e branco – insinuando uma referência aos ideais revolucionários de liberdade, igualdade e fraternidade. Evidência disso é o fato de Roz, que acabara de voltar da França, exclamar um espantado “Holy merde!” ao ver as três na sala de Hart celebrando a derrocada do biltre, enquanto dividem um espumante.

Eu ainda estenderia o brinde ao talento das atrizes. À insegurança que Fonda confere a Judy: o sentimento vai se deteriorando à medida que a personagem se adapta ao seu novo dia a dia, e o auge de seu amadurecimento se dá na cena em que ela finalmente enquadra o ex (“Não me diga o que eu posso ou o que eu não posso fazer”). À aparente ingenuidade que Parton concede a Doralee: a princípio, a secretária finge não perceber as investidas do patrão porque precisa do emprego. À sagacidade com que Tomlin pinta Violet: esse traço fica nítido na sequência em que ela se equilibra entre a indignação e o deleite ao explicar para o dono da companhia as transformações que ele acredita terem sido implantadas por Hart.

Nítido também é o preconceito do todo-poderoso da firma, que decide vetar uma das principais novidades introduzidas na seção: a política de igualdade salarial entre homens e mulheres. E dá desânimo constatar que, mesmo trinta e tantos anos após o lançamento do filme, essa injustiça ainda não foi inteiramente reparada e encontra defesa em certos magnatas do machismo – que chegam a afirmar que mulher deve ganhar menos porque tem filho, tira licença-maternidade e gera prejuízo para as empresas.

Pensando bem (no caso desses escroques), quem sabe a distribuição de uma cartilha homicida a suas subordinadas não fosse uma ideia a ser considerada.







Fábio Flora é autor de Segundas estórias: uma leitura sobre Joãozito Guimarães Rosa (Quartet, 2008), escreve no Pasmatório, tem perfil no Twitter e no Facebook.

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