terça-feira, 20 de setembro de 2016

Guerra contra a estrela


Muitas coisas chamaram a atenção na coletiva de imprensa de Darth Dallagnol e seus stormtroopers. Uma delas foi a apresentação no PowerPoint, que lembrou aquelas palestras motivacionais inspiradas nas lições dadas a Luke Skywalker pelo mestre Yoda. Difícil acreditar que alguém aumente os níveis de midichlorians ou maneje um sabre de luz com mais tesão ao ouvir “Comandante máximo de sua vida, você é”, “De suas convicções, seu sucesso depende” e por aí vai.

Também causou perplexidade, pelo menos aos simpatizantes da Resistência, a acusação de que o ex-presidente Lula seria o Supremo Líder Snoke, chefe maior da organização criminosa conhecida como Primeira Ordem. A “prova” oferecida pelo Ministério Público Galático para ratificar a denúncia foi a reforma (em tese, feita com dinheiro de propina) de uma cabana triplex na distante lua de Endor, famosa por ser o lar dos ewoks. Detalhe: não há qualquer documento que ateste a ligação do acusado com a referida propriedade.

Ademais, como levar a sério uma narrativa segundo a qual o cabeça de um grupo tão poderoso, mesmo depois de anos saqueando o universo, só tenha auferido uma quitinete num planetinha mequetrefe? Ou ele é um cabeça-oca – ou as viúvas do Império são.

Deixando por ora as metáforas deste humilde padawan das letras, o que mais me incomodou no episódio, porém, foi uma intrigante lacuna: se, de um lado, rotulou-se Lula como o “comandante máximo” da corrupção que reuniu o “consórcio” PT-PMDB-PP – com a justificativa de que, como número-um do governo por oito anos e nome mais importante do Partido dos Trabalhadores, “ele não tinha como não saber” –, de outro, não se fez qualquer menção aos presidentes das duas legendas restantes.

Ué, por onde andava o mundialmente afamado Mr. Fora Temer, presidente do PMDB há mais de uma década? Estaria ele tão dedicado assim aos concursos de miss que não percebeu o quanto seu partido desfilava na passarela da roubalheira? E o atual governador do Rio de Janeiro, Francisco “Calamidade Pública” Dornelles, que entre 2007 e 2013 foi o dirigente-mor do PP e ainda hoje é seu presidente de honra? Em que sarcófago hibernava que não viu seus correligionários evacuando fora da pirâmide?

Para o bem da Lava-Jato e, consequentemente, do país, ou o raciocínio que incrimina Lula – o célebre “domínio do fato” – vale para todos ou não vale para ninguém. Caso contrário, a operação corre o risco de acabar na UTI da História como mais uma vítima da síndrome da seletividade, e de servir tão somente como fonte infinita de memes.

O retorno do jedi: eu adoraria ter convicção de que a Força(-tarefa) está conosco, de que seu despertar está enfim passando o Brasil a limpo; mas a parcialidade das investigações, a fragilidade dos argumentos e a espetacularização das denúncias me parecem provas tão cabais de que testemunhamos apenas uma vingança dos sith contra seus inimigos, que prefiro declinar da ideia de que tal saga “contra a corrupção” represente, de verdade, uma nova esperança para a República.







Fábio Flora é autor de Segundas estórias: uma leitura sobre Joãozito Guimarães Rosa (Quartet, 2008), escreve no Pasmatório, tem perfil no Twitter e no Facebook.

1 comentários:

Anônimo disse...

Sensacional!
Thiago Faria.

21 de setembro de 2016 09:10

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