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DE OUTROS TEMPOS

Apresento hoje aqui um pouco mais do meu uni.verso: alguns versos do passado publicados no meu primeiro livro “Transparecer a Escuridão – produção independente de poesias e crônicas”.

O lançamento aconteceu no dia 28 de março de 1981, em frente ao “Bié Lanches” – uma lanchonete superfamosa na época, em pleno calçadão central de Americana, São Paulo.

Em meio a tantas pessoas consultadas, apenas duas, eu disse duas, foram 100% receptivas ao meu projeto e incentivadoras na realização do meu sonho, a quem tenho muito a agradecer: António Zoppi (jornalista e escritor) e Walther De Faé (professor, escritor e crítico literário).

Destaco trecho da matéria “Livro obteve sucesso”, veiculada no Domingo Jornal após o evento: “Fato interessante de notar é que o livro de Geraldo é o terceiro do gênero, num prazo de aproximadamente um ano, a ser editado pelos próprios autores, casos de António Zoppi e Waldemar Tebaldi. Isso, claro, constitui-se num dado alentador, principalmente numa cidade onde o trato com a literatura é raro hábito entre seus habitantes. Aliás, também interessante de ser ressaltado foi o comportamento das pessoas que foram atraídas ao local devido à aglomeração junto à mesa onde o escritor autografava seus livros. Curiosos se aproximavam mas evitavam tocar nos livros ou mesmo manuseá-los. Essa inibição deve-se, na certa, à falta do hábito de leitura de livros ou mesmo do desconhecimento do que seja o lançamento de um livro. Principalmente se é feito sob animação, música à vontade e farta presença de público jovem, na porta de um bar do convívio.”

Só para complementar: fizemos um tacho gigantesco de caipirinha que era distribuída à vontade entre os presentes e passantes. Na ocasião, em apenas duas horas de lançamento, foram vendidos mais de 100 exemplares.

Produzido nos tempos do linotipo e do clichê, a capa de “Transparecer a Escuridão” foi uma criação conjunta com o amigão e também publicitário Antonio Silvio de Andrade, que, com muita arte e carinho, cuidou da sua finalização. Como costumava brincar com ele: “Impossilvio” não reconhecer seu talento! Valeu, Silvião!



ÁGUAS ORIENTAIS


Você, que é fonte da volúpia,
Persiste sobre o meu mais profundo ser.
E, das suas águas, quero que saiba,
Eu quero beber.

Nada adianta esconder os sentimentos.
Suas águas sequiosas não resistirão.
E, nas cataratas dos nossos pensamentos,
Nada de solidão.

Eu quero deslizar sobre seu corpo.
Descer a cachoeira do prazer.
Sentir o padecer das turvas taras.
E, ao mesmo tempo, seu corpo esvaecer.

Eu quero sentir as suas água
Inebriadas a seguir pelo meu leito
Numa incessante queda de desejos
Em nossos momentos íntimos de pleito.

DE SÚBITO, AMARILIS


E lá vinha ela
Seus passos a desfilar poesia,
Alindando ambientes.
Seu corpo trajando alegria,
Bem o quero.
Seus olhos retocados de romance,
Cantigas de amor.

E aqui estava ela
Seus lábios sedentos brilhavam pureza,
Dádiva dos seus.
Sua cútis macia rubra de ruge,
Enfeitiçando coração.
Seus olhos retocados de romance,
Fartura angelical.

E lá ia ela
Sua cabeça refletindo aventuras,
Gatinha siamesa.
Seus traços delineando ternura,
Harmonia edênica.
Seus passos arrastando ranhuras,
Indizível sensação.

E lá se foi...

 
HUMOR DO AMOR


Enquanto que
O canto que-
Ente
O pássaro assovia,
Aço via
Penetrar no peito.
E no deleite,
Assim no leito,
Que seja com quem for,
Desde que se arda
Em fruto-fulgurante amor,
A queimadura
Ferva as mais
Sensíveis partes
Inerentes.
Enquanto
O encanto
Do canto
Vibra delicioso as cordas vocais,
O pássaro alado
Bica fascinado
O assinado
Do peixe assim a nado.
E o nado
Do nada
Vertente como fada
Na cabeça camuflada
Das pétalas,
Margarida prazerosa,
Esfolheadas,
Vivem a acidez
Do aço.
Vivem a placidez
Da gravidez.
Vivem o amor
E jamais ocultam
E esquecem.
Nunca apagam
Os vestígios
Com os vestidos,
Nem tencionam carcomer
As cicatrizes
Que as cicas atrizes
Atrozes
Pincelaram,
A TROTES,
Pela consubstanciada
Essência das carnes
A se enxertarem,
Carne a carne,
Olho a olho,
Canto a canto,
Órgão a órgão.
Não negam jamais
A cuspida do humor
Do humor do amor.


O ECOSSITEMA

A poluição do ar intoxicou.
A poluição das águas envenenou.
A poluição do solo contaminou.
A poluição acústica perturbou,
                                  surdificou.
A poluição da mente condicionou,
                                    massificou e
                                             agrediu.
A poluição dos alimentos oxidou, cancerizou.
A poluição radioativa (o lixo atômico) invalidou.
A poluição térmica febricitou.
A poluição energética paralisou, perigou.
O meio ambiente desequilibrou. Morreu!



Abraços literários e até +.






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POETAMIGOS IV

Nada como abrir a semana com mais uma preciosa edição do POETAMIGOS. Ou melhor, com criações das nossas queridas POETAMIGAS que muito bem sabem deslizar, flutuar pelos versos, com densidade de conteúdo e tamanho encantamento.
Confesso que quem me apresentou o termo POETAMIGO foi a própria Sarah quando certa vez trocamos alguns e-mails. Achei tão interessante que me apoderei da ideia dela (rsss), passando a denominar carinhosamente, aqui no Uni.verso, esse espaço dedicado à divulgação dos trabalhos de quem trilha o mesmo caminho que eu: o da poesia.
Aproveite mais essa safra de belíssimas produções.



PARA QUE?
Sarah de Oliveira Passarella (Campinas – SP)

Para que buscar ventos,
se as velas já estão rotas?
Para que buscar as estrelas,
se  meu céu há muito está embaçado?
Para que ancorar no caís,
se lá ninguém me espera?
Para que caminhar na areia,
se minhas pegadas serão apagadas pelas ondas?
Para que escrever mensagens em garrafas
se não sei se irão  lê-las?
Para que encontrar o rumo,
se o meu eu já não tem destino?
Para que sonhar, se os meus
sonhos  já não são os seus?
Para que querer viver,
se o grande amor já morreu?


PONTO FINAL
Jussára C. Godinho (Caxias do Sul – RS)

O fim do nosso caso
foi tão por acaso
aconteceu devagar
nem vimos chegar

O fim do nosso caso
foi como quebrar um vaso
que se esborracha, trinca, racha
sem a gente esperar

Os dois mudos, calados
os corações gelados
momentos nunca imaginados

E agora este é o fim
nós dois ficamos assim
eu sem ti e tu sem mim


HERANÇA PATERNA
Sônia Barros (Santa Bárbara d’Oeste – SP)
(do livro "mezzo voo", premiado pela Secretaria de Estado da Cultura e publicado em 2007)

Não nasci sem pai:
ele esperou até que eu nascesse.
                                  
Depois,
ao constatar o sexo frágil
de sua quarta frágil-filha-mulher,
ele, o homem forte,
se foi.

Como herança,
deixou-me esta aptidão
para voos interrompidos:
                                  
eterno fugir
de onde nunca estivemos.


Abraços literários e até +.


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MEU LADO TROVEJANTE


Trova. O “Aurélio” define esta modalidade literária de poesia como sendo uma composição lírica ligeira e mais ou menos popular, como também uma composição literária formada de quatro versos setissílabos rimados, e com sentido completo.
Enfim, Trova é uma composição poética de quatro versos de sete sílabas poéticas, que tem de ter rima no mínimo da 2ª com a 4ª linhas (versos). Preferível será rimar também a 1ª com a 3ª. É classificada em três grupos: filosófica (contendo ensinamentos, máximas, pensamentos, etc.), lírica (falando dos sentimentos; amor, saudade, etc.) e humorística (que se propõe a fazer rir.).
Considerada a arte da síntese, a Trova encontrou campo fértil no Brasil, mas, só depois de 1950 começou a ser estudada e difundida literariamente.
Nesta época, um poeta do Rio de Janeiro, chamado Gilson de Castro e que, mais tarde, adotou o pseudônimo literário de LUIZ OTÁVIO, juntamente com J. G. de Araújo Jorge, começou a estudar e propagar a quadra popular brasileira, junto a um seleto grupo de poetas, dando início ao Trovismo.
Adelmar Tavares diz: "Nem sempre com quatro versos setissílabos, a gente consegue fazer a trova; faz quatro versos, somente."
Toda essa introdução foi apenas para dizer que há pouco tempo comecei a me enveredar por esse caminho. E confesso que, por falta de compreensão, encontrei muitas dificuldades e inúmeros obstáculos como métrica, rima, cesura, escansão, sílaba poética, sílaba tônica, embebimento, e por aí vai. Depois de incansáveis tentativas e dezenas de erros, ufa!, parece que comecei a entender  melhor a sua elaboração e a colher alguns bons frutos, como as trovas a seguir, classificadas em concursos literários.
Apresento a você, então, o meu lado trovejante. Como iniciante, espero que aprecie o resultado dessa modalidade de poesia onde ainda estou feito bebê: engatinhando.




Abraços literários e até +.
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POETAMIGOS III



O POETAMIGOS entra em sua terceira edição, trazendo até você mais uma segunda de primeiríssima. Como sempre, amigos superpremiados que nos premiam com a beleza e a riqueza dos seus textos como também com tão importantes amizades, mesmo que ainda reservadas ao ambiente virtual. Embarque no uni.verso de hoje e muito boa viagem.


UMA VIDA EM PRATELEIRAS
José Ronaldo Siqueira Mendes (Mutum - MG)
(3º lugar no 3º Prêmio Literário Sérgio Farina)

Eu tinha um encontro marcado,
Desses de mil e uma noites,
Numa mágica montanha:
Admirável mundo novo.

Ela era minha musa,
Minha Ceci, Diadorim,
Amélia e Rosalina.
Ela era minha vida severina.

Mas o tormento de Otelo
Deixou-me com a morte na alma.
Decretei crime e castigo
Na casa grande e senzala.

E hoje, ai de ti, Copacabana,
Após cem anos de solidão,
Vagando as veredas do sertão,
O resto é silêncio.

JUNTOS PARA SEMPRE
Rosana Banharoli (Santo André - SP)
• 1º lugar Oficina Verso&Prosa – Campoesia – Campo Largo – PR/2010
• Menção honrosa Amor Demais – Academia Petropolitana – RJ/2010)

debruçada no tempo
criei monumento
ao prazer herdado
a mim dado
&
num lapso
do momento
cimentei-me
junto a ele

DESÍGNIOS
Rosana Banharoli (Santo André - SP)
• Prêmio Poesia no Trem e no Ônibus – Poá - RS/2010
• Psiu Poético – Montes Claros – MG/2010

O vento tem uma hora certa
De fuga
Para cada janela aberta

50 ANOS, SEGUNDA IDADE
Rosana Banharoli (Santo André - SP)
•Prêmio UFF de Literatura - Eduff / Imprensa Oficial – RJ/2010

Minha terra está sempre
no mesmo lugar
enquanto meu rosto
se afasta de mim

SIAMESES
Simone Pedersen (Vinhedo - SP)
• Menção Honrosa no 13º Concurso Literário "DAR VOZ A POESIA"

As flores secas e sem vida
No vaso de cristal sobre a mesa
Mostram um tempo que já se foi
E o que fomos eu e você
O perfume que não mais embriaga
A beleza que não mais encanta
No gesto o amor contido
Despetalado e exaurido
Houve um tempo de sementes
Fecundas no ventre da paixão
Antes de florescer nosso amor
Siameses, desenvolvemos laços infinitos
Sem espaço para ser um mais um
Sufocados, ressentidos
Somos, hoje, nenhum.

Abraços literários e até +.

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ALGUNS APANHADOS DA MINHA ÁRVORE LITERÁRIA


Mais um pouquinho de mim mesmo e de minhas incursões literárias.
Espero que gostem.



"Clandestinos" é um excelente livro de crônicas do amigo Edweine Loureiro, que vive no Japão desde 2001. O escritor está revertendo o dinheiro arrecadado com a venda aos que estão desamparados naquele país. Além disso, a obra também está concorrendo ao 2º Prêmio Clube de Autores da Literatura Contemporânea.
Participem, votem e divulguem por uma bela causa.

Abraços literários e até+.



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A poética do cotidiano em Cesário Verde





Quando iniciei a pensar sobre o que eu escreveria nesta matéria, percebi que ainda não havia, de alguma forma, homenageado os poemas de Cesário Verde, que é um cânone na literatura. Vale ressaltar que o poeta em questão é considerado como um precursor da poesia produzida em Portugal no século XX. Fernando Pessoa foi um grande Leitor da poesia cesariana, uma vez que Cesário é considerado o predecessor do heterônimo pessoano Álvaro de Campos, além de ser citado várias vezes por outro heterônimo de Pessoa, Alberto Caeiro.



Todas as vezes que eu havia ouvido algo sobre a poesia de Cesário Verde, me diziam que ela é extremamente realista, principalmente, pelas observações que o poeta fez acerca do quotidiano. Como a poesia em geral me é muito cara e gosto muito de conhecer bons poetas, adquiri a obra deste artista da palavra e, como eu esperava, encontrei retratado o mundo rotineiro que o poeta analisa e torna elemento essencial para suas composições líricas.

Tendo em vista a importância da poesia cesariana, hoje, apresentarei a vocês um excerto de um poema do qual gosto muito “O sentimento dum Ocidental”.

O Sentimento dum Ocidental


I

Avé-Maria

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar alguns hotéis da moda.

Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!

Neste poema, podemos observar as percepções do poeta sobre o cotidiano. Ele que “Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,/ Ou erro pelos cais a que se atracam botes.”, consegue observar e, a partir de suas percepções, descrever a realidade que lhe afigura, com ruas melancólicas, carros de aluguel a levar passageiros para a via férrea, os edifícios que se assemelham a gaiolas com viveiros. Enquanto isso, o eu lírico percebe também o interior dos hotéis, nos quais “num tinir de louças e talheres/ Flamejam, ao jantar alguns hotéis da moda”.


As mulheres que voltam à casa ao anoitecer, “Vêm sacudindo as ancas opulentas!”, algumas carregam na cabeça os filhos que estão fadados a naufragar nas tormentas. Elas, “descalças”, o dia todo a bordo das fragatas, retornam ao bairro onde “[...] miam gatas,/ E o peixe podre gera os focos de infecção”.

Nesta breve e, um tanto quanto, superficial visão a respeito do poema, pudemos notar que a visão do poeta, sobre o mundo que desenrola a sua frente, não detém-se somente em impressões ingênuas e destituídas de crítica. Ao contrário, muito do reconhecimento que Cesário Verde possui provém do fato de ele observar e analisar o mundo de acordo com suas impressões e imaginação. O quadro que emerge do poema acima é tão realista que podemos, em nossa mente, recriá-lo e observarmos o tom irônico que ele imprime à descrição.

O poema acima e outras composições líricas cesarianas podem ser encontrados neste sítio ou neste outro. Através deles, o leitor poderá conhecer melhor a lírica de Cesário Verde.




Rodrigo C. M. Machado é Mestrando em Letras pela Universidade Federal de Viçosa.

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POESIA NO OLHO DA RUA





Lugar de poesia é na rua, dizia o poeta curitibano Paulo Leminski


Reforçando o conceito de que a disseminação da literatura não se limita ou não se restringe apenas a livros, que pode ir mais além na sua forma de apresentação e divulgação, em outubro de 2009 foi concebida uma maneira inusitada de se espalhar pela cidade mensagens natalinas diferenciadas através da poesia aplicada em outdoors.




Porém, o Projeto "AmericaNatal - Decoração Poética", idelizado por este colunista e membro do "Espaço Literário Nelly Rocha Galassi", contando com a primorosa direção de arte do designer Fábio Benencase, somente ganhou as ruas de Americana, interior de São Paulo, em 20 de dezembro deste ano, agregando a ele, logo na sequência, uma segunda fase intitulada "BrindAmericana - Virara 2010/11" - mensagens poéticas para o ano-novo, com início da divulgação neste dia 27.




Tudo isso só foi possível graças à excelente aceitação da campanha como também ao apoio fundamental da iniciativa privada que custeou a produção e veiculação.




"A ideia consiste em emprestar um ar de poesia às nossas ruas", comentou a escritora Cecília dei Santi. "Quem sabe esse seja o pontapé inicial de uma nova tradição no município, esperando que aconteça inclusive em outras datas comemorativas como: dia das mães, dos namorados, dos pais, etc., e, por que não, que se repita também em dezembro do próximo ano", completou.




Esperando que as nossas mensagens não cheguem apenas aos olhos da comunidade, mas, sim, que alcancem principalmente o coração de todos, a seguir apresentamos na íntegra as duas fases do projeto.




Feliz 2011. Tim-Tim!








Geraldo Trombin é publicitário e membro do Espaço Literário Nelly Rocha Galassi, de Americana - SP (desde 2004), lançou em 1981 o seu livro “Transparecer a Escuridão”, produção independente de poesias e crônicas. Com mais de 160 classificações conquistadas em inúmeros concursos realizados em várias partes do país, tem trabalhos editados em mais de 60 publicações.
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O luto no Sertão




Nas matérias em que escrevi sobre poesia, eu ainda não havia discorrido sobre João Cabral de Melo Neto, considerado um dos maiores poetas brasileiros ao lado de Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, entre muitos outros. Em muitos de seus poemas, João Cabral retrata o nordeste e as misérias que assolam esta parte do território brasileiro.






É impossível não notar o caráter social que perpassa os poemas de João Cabral. Eles, de alguma maneira, denunciam as mazelas, o descaso das autoridades com o Sertão, além do sofrimento causado pelas adversidades climáticas que, às vezes mais brandas, outras vezes mais severas, atingem ao povo sertanejo. Talvez por estes motivos, e por outros de escolha pessoal, resolvi apresentar a vocês o poema “O luto no Sertão”:



O luto no Sertão

Pelo Sertão não se tem como
não se viver sempre enlutado;
lá o luto não é de vestir,
é de nascer, com luto nato.

Sobe de dentro, tinge a pele
de um fosco fulo: é quase raça;
luto levado toda a vida
e que a vida empoeira e desgasta.

E mesmo o urubu que ali exerce,
negro tão puro noutras praças,
quando no Sertão usa a batina
negra-fouveiro, pardavasca.

Ao ler este poema, percebemos claramente o retrato da vida árdua dos sertanejos residentes no Nordeste brasileiro, ou de quaisquer pessoas que vivam em lugares nos quais há condições semelhantes, como, pro exemplo, em muitos países africanos e americanos.





O sertanejo em “O luto no Sertão” é retratado como alguém que nasce fadado à morte. Mesmo que esta não lhe atinja prontamente, ela está em seu entorno, vitimando pessoas através da fome, de doenças, da sede. A seca não proporciona água, não permite a vida de animais necessários à sobrevivência, impossibilita a plantação para consumo e, consequentemente, diminui a chance de sobrevivência humana. O luto é como tatuagem, marca inapagável, inextinguível, tristeza constante “é quase raça”, carregado durante toda a vida “e que a vida empoeira e desgasta”. O desgaste se dá, a meu ver, pelo uso em excesso desta “roupa”. A recorrência do encontro com o indesejável o torna quase que banal, de maneira que, nem mesmo o negro do Urubu, ave conhecida por tripudiar, festejar ao deparar-se com a morte que lhe fornece alimentos, é puro, na verdade, este negro é marcado pelo excesso do uso, da recorrência, do encontro com o sofrimento.

Obviamente, nos perguntaremos quais as causas da morte que espreita a vida a todo o momento no Sertão. Algumas causas já foram apontadas. Entretanto, existem aquelas que não são causadas pela natureza, porém, pelo descaso das autoridades ou mesmo do homem pelo homem, pela individualização excessiva, pelo egoísmo. E desde quando João Cabral de Melo Neto publicou este poema, mais especificamente em 1985, o que mudou? O que poderia ser melhor? O que deverá ser diferente? E o que podemos fazer para ajudar na mudança?





Questionamentos estes que ficarão em aberto, para que possamos avaliar tudo e todos ao nosso redor e, ainda melhor, possamos nos reavaliar. É bastante recorrente, quase clichê, propor estas reflexões para o final de um ano e início de outro, que pode e deve ser melhor. No entanto, não é este clichê necessário?

A poesia cabralina é rica em sentimentos, ritmo, reflexões. Além disso, ela nos proporciona o encontro com o real, que muitas vezes choca, porém é necessário que ele nos seja apresentado, para que saiamos da individualidade cruel imposta pela vida contemporânea e que é, de alguma forma, compartilhada e aceita por todos.

Rodrigo C. M. Machado é Graduado em Letras pela Universidade Federal de Viçosa.

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LANÇAMENTO VIA PALAVRA 10



VIA PALAVRA 10 - ESPAÇO LITERÁRIO NELLY ROCHA GALASSI

Criado em 1981 na cidade de Americana, interior de São Paulo, por Nelly Rocha Galassi (in memorian), Therezinha Rocha Poles e Ivanise Pântano, o "Espaço Literário Nelly Rocha Galassi" completou vinte e nove anos em abril 2010.


Iniciou sua trajetória com um pequeno grupo de pessoas que tinha como objetivo comum estudar a língua portuguesa e promover o contínuo aperfeiçoamento na arte de escrever.


Heterogêneo no estilo, formação, idade e profissão dos associados, durante muitos anos o "Espaço Literário Nelly Rocha Galassi" foi formado apenas por mulheres, passando, a partir de 1996, a contar também com a participação de escritores do sexo masculino.


Atualmente com 38 sócios, sendo 28 ativos, 3 correspondentes (de outras cidades), 3 honorários e 4 beneméritos, o grupo, que se reúne periodicamente duas vezes por mês para estudos, debates e leitura dos trabalhos, já publicou as seguintes coletâneas:

• 1989 - Revista "Nossas Crônicas e Poesias" - 7 autores - 100 exemplares
• 1991 - Revista "Momentos Poéticos" - 12 autores - 210 exemplares
• 1994 - Via Palavra 1 - 13 autores - 1.500 exemplares - J. Scortecci Editora
• 1995 - Via Palavra 2 - 16 autores - 1.500 exemplares - J. Scortecci Editora
• 1997 - Via Palavra 3 - 22 autores - 1.000 exemplares - Caminho Editorial
• 1998 - Via Palavra 4 - 32 autores - 1.500 exemplares - Caminho Editorial
• 2000 - Via Palavra 5 - 33 autores - 1.500 exemplares - Caminho Editorial
• 2002 - Via Palavra 6 - 42 autores - 1.500 exemplares - Caminho Editorial
• 2004 - Via Palavra 7 - 42 autores - 1.500 exemplares - Caminho Editorial
• 2006 - Via Palavra 8 - 44 autores - 1.500 exemplares - ViaPalavra Editorial
• 2008 - Via Palavra 9 - 31 autores - 1.000 exemplares - Gráfica e Editora EME

De acordo com o calendário de eventos, que prevê a publicação de um novo livro a cada dois anos, em 07 de dezembro último, o "Espaço Literário Nelly Rocha Galassi" lançou sua mais recente antologia:
• 2010 - Via Palavra 10 - 29 autores - 1.000 exemplares - ViaPalavra Editorial


A seguir, alguns poemas extraídos da nova publicação:


MIRAGEM
A vida já está tão sem brilho...

Os braços afastados,

Os beijos fingidos.

Elogios comedidos.

Amor em extinção.

Esperança já não resta.

Nem olhando pelas frestas.

Mas o coração está sempre acelerando.

Procurando algum afeto.

Como quem vê água no deserto.


Raquel Navarro

Pedagoga pro profissão, poetisa por paixão.



DA BELEZA

Da matéria efêmera e dispersa

O que se retém?

Nada. Quando muito, o belo.

Então, que nos bastem as flores da cerejeira

O Colibri pousado

Emoldurado pelo halo diáfano

Em torno da lua cheia...


Maria Lúcia Nascimento Capozzi
Professora de Língua Portuguesa e Literatura,
Pós-Graduada em Linguística pela UNICAMP.


PARALELOS

Corre o rio
E eu, corro e rio

Da semelhança do destino

Que faz o tempo das águas

Ser meu tempo de mágoas

E, com todo o desatino
Da água-alma
Que, sem temor,

Corre em busca do amor!...


Maria Cecília dei Santi
Formada em Pedagogia e Matemática


Geraldo Trombin é publicitário e membro do Espaço Literário Nelly Rocha Galassi, de Americana - SP (desde 2004), lançou em 1981 o seu livro “Transparecer a Escuridão”, produção independente de poesias e crônicas. Com mais de 160 classificações conquistadas em inúmeros concursos realizados em várias partes do país, tem trabalhos editados em mais de 60 publicações.
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Metalinguagem: Poesia sobre Poesia.

METALINGUAGEM POÉTICA,
A FALSA MUSA.

por Altair de Oliveira


Contrariando o nosso preceito costumeiro de "poesia como a vida", a nossa coluna de hoje faz referência à metalinguagem poética que, numa tradução simplista, é a "poesia sobre poesia" ou a é a poesia feita sobre o fazer poético, uma mania de escrever que já podia ser notada nos mais remotos textos de poesia, mas que a partir do século XX tem se tornado uma prática bastante comum entre nossos poetas, talvez devido à diversidade dos cursos que estudam este assunto nos dias de hoje.

Para se ter uma idéia da quantidade de poesia escrita que utiliza-se da metalinguagem como tema, numa rápida pesquisa pela internet eu consegui reunir mais de 10 poemas que tinha como título justamente "Metalinguagem Poética". Imaginem a quantidade de textos metalinguísticos que não encontraríamos! Dizem que certa vez o grande poeta americano Lawrence Ferliguethi teria dito que "poesia sobre poesia é algo muito chato...". Nem sempre, diria eu. Prova disso é que um dos poemas mais conhecidos e apreciados do, também grande, poeta Fernando Pessoa, "Autopiscografia", é um poema com metalinguagem.

Outros poemas metalinguísticos também foram bastante polêmicos na época de sua publicação e alguns continuam polemizando até hoje. Destes, eu citaria aqui "Profissão de Fé", de Olavo Bilac, e também "Os Sapos", de Manuel Bandeira, ambos tratavam dos espíritos das escolas literárias de sua época (Parnasianismo e Modernismo) e o poema de Bandeira parecia querer combater o formalismo parnasiano de Bilac. O engraçado disto é que Manuel Bandeira nem foi um poeta fechado na escola modernista, ele atravessou vários movimentos literários, inclusive chegou a escrever poemas concretos. E um dos traços marcantes do movimento concretista foi a de discutir a poesia e de fazer uma poesia crítica e de valores formais, norteada por grandes autores do passado que também foram considerados críticos. Um destes grandes poetas cultuados pelos poetas concretos foi o francês Stéphane Mallarmé, que também foi um poeta parnasiano.

O certo é que parece que os poetas sempre tiveram uma certa necessidade de explicar o que é poesia, talvez até para justificar suas estupefação diante dela. E a poesia que, como os senhores já sabem, é um espanto! Ela sempre esquivou-se à qualquer medida, normatização ou codificação. Sorte nossa, eu quero lembrar aqui, porque com os avanços tecnológicos atuais seria bem possível um gaiato qualquer inventar um chip para um "poemapod" da vida e, com isto, desempregar toda esta poetada que arrisca escrever um poema metalinguístico, sempre que a musa verdadeira fica de TPM.




Cinco Poemas Metalinguísticos



Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.



Poema do português Fernando Pessoa.


***

POÉTICA


Sem autoria e sem versos a poesia será encontrada
na pedra
no rosto e na copa das árvores ensimesmada

sinal
da sina
cor nos azulejos

o abraço das palavras
renova a presença das portas
e janelas de uma casa.

A poesia sim
se presta à prosa
da vida

invisível porcelana.




Poema do português Fernando Paixão.


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ANTEPASTO


Tudo o que o Poeta escreve

está resumido

numa única palavra: Solidão.


Escrever é distanciar-se do mundo

para poder entendê-lo

é uma forma de morrer.


Viver é outra coisa

ainda que alienada.



Eu trocaria mil rimas


por uma noite de amor.


E trocaria um belo poema

sobre a fome

por um singelo prato de comida.




Poma do maranhense Antônio Miranda.


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ARS POETICA



A poem should be palpable and mute
As a globed fruit,


Dumb
As old medallions to the thumb,


Silent as the sleeve-worn stone
Of casement ledges where the moss has grown —


A poem should be wordless
As the flight of birds.



*

A poem should be motionless in time
As the moon climbs,

Leaving, as the moon releases
Twig by twig the night-entangled trees,

Leaving, as the moon behind the winter leaves,
Memory by memory the mind —

A poem should be motionless in time
As the moon climbs.


*
A poem should be equal to:
Not true.

For all the history of grief
An empty doorway and a maple leaf.

For love
The leaning grasses and two lights above the sea —

A poem should not mean
But be.



Poema do americano Archibald MacLeish (1892 – 1982).


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PROFISSÃO DE FÉ


Invejo o ourives quando escrevo:
Imito o amor
Com que ele, em ouro, o alto relevo
Faz de uma flor.


Imito-o. E, pois, nem de Carrara
A pedra firo:
O alvo cristal, a pedra rara,
O ônix prefiro.


Por isso, corre, por servir-me,
Sobre o papel
A pena, como em prata firme
Corre o cinzel.


Corre; desenha, enfeita a imagem,
A idéia veste:
Cinge-lhe ao corpo a ampla roupagem
Azul-celeste.


Torce, aprimora, alteia, lima
A frase; e, enfim,
No verso de ouro engasta a rima,
Como um rubim.


Quero que a estrofe cristalina,
Dobrada ao jeito
De ourives, saia da oficina
Sem um defeito:



[...]
Assim procedo. Minha pena
Segue esta norma,
Por te servir, Deusa serena,
Serena Forma!



Poema do carioca Olavo Bilac (1865-1918).


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Para ler mais sobre o poeta "Archibald MacLeish":
http://www.poets.org/poet.php/prmPID/47

Para ler mais sobre o poeta "Olavo Bilac":
http://educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u166.jhtm


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Ilustrações: 1- foto de trabalho do pintor cearence Aldemir Martins; 2- foto do poeta francês Stéphane Mallarmé; 3- outro trabalho de Aldemir Martins; 4- foto do poeta americano Archibald MacLeish .



Altair de Oliveira (poesia.comentada@gmail.com), poeta, escreve quinzenalmente às segundas-feiras no ContemporARTES a coluna "Poesia Comovida" e conta com participação eventual de colaboradores especiais.
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