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Tinha que ser o Chaves


Pois é, pois é, pois é. Foi só eu topar com uma enquetezinha boba – dessas que levam do nada a algum barril da memória – que me escapuliu aquela vontade nhonha de evitar a fadiga e esquecer a louça na pia. A pergunta do dia: é de groselha, limão ou tamarindo? Brincadeira. Ainda bem que o leitor tem paciência comigo; não tem? Sério agora. Queriam saber qual tinha sido o melhor episódio de todos os tempos da série criada por Roberto Gomes Bolaños, que faleceu na última sexta-feira, aos 85 anos, deixando muito mais que um "pi pi pi pi pi" mundo afora e, principalmente, na América Latina.

Sem querer querendo, o site oferecia mais que uma xícara de reminiscências, e recordava pérolas (ou seriam carambolas?) que iam da viagem a Acapulco – com seu entardecer ninado pelos versos de “Boa noite, vizinhança” – ao cineminha com toda a turma da vila – episódio que popularizou o bordão “Teria sido melhor ver o filme do Pelé” –, passando por inúmeros outros clássicos.

Mas, como qualquer lista, essa também tinha ausências dignas de um ai-que-burro-dá-zero-pra-ele, ainda que citasse duas dezenas de histórias inesquecíveis. O povo dos comentários – em geral a gentalha da rede – dessa vez prestou um serviço do tamanho do Sr. Barriga ao lembrar, entre vários tesouros e loterias inacreditavelmente ignorados pela pesquisa, os espíritos zombeteiros, o julgamento do Chaves e os “higiênicos churros da Dona Florinda”.

Como esquecer a Bruxa do 71, digo, a Dona Clotilde incorporando a médium enquanto o Chaves puxava a toalha da mesa e o Quico batia a cabeça na porta, fazendo com que todos acreditassem que os mortos estavam de fato se manifestando? Ou o Chaves (olha ele, olha ele!) perguntando ao Professor Girafales pela enésima vez se este se referia ao gato ou ao Quico? Ou, ainda, o Seu Madruga com chapéu e avental de chef?

Cada um deles deixou um gostinho de sanduíche de presunto na lembrança de quem os degustou. A ponto de até hoje os fãs rirem de falas – quando não as usam no cotidiano – como “Já chegou o disco voador”, “A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena” e “Não tem biscoito”. Entre tantas linhas memoráveis, guardo especialmente a sabedoria macunaímica de Don Ramón, Madruguinha para os íntimos: “Não existe trabalho ruim. O ruim é ter que trabalhar”.

A louça na pia que o diga.








Fábio Flora é autor de Segundas estórias: uma leitura sobre Joãozito Guimarães Rosa (Quartet, 2008), escreve no Pasmatório, tem perfil no Twitter e no Facebook.
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TV 2.0



A coluna Drops Cultural recebe a colaboração do repórter Felipe Menicucci refletindo sobre a relação entre as mídias sociais e a televisão. 

Hoje, o ato de sentar no sofá, pegar o controle remoto e ligar a TV não vem sozinho. A cada zapeada na programação, o perfil nas redes sociais é sempre atualizado. A necessidade de assistir está acompanhada da vontade de comentar.

Uma pesquisa internacional, feita em 40 países, mostra que 62% das pessoas estão conectadas enquanto assistem à TV. No Brasil, esse índice ultrapassa a média e chega a 73%. Entre os assuntos mais comentados, as novelas, programas de TV aberta e seriados ocupam os primeiros lugares. Esses dados indicam que mudamos a forma como nos relacionamos com a TV. Ao invés de meros espectadores, queremos participar, mudar o final do capítulo ou ser compartilhado por mais pessoas.

Sabendo desse novo filão, as emissoras não deixam barato. Muitos programas de entretenimento permitem a participação ao vivo via twitter. No jornalismo, a participação do telespectador ajuda na elaboração de pautas e sugestão de temas. Os famosos “povo-fala” hoje são feitos pela internet. Comunidades e grupos no facebook ajudam jornalistas em busca de fontes. A parceria informal entre jornalista e telespectador cria um novo vínculo com o telejornal: a partir do momento em que você ajuda a produzir o conteúdo, fideliza a audiência.

Se a internet complementa a forma como a TV se organiza, um mérito é dado exclusivamente aos fenômenos virtuais: a notícia mudou de formato. Novidades, fatos inéditos são repassados, primeiramente, nos 140 caracteres. Depois, passam na telinha. A agilidade da internet forçou a TV a ser mais reflexiva. Por exemplo: do twitter vem a notícia de um acidente de carro. Na TV, mais tarde, a apuração detalhada: o trecho da pista é o mais perigoso, falta sinalização, o asfalto é ruim e a prefeitura não reforma há anos.  

Se os livros estão em risco, como dizem, essa é uma preocupação que a TV não precisa ter. Muito pelo contrário. Enquanto muita gente investe nas telas com muitas polegadas, outros se dão por satisfeito com uma antena no celular e um pacote de dados 3G. O suficiente para uma curtida instantânea.   


Felipe Menicucci é bacharel em Comunicação Social/ Jornalismo pela Universidade Federal de Viçosa. Atualmente é repórter da TV Integração, afiliada da Rede Globo. 
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A gaita e a permanência




Falar sobre cinema na República Tcheca remete de modo inevitável à minha infância. Tinha cerca de seis anos e estudava pelo turno da manhã. Como quase toda criança dos anos 90, geração pré-internet, uma boa opção para diversão era assistir a desenhos animados na pequena tela de casa. Após o almoço, passava parte da tarde a assistir um programa infantil muito famoso no Brasil, o Glub Glub, exibido na TV Cultura.

Um desenho, especificamente, me chamava a atenção. Era, como dizia na época, uma “animação de massinha” (ou seja, em stop motion e feita com pequenas esculturas). Dois amigos do sexo masculino passavam pelas mais absurdas situações e, geralmente, dentro da casa de um destes. Do ato de se colar papel para decorar suas paredes até os momentos em que cozinhavam juntos; inexistia um momento de tranquilidade para esses personagens. A sequência de atos atrapalhados e equivocados dava lugar a momentos tragicômicos: objetos quebravam, o espaço da casa era tomado por inundações e o número de explosões não era pequeno.

Nunca soube o nome deste desenho animado, mas a passagem do tempo não me fez esquecer de suas imagens. Mais forte do que o visual, porém, era uma peça de sua trilha sonora; um som repetitivo de gaita cuja reprodução por cantarolar era simples. Por anos o fiz para pessoas em diferentes momentos da vida (escola, universidade, trabalho) e a lembrança coletiva do desenho era ativada. Qual, porém, o seu título?

Vinte anos se passaram e eis que, por motivos variados, fiz uma viagem até Praga, capital da República Tcheca. Ao caminhar por seu centro histórico, pequena não foi minha surpresa ao esbarrar com diversos fantoches de um popular personagem de outro desenho animado: Krtek, uma simpática toupeira criada por Zdenek Miller. Após assistir ao episódio “Krtek e a mamãe”, em que é mostrado de modo claro o parto de uma coelha, fiquei intrigado com a transparência desse desenho infantil e resolvi assistir todos os seus episódios curtos.

Do universo da toupeira para um panorama do cinema de animação tcheco. Através dessa ampliação da pesquisa, para minha surpresa, eis que descubro a identidade dos dois atrapalhados personagens aqui citados: Pat e Mat ou, como chegaram ao Brasil, Zeca e Joca. O som da gaita ganhou um contexto, a assinatura de Lubomir Benes e Vladimir Jiranek e um corpo de cerca de oitenta episódios. Dividi esta descoberta com amigos e mais de uma vez tive como resposta a surpresa deles.

A fechar este ciclo de coincidências (ou do “destino”), redigi um texto intitulado “Krtek e o universo ao redor”, uma breve interpretação da Toupeira e de como ela se coloca em relação às situações dadas em seus episódios. Meses depois tomei conhecimento da realização da Mostra de Cinema Tcheco no Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília, São Paulo e, agora, Rio de Janeiro.

Creio que este evento se trata de uma boa oportunidade para sermos introduzidos à história do audiovisual na República Tcheca. Poucos foram os eventos realizados em solo brasileiro que visavam traçar panorama semelhante ao dado pela Mostra de Cinema Tcheco. Poderia destacar, por exemplo, a retrospectiva parcial da obra de Jan Svankmajer, que a Curta Cinema realizou em 2008 e, ainda a ser realizado em 2012, uma retrospectiva da obra de Milos Forman, aqui representado por “Baile de bombeiros”, no Rio de Janeiro.

A justaposição de outras animações tchecas como “Pequeno grilo e cachorrinho” ao lado do documentário “Marcela” e de dramas com cunho histórico como “Num céu azul escuro” e “Protetor” faz com que o público não tenha uma apreensão unitária e homogênea desta produção audiovisual. Narrativas cômicas enfocadas em pequenos grupos de personagens, mas que não deixam de lado a relação entre vida privada e História, são encontradas nos premiados “A minha pequena aldeia” e “Solitários”. 

Espera-se que esta aproximação cultural entre Brasil e República Tcheco pelo viés do audiovisual dê outros frutos e proporcione outros recortes para futuros eventos – geográficos, de gênero, autorais. Que os dois países possam fazer uma parceria tal qual Zeca e Joca – claro, sem as suas atrapalhadas aventuras, mas mantendo o mesmo clima de amizade e companheirismo dos personagens. Que os filmes aqui a serem projetados possam marcar outras crianças ou gerações posteriores tal qual o som de uma gaita está impresso na memória de um grupo de pessoas até o presente.


Raphael Fonseca é crítico e historiador da arte. Bacharel em História da Arte pela UERJ, com mestrado na mesma área pela UNICAMP. Professor de Artes Visuais no Colégio Pedro II (RJ). Curador de mostras e festivais de cinema como “Commedia all’italiana” (realizada na Caixa Cultural de Brasília e São Paulo, 2011), o Festival Brasileiro de Cinema Universitário, a Mostra do Filme Livre e o Primeiro Plano – Festival de Cinema de Juiz de Fora.  Membro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas (ANPAP). Realizador de curtas-metragens como "Boiúna" (2004), "A respiração" (2006) e "Preguiça" (2009).
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