O filmaço escrito e dirigido por Damián Szifron renderia tantas crônicas e, consequentemente, tantos títulos para elas que, na incapacidade de escolher um só, deixo todos à disposição do leitor: “V de vingança”, “Um dia de fúria”, “Perto do coração selvagem”, “Instinto selvagem”, “Eles estão descontrolados” e assim até a loucura. Cada um deles dá uma ideia do que trata o longa argentino (Relatos salvajesno original).
Em seis histórias aparentemente cotidianas – que vão de um sujeito que tem seu carro rebocado a uma noiva que descobre a traição ainda na festa de casamento –, os personagens perdem as estribeiras e passam a agir como se não houvesse a tal lei do amanhã, que em geral nos faz contar até dez antes de voar no pescoço do chefe injusto, de furar os olhos do marido ou marida que nos traiu, de sequestrar e botar no micro-ondas o papagaio do 102, que não para de tagarelar desde a noite passada.
O primeiro e mais curto episódio, que antecede os créditos iniciais, já nos reserva lugar num avião em que todos os passageiros (coincidentemente?) conhecem um mesmo rapaz. O curta funciona como síntese do que veremos a seguir: histórias à beira de um ataque de surrealismo – que, no entanto, jamais deságuam na inverossimilhança. Ali a reação mais destemperada, a revanche mais primitiva, é sempre possível, provável até. Os muros do superego, da razão e do bom senso são derrubados pelos black blocs que residem em cada um de nós.
Além disso, o fato de parecer não haver limites para aquelas criaturas de repente tomadas de cólera – vide o duelo extremamente violento entre dois motoristas no terceiro conto – só amplifica a tensão e a imprevisibilidade das cenas seguintes. E é aí que o filme ganha nervos de thriller, embora as atitudes radicais de seus protagonistas – como as da noiva enganada – eventualmente provoquem risos. Aliás, o humor sangra em várias passagens, como naquela em que um policial pergunta a seus colegas se determinado incidente teria sido crime passional.
Sangram também sutilezas, ainda que o roteiro trilhe o caminho do exagero, às vezes até do absurdo, numa tentativa de esgarçar a humanidade de seus personagens. Uma delas se dá quando o especialista em demolições Simón (Ricardo Darín) prepara a implosão de um prédio em meio a um corredor pouco iluminado, onde piscam minúsculas luzes azuis; luzes semelhantes piscarão novamente em outro momento da trama, a fim de advertirem delicadamente o espectador sobre o que está prestes a acontecer.
O que está prestes a acontecer (e acaba acontecendo com maior ou menor intensidade em cada um dos relatos) se revela não só matéria digna do tabloide mais sensacionalista, como também amostra singular – nem por isso menos real, como temos visto nos noticiários e em toda a História – do que o ser humano é capaz de detonar nas suas horas mais extremas: explosivos de som, fúria e terror.
Somos todos campos minados, afinal. E o filme de Szifron, ao invadir as fronteiras de um território tão instável, prova que sabe bem onde pisa.
Fábio Flora é autor de Segundas estórias: uma leitura sobre Joãozito Guimarães Rosa (Quartet, 2008), escreve no Pasmatório, tem perfil no Twitter e no Facebook.
No meu primeiro post aqui, eu, pra facilitar e tornar um pouco atraente a exposição do "quem sou eu e porque estou aqui", quis me apresentar aos leitores desta revista contando um "causo". Mas fiquei bastante frustrada porque elaborei todo o texto durante a semana e não dei por mim que em pleno dia 8, eu não tivesse cogitado falar absolutamente nada sobre o dia da mulher e que a única referência no meu primeiro post aqui a respeito dessa data, fosse o fato de ser eu mesma, uma mulher.
Afora isso e modéstia à parte, uma mulher corajosa. Pode parecer fácil visto de fora, pode até parecer, ao contrário, uma coisa de quem é covarde e tem muito medo, mas entregar-se através da escrita, sem medo (ou com medo mesmo) do julgamento do outro e, principalmente, da exposição, é ato de coragem que tenho praticado há alguns anos, com afinco.
A maior dificuldade da minha escolha-escrever foi deparar comigo em cada linha, cada verso, cada sílaba...
Encarar meus próprios dramas, a exposição, o julgamento alheio, meus pais, meus amigos.
O papa, Jesus Cristo, o inferno que a minha tia Terezinha descrevia com detalhes.
E, assim como no dia em que voltei pra casa depois de me separar, em que decidi que aquilo só ia dar certo se eu vivesse minha vida do jeito que queria viver, sem deixar que os limites da casa dos meus pais me devolvessem pra infância, pra um lugar em que eu não queria voltar, no dia em que decidi escrever, apanhei toda a porção de coragem e joguei o medo da exposição pro ar, como as cinzas de uma pessoa querida que se quer esparramar pelo mundo.
E assim, e por isso, e porque é a coisa de mais valia entre todas as coisas que eu faço, é que tenho a ousadia de autointitular-me: escritora.
Muito prazer, amigos.
Na literatura, como na maioria das atividades, o número de homens é muito maior que o de mulheres e isso tem a ver com essa imposição social que por séculos persiste e que quer ditar o que a mulher deve sentir, o que a mulher deve pensar, como a mulher tem que agir e que, aproveitando da feminilidade que nos é natural (ainda bem), nos submete a conceitos arcaicos e repudia mulheres pelos mais diversos motivos, inclusive na literatura.
Por exemplo, mulheres que escrevem sobre si mesmas, entregam-se em seus textos, ousam poesia erótica ou divulgam, como eu, o que pensam, o que sentem, ganham um lugar específico no catálogo especialmente preparado para desqualificá-las na arte de escrever, tirando seus méritos, renomeando seu talento.
Enquanto isso, homens escrevem o que bem entendem e são aclamados por sua entrega:
"bato uma punheta no calor
e escuto Brahms e como
blue cheese com chili."
(Charles Bukowski, O amor é um cão dos diabos. L&PM Editores, 2014, fl. 49)
Não sou uma escritora renomada, eu sei, contudo, posso dizer que faço minha parte sendo uma das pioneiras na cidade a escrever poesia autoral na rede, e quase diariamente. Por isso meu depoimento tem peso: senti na carne a dádiva e a dívida de partilhar na internet poesia inédita. E como minha escrita parte de mim, batendo e voltando nas minhas paredes, senti na pele, e ainda sinto, em pleno secúlo XXI, a discriminação alheia, o julgamento do outro (da outra) ainda que muito, muito antes de mim, corajosas mulheres tenham batido na tecla deste revelar-se, propondo-a como uma revolução.
Por exemplo, Simone de Beauvoir, é claro. Ela que teve coragem de viver no "mundo dos homens", de falar de si abertamente como só falaria um homem, de viver um casamento intelectual por um motivo superior, como só se diria serem capazes, os homens?? Que muito falou sobre si mesma e as pessoas de seu círculo nos livros autobiográficos que escreveu, que contou detalhes sórdidos e corriqueiros, como quem desbrava uma montanha, enfrentando-se, encarando-se e, principalmente, entregando-se integralmente no objetivo de transformar sua geração e as posteriores?
Todo mundo sabe dessa Simone transformadora, existencialista, inventora de uma aliança nova com o homem que ela mais admirava e com quem trocava de tudo, inclusive amantes.
Mas nestes tempos de bandeiras erguidas e revanchismos, em que é mais fácil catalogar pessoas que se aprofundar no pensamento, ninguém quer saber de uma Simone feminina, que se apaixonou, que teve ciúme e fragilidades como toda criatura humana. Mas ela, como eu, como a maioria de nós, existiu.
o casal desconhecido: Simone e Nelson
"Não estou triste. Atônita, talvez, muito longe de mim mesma. Incapaz de acreditar verdadeiramente que, a partir de agora, você estará tão longe, tão longe, você que estava tão próximo. Antes de partir, quero lhe dizer apenas duas coisas, depois não falarei mais disso, prometo. A primeira é a esperança de revê-lo, um dia. Eu quero, eu preciso. Entretanto, lembre-se, por favor, de que eu jamais pedirei para revê-lo, não por orgulho, você sabe disso, mas porque nosso reencontro só terá sentido se você assim o desejar. Então, eu estarei esperando. Quando você desejar, diga. Não concluirei com isso que você voltou a me amar, nem mesmo que quer ir pra cama comigo; não estaremos absolutamente obrigados a ficarmos juntos por muito tempo - no exato momento em que, e contanto que, você assim o deseje, saiba que eu desejarei sempre que você me peça". (Simone de Beauvoir. Cartas a Nelson Algren: um amor transatlântico, 1947-1964, Editora Nova Fronteira, 2000, fl. 356)
Não poderia seguir outra linha, um grito meu a favor da mulher. De uma mulher que possa ocupar todos os espaços e que seja livre pra sentir de todo o coração.Pra se apaixonar sem medo de repressão, da mesma maneira que luta contra a violência doméstica e por equiparação salarial. Meu manifesto é pra dizer que nada que venha de nós, partindo de nós, do mais profundo querer, pode ser julgado, condenado ou tido como menor, como vazio, inclusive as manifestações de afeto incondicional, sentimento de amor e paixão, vontade, desejo ou sonho.
Os mecanismos de proteção legais vieram pra ficar e garantir nossa incolumidade perante a violência doméstica e contra essa vulnerabilidade fruto de um sórdido patriarcado e séculos de supremacia masculina na sociedade. Apoiemo-nos nisso e lutemos não só pelo direito à igualdade, mas também pelo direito à individualidade e percepção do nosso querer verdadeiro, sendo ele também sentimental, também emocional, também apaixonado (por que não?).
tive tantas vidas numa só, fui tantas que às vezes me esqueço... a ordem do tempo às vezes invertida: fui criança, muito criança, depois velha, depois mulher e então adolescente, para novamente ser mulher e agora ainda sinto como se fosse uma menina...
muitas coisas e histórias e amores e segredos, alguns porres, alguns erros, muita reflexão, uma mão de amigos, uma centena de beijos, alguns retratos vivos, de lugares e personagens que irão comigo daqui pra não sei onde....
foram tantas vidas e companhias e conclusões e poesias e lágrimas e medos e desejo de viver tudo, e desejo de morrer logo e andanças e projetos e desistos e insistos e paixões (mais do que a razão recomenda)...
foi muita vida pra pouca estrada, muitos começos pra caminhos às vezes curtos, às vezes ermos. muitos finais pra muito cedo, muitos poréns pra pouco enredo....
foi muito por dentro, muito por fora, foi muito intenso e continua....
nem sempre entendo, às vezes penso, às vezes só vivo e por isso choro, é muito desgaste, muito empenho, muita entrega (haja coragem!) e ainda enfrento os desastres: gente como eu só acaba aos bocados.
(no fim de tudo, só fica o amor)
Vi nesse último 8 de março, dia do meu primeiro post aqui, um cartaz muito triste na rede social, dizendo: queremos direitos, não flores. Eu não sei vocês, mas eu quero direitos e também quero flores. Quero falar de política, mas também de amor. Quero usar a roupa que eu entender, mas também aquele vestido de florzinha que me deixa tão feminina e meu amor gosta que eu use.
Estamos num estágio de luta em que é possível, já, reequilibrar-nos. Admitir a gama de intensidades que nos acomete todos os dias, o sentimento de amor e de ódio e de raiva, de ciúme, de desejo ou ternura, sem sermos taxadas de nada, de mulherzinha ou de feminista, afinal, ser mulher é muito mais, é quase tudo, somos muito amplas, muito sábias e capazes de um fazer múltiplo e não aceitar limite ou rótulo pra nossa expressão, pro nosso estar no mundo, será nosso mais decisivo passo.
Outra coisa que quero frisar aqui hoje e conclamar a todos, mulheres e homens deste Brasil, é que, neste tempo de protestos, não se abra mão da elegância, da educação, enfim. Ainda que não se concorde com tudo (o que, particularmente, acho de bom tom, face a tudo o que tem sido revelado pela boa ou má imprensa e sabemos ser verdade - a revelação de um Brasil corrupto e vendido não é novidade pra ninguém), saibamos reconhecer que uma mulher é a autoridade máxima do país e jamais deixemos que nossa divergência política seja porta aberta para preconceitos resistentes, ofensas morais com base no gênero, repúdio à presidente usando de palavras jamais usadas pra repudiar seus antecessores. Que o protesto se paute em fatos e não se esvazie em xingamentos e não se perca em impropérios e não diminua o mérito de uma mulher pela primeira vez na história ser governante do Brasil. Conclamo.
No mais, este é um apelo por todas as mulheres, por mim inclusive. Que possamos falar sobre o que quisermos, que nada nos rotule, estigmatize, diminua. Que principalmente as mulheres estejam juntas na defesa de si mesmas, que possamos olhar pra fora e atuar no mundo, bem como olhar pra dentro e transformar (ou contemplar) a vida, respeitando nossos momentos, nosso ritmo, às vezes nosso vagar.
"Continuo sempre me inaugurando, abrindo e fechando círculos de vida, jogando-os de lado, murchos, cheios de passado. Por que tão independentes, por que não se fundem num só bloco, servindo-me de lastro? É que eram demasiado integrais. Momentos tão intensos, vermelhos, condensados neles mesmos que não precisavam nem de passado nem de futuro para existir." (Clarice Lispector. Perto do Coração Selvagem: Rocco, 1998, fl. 101)
Enquanto mulheres, estamos neste processo de reconstrução. Enquanto mundo, também, e é isso o que jamais devemos subestimar, pulando etapas ou permitindo sejam renomeados, velhos estigmas. Não subestimemos o estar em processo...
parece estranho, mas me sinto mais forte, quando me assumo fraca
não almejo mudar o mundo, apesar de querer que ele mude
mas o que sinto, principalmente, é que tenho que encarar a realidade e o momento atual e falho (meu, do outro, do mundo) como algo natural e parte de um processo de progresso, ainda que impossível de identificar com esta alma míope e olhos semiabertos.
E quanto ao amor, ah!, digam o que quiserem, mas seja em que contexto for e sob quais bandeiras forem, o amor sempre será o que nos move (homens e mulheres).
estado de amor
uma alegria
de existir e de ser
e transitar entre montes, esquinas
dizer coisas impossíveis
e dançar em plena avenida
sem música, sem companhia
estado de amor ilumina
os olhos e acaricia
o coração maltrapilho
transforma o mar em magia
e o pôr-do-sol em lembrança
de se guardar escondida
como amuleto da sorte
pra momentos difíceis
estado de amor
quando ocorre
faz a gente querer tudo
ser o tempo sempre curto
renova a esperança
quer hastear bandeira
gritar como maluco
: isso é que move o mundo!
estado de amor.
as pessoas correm pro amor
as pessoas correm do amor
as pessoas correm ...
quando vai cessar esse medo??
ouça esta canção e perceba com o coração o que não está dito.
Larissa Germano é autora de "Cinzas e Cheiros" e escreve nos blogs Palavras Apenas (naoapenaspalavras.blogspot.com) e Nunca Te Vi Sempre Te Amei (cafehparis.blogspot.com), Tem perfil no facebook e no twitter e a página Lári Prosa e Trova no facebook. É também compositora intuitiva e tem perfil no Sound Cloud e Youtube.
Hoje quero convidar a tod@s a fazer um brinde à Heloneida Studart! Para quem não sabe quem é essa mulher admirável, vamos conhecer um pouco de sua vida e obra.
Um brinde à Heloneida Studart Soares Orban, ou simplesmente Helô!
Heloneida Studart foi múltipla: mãe, política, feminista, radialista, dramaturga, escritora e jornalista. Teve uma vida profícua e lutou bravamente pelo direito das mulheres e pela realização de seus sonhos.
Heloneida se alfabetizou com 5 anos, com a ajuda de sua babá, fato que surpeendeu a todos.
Sua vida é inspiradora e exemplar. Helô nasceu em Fortaleza, Ceará, em
9 de abril de 1925. Com 16 anos foi para o Rio de Janeiro, atrás de seus sonhos. Estreou como colunista no Jornal O Nordeste. Em 1952 casou-se com Franz Orban, com quem teve seis filhos homens. O casal adotou uma filha também.
Heloneida e seu marido Franz
Em 1953 publicou seu primeiro romance A primeira pedra em São Paulo e em
1957 publicou Dize-me o teu nome, romance que foi premiado pela
Academia Brasileira de Letras ainda recebeu o prêmio Orlando Dantas. Em 1960 começou a trabalhar no Correio da Manhã e a partir daí trabalhou muitos anos como jornalista. Mais tarde, trabalhou dez anos como redatora da Revista Manchete. Filiada ao Partido Comunista Brasileira desde 1965, Heloneida começa a se envolver com as questões sociais e populares e em 1966 assume a presidência do Sindicato das Entidades Culturais Senambra.
Heloneida foi presa durante a Ditadura Militar em 1969. Em 1970 volta a trabalhar para a Revista Manchete. Presa, teve inspiração para escrever dois roteiros: Quero meu filho e Não roubarás. Mais tarde, esses roteiros foram gravados e exibidos pela TV Globo. Helô também escreveu, em 1975, junto com Rose Marie Muraro, a peça Homem não entra, que ficou cinco anos em cartaz e foi pioneira por defender bandeiras relativas ao avanço e promoção das mulheres. Essa peça foi encenada por Cidinha Campos e mereceu destaque em vários jornais internacionais. Foi a primeira peça que proibiu a entrada de homens.
Cidinha Campos, no monólogo Homem não entra
Em 1978 Helô vence a eleição e se elege como deputada estadual, no Rio de Janeiro pelo MDB, com 58 mil votos. Começa sua luta contra a ditadura militar. Em 1982 se candidata novamente, mas não se elege e volta a trabalhar como jornalista, como redatora do Programa Cidinha Livre, na Radio Tupi. Em 1986 volta a se eleger pelo PMDB. Em 1988 vai para o PSDB, mas não se adapta e entra para o PT em 1989, onde se manteve até o final. Durante a Assembléia Constituinte, fez parte do "lobby do batom" onde trabalhou duramente pelos direitos trabalhistas específicos das mulheres, entre os quais a licença-maternidade de 120 dias. O lema do "lobby do batom" era "Constituinte pra valer, tem que ter palavra de mulher".
Em 1990 e 1994 Helô se reelege como deputada estadual. Em 2001 assume como suplente. Em 2002 volta a se reeleger, com 30.000 votos.
Em 2004 se candidata e recebe 16.979 votos, mas não consegue se reeleger pois não atinge o mínimo. Heloneida foi deputada estadual por seis mandatos em sua carreira política. Como legisladora, se destacou por criar muitas leis que beneficiaram as mulheres trabalhadoras. Entre estas, ressaltam-se a Lei 2.649/1996, que garantiu o exame de DNA para mães de baixa renda. Também a Lei 4103/2003 que obriga as unidades públicas e conveniadas de saúde a realizar a cirurgia reconstrutiva de mama em mulheres que sofreram mutilação pelo câncer.
Heloneida dedicou sua vida na luta pelos direitos das mulheres
Em 2005 Heloneida retoma a literatura e publica dois livros na França. Infelizmente, dois anos depois, em 2007, Helô nos deixou, vítima de parada cardíaca.
A mulher que escrevia sobre mulheres
Heloneida escreveu sobre a condição da mulher e seu livro Mulher Objeto de Cama e Mesa (1974), merece destaque . Este livro se transformou em um ícone do feminismo brasileiro. Com sua linguagem ácida, clara e direta, sua leitura nos leva à reflexão sobre a condição da mulher. Foi graças à ele que tive os primeiros insights sobre as desigualdades que as mulheres sofrem. Eu o li pela primeira vez em 1989 e ainda o considero uma leitura atualíssima e imprescindível para quem quer conhecer e estudar as questões femininas.
Trecho do livro: Mulher Objeto de cama e mesa
Também escreveu Mulher, a quem pertence seu corpo? Publicou também Mulheres Brasileiras, obra que a fez ser indicada como uma das cem brasileiras mais importantes do século XX. Em 2005 a Fundação das Mulheres Suiças escolheu mil mulheres para concorrerem ao Prêmio Nobel da Paz. Heloneida estava entre as 52 brasileiras indicadas. Foi uma mulher admirável e pioneira do movimento feminista no Brasil. Em 1975 inaugurou o Centro da Mulher Brasileira - CMB, considerada uma das primeiras entidades de defesa dos direitos das mulheres. Seu legado permanecerá em nossos corações e mentes, e nos inspira a ir em busca de nossos direitos e de nossos sonhos.
REFERÊNCIAS:
Blog Cidinha Campos.In: http://cidinhacampos.com.br/linha-do-tempo/
Acesso em 05/03/2015
CUNHA, C.Uma escritora feminista: fragmentos de uma vida. In:Revista de Estudos Feministas. vol.16 no.1 Florianópolis Jan./Apr. 2008
Biografia da Ex-deputada Heloneida Studart. .In: http://www.alerj.rj.gov.br/common/noticia_corpo.asp?num=23478
Há um tempo trabalho na
educação básica brasileira, antes como professor de Língua Portuguesa, e agora
com outra função. O que me chamou atenção no início é que, por onde passei,
havia uma linda proposta de ensino da nossa língua materna não mais no modo
tradicional-gramatiqueiro e sim com o intuito de levar o aluno a se comunicar
bem através das diversas situações com as quais se deparará na vida (escritas
ou não). A literatura seria, além de estudada, ensinada enquanto tal e não como
suporte às análises sintáticas. Ledo engano. O que vi contrastou as minhas
expectativas.
É por pensar no papel
da literatura na educação das crianças e jovens que venho aqui discutir com
vocês, leitores, estratégias, possibilidades e opiniões acerca desse assunto,
sobre a educação.
Eu sempre concordei com
Edward Said, em Humanismo e Crítica
democrática, quando ele diz que a literatura não possui um uso pragmático,
ou seja, não o torna alguém mais
consciente politicamente, não lhe ensina como viver em sociedade, porém, ela
possibilita ao leitor variados caminhos, como mesmo a conscientização política.
E essas possibilidades que me fazem acreditar no poder do ensino literário nas
escolas. Definitivamente, é preciso formar mais leitores que, por sua vez,
entrarão em contato com os Outros através da palavra e terão a possibilidade de
conhecer mundos e pessoas que lhe eram totalmente estranhos. Esse conhecimento
pode fazer, por exemplo, que haja menos intolerância política, religiosa e quanto
a diversidade sexual, consequentemente, ajudar as pessoas a se conscientizarem
quanto aos seus direitos, deveres e limites. É o que precisamos.
No meu conhecimento de
Brasil, posso afirmar que conheço poucos leitores fora do âmbito acadêmico,
vejo pouco investimento na formação de professores da rede básica de ensino (o
que implica baixos salários, cursos de licenciatura de baixa qualidade ou que
não preparam para a docência efetiva, entre outros aspectos relevantes), bem
como um parco investimento na formação cultural do povo que pouco conhece a sua
própria história (vide cartazes em protestos pedindo a volta da ditadura).
Assim como Edward Said,
não digo que a literatura seria a responsável pela conscientização
sociopolítica, ou o seu ensino seria um ponto de melhoria da educação básica.
Apenas acredito que ela é um dos diversos pontos que necessitam um olhar mais
cuidadoso e um pensar constante no que diz respeito à melhoria da educação
básica desse país. Licenciado em Letras, mestre e doutorando em literatura,
falo do meu lugar. E tenho certeza que profissionais da educação de outras
áreas têm muito a acrescentar nessa discussão pequena, mas sempre necessária:
que cidadãos queremos formar?
Rodrigo Corrêa Machadoé colunista da ContemporARTES desde 2009, quando a revista foi criada. Juntamente com Ana Dietrich é coordenador desse periódico. Ele trabalha com coordenação e orientação pedagógica no Colégio Pedro II, é professor substituto de literatura portuguesa na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), doutorando em Estudos de Literatura pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre em Letras pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e licenciado em Letras por esta mesma instituição.
“Tu não podes descer duas
vezes no mesmo rio, porque novas águas correm sempre sobre ti”, afirmou o
filósofo Heráclito de Éfeso (540 a.C.- 470 a.C.). Com isso inaugurava uma visão
dialética da realidade que tem como princípio fundamental a mudança constante
de todas as coisas.
Há muito se diz que a fotografia congela uma imagem,
eternizando-a. Mas se isso for verdadeiro, Heráclito está enganado e não creio
que ele esteja. Como, então, conciliar a perenidade da imagem com a afirmação
de Heráclito da eterna mudança?
Evidente que não se fala aqui da fotografia enquanto objeto
material, pois ela está sujeita ao tempo e à mudança, sem sombra de dúvida.
Fala-se da imagem que estimula nossa retina e se traduz em nosso cérebro como
visão. A estrutura, os contornos, as cores, os movimentos. As folhas arcadas ao
vento, a água da cachoeira. Tudo ali fixado como se o tempo tivesse parado.
Na verdade, não são impressões de cores, contornos e estruturas
que se fotografa. São sentimentos. Assim como a vida é um estímulo que esculpe
nossos espíritos dando-lhes formas e texturas, as imagens que nosso olhar
recorta no imenso universo são pequenos estímulos que evocam sentimentos de
amor, de paz, de alegria, nostalgia ou gratidão e esses sentimentos é que
desejamos apreender para sempre.
Não é a visão que ser captar, é o olhar. Visão é uma impressão na
retina traduzida no cérebro. Olhar é uma forma especial de se ver. A visão
reproduz a totalidade do estímulo, tenhamos ou não consciência disso. O olhar é
que recorta, traduz, emoldura. A visão é uma conversa com a paisagem, o olhar é
uma conversa com o espírito.
A janela azul na casa pintada de branco, descansando numa
floreira. A menina correndo em um campo de trigo ou o menino descalço sentado
num barranco. Ou ainda o pequeno inseto colorido sobre uma planta. São recortes
que nosso coração faz em função de seus sentimentos. E são aos sentimentos que
essas imagens falam.
Por isso a fotografia tem vida e como vida que é tem movimento.
Está em contínua mudança. Fernando Pessoa, em O Guardador de Rebanhos diz que: "Toda a coisa que vemos, devemos vê-la
sempre pela primeira vez, porque realmente é a primeira vez que a vemos. E
então cada flor amarela é uma nova flor amarela, ainda que seja o que se chama
a mesma de ontem. A gente não é já o mesmo nem a flor é a mesma".
E continua: "o meu olhar é nítido como um girassol. Tenho o costume de andar
pelas estradas olhando para a direita e para a esquerda. E de vez em quando olhando
para trás... E o que vejo a cada momento é aquilo que nunca antes eu tinha
visto.
(...).
Sinto-me nascido a cada momento para a eternidade do mundo".
Referências:
PESSOA, Fernando – Extraído
do livro "Fernando Pessoa - Obra Poética", Cia. José Aguilar
Editora - Rio de Janeiro, 1972.
Texto: Francisco Pucci (adaptação)
Fotos: Izabel Liviski e Nestor Teixeira.
***
Izabel Liviski é fotógrafa e socióloga, doutoranda
pela UFPR, e tem convicção absoluta que adora o mar.