quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Ocupar e resistir – Lições de Setembro

Coluna Francisco Oliveira
“Quem não luta por seus direitos não é digno deles” Rui Barbosa
Para a maioria das pessoas, o dia 13 de Setembro de 2007 é apenas mais uma data no calendário do passado. Mas, para alguns estudantes da Fundação Santo André, em Santo André, São Paulo, essa data é muito especial, pois marcou a mudança nos rumos da instituição.
Tudo começou por volta do dia 10 de Setembro quando a reitoria da Fundação emitiu uma circular anunciando os reajustes das mensalidades para o ano de 2008. No documento, apareciam valores completamente abusivos. Por exemplo, cursos como Geografia chegariam à casa dos 800 reais; o que inviabilizaria a formação de novas turmas de 1º ano.
Após este fato, estudantes de alguns cursos começaram a se mobilizar para tomar providências. Foi marcada para o dia 13 de Setembro uma grande Assembléia, na qual se decidiria a grande ação a ser realizada.
Na data combinada, um bom número de estudantes reuniu-se no pátio do colégio da Fundação Santo André para as votações da Assembléia. A primeira ação proposta e aceita foi a imediata transferência do local da Assembléia para frente da casa-sede da reitoria, que ficava a alguns metros do local do início da mobilização.
Chegando ao local do ocorrido houve um clima que já indicava para uma ocupação da reitoria. Na verdade, a transferência da Assembléia para casa-sede da reitoria era um pretexto para realizar a ocupação.
À base de muita força e com um certo “atropelo” a ocupação realizou-se sem que houvesse resistência da parte dos seguranças, que estavam em minoria absoluta em relação aos estudantes. Por medida de prevenção, as câmeras de vigilância foram quebradas, assim como as portas. De resto, perseverou a intenção de se manter tudo na ordem; justamente para não dar argumento à reitoria.
Com a ocupação consolidada, os alunos presentes (entre os quais este articulista) tratavam de organizar comissões que iriam fazer a ocupação funcionar. As comissões ficaram responsáveis por cuidarem da alimentação, segurança, comunicação e negociação do movimento. Cada comissão reuniu-se em separado para tomar suas medidas, que seriam anunciadas mais tarde na Assembléia Geral da ocupação.
Terminadas estas reuniões, os membros da ocupação tomaram conhecimento da vinda da polícia no campus e começaram a retirar mesas e cadeiras do prédio para formarem barricadas na entrada da casa–sede. Os membros da comissão de negociação dirigiram-se até a frente das barricadas para esperarem a vinda dos policiais.
Por volta da meia-noite, quando alguns alunos estavam nos jardins da reitoria, a polícia lançou uma bomba por baixo de um minúsculo buraco de uma das barricadas. O temor foi geral e a correria iniciou-se. Os policiais, munidos de escudos e cassetetes e SEM MANDADO, romperam as barricadas e adentraram o local da ocupação. Alguns alunos conseguiram escapar pulando os muros que davam em residências vizinhas. Outros, porém, não tiveram a mesma sorte e ficaram encurralados. Foram agredidos pela polícia nos jardins e corredores da reitoria. Foram horas e minutos de um clima que remeteu aos anos de chumbo da ditadura, que muitos ali só conheciam pelos livros universitários.
Os estudantes que conseguiram escapar da violência policial tiveram como única alternativa ir para as ruas ao redor da Universidade e presenciar, de longe, – sem nada poder fazer – a prisão de oito colegas. Estar nas ruas não significou alívio para estes estudantes, uma vez que foram cercados pela polícia.
Unidos, os estudantes decidiram caminhar até a delegacia para prestar solidariedade aos colegas presos. Uma viatura acompanhou o trajeto desses estudantes, obrigando-os – de quando em quando – a levantarem as mãos como se fossem ladrões.
Chegando na entrada da delegacia, repórteres e câmeras da grande imprensa corriam atrás do grupo de estudantes em busca de entrevistas. Alguns estudantes mostraram para a imprensa as marcas da violência policial, eram hematomas nas costas e nas pernas, ferimentos na cabeça e outros tipos de violência que as câmeras não poderiam captar.
Passada a convulsão midiática, os alunos se sentaram em uma calçada na frente da reitoria, a espera da libertação dos colegas presos, que eram aplaudidos quando apareciam pela janela ou eram levados pra fora para irem ao banheiro.
A espera durou até a manhã do dia seguinte, quando alguns alunos voltaram para a Universidade para relatar o que houve e participar da reunião dos professores que, naquele momento, já sabiam o que havia acontecido naquela tenebrosa madrugada de Setembro.
Depois disso, os alunos decidiram por uma paralisação de 50 dias, visando a queda do reitor Odair Bermelho, que vinha abusando do poder desde 2004. Todavia, em uma reunião no fórum João Mendes (na cidade de São Paulo) deliberou-se que o reitor seguiria no cargo. Isso até Março do ano seguinte, quando novas denúncias (dessa vez de adulteração de notas fiscais) levaram à deposição de Odair Bermelho da reitoria da Fundação Santo André.
Essa noticia marcou a vitória de alunos que relembraram uma lição que os dias de hoje quase sempre esquecem: a luta como única forma de se conquistar os direitos fundamentais do homem, entre os quais o acesso à educação.

Abraços a todos

Até a próxima.

Mais informações sobre a ocupação da reitoria da FSA e da deposição da reitoria da Fundação Santo André podem ser vistas nos sites:






Francisco Oliveira escreve quinzenalmente às quartas-feiras no blog ContemporARTES.

Observação: a Coordenação do blog não se responsabiliza por idéias e ideais apresentados nos textos assinados.

8 comentários:

Anônimo disse...

Fotos fortes. E isso, em pleno séc.XXI

9 de setembro de 2009 11:15
Anônimo disse...

Nossa....muito bacana,inclusive minha prima comentou isso também.

infelizmente a tropa de choque só existe pra isso

9 de setembro de 2009 12:59
Augusto disse...

Mio Dio! De novo a foto do baixinho querendo aparecer de vítima frente a PM!

9 de setembro de 2009 17:13
Anônimo disse...

Lutar pelos direitos implica em depredar a universidade? É muita ingenuidade de quem faz merda achar que vai aparecer sempre como coitadinho. Só nesse texto ficam claros alguns pontos:
1) Quebraram câmeras de segurança; isso só demonstra que já sabiam que iam fazer coisas que mamãe não aprovaria
2) Fizeram barricadas com carteiras; confissão explícita de ilegalidade
Na boa. Pode-se reinvindicar de diversas maneiras hoje em dia. Os alunos da Fundação escolheram o caminho mais imbecil. No final ficou claro que não deu certo.

9 de setembro de 2009 20:36
Edson Bueno de Camargo disse...

Boa lembraça, e para o anônimo que tem medinho de estudantes, os atos de rebeldia sempre são "ilegais diante da tirania".

9 de setembro de 2009 20:59
Anônimo disse...

Ao anomino que disse que não deu certo.

O reitor não está mais lá.

É muito fácil falar que tem outros jeitos de protestar, até porque quem fala isso não protesta. Prefere ficar assinando papelzinho.

E outra: temos como provar que a não quebramos quase nada.

Abraços

Francisco

9 de setembro de 2009 21:16
Isabel disse...

Nossa!!! Que absurdo... Eu acredito que a mairoria dos brasileios são pessoas omissas, porém aqui vcs exerceram um direito e foram punidos por isso, é revoltante!!!

10 de setembro de 2009 13:52
Fogo disse...

Primeiro, muito bom seu artigo Chicão!!!Parabéns!!!! Segundo, para o Anônimo, como já foi dito a ilegalidade está sempre a favor da tirania, temos vários exemplos todos os dias, mensalão (impunidade), Sarney (impunidade), Maluf (impunidade). Agora veja a ditadura matou e torturou centenas de brasileiros, e a surpresa, até hoje seus assinos e torturadores não foram condenados. Nossa primeira ocupação durou cerca de 3 horas e foi violentamente reprimida. E por que??? Por não aceitarmos corruptos na reitoria, por não aceitarmos aumentos de 200% nas mensalidades, por não querermos ver a FSA ser jogada no lixo, ela que é uma das mais importantes instituições do ABC pauilista, que forma todos os anos centenas de professores para as escolas da região e que darão aulas para nossos filhos, amigos vizinhos, aliás, talvez um deles tenha até te dado aula. Bom, quando nos levantamos depois de recorrer a muitos outros métodos e não sermos sequer ouvidos, fomos espancados e presos. Mas, saímos sim, vitoriosos!!! Apesar do que você disse, tudo isso se mostrou eficaz, afinal, derrubamos um reitor corrupto, derrubamos uma empresa de cobrança safada, reabrimos os cursos que haviam sido fechados pela reitoria, e o principal, estivemos unidos!!!! E isto meu colega nem eu, nem o Chicão, nem os professores e alunos que lá estiveram esquecerão.

Abraços,

Fogo - FSA

11 de setembro de 2009 14:31

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