quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Bailarinas buarquianas

Coluna Ana Dietrich

Hoje apresento a crônica elaborada por Iraci Harich Redivo sobre a música Bailarina, de Chico Buarque. O texto foi elaborado como trabalho final do curso Palavra Cantada I – uma visão da Oralidade da canção, ministrado por mim e Cícero Barbosa Jr. em maio na Casa da Palavra, em Santo André (SP). Cada aluno deveria escolher a canção que mais representasse sua vida e analisá-la.
Lembro a todos que o módulo 3 do mesmo curso – Palavra Cantada – A mulher e a canção - está acontecendo agora. As próximas aulas estão agendadas para 15, 17, 22 e 24 de outubro. Quintas-feiras às 19h30 e sábado às 10h. Gratuito/ com direito a certificado.


Em cena no ballet da vida
Por Iraci Harich Redivo

CIRANDA DA BAILARINA - Interpretada por Adriana Calcanhotto
(Chico Buarque / Edu Lobo)

Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina
E tem piriri, tem lombriga,
tem ameba
Só a bailarina que não tem

E não tem coceira
Verruga nem frieira
Nem falta de maneira ela não tem

Futucando bem
Todo mundo tem piolho
Ou tem cheiro de creolina
Todo mundo tem
um irmão meio zarolho
Só a bailarina que não tem

Nem unha encardida
Nem dente com comida
Nem casca de ferida ela não tem

Não livra ninguém
Todo mundo tem remela
Quando acorda as seis da matina
Teve escarlatina
ou tem febre amarela
Só a bailarina que não tem




Medo de subir, gente
Medo de cair, gente
Medo de vertigem
Quem não tem

Confessando bem
Todo mundo faz pecado
Logo assim que a missa termina
Todo mundo tem
um primeiro namorado
Só a bailarina que não tem

Sujo atrás da orelha
Bigode de groselha
Calcinha um pouco velha
Ela não tem

O padre também
Pode até ficar vermelho
Se o vento levanta a batina
Reparando bem,
todo mundo tem pentelho
Só a bailarina que não tem

Sala sem mobília
Goteira na vasilha
Problema na família
Quem não tem

Procurando bem
Todo mundo tem...








(http://vagalume.uol.com.br/adriana-calcanhoto/ciranda-da-bailarina.html)

Quando vi a cantora Adriana Calcanhoto na TV, fiquei surpresa com seu visual tranqüilo, mas contraditório. Seus cabelos descoloridos e bem curtos traziam uma imagem de rebeldia contida. Foi assim que passei a ouvir suas músicas e descobri em sua voz melodiosa um aconchego que me remetia à infância, pois as músicas ouvidas por meus pais pareciam com as cantadas por ela.

Dessa forma Calcanhotto passou a ser uma escolha pessoal no que se refere à preferência musical. Gosto de sua voz, dos arranjos que ela apresenta em suas músicas e das regravações que traz em seu repertório. Assim conheci a música “Ciranda da Bailarina”, por ser fã da intérprete.

Sempre fui exigente demais comigo mesma, deixando de executar certas tarefas por achar que não conseguiria fazer bem feito. Deixei de participar de muitos momentos em minha vida por não acreditar em mim mesma, ou seja, perdi oportunidades por não me achar boa o bastante. Até que eu comecei a observar ao meu redor e descobri que todos cometem erros ou são passiveis de falhas e nem por isso deixam de executar tarefas. Havia um ditado presente em minha vida: “Dois pesos e duas medidas”. Ao avaliar o trabalho dos outros eu me encantava com as proezas e os resultados, no entanto ao avaliar o meu trabalho eu via só os defeitos e as imperfeições.

Para os outros as qualidades eram medidas com penas confeccionadas em ouro e os defeitos eram avaliados com plumas originais de aves. Comigo mesma era o oposto: meus defeitos eram avaliados com penas de ouro e as qualidades com plumas de aves.

Um certo dia decidi que deveria me aventurar, descobri que estava vendo as coisas de forma errada, que estava equivocada e passei a observar que todos tem defeitos e nem por isso deixam de agir e participar da vida. Passei a ver que nem todos são estereótipos (s. m. 1. Patol. Comportamento, palavras caracterizadas pela repetição automática dum modelo anterior, anônimo ou impessoal, e desprovidas de originalidade e da adaptação à situação presente.) de perfeição. Assim como a bailarina, ao descer do palco - têm calos, dores, ficam doentes, vão ao banheiro, estão sujeitos a ter piolho e até um irmão meio “zarolho”. A bailarina não é bailarina quando acorda, ela assume esse papel durante o dia, mesmo que seja minutos após abrir os olhos pela manhã. Ser bailarina é opção. Ser atuante, apesar das falhas, é necessário. A bailarina só chegou aonde chegou por ter confiança em si e vencer os seus limites. Só se descobre quais são os limites ao se lançar para a vida, ao se aceitar os desafios.

Essa música passou a ser importante, pois ao ouvir, descobri que não sou a única a idealizar um estereótipo. Mais tarde fazendo pesquisas sobre essa música e as condições de sua composição me surpreendi ao ver que essa foi exatamente a intenção dos compositores, mostrar que até mesmo a bailarina é um “ser humano”, livre da perfeição idealizada.

Em minha fase atual de vida, me permito errar, mas me obrigo a corrigir meus erros, me orgulho quando executo alguma tarefa, mesmo que o resultado não tenha sido o esperado, pois sei que me empenhei e que ainda é possível melhorar. Estou longe de ser perfeita, mas não paro de aprender.

PARA SABER MAIS
Ciranda da Bailarina: (Chico Buarque – Edu Lobo-1982)
“A canção foi composta para o espetáculo “O Grande Circo Místico, que estreou em 1982. Tornar-se-ia uma referência às bailarinas, decodificando o lado humano dessas mulheres. Jamais tocada na rádio, adquiriu fama nos bastidores da MPB, talvez por trazer a ironia lúdica e onírica desse universo, interpretada por uns coros infantis, compostos por Bebel, Lelê, Luiza, Mariana, Silvinha, Bernardo, Cristiano e Kiko, criando um clima malicioso de uma ciranda antiga. A bailarina é o símbolo da perfeição e da beleza, toda mulher sonha em ser uma, daí a ironia dos versos de Chico Buarque, transformando-a em uma estatua, sem as imperfeições humanas a deflorar-lhe a pele, o semblante, o mito. Nada atinge a bailarina na sua beleza plástica. “

Iraci Harich Redivo é licenciada em Matemática pela Uniabc e atualmente leciona na REDE.
iracihr@hotmail.com

Foto: curso Palavra Cantada I – Casa da Palavra – Santo André – SP, maio 2009

4 comentários:

Anônimo disse...

Puxa...espero conseguir expressar em poucas palavras a admiração que tenho por esta grande mulher, que é minha amiga Iraci. Só uma mulher de alma grandiosa chega a conclusão que não é perfeita. As vezes, passamos grande parte de nossas vidas nos cobrando, e querendo ser admirados e queridos por todos, e se esquecemos de nós mesmos. Fico muito feliz em saber que a Iraci percebeu que ela é muito mais "perfeita" que muitos outros hehehehe fera em matemática,mãe e vó.....e ainda professora.....Iraci, vc é perfeita....beijocas da sua amiga que esta muuuuito orgulhosa de vc.... Ana Paula

14 de outubro de 2009 14:12
Anônimo disse...

Seja super bem-vinda, Iraci! Se tem defeitos, não estão aqui. Obrigada por escrever e colaborar com o blog e, principalmente, seus leitores. Com carinho, muiiiito obrigada.Rosana Banharoli

14 de outubro de 2009 14:21
Anônimo disse...

Obrigada Ana Paula, pelas coisas lindas q me disse.

Obrigada Rosana, pela saudação carinhosa.

Iraci

18 de outubro de 2009 22:18
Anônimo disse...

Irací! Parabéns! Pela qualidade do texto, pela escolha da música, pela admiração à cantora - e aos compositores que eu sei que você gosta também - mas, principalmente, parabéns pela maneira como você conseguiu se expor, afinal, sabemos que nem sempre é tranquilo se mostrar perante os outros. E você conseguiu fazer isso compartilhando conosco de um jeito tão simples, seguro e confiante que nos leva a crer que você é uma pessoa tão perfeita que até defeitos você tem...rs. Continue compartilhando conosco seus talentos! Parabéns mesmo, de coração! Beijo, Humberto (Pai).

28 de outubro de 2009 23:16

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