sexta-feira, 16 de outubro de 2009

O Ipê

Coluna As Horas

O dia está quente, estou sentado à sombra de uma árvore de flores amarelas, observando onde ela está. As pessoas passam por mim, algumas olham com bondade, outros com ar superior e outros são indiferentes.

Hoje isso não importa.

Durante um bom tempo, odiei todos esses seres, mas foi, um, ou melhor, uma dessas pessoas fez com que mudasse de opinião. Não sobre todos, somente sobre alguns.

Seu nome, Ana, sua idade, não sei, mas sei que em alguns momentos era extremamente jovem e feliz, em outros triste e agia como se não sentisse vontade de viver, sempre que a via assim me entristecia.

Morávamos numa casa pequena, mas suficiente já que poucas pessoas nos visitavam, eram ele: Raquel sua amiga, sua irmã Kelly e com o tempo Jorge. Sendo que Kelly quando aparecia entrava sorrindo e sempre saía chorando, eu assistia a tudo quieto. Raquel é uma pessoa agradável, possui gestos um tanto brutos, voz rouca e potente.

Ana... ... ... ... ... ... ...

O vento sopra e as folhas cobrem a terra como um belo tapete marrom que quando pisamos faz um barulho gostoso, que dá vontade de pisar em todas. O Sol aparece embora fraco está gostoso, não está exatamente quente, está morno; o vento... com ele vem à lembrança de quando passeávamos no parque sem pressa.

Ana e seu sorriso. Ana e seus olhos. Os mais tristes que. Já vi e também os mais bonitos, eram de um preto intenso, como um poço que não se pode ver o fundo, seus gestos eram delicados, suaves e precisos. Quando se vestia de preto sua tristeza e desapontamento com o mundo se tornavam evidentes, quase se podia tocá-los. Nunca soube ao certo a cor de seus cabelos; pois estava sempre a mudá-los. Com Ed eram pretos, com Rubens castanhos, Daniel ruiva, com Faria Loura. Ahhhhh ... os homens em sua vida passavam como nuvens ao vento, alguns duraram uma, duas no máximo três estações, alguns nem meia. Isso sempre me aborreceu , porque sempre soube que o que Ana tanto buscava estava perto, muito perto e só ela não percebeu... ... ...

Minha árvore está completamente sem folhas e os dias de Sol são raros, quando este aparece é como um Sol falso que brilha mas não aquece.

Nos conhecemos num dia como este, cinza, lembro de sua expressão curiosa e confusa, quando percebeu q a seguia, quanto a mim não sei qual minha expressão... ... ... tudo que sei é que nos demos bem desde o início... . ...

Acho que só éramos felizes quando estávamos sozinhos, só eu e ela, sem mais ninguém por perto... Ana disse diversas vezes que somente eu a entendia e sabia que poderia contar comigo sempre, por isso jurei a mim mesmo que jamais a abandonaria e não poderia mesmo que quisesse, a amo demais para isso.

Raramente ficava brava comigo e quando acontecia eu nem sempre entendia o motivo, mas ficava quieto e até achava engraçado como dizia meu nome “Frank, Frank, você não tem jeito...!” sua raiva pouco ou nada duravam logo vinha com um sorriso ... ... ...

Ana adorava música e ouvia de tudo, só dependia de seu humor. Às vezes ouvi uma música barulhenta (confesso que gosto de algumas),o com que ela chamava de guitarras, baterias e pessoas que na maioria das vezes agiam como loucos, pulando e quebrando coisas. Outras vezes ouvia canções de um homem negro, magro, com trancinhas, não sei seu nome, suas músicas tem um ritmo agradável, é algo que se pode dançar (dançávamos diversas vezes, mas sempre fui péssimo dançarino) ou somente ouvir tranqüilamente sem pensar em mais nada... ... ...

Nunca pude entender porque Ana era tão só, se tratava todos bem, até os que não mereciam. Poucas vezes vi alterar o tom de sua voz e para fazê-lo era preciso ser algo muito grave.

Também nunca pude entender porque o mundo, às pessoas a tratava mal e lhes eram indiferentes, por diversas vezes tentou se enturmar, se adaptar; mas em vão então se isolou. À tarde ia espiar a rua pela janela, mas não observava as pessoas e sim o céu; Ana dizia que as pessoas, ao menos a grande maioria delas, estavam fechadas em si mesmas e não conseguiam mais observar as coisas que realmente importam e valem à pena; como o céu azul que surge depois de um temporal, ouvir o barulho da chuva caindo no telhado, ver um pôr - do -sol, perderam a capacidade de ver que aquele a seu lado precisa de ajuda, sendo que na maioria das vezes uma palavra,um sorriso, o menor dos gestos basta. Que as pessoas se fecham cada vez mais em seus mundos, tentando quem sabe se proteger de tudo e todos. Durante certo tempo me perguntei se Ana não estava fazendo isso, hoje sei apenas se escondia das pessoas que muito a maltrataram, sem que ela pudesse se defender, não deixaram! Não lhe deram chance!!!

Sempre soube que as pessoas são cruéis e impiedosas e através de tudo que passou tudo o que vi e vejo; constatei, confesso que com certo pesar por aqueles que se salvam, que o mundo, a humanidade é desumana e destroem, esmagam aqueles que são diferentes, que enxergam tudo de um modo diferente e que por isso não seguem suas leis, suas rígidas leis... Ana era um desses... ... ... ...


As flores desabrocham aqui tudo está colorido e quase feliz, o céu está limpo e o Sol voltou a brilhar. Sinto-me cansado.

Lembro quando recebi indiretamente a notícia, não pude acreditar... o pior é não queriam me levar para vê-la uma última vez... ... ...


Então fugi, quando cheguei todos lançaram olhares surpresos e eu fingi não notar, me aproximei e fiquei a seu lado até o último instante, enquanto permaneci ali, vi as pessoas que sempre caçoaram e a destrataram pelas costas ali, aquilo foi o cúmulo para mim, o cúmulo da hipocrisia, quis fazer algo, mas sabia que Ana jamais me perdoaria então me contive e fiquei em meu lugar...

As pessoas a acompanharam e após certo tempo, só quatro seres permaneceram ali, seres realmente sentiram sua perda; Raquel, Eu, Kelly (só um pouco) e Jorge que sempre estava por perto e que Ana por muito tempo o quisera como amigo e quando passou a vê-lo de outra forma, veio o golpe final... e ali ainda parados me perguntei onde estaria, por onde andava o Deus que Ana acreditava se ele é realmente tão bom como dizia, como pôde deixar que sua vida se fosse como foi!? E o pior além de indiferente com os que crêem é cruel, com os homens, pois Ana finalmente estava feliz, pela primeira vez na vida e foi privada disso.

Ana dizia que as pessoas precisam acreditar em algo, mesmo que não vejam e certa vez, vendo minha expressão confusa disse: “você não vê o ar, mas sabe que ele está aí, em toda parte, você não o vê e não pode tocá-lo, mas sabe que existe”; isso me comoveu e fez com que pensasse, mas não entendi e não entendo, talvez porque não precise disso... ... ...

O Sol brilha forte, está bem quente hoje, mas estou à sombra, daqui vejo onde Ana está a pouco Raquel trouxe margaridas, as prediletas de Ana. Jorge vinha constantemente e no começo tentava me levar com ele, mas prefiro ficar aqui... ... outro dia o vi acompanhado na cidade, fiquei feliz e triste ao mesmo tempo, pois sabia que não voltaria a vê-lo aqui, mas por outro lado será feliz... ao menos ele... acho que irá esquecê-la... os humanos esquecem tudo tão depressa.

Kelly poucas vezes esteve aqui e da última vez tentou me levar à força, resisti como pude, então ela me chamou de tolo, imbecil, disse que sou um sonhador como Ana, que somente eu para preferir ficar aqui no vento, na noite, no sol... fiquei quieto, pois sei que existem coisas que determinadas pessoas não podem entender; o que é a verdadeira amizade e o valor de uma promessa.
Raquel sempre me vê seus olhos castanhos enchem-se de lágrimas me faz um afago e vai embora. Mas não sem antes dizer Frank... Frank... sorri eu retribuo, pois sei que ela vai voltar. Está cada vez mais velha e mesmo com seus passos lentos continua a vir... ... ... ... sei que ela me entende... ... ...

A manhã está muito quente, os pardais brincam por toda parte fazendo grande algazarra, isso acontece todos os dias, é o que alegra meus dias, desde o dia em que vim parar aqui, o mais triste da minha existência. Não sei quanto tempo faz... pois os homens medem o tempo numa folha com números que chamam calendário e com relógios que contam as horas, os minutos, segundos, o que torna tudo complicado e rápido. Enquanto nós medimos o tempo pelo que vivemos, uma vez os números não nos importam, eles não sentem, não ouvem, não vivem só contam se somam se dividem, se multiplicam e se diminuem.

Ana ganhou meu respeito e admiração, não porque me acolheu e cuidou de mim (muitos outros também fizeram), mas porque contrariando a grande maioria sempre se preocupou e tentava ajudar, do menor ao maior ser, mesmo aqueles que se achando mais importantes, os tidos como racionais que matam uns aos outros sem motivo, que abandonam seus filhos... Ana os ajudava mesmo como pouco que tinha, com o pouco q recebia por seus contos, mesmo quando faziam troça chamando-a de louca sonhadora...

Está anoitecendo rápido hoje... ... ... sinto-me tão cansado e sem forças... agora vejo o Sol intenso, olho para onde Ana está... o que houve está anoitecendo novamente? ... mas essa noite é diferente... o céu é escuro como os olhos dela e sem estrelas... ouço sua voz distante, mas ouço... como é gostosa sua voz... ... ... ... ... ... ... ...





Giliane escreve todas as sextas-feiras no Contemporartes
rockgirl611@hotmail.com

1 comentários:

* Karen * disse...

Esta coluna, ótima reflexão para todas as sextas-feiras...

Ah, esse delicioso caminhar sobre folhas secas, pensamentos e algum alívio para os males. Necessário.

Abraço!

16 de outubro de 2009 19:46

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