quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Fotografia e Subjetividade (1a parte)


“Os turistas apressados”- Otto Steinert (1950)

O tema que estou propondo hoje como uma pequena reflexão sobre fotografia e subjetividade, tem o enfoque nas pesquisas dentro da área de sociologia da imagem, que é ainda uma ciência nascente, com seu corpus teórico sendo elaborado, com seus limites ainda sendo fixados.

Fotografia e subjetividade se constitui em uma relação bastante pertinente que tem uma atualidade em função de que nos últimos anos, na academia e fora dela começou-se a pensar a fotografia, não somente fazer, o ato de fotografar, e sim diante dessa multiplicidade de imagens que inundam o planeta, começar a pensar seus significados: o significado do fotografar em si e principalmente o pensar as imagens resultantes dessa ação.

Pois nós permanecemos ainda presos dentro da caverna de Platão, nos deleitando com meras imagens da realidade, nos
constituindo como uma "civilização da imagem", sendo alvos voluntários ou involuntários do bombardeio contínuo de informações visuais.

Desde o início da fotografia em 1839, quase tudo tem sido fotografado, pois há uma verdadeira insaciedade, uma avidez do olho que fotografa e que modifica o próprio confinamento dentro da caverna, isto é, o nosso mundo.

A fotografia trouxe um novo código visual, e assim transformou as noções do que vale a pena olhar, e o que efetivamente devemos observar. Ela se constitui mesmo em uma gramática, e talvez até mesmo em uma ética do ver. Dentre os equipamentos do mundo moderno, ela é um dos objetos mais misteriosos e que possui uma magia sedutora da qual poucos escapam, pois consiste na captação de experiências, sendo a câmera seu instrumento.

O ato de fotografar é uma apropriação da coisa fotografada, um envolvimento com o mundo que se parece com o conhecimento, e por conseqüência com o poder. Inunda o planeta em papel e nos computadores.

Ela pode ser reduzida, ampliada, cortada, retocada, consertada e distorcida. A foto no papel também envelhece pela ação química, e pelo passar do tempo, desaparece, é valorizada, é comprada, é vendida, é reproduzida aos milhares, é colecionada.

É pregada em álbuns, emoldurada, colocada sobre mesas, presa a paredes, projetadas em datashow. É exibida em jornais e revistas, em outdoors. É codificada pela polícia, exposta em museus e salas de exposição, impressa em livros, tornando-se a imagem da imagem.

Quanto às funções sociais desempenhadas pela fotografia, elas foram desde o início assimiladas como rito social e instrumento de poder. Há mais de um século, a fotografia tornou-se parte da cerimônia do casamento, compondo a encenação do ritual, e também fazendo parte da vida familiar. Através da fotografia, cada família constrói uma crônica, um retrato de si mesma.

Ela pode funcionar também como um instrumento de poder: quem tem uma câmera se transforma em uma pessoa ativa, num voyeur, em alguém que conseguiu dominar a situação.

Há ainda aqueles que consideram a câmera fotográfica um elemento fálico ou uma sublimação do revólver. Assim, carros, revólveres e máquinas fotográficas estariam na categoria de máquinas-fantasia.

Quando do seu surgimento, a fotografia foi considerada documento do real, registro, denúncia, comprovação de algo que aconteceu. Realmente desde os seus primórdios ela foi utilizada politicamente. Há o episódio famoso da policia de Paris que perseguiu e prendeu os participantes da Comuna de Paris em junho de 1871, que inocentemente haviam posado para fotografias em suas barricadas.

Demorou algum tempo para que a fotografia deixasse de ser meramente um documento do real e passasse a ser considerada além de evidência, também uma construção. Assim, a sociologia da imagem hoje considera a composição fotográfica também como uma construção imaginária, tanto por parte de quem fotografa como de quem é fotografado.

Apesar do pressuposto de veracidade que confere autoridade à fotografia, a obra que o fotógrafo realiza não constitui exceção genérica ao comércio, às vezes sombrio entre arte e verdade. Ainda que se preocupe a fundo em espelhar a realidade, o fotógrafo se vê perseguido por tácitas imposições de gosto e consciência. O fotógrafo tem várias opções de composição e técnicas e impõem a seus temas constantes padrões.



Izabel Liviski, Mestre em Sociologia na linha de Imagem e Conhecimento pela UFPR e consultora da Contemporâneos, escreve quinzenalmente às 5as. no ContemporARTES.

amsterdan2001@gmail.com

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