quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Fotografia e Subjetividade (2a parte)


Como o fotógrafo constrói sua imagem? De diversas formas, no aspecto técnico por exemplo, é conhecida a forma de fotografar de um ângulo baixo ou alto, conhecidas como “a visão do réptil” e a “visão do pássaro”, conferindo ao objeto fotografado poder ou submissão. Também na composição da cena, no recorte que faz, no que inclui e exclui do seu campo de visão para ser registrado pela câmera. Recorte é inclusive uma palavra que ajuda a compreender o ato do fotógrafo ao "apropriar-se da realidade".

Existe uma construção, uma ficção também por parte da pessoa que é fotografada. O retrato do inicio do século XX é, como sublinha o historiador Peter Burke, um processo no qual o artista e o modelo geralmente se faziam cúmplices e as imagens, eram “negociadas”.

O próprio fotografado, em muitas circunstâncias é um poderoso coadjuvante do ato fotográfico e, portanto, o real é a forma objetiva de como a ficção subjetiva do fotografado interfere na composição e no dar-se a ver para a concretização do ato fotográfico.

Ou seja, existe um código de visualidade dos fotografados, como observam alguns pesquisadores de campo, especialmente sociólogos e antropólogos, que se surpreendem ao perceber que pessoas humildes, camponeses etc. não se deixam fotografar “ao natural”, mas fazem pose, se aprumam, se vestem “apropriadamente” para posar, usando um equipamento de identificação (vestuário, maquiagem) especifico e diverso do equipamento cotidiano.

Assim a fotografia é muito mais um documento impregnado de fantasia, tanto do fotógrafo, quanto do fotografado, quanto daquele que vê a fotografia, ela é muito mais um produto do imaginário social, de uma ficção, da interferência de subjetividades.

Quanto à leitura da imagem fotográfica, surgem novas questões. A fotografia é polissêmica, ou seja, permite várias interpretações. Apesar de seu potencial em captar os múltiplos planos da realidade visível, inclusive alguns mais “abstratos”, a fotografia isolada, por mais rica em aspectos visuais e simbólicos que possua, dificilmente consegue propor uma explicação ou uma interpretação por si mesma.

O “olhar” do pesquisador é que vai identificar nela uma problemática, ou significado. Assim, a fotografia se constitui como uma interpretação do mundo, da mesma maneira que a pintura ou o desenho.

Fotografar e "ler" fotografias podem ser vistas como atos participantes de um jogo de espelhos, pois, são múltiplas as implicações entre quem fotografa e o objeto fotografado e vice-versa, gerando esquemas interpretativos dos mais variados.
A fotografia, portanto, não se limita ao registro documental, mas através da intervenção pessoal, subjetiva do observador torna-se muito mais do que um registro realista ou uma mensagem codificada.
A imagem, sem dúvida, pode captar a experiência, podendo, ela mesma gerar experiências; pode-se dizer que ela "produz subjetividade", manifestando-se como uma experiência do olhar.
A produção de uma fotografia subjetiva ou autoral, nem sempre depende de como o seu autor a projetou ou o que pensou antes de executá-la, ou se o que nela se lê tem ou não alguma semelhança ou diferença com as intenções do seu autor. O que interessa na verdade, é aquilo que expressa sua natureza como sendo a de uma relação social, o que é primordialmente coletivo no sujeito individual que realiza a obra.

Ao fazê-la, o fotógrafo não toma decisões que são absolutamente desconectadas de um movimento histórico em que se insere e nem a obra tem uma independência absoluta com a história da arte e da sociedade.

Nessa perspectiva é que podemos observar o movimento artístico denominado fotografia subjetiva (subjektive Fotografie) criada pelos fotógrafos alemães do pós-guerra, em oposição à representação objetiva da realidade, tratando da averiguação do significado e interpretação individual da imagem.

O projeto teve três exposições organizadas entre 1951 e 1958, que apresentavam fotografias de aspecto gráfico com contrastes em preto e branco. Os meios de expressão utilizados foram as cópias contrastadas, as estruturas abstratas, as situações de efeito surrealista, as cópias em negativo e as solarizações.

A fotografia subjetiva foi um estilo inovador que retornou à arte fotográfica na Alemanha, em grande parte graças aos esforços do médico que virou fotógrafo Otto Steinert (1915-1978), fundador do movimento de Fotografia Subjetiva. Ao invés de explorar realidades externas, os fotógrafos subjetivos investigavam as complexidades do estado individual.

Eles mantiveram muitas das técnicas experimentais praticado pela Escola Bauhaus dos anos 20, mas investiram em um estilo mais sombrio, mais ousado exemplificado pela desorientação e obras expressionistas, como essa visão alucinatória na fotografia abaixo, em que silhuetas de figuras se deslocam rapidamente através de uma paisagem sombria e urbana que evoca o mundo dos sonhos do subconsciente.

“Call”- Otto Steinert (1950)

Referências:
Sontag, Susan- Sobre a fotografia
Martins, José de Souza- Sociologia da Imagem e da fotografia.





Izabel Liviski, Mestre em Sociologia na linha de Imagem e Conhecimento pela UFPR e consultora da Contemporâneos, escreve quinzenalmente às 3as. no ContemporARTES.

amsterdan2001@gmail.com

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