sábado, 28 de novembro de 2009

O imaginário Hippie e a Contracultura dos anos 60 – a contribuição de Hair (IV Parte)

por Larissa Geórgia Bráulio Moura /Talita Sauer Medeiros

O personagem principal do filme Hair Claude representa os jovens conservadores dos Estados Unidos que dotados de um ideal de patriotismo, saem em defesa da América diante de um estado de guerra. Em Nova York, ao passar a conviver com os jovens hippies, Claude se apaixona por Sheila, moça de família rica que apesar do comportamento esnobe se sente atraída pelo ideal de liberdade e libertinagem proporcionado pelo convívio que passa a ter com o grupo de Berger. Os questionamentos levantados por Berguer e seus amigos fazem Claude ver o outro lado da Guerra do Vietnã, mas não fazem, contudo, desistir de lutar pela pátria.

George Berger também pode ser considerado um dos protagonistas do filme, já que a história gira em torno do relacionamento construído entre ele e Claude, em que ambos buscam defender seus pontos de vista, tentando convencer um ao outro sobre os ideais que cada um defendia. A ação gira em torno desses dois personagens que possuem necessidades dramáticas opostas o que gera a trama do filme. Claude julga ser seu dever ir para a guerra e Berger tenta dissuadi-lo. Durante todo o filme eles se mostram amigos, porém, em alguns momentos, parecem rivalizar quanto ao amor de Sheila.

Berger é o líder do grupo de hippies e o principal representante do ideal de liberdade pregado pela sua geração, sendo no filme o exemplo contra as convenções familiares, o patriotismo, e as tradições de uma sociedade ligada ao conforto e ao consumo. Junto com seus amigos Jeannie (Annie Golden ), Hud (Dorsey Wright) e Woof (Don Dacus) vive pelas ruas de Nova York pregando a liberdade sexual e o uso de drogas, bem como a fuga de uma sociedade que zela pela moral e os bons costumes. Com seu espírito de liderança e poder de persuasão tenta convencer Claude a desistir de ir para o Vietnã, através de questionamentos acerca das coisas que realmente importam para uma vida mais humanizada.

Dentro da trama é possível perceber a influência que Berger consegue exercer sobre o conservador Claude que durante a convivência com o grupo participa de experiências ligadas ao uso de entorpecentes e ao amor livre, ao se deixar envolver por Sheila. Mas a necessidade dramática do personagem é tão forte que seus ideais não são desfeitos ao persistir no intuito de servir o exército americano na Guerra. Os ideais de Berger não conseguem, portanto, ultrapassar a barreira do ideais do jovem conservador de Oklahoma.

E assim, a trama vai sendo construída em que cada personagem representa um ideal defendido pelos movimentos de contracultura dos anos 1960. Nessa perspectiva, a personagem Jeannie é a representante feminina do grupo de hippies e grávida de um de seus amigos, representa o ideal de sexo livre que rege essa geração. Sem saber qual dos membros do grupo é o pai da criança que espera, Hud ou Woof, Jeannie vive pelas ruas da cidade com os amigos que felizes pela chegada do bebê não se preocupam em saber quem é o pai.

Hud é o representante negro do grupo e um dos possíveis pais do filho de Jeannie e representa junto com ela e Woof a liberdade sexual dentro da trama. Hud representa ainda o negro marginalizado dentro da sociedade norte americana e se caracteriza por seus sentimentos de revolta em vista da inferioridade a que está sujeito nessa sociedade. Woof, além de pregar o amor e sexo livres nas canções que compõem seu personagem, é também o representante do apego e importância dada aos cabelos pelos hippies como forma de oposição à sociedade conservadora e à guerra. Sob essa ótica, portanto, esses três personagens sintetizam o pensamento e a prática dos hippies dos anos 60 e não possuem revelação ou necessidade dramática, se mantendo da mesma forma durante todo o filme. Os ideais do movimento hippie encontram portanto na figura de Jeannie, Woof e Hud sua personificação.

A representante da classe burguesa norte americana em Hair é Sheila, garota rica e sedutora que se apaixona por Claude, mas que em alguns momentos da trama se mostra interessada por Berger. Simboliza o tradicionalismo da sociedade americana que se deixa envolver pelo grupo de hippies, na busca por se libertar dos ideais conservadores de sua família. Quando finalmente resolve viajar com o grupo para Nevada, a fim de convencer Claude a não ir para a guerra, a personagem tem seu momento de revelação e passa a compartilhar os ideais defendidos pelos seus novos amigos.

Compondo ainda a trama tem-se a personagem de Cheryl Barnes que faz a noiva de Hud, mas que não possui um nome propriamente dito, representando dentro do filme a crítica aos ideais e modos de vida dos hippies. A pesar da crítica à falta de moradia, à liberdade sexual e à gravidez de Jeannie, a personagem acaba por se juntar ao grupo no fim da trama.

Deste modo, os personagens e suas representações simbólicas apresentadas pelo filme mostram como os hippies agiam levados por uma “consciência subjetiva”e por seus ideais, sem preocupações e sem se importarem com as regras que regiam a sociedade tradicionalista americana. George Berger é a personificação da liberdade de viver de acordo com seus próprios valores e da luta de uma geração contra os alistamentos na Guerra do Vietnã. Na liderança de um grupo de jovens que zelam por uma vida mais livre do conservadorismo vigente da sociedade estadunidense, com seus cabelos compridos e roupas coloridas, Berger e seus amigos representam o inconformismo com “a mecanização e generalização da esfera capitalista” de vida da sociedade norte-americana. (ibid, 2005.p71)


George Berger.
Disponível em: convescotecinematografico.blogspot.com/2008. Acessado em 02/10/2009


Através de suas músicas, o filme conseguiu expressar os ideais e os modos de vida de um dos grupos mais importantes de contracultura dos anos 60, os hippies. Assim, as músicas do filme tiveram uma grande repercussão, e algumas foram marcantes para a época. Estas refletiam ideologias e críticas à sociedade tradicional, contendo em suas letras as buscas dos hippies por amor livre, paz, uso indiscriminado das drogas e a liberdade sexual. Algumas canções do filme tornaram-se ícones culturais, como Let the Sunshine In e, principalmente, Aquarius. A música Aquário se tornou o hino da nova era em que sua letra demonstra claramente a busca por um ideal de vida mais humanizado.

Deste modo, Hair simbolizou a arte que demonstrou as ideologias de toda uma geração que mal vistos pela sociedade queriam somente viver com respeito à natureza, à liberdade de pensamento e de modos de vida. Na sua concepção, os hippies somente defendiam um mundo de paz em que a meta era alcançar a utopia de uma vida na qual a guerra será eliminada e o amor e a igualdade irão prevalecer.


Larissa Géorgio Bráulio Moura, licenciada em História pela Universidade Federal de Viçosa, atual aluna do curso de Pós Graduação Lato Sensu História - Evata
Talita Sauer Medeiras, licenciada em História pela Universidade Federal de Viçosa, atual aluna do Bacharelado da mesma universidade.

1 comentários:

Thiago E. Luzzi Galvão disse...

Muito bons os textos!

Hair é realmente fantástico, pena que os tempos em que as pessoas tinham ideais de verdade e lutavam por eles já passaram...

O que penso é: será que um dia voltará a ser assim?

28 de novembro de 2009 20:29

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