quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Coluna Ana Dietrich - apresentando Renato Gilioli

Hoje é dia de refletir sobre a questão afro-descendente aqui no Contemporartes. E quem faz isso é Renato Gilioli destacando a representação do negro nas obras de arte modernistas. Gilioli lançou em setembro o livro Representações do negro no modernismo brasileiro: artes plásticas e música, mais uma dica de leitura de nosso blog. Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo, a reflexão abaixo é um tira-gosto para quem ainda não leu seus textos.

Ana Maria Dietrich, editora-chefe da Contemporâneos-Revista de Artes e Humanidades, escreve às quartas-feiras quinzenalmente no ContemporARTES. contemporaneosufv@yahoo.com.br





Revendo o modernismo: um olhar para o século XXI


Renato de Sousa Porto Gilioli

O movimento modernista no Brasil, celebrizado pela Semana de 1922, é um marco para a cultura brasileira. Conhece-se muito a respeito de seu caráter revolucionário e inovador. No entanto, suas ambiguidades foram uma presença constante. Percebê-las, neste alvorecer de século XXI, é essencial para que possamos olhar para nosso país e cultura sem mitificá-los.

Um dos pontos sensíveis em que se pode fazer isso é por meio da representação do negro no movimento. As ambiguidades aparecem aí de modo salutar. Embora seja necessário reconhecer as rupturas e avanços que o modernismo produziu, não se pode deixar de apontar suas limitações, próprias da mentalidade de uma época.

Antes dos modernistas alcançassem posição hegemônica no cenário cultural brasileiro, as artes plásticas representavam proporcionalmente pouco o negro nas telas. Portanto, um dos avanços do movimento foi trazer visibilidade a esse amplo segmento da população. Era uma época na qual o país havia saído da escravidão há poucas décadas e uma elite atrasada via o negro como causa dos problemas brasileiros.


Mas se foi louvável os modernistas representarem o negro nas diversas artes, cabe analisar como o negro era representado. Nas artes plásticas, é preciso dizer que esse desejo de representar o negro não veio como influência direta da arte africana, entre nós presente desde os tempos da Colônia. Foi uma influência indireta, que chegou através da Europa. Picasso e outros pintores precisaram enxergar valor na arte africana para que, só depois, os artistas brasileiros vissem que tais moldes de representação e as próprias figuras negras como dignos. Precisaram que a Europa “descobrisse” a África para que nós o fizéssemos.




Ainda assim, se a técnica cubista – derivada de um dos movimentos importantes para o modernismo brasileiro – apontava para raízes e influências africanas, a primeira etapa de representação do negro no movimento modernista foi dúbia. O negro era apresentado como “primitivo”, “exótico”, “bárbaro”, “atrasado”, “selvagem”, tal como os europeus viam os povos de outros continentes. Nesse ponto específico, ao invés de revolucionar, os modernistas adotaram a mesma perspectiva do chamado Velho Mundo. Até porque o mercado de arte mais valorizado era o europeu. Se lá era charmoso retratar os povos ditos “primitivos” e “exóticos”, aqui se fez o mesmo.



Com uma diferença. Se para o europeu esse outro “selvagem” se encontrava fora da Europa, para os modernistas brasileiros – não somente nas artes plásticas, mas também na literatura e na música – estava no próprio país. E era identificado com a população afro-indígena, em especial a rural. Na prática, isso pode ser percebido pelo fato de que os negros retratados nos quadros modernistas são quase sempre anônimos (“preto”, “negra”, “negro”, “mulato” etc. ou as denominações de profissões ou atividades que exerciam), ao contrário dos personagens brancos – ou percebidos socialmente como brancos –, que sempre têm nome e sobrenome. Ou seja, os negros são “tipos sociais” enquanto os brancos são indivíduos. Da mesma forma, certos personagens negros aparecem como passivos, assujeitados à sua condição inferiorizada socialmente.

A representação mais frequente é de negros e negras em paisagens rurais, na qual o homem aparece como continuidade da natureza, mais “primitivo”, mais “selvagem” e tendendo a aparecer mais distanciado da sua condição de ser social. Isso quase não acontece com personagens brancos. Outro ponto: pés e mãos grandes eram assim feitos para expressar a suposta ligação desses povos “primitivos” do Brasil com a natureza e o seu suposto caráter “embrutecido”, apontando para o seu distanciamento da dita “civilização”. Mesmo o espaço dos morros era valorizado porque eles eram vistos como quistos “exóticos” no qual aquela cultura rural e infestada de personagens “primitivos” da Colônia e do Império havia sobrevivido em meio ao progresso.

Outro ponto essencial é a estética da mestiçagem presente nos quadros e nas músicas. O famoso mito da democracia racial sistematizado posteriormente por Gilberto Freyre teve, de certo modo, os modernistas como pioneiros. Diante de um país que mudava após a Abolição da escravatura, novos desafios apareceram. A percepção dos conflitos sociais nas cidades se ampliou nas primeiras décadas do século XX. No espaço urbano, negros egressos do campo, operários imigrantes vindos pelo estímulo de uma política de embranquecimento, movimentos militares, ampliação da classe média, maior consumo de jornais, maior acesso do que antes à educação (ainda que muito restrito em termos globais) foram alguns dos elementos que aguçaram a percepção das elites de que as formas de dominação do século XIX já não mais poderiam funcionar do mesmo modo.


Artistas e intelectuais modernistas perceberam exatamente o quanto as nossas classes dominantes já não davam mais conta de lidar culturalmente com o novo cenário do país. Engajaram-se em causas para propor como resolver os problemas do Brasil. Desde as tendências de direita às de esquerda, buscavam formas de reelaborar culturalmente a percepção que tínhamos de nós mesmos, conseguindo romper com diversos preconceitos antes predominantes.

Um deles foi considerar que não podíamos simplesmente almejar ser uma nação ariana ou europeia, mas que precisaríamos ter uma identidade própria. Nesse ponto, essa percepção foi revolucionária. Mas tinham limitações e ambiguidades decorrentes da mentalidade do tempo em que viviam. O problema da elaboração de uma nova identidade nacional era como efetuar tal iniciativa do ponto de vista simbólico. Diante do potencial socialmente explosivo que era percebido na época, o receio era de que imigrantes resolvessem criar enclaves dentro do próprio país. Do mesmo modo, temia-se que a cultura negra ganhasse projeção excessiva no espaço urbano e o país tendesse a uma espécie de desocidentalização, o que era visto como signo de “atraso”.

A proposta dos modernistas, diante disso, foi estabelecer uma estética da mestiçagem. Pretendiam aglutinar “pedaços” das diversas culturas existentes no Brasil – identificadas genericamente como índigena, negra e no branca – de modo a produzir um resultado novo, no qual todos os setores da sociedade se sentissem representados, mas no qual não se permitisse a hegemonia de nenhum deles sobre os demais. A ideia era a de que a cultura brasileira, para ser tipicamente nacional, deveria ser diluída. Entendiam que o risco, em caso contrário, era de desagregação e de conflito social.

Somavam-se, portanto, dois elementos na representação do negro no modernismo brasileiro: sua representação como “primitivo” e “selvagem” e sua diluição cultural em uma identidade nacional similar a uma colcha de retalhos sem rosto definido, mas apenas um perfil genericamente mestiço, garantidor da paz social. Aliás, quando Mário de Andrade dizia que Macunaíma era um “herói sem caráter”, a expressão não fazia uma referência moral, mas remetia à noção de caráter nacional. Ou seja, Macunaíma não deveria ser representante apenas dos negros, somente dos indígenas e nem unicamente dos brancos, mas de uma mistura disso tudo, que ele entendia como o traço constituinte da identidade nacional brasileira.

A questão era que a “contribuição” de cada parcela da “cultura brasileira” era desproporcional e hierarquicamente desigual para o modernistas. Atribuia-se aos afro-indígenas um caráter mais “primitivo” do que os europeus. Além do mais, sobrevalorizaram a presença da cultura europeia – sobretudo em sua vertente portuguesa – no Brasil desde a Colônia. A influência cultural europeia cresceu, comparativamente, apenas com a maciça imigração desde o fim do século XIX. Antes, havia pouco mais do que quistos de europeísmo – ainda que dos portugueses e seus descendentes serem detentores do poder político – em meio a uma predominância cultural afro-indígena.

No entanto, a riqueza do modernismo foi sua auto-crítica. Alguns dos intelectuais e artistas do movimento perceberam, com o tempo, que a representação que faziam do negro como passivo, “primitivo” e “selvagem” – ainda que quando acompanhada de uma crítica social ao sistema – era um preconceito que eles próprios carregavam e do qual precisavam se libertar. Com isso, alguns conseguiram superar as limitações próprias da mentalidade na qual foram criados desde pequenos, direcionando algumas de suas produções para mostrar, por exemplo, o negro como personagem altivo, representado-o sem ser hierarquizado negativamente, em família (contrariando o estereótipo ainda hoje difundido de desagregação familiar das famílias pobres e negras), inserido no ambiente urbano e participante do progresso.

Aí que se identificam as ambiguidades e o fascínio do modernismo. Revolucionário esteticamente, mas copiador da busca pelo “primitivismo” típica dos europeus. Limitado ao ver os negros como “tipos sociais” hierarquicamente mais “atrasados” do que os brancos, mas sabendo superar tais limitações da mentalidade da época de acordo com os desenvolvimentos das produções de cada um dos artistas e intelectuais envolvidos. Almejando a mestiçagem, mas deixando transparecer o caráter do Brasil como país essencialmente afro-indígena. Essas e outras tensões internas nos artistas, intelectuais e em suas produções retratavam uma cultura em transição, que deixava progressivamente seu caráter exclusivista para se abrir e retratar a sociedade brasileira de maneira mais ampla. Se representaram avanço significativo para os padrões extremamente conservadores do tempo em que viveram, tiveram dificuldade de se livrar da hierarquização do negro que aprenderam socialmente desde cedo, ainda que tenham conseguido isso em alguns momentos.

Mas sem os modernistas, não poderíamos ter desenvolvimentos posteriores que levaram a conquistas tais como a afirmação dos movimentos negros das últimas décadas. O desafio, hoje, no entanto, é outro: sabemos, ao contrário da maior parte das produções modernistas, que o negro e o indígena não são e nunca foram “primitivos” ou “selvagens”, em contraposição à uma representação do branco e do europeu como “civilizados”. Mas esta noção continua ainda tão enraizada social e culturalmente que cabe revisitar os modernistas para libertarmos os últimos grilhões e preconceitos que acorrentam o nosso pensamento.


Renato de Sousa Porto Gilioli, doutor e mestre em Educação e historiador formado pela USP, é professor na Universidade São Judas Tadeu. Autor do livro Representações do negro no modernismo brasileiro: artes plásticas e música (São Paulo, Best Book, 2009). resopogi@uol.com.br

2 comentários:

Licurgo disse...

LICURGO NETO ARTISTA PLÁSTICO

Conheçam o site do grande artista plástico Licurgo Neto, baiano de Esplanada.
Licurgo foi o criador do espaço Varanda das Artes em Paquetá, onde se realiza um projeto para um centro cultural de artes plásticas.
Licurgo utilizou diversos estilos de pintura para mostrar o seu talento, e através de exposições em diversos países, tornou-se conhecido internacionalmente.
Seu estilo retratava a simplicidade de seu povo, suas origens, sua terra, os problemas sociais.


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9 de dezembro de 2009 21:05
Dagmar disse...

Bom Dia Ana,

Ontem estava pesquisando uns temas e acabei me deparando com este artigo sobre a representação do negro e escrito pelo Prof. Renato...
Não pude comparecer na ocasião do lançamento de seu livro, pois estava me mudando de São Paulo para Goiânia.
Tenho um blog onde trato de assuntos pertinentes à Arte, mais precisamente Arte Educação, Educação, Ensino da Arte e assuntos correlatos. E este artigo me interessa muitíssimo, ainda mais porque Renato foi mau professor na Faculdade, Coordenador de meu Curso e usei vários artigos seus em meu trabalho de conclusão. Diante disso, gentilmente peço sua permissão para publicar em meu blog o seu artigo sobre o livro, citando seu blog. a fonte devidamente é claro.
Muito bom, interessante e pertinente para o que pretendo abordar.
Deixo aqui o link para o meu blog
http://maniacolorida.blogspot.com/

Um super abraço, já adicionei o link deste espaço em meu blog para os meus leitores também.
Parabéns!!!
Dagmar

6 de agosto de 2010 11:35

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