quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Coluna Ana Dietrich - qual imagem fazem de nós mulheres?

Em semana que as manchetes não páram de falar sobre o Haiti e da imensa tragédia que se acometeu sobre a vida dos habitantes desse pobre país, sugiro falar de outro assunto, não mais importante, mas também não menos urgente, a emancipação feminina no Brasil.


Fonte - Cláudia no. 3, ano 47

Olhando aleatoriamente revistas femininas de moda, fiquei surpreendida com a imagem que constróem de nós mulheres, imposta pelos padrões de consumo de nossa sociedade capitalista e repetida inúmeras vezes, gera um som torto de uma tecla quebrada do piano. Sensual, muitas vezes sinônimo de objeto sexual; magras, para não dizer magricelíssimas, desculpando a hipérbole! Será possível encontrar na rua 1 entre 100 mulheres brasileiras tão esqueléticas quanto as que figuram os editoriais de moda? Não acredito!!! Brancas como o comercial do sabão em pó - no nosso país multicolorido, multiétnico, viram quase um ultraje. Não trabalham (executivas, cozinheiras, padeiras, vendedoras de loja, recepcionistas, médicas, engenheiras, professoras, cadê vocês?). Será que  pensam? Poucas são as reportagens de livros para mulheres e muitas de maquilagem, como cuidar do cabelo, como emagrecer com uma mágica dieta.

Vogue, oct. 2008

Nas revistas internacionais, há diferenças sutis. São poucas ainda as imagens relacionadas ao mundo do trabalho e as modelos continuam magras, mas há mais negras. As mulheres não aparecem como meros pedaços de carne expostos. É uma diferença de estética, de exposição e diríamos, até, de respeito.

Mas, penso um pouco nesse ciclo maldito que nos libertou (???) do fogão e da panela, mas que nos escraviza com o modelo de beleza que sufoca a diversidade e o nosso pensar. Lendo uma revista VIP antiga, fiquei de cara com a quantidade de estereótipos que eram veiculados por segundo. As mulheres, burras-belas, que só servem para "aquilo", eles - grandes machos - que ficam a ostentar seus músculos e sua performance na cama geralmente usando tristes comparações preconceituosas com os homossexuais.


Vogue, oct. 2008

Veja só o exemplo da reportagem 30 maneiras de dar um pé na bunda (da mulher), dividido em 3 pequenos tópicos: "sem magoar a fofa", "magoando um pouco" e "magoando muito".  Nesse último, há a "dica 24" - "argumente que quer ter filhos bonitos e que, talvez, ela não consiga gerá-los", seguida da "dica 25" - argumente  que quer ter filhos inteligentes e que, com certeza, ela não conseguirá gerá-los".  O clichê repetido das beldades que pouco raciocinam ressoando. Mas, magoa, tá? Adverte a revista...

Vip, out. 2004

Bestializadas elas, bestializados eles... Na página seguinte, um teste "você é  idiota?" faz com que a imagem do homem venha à tona como um espelho dessa mulher. Na pergunta 5 há a questão: "a namorada gostosa do seu amigo parece interessada em você. Você:
a) pensa que amigos a gente tem muitos, mas gostosas na nossa mão nem tanto e vai para cima.
b) avisa a ela que tudo bem, desde que ela seja discreta,
c) respira fundo, depois ainda mais fundo, e não dá chance".
Percebam que no reflexo da mulher BB - bela e burra vem o homem MCI - macho, comedor e insensível, que muitos homens com mais conteúdo vêm ao longo do tempo questionando e querendo se livrar desse estigma.

O que fazer perante tudo isso? Penso que uma saída é dizer não. Não consuma "maus-tratos, desrepeitos, ofensas" reproduzidos aos borbotões nesses produtos de comunicação. Comece a levantar a bandeira - de alguma forma - em prol da pluralidade, da diversidade, da diferença. Uma pequena atitude pode ser o diferencial.



Homenagem a Maria Mattos que há 3 anos dedica-se na Fundação Santo André a pesquisas sobre as relações entre homens e mulheres no Brasil nas décadas de 1960 e 1980 analisando principalmente a forte ligação entre o AMOR e o PODER.





Cláudia, nr. 3, ano 47

Ana Maria Dietrich, editora-chefe da Contemporâneos - Revista de Artes e Humanidades, escreve às quartas-feiras, quinzenalmente, no ContemporARTES. contemporaneosufv@yahoo.com.br

5 comentários:

Rosana disse...

Que alívio saber que ainda existem mulheres normais, digo inteligentes e belas como nossa DrªAna Maria que além de conseguirem enxergar além da foto enxergam além do corpo. Ufa!Sim, nós temos cérebro!Rosana Banharoli

20 de janeiro de 2010 22:47
maisa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
maisa disse...

Muito legal esse artigo, bom para exercitar as nossas mentes e nos fazer acordar para a realidade que é tão diferente daquela que é colocada nas capas de revistas sobre moda. É RIDÍCULA a arbitrariedade com que nos é imposto um padrão de beleza impossível de ser seguido por todas as pessoas, isso é reducionista e reduz toda a beleza da diversidade!!
Isso sem contar os fotoshops...

21 de janeiro de 2010 12:37
Ana Dietrich disse...

Bem lembrado, maisa, os photoshops... sabe que se criou até a expressão "photoshopada" hehehe
daria uma coluna a parte isso, algo como "a fabricação virtual do corpo feminino", se propõe??? a gente publica aqui! bj

21 de janeiro de 2010 12:54
Diogo C. Scooby disse...

Os padrões são impostos pra quem os aceita. Se a pessoa aceita se encaixar no que as novelas e revistas imbecilizantes passam é por comodismo, burrice o vontade.
Concordo que "eles" tentam nos manipular cada vez mais para que a gente consuma seus produtos e suas ideias, mas a opção é de cada um.

é só desligar a Tv,largar revista de moda imbecíl e lir um livro, jogar um bom game ou visitar algum blog interessante, por exemplo.

Esses questionários bobos da VIP, por exemplo, não é o tipo de coisa que se deva levar a sério, são coisas humorísticas.

Uma coisa que eu acho triste é que, apesar do poder de escolha, nem todos querem ser livres, por isso as NOVA da vida sempre vão ter seu público.

Abraço.

26 de janeiro de 2010 14:15

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