quarta-feira, 3 de março de 2010

Contribuição do Leitor: As agruras de se procurar um emprego


Será que você já passou pelas agruras de se procurar emprego na cidade grande? Já gastou sola de sapato e muita paciência? A historiadora Yone Ramos Marques narra, de uma maneira leve e descontraída, um dia de lida de uma desempregada (e como dá trabalho procurar emprego...)

Ana Maria Dietrich, editora-chefe da Contemporâneos - Revista de Artes e Humanidades, escreve quinzenalmente às quartas-feiras no ContemporARTES. contemporaneosufv@yahoo.com.br

Profissão Desemprego
Por Yone Ramos Marques


Todo mundo conhece essa profissão, todo mundo já ouviu falar desse título: o desemprego é uma triste realidade que atinge não só milhares de brasileiros, mas profissionais do mundo todo. E eu, cansada da minha vida de empregada, resolvi abrir mão do registro em carteira e mudei de profissão: desemprego. Então comecei bem minha vida de desempregada, acordei cedo, escolhi a melhor roupa (afinal, até para ser desempregado precisa de profissionalismo), liguei o computador, revisei o currículo, montei uma planilha de lugares para deixá-los, fui à lan house e imprimi 20 currículos.

Perto das 10 horas da manhã, com o sol mais quente que forno elétrico depois de assar carne, salto alto e maquiagem no rosto, peguei o ônibus e fui à Lapa de São Paulo em busca de um novo emprego. Para quem não sabe, a Lapa possui aproximadamente 60 agências de empregos espalhadas ao longo da Rua 12 de Outubro e suas travessas. São tantas agências que, nas copiadoras da mesma região, é comercializado um "guia das agências de emprego", e você paga apenas R$2,00 para tê-lo em mãos. Então, munida de currículos muito bem confeccionados e também meu precioso guia, fui entrando de portinha em portinha para que o mundo conheça a profissional que eu sou... Bom, senão o mundo, pelo menos algumas agências.


Ao entrar nas pequenas portinhas que dão acesso às infinitas escadarias, que ao subir possuem ainda mais portinhas, é possível visualizar chamadas de vagas, diversas vagas, 20 e até 50 vagas divulgadas em cada uma delas. Isso significa que na verdade, a história de que não tem vaga de emprego não é muito verdadeira. Não demorou para que minha mente genial concluísse: - "não é que faltam vagas, faltam profissionais capacitados!" E diante da minha nova premissa filosófica, decidi investigar quem são esses tais profissionais qualificados que o mercado tanto procura.

Aproximei-me do quadro de avisos e logo entendi todo o negócio. Para que os leitores entendam a situação de forma clara e objetiva, a fim de ilustrar minha magnífica descoberta, vou explicar uma vaga simples, a vaga de auxiliar de qualquer coisa. Em destaque, o alto salário: 1 salário mínimo; Em seguida, os pré-requisitos: falar 3 línguas fluentes (de preferência ser fluente na língua dos Ewoks), ser pós-graduado em conserto de rebimboca da parafuseta e de preferência, que saiba plantar bananeira com apenas uma mão. Pois bem, diante de tanto romantismo, os candidatos, assim desesperados, não hesitam: colocam todas as funções descritas e ainda informam que sabem soletrar Arnold Schwarzenegger de trás para frente (mesmo se o coitado nem mesmo souber falar direito o tal do português).

A parte mais cômica de todo esse platonismo - Platão que me perdoe, mas essas vagas divulgadas pelas empresas de Recursos Humanos, só no plano das idéias mesmo - é que provavelmente, a empresa (que no fundo nem sabe porquê solicita esse tal de pré e esquisito, ops, pré-requisito), acaba contratando o tal soletrador. A parte triste de verdade, é ver profissionais formados, inteligentes, preparados, que realmente falam 3 e até 4 línguas, debaixo de um sol escaldante, em filas gigantescas para se inscrever na vaga de gari por não ter ninguém que o indique (o famoso QI), ou até mesmo uma verdadeira oportunidade considerando apenas a veracidade das informações do seu currículo. Infelizmente, essa é a real situação de muitos, mas já diziam as más línguas: "o mundo é dos espertos", já os qualificados, terão que aguardar sua vez!








Yone Ramos Marques é historiadora e teóloga. yone.ramos@gmail.com

2 comentários:

Ana Paula disse...

Muito bom o texto!

Infelizmente é uma realidade no Brasil.

4 de março de 2010 20:22
Mariana disse...

Parabéns pelo texto. E a verdade é essa, os empregadores sempre querem pagar uma miséria e ao mesmo tempo ter o melhor especialista. Como sempre tem aquele que, por medo da concorrência, acaba aceitando se submeter a isso, a situação nunca muda.

8 de março de 2010 20:07

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