sábado, 27 de março de 2010

O Monstro da Crise: sem ironias!

Por Yone Ramos Marques

Em março deste ano, recordo-me de haver colocado um texto de minha autoria em um site de discussões econômicas cujo objetivo da discussão era "a crise" e meu texto foi "detido de enxofre" pelos meus amigos contemporâneos, alguns economistas.
Recordo também que na época, seguindo meu papel de historiadora que antes de se pronunciar realiza uma pesquisa profunda, resolvi verificar as naturezas dessa crise, e a natureza das notícias da imprensa.
Quem assistiu a TV esse ano, percebeu que a mídia adota temas para explorar: a crise foi o tema de agosto de 2008 até abril de 2009, pouco antes da "gripe suína", (uma pandemia que "pode acabar com 70 por cento da população mundial", mas que em agosto já estava completamente sobre controle do governo).
Nem tenho a pretensão de ironizar as reportagens baratas da mídia, mas insisto em tomar por minhas, as palavras que ouvi no Observatório da Imprensa (programa que passa na rádio Cultura) sobre essa mesma crise econômica: "antes, jornalismo era feito através de investigação, hoje, através de especulação". Legal foi ver o famoso programa Casseta & Planeta satirizando as próprias reportagens da Globo e criando um personagem chamado de "monstro da crise".
O mais divertido foi saber que muitas pessoas assistiram, morreram de rir mas nem questionaram o sentido irônico do programa e continuaram a morrer de medo do "caos".
Bom, meu objetivo aqui, nem é falar do passado, afinal, "quem vive de passado é museu" (além de historiadores, é claro). Aproveito o texto, primeiro para fazer uma crítica à especulação econômica por quê, adoro economia, gosto de assistir os programas jornalísticos da Bloomberg, gosto de ouvir as baboseiras ditas nas entrevistas, tira-se algo de útil e tudo certo!
Só não entendo porquê economia tem que ser uma ciência tão indutiva e especulativa. Tudo bem, vá lá que economia é uma ciência que lida com alterações e diversas vezes faz previsões futurísticas, mas sem brincar de mãe Diná, será que não é possível realizar análises econômicas mais felizes e com bases mais profundas? Afinal, não só de previsão viverá o mercado, mas também de todo dado concreto.
E também, aproveito o texto para dizer: "eu tenho a força", ops, quer dizer, minhas previsões econômicas de março estavam certas e eu nem sou cartomante. É que minhas previsões não foram feitas de acordo com bolsas de valores, índices de mercado, nada disso!
Fiz minha análise considerando, quem diria, a história: a história econômica mundial que sim, passa por um período de reconfiguração, e óbvio, mais de décadas nesse processo. Por quê? Quem viu o término da Guerra Fria, e já leu Hobsbawm, leu a Super Interessante, e folheia a Veja - só pra garantir - poderia fazer previsões parecidas.
Brincadeiras a parte, desde o término da Guerra Fria, o mundo já não era o mesmo, as superpotências, nem eram tão potentes assim frente ao resto do mundo. Países como os latinos, aqui, americanos, saíram da Idade Média para a Idade Contemporânea em 4 décadas e também alguns países da África (isso, eu disse África). Na Ásia, desenvolvimento econômico apenas para poucos, mas a partir da década de 90, diversos países apresentaram resultados surpreendentes, China ultrapassando o Japão, quem diria? Participante ativa da economia mundial! E EUA?



Pouco da hegemonia de glórias passadas, mas país que é país de primeiro mundo (se é que ainda existe essa divisão), perde dinheiro mas não perde a pose e nossa querida crise, nada mais foi do que a descoberta da engenhoca norte-americana dos "cassinos acionários".
É, as empresas que quebraram e a crise no setor imobiliário não tem nada de novo, nada de 2008, são coisas do passado, mas essas empresas continuavam vendendo suas ações a preços caríssimos no presente. Quando a verdade veio à tona: boom, estourou uma crise! Uma crise, diga-se de passagem, que não tem pouco em comum com a crise de 29 e que, ao contrário do que se diz, nem foi tão devastadora assim, exceto para os EUA que, devastadora ou não, foi no mínimo vergonhosa. A nível mundial, isso deu uma sensação de vazio e, com certeza, um medo quanto ao futuro!
Não nego a quebra de empresas e o retraimento da economia, nego que seja algo novo e claro, "estamos todos bem", sem "3ª Guerra Mundial". Claro, muitas empresas aproveitaram o slogan para fazer a limpeza no número de funcionários sem levar bronca do governo e sindicatos; Agora sobre os EUA, seus problemas econômicos são de longa data e agora todo mundo sabe!
E sobre a retomada de monopólios e estatizações, considerando as tendências futuras, desacredito que daqui há alguns anos tenhamos só um banco, uma rede de supermercados e uma montadora de carros: bullshit! George Soros disse: "haja monopólios", mas na verdade, a economia tende, agora sim, ao fortalecimento de grandes empresas através de uniões, naturalmente, e enfraquecimento daquelas que já estavam mal das pernas.
Para não dizer que estou mentindo, só no Brasil, visualizamos isso com Sadia e Perdigão, Itaú e Unibanco, Porto e Itaú Seguros, Nossa Caixa, Nosso Banco e Banco do Brasil, entre outros, vários outros, incluindo a compra de pequenas e médias empresas que estão sendo de fato, esmagadas pelas grandes. Também nada de novo! Já dizia a sabedoria popular: "é que o de cima sobe e o debaixo, desce!"... sem ironia!








Yone Ramos Marques, teóloga e historiadora, escreve aos sábados, quinzenalmente no ContemporARTES.

3 comentários:

Eduardo disse...

Hmmmm... Só queria comentar que se todos os analistas tivessem externado previsões de algodão doce, quem tem poder para tomar medidas não seria levado a tomar nenhuma. Medo leva as pessoas a se preparar para os dias piores, e isso faz com que os efeitos de uma crise possam ser minorados.

Ao contrário do que diz o presidente, a imprensa que mostra o que é feio, o que há de errado é a imprensa que deve ser levada a sério. Pois nos faz melhores.

Abraço!

27 de março de 2010 19:45
Yone Ramos disse...

Sim Eduardo, concordo que a mídia seja um canal muito importante de informação. Porém, a mídia é a voz de jogos de interesses: a mídia é uma indústria e seu principal objetivo é o lucro. Infelizmente, ela se alimenta dos medos da sociedade para vender, independente do bem que vai trazer à sociedade ou não. Agora, existem pessoas que se contentam com as informações, existem outras que não! Como falar de mostrar o que é feio, se há anos emissoras como a Globo e o SBT, apenas um exemplo, recebem incentivos fiscais do governo para não abrirem a boca? E tem muita coisa que não fazemos idéia. Daí é preciso distingüir: existem os fatos, existe a manipulação dos fatos e isso, vai de cada um buscar diferenciar ou não. Agora, ninguém é obrigado a concordar comigo, porém, pra quem gosta do assunto, eu indico o Observatório da Imprensa, diariamente, eles analisam a mesma informação dada por diversos jornais e desmistificam o que é verdade e o que é manipulação. Não que tudo seja mentira, mas quando uma informação pode mudar nossas vidas, vale a pena dar uma aprofundada! Bjs!

30 de março de 2010 18:23
Darkalus disse...

Saudações!

Muito bom artigo!

Seria ridículo o achismo dos analistas que aparecem na grande mídia, não fosse o fato de que crises econômicas como essa última favorecem o alto empresariado e a classe política no geral. Independentemente das mega corporações lucrarem ou não, seus executivos lucram...

... e o papel da imprensa é esse mesmo: propagandear a favor da classe que a domina.

E a quem duvidar do cunho duvidoso da nossa mídia, basta lembrar que SEMPRE em torno de AO MENOS dois terços dos nossos senadores são donos - ou estão ligados a altos escalões - de rádios e emissoras (ou retransmissoras) de TV.

31 de março de 2010 14:39

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