quarta-feira, 17 de março de 2010

Professora universitária ou Aeromoça?


Quando ingressei nessa carreira acadêmica, não sabia realmente o que me esperava. Aliás, tinha uma idéia que teria que ler muito, pesquisar, mas isso eu não via problema.

Ninguém me contou o lado B de se transformar em uma professora universitária brasileira. Desde que me doutorei, em 2007, o que eu já percorri de estrada  Brasil afora não é brincadeira. Primeiro dando aulas dois anos na Universidade Federal de Viçosa e agora, em Vassouras (isso mesmo, duas cidades com V para todo mundo confundir) no Rio de Janeiro na Universidade Severino Sombra, com direito a escala em Campinas (Unicamp) onde faço o pós-doutorado.

Lembro de tantos momentos inusitados passados dentro de rodoviárias, as malas pesadas, o ar condicionado a 0 graus (acho que há um plano secreto para que nós viremos um picolé!), certo bebê que insiste sempre em chorar quebrando o silêncio noturno, o desconforto de se sentar em bancos apertados ao lado de brutamontes. Certa vez um funcionário de uma viação chegou a dizer que eu poderia ser sócia da empresa de tantos selinhos tinha na minha mala. Vários dias viajava a noite toda e chegava em Viçosa quase no horário da aula de tarde. Era: do ônibus para a sala de aula, com cara amassada e tudo.

Uma vez, lembro que havia lançado meu livro Caça Suásticas na Casa do Saber em São Paulo. Fotógrafos, televisão, logo depois todo esse glamour se transformou em abóbora em plena rodoviária do Tietê. Ao chegar em Viçosa, já tive que dar aulas. A emoção era tanta por ter lançado o livro e somada à viagem de 13 longas horas, eu até hoje não lembro direito o que falei naquela aula. Coisas de aeromoça... ops digo, de professora universitária, recém doutora!

Aliás, a parte da aeromoça que me cabe não é definitivamente os cabelos e uniformes alinhados. As roupas que uso em ônibus parecem mais grandes pijamas somadas com blusas de lã, cachecol, tocas e um cobertor de lã. Os cabelos após uma noite mal dormida ficam de arrepiar e são dominados por uma "piranha". O que mais me remete às mulheres de carregada maquilagem e obrigados polidos é sempre portar a tal da malinha azul marinho de rodinhas que nunca é desarrumada e virou uma fiel companheira. Mal termina uma viagem, já começa outra...o necessaire está lá prontinho com kits de cremes, shampoos, secador, perfumes. Não adianta querer levar algo mais leve - os meus planos são sempre naufragados quando lembro de livros que não posso deixar e o leptop de uma antiga geração, isso significa vários quilos a mais.

Com alunos e professores da UFV na defesa de monografia de Felipe Menecucci, Viçosa, Junho 2009.

A parte boa de tudo isso? Conhecer pessoas que jamais conheceria nessas estradas e parte do Brasil esquecido pelas megalópoles. Conhecer alunos diferentes, sotaques diferentes, jeitos de ser diferentes. Pelo menos uma coisa é garantida, na minha vida de professora (aeromoça) universitária nunca há espaço para  a rotina.




Ana Maria é doutora em História Social pela USP, professora adjunta de Mestrado em História da Universidade Severino Sombra (Vassouras-RJ), editora-chefe da Contemporâneos - Revista de Artes e Humanidades e coordenadora da ContemporARTES- Revista de Difusão Cultural.

5 comentários:

Iraci disse...

Que maravilha a sua cronica!
Ler um relato do que eu sempre imaginei que é a vida de uma Doutora atuante no Brasil, país de vasto território e de hábitos e cultura diferentes.
Quem disse que um título encerra o trabalho e a batalha?
Creio que quem se acomoda perde o melhor da festa.

18 de março de 2010 11:58
Contemporartes disse...

Ana guerreira querida!, sempre um incentivo para mim - e para todos os apaixonados pelo estudo nesse nosso país.

19 de março de 2010 18:16
Rosana disse...

E, para descansar de tudo isso, que tal uma viagem até..., até a realização de dizer, mesmo que no silêncio e solidão de uma poltrona qualquer:FEITO. E, isso você sempre faz.Bravo!

21 de março de 2010 20:08
Felipe Menicucci disse...

Ah, Ana, muito obrigado pela lembrança...viajar, rever os amigos e ainda fazendo o que se gosta é muito bom!

23 de março de 2010 23:28
Ana disse...

Olá, Ana!
Faço doutorado em Literatura Comparada na Uff!
Quero muito ser professora universitária!
Realmente,a correria é muita, mas existem as compensações...

28 de março de 2010 20:41

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