sexta-feira, 2 de abril de 2010

Brasil, "Cronicamente Inviável".... Ora bolas, Os "Inquilinos" que o governem!




Podemos sentir em "Inquilinos", 2009, um Sergio Bianchi mais maduro, sem os escrachos propositais de "Cronicamente Inviável", de 2000. Todavia não se enganem... ele está muito mais afiado e contundente neste seu novo filme. Ao retratar uma família simples, honesta e trabalhadora, encontra espaço para um certa... digamos, doçura impecável, demostrada na riqueza de detalhes das cenas que se realizam dentro de uma casa e nos conduz ao cotidiano dos quatro personagens membros da família. Intercalado a momentos casuais e até sublimes, que explicitam os valores éticos e morais daquela família, temos uma boa dosagem de suspense a la Alfred Hitchcook. É por esse viés que a curiosidade de nós, espectadores, é atiçada, propondo-nos momentos de fortes tensões expectativa que quebram a monotonia do filme.

A personagem Iara, a esposa de Valter, possui uma personalidade inquieta evidenciada nas ações, no olhar malicioso e nas palavras de provocação que  dirige ao marido. Essa dinâmica auxilia o filme na construção de uma atmosfera de mistério em torno das convicções de Iara. Ela possui uma espécie de sensualidade reprimida que se dá pelo estilo de vida correto e pacato que leva. Com a chegada dos inquilinos a sensualidade de Iara aflora, pois os jovens a coloca em contato com o pe
 rigo e com a expectativa do proibido. A pequena janela da cozinha que dá para a casa ao lado, dos novos inquilinos, é o paralelo perfeito com o filme "Janela Indiscreta" 1954, do grande mestre Alfred Hitchcook.

Apesar de "Inquilinos" se referir a um momento histórico específico, os ataques do PCC em 2006, consegue mostrar como o poder paralelo se constrói na ausência do poder público. Outro ponto relevante do filme é a presença da televisão como porta-voz das mazelas sociais, colaborando sensivelmente para instigar cada vez mais o clima de terror. Será que o pedófilo procurado e denunciado pela televisão seria aquele homem que olha estranhamente a menina de 9 anos, filha de Valter e Iara, dançar na rua?


Cassia Kiss, como a professora

Algumas cenas são chocantes e sangrentas, outras  poéticas e tristes, como a da professora, interpretada por Cassia Kiss, de uma escola periférica que Valter estuda. Ela lê durante a aula o poema de Carlos Drummond de Andrade "A morte do leiteiro" de "A Rosa do Povo" e, durante a leitura, vai se esboçando o ambiente de tensão. O leite derramado no chão misturado ao sangue do leiteiro... a morte, o assasinato. O líquido essencial do corpo - o sangue, que se mistura ao leite - a vida e o alimento. A morte do leiteiro assasinado é o fim do leite que se derrama, da vida que acaba bruscamente pelo sangue que esvai.

Caio Blat, aluno da escola, companheiro de classe de Valter

Em algumas cenas mais sangrentas vemos uma personagem limpar o sangue de um assasinado de forma prática e irônica, mostrando total indiferença ao líquido essencial do homem e da vida.

Noutra cena, vemos o protagonsita desesperado e assustado com seus  novos inquilinos e, sem uma outra idéia melhor, demarca seu território com urina, se igualando ao cachorro que usa seu líquido mais eficaz, porque lhe sai das entranhas junto com o odor do medo e ao mesmo tempo da coragem, para espantar o intruso. Essa ação canina, e também de alguns animais, serve para dizer: aqui é meu lugar, sou o macho alfa, vivo com minha fêmea e meus filhotes, não entre, a casa não é sua.



Sangue, leite e urina, líquidos corporais que representam a vida, o fluxo biológico das entranhas. O leite sai como alimento, o sangue se constrói no próprio corpo e percorre ele inteiro, a urina limpa o corpo de toxinas e carrega pra fora o que não serve mais. O corpo é frágil perante uma arma de fogo, uma faca, uma pedra lançada que corta o rosto. O medo de morrer sem saber porque. Como o personagem do primeiro romance de Chico Buarque de Holanda, Estorvo (adaptado para o cinema por Ruy Guerra, em 2000), que, atormentado por algo que desconhece, foge do ser inexato por todo filme, com medo de ser apunhalado pelo ser assombroso e incontrolável que poderá matá-lo. Em "Inquilinos", o personagem principal não foge,  está em sua casa com sua família, não quer abandonar seu território e sem ter o que fazer e a quem recorrer só lhe resta urinar em torno de seu lugar, buscando o alento animal em sua essência humana.

"Inquilinos" está em cartaz nos cinemas, Oh! Sergio Bianchi, conheci você numa apresentação do seu longa "Cronicamente Inviável" que fez no CINUSP, na mesma época da estréia do filme. Linda pessoa. Grande e forte com um visual de alguém que admiro. Continue acordando cedo, como disse-nos na ocasião, correndo atrás dos patrocínos e que venha mais... e mais .... e mais filmes..... Lindo Bianchi.


Histórico

Nascido em Ponta Grossa, esse paranaense se formou em cinema na ECA em 1972, estreou no cinema com seu primeiro longa comercial em 1972: "Maldita Coincidência", um filme inspirado em sua experiência de moradia em Londres em uma casaocupada por pessoas de várias partes do mundo e de várias tribos.

Em 1982, em "Mato Eles" denuncia a situação do índios Xavante, Guaranis e Xetás, no qual durante as filmagens ele é questionado pelo próprio índio entrevistado quanto ele ganha para filmá-los. Em "Quanto Vale ou é por Quilo?", 2004, uma livre adaptação do conto "Pai Contra Mãe", de Machado de Assis, entremeado com crônicas de Nireu Cavalcanti sobre a escravidão, Bianchi faz uma associação entre os negros na época da escravidão e em nossa sociedade atual, com uma crítica mordaz aos valores confusos e velados em relação aos direitos e valores sociais.

filmografia
1988 - Romance
1982 - Mato Eles?

 


PS: Saiu para venda o box de DVDs com todos os filmes do Sergio Bianchi, menos o último, que está em cartaz no cinema





            Kátia Peixoto é doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Mestre em Cinema pela ECA - USP onde realizou pesquisas em cinema italiano principalmente em Federico Fellini nas manifestações teatrais, clowns e mambembe de alguns de seus filmes. Fotógrafa por 6 anos do Jornal Argumento. Formada em piano e dança pelo Conservatório musical Villa Lobos. Atualmente leciona no Curso Superior de de Música da FAC-FITO e na UNIP nos Cursos de Comunicação e é integrante do grupo de Dança Flamenca.

4 comentários:

Celso Augusto, autor dos rebentos disse...

Olá Kátia, eu falei que assisti a pré-estréia deste filme, com a presença do Bianchi.
Ele atingiu o auge da sua mordacidade com este filme, já demonstrado em outros. Gostei do paralelo que você fez entre o "Janela indiscreta", do Hitchcook. Eu reparei na cena, mas não fiz esta relação quando assisti.
Este é o tipo de filme que dura pouco no circuito, infelizmente, por tratar da sociedade, da favela e das frações de classe entre trabalhadores e o crime de modo subjetivo de um modo pouco usual.
Parabéns pelo texto.

2 de abril de 2010 09:26
gegeDoida disse...

Eu acho muito importante existir um brasileiro como o Sérgio Bianchi, aliás, eu fico muito triste por existir pouquíssimos brasileiros como ele.

Vivemos em um país com um legado imenso de problemas crônicos, e realmente, se você for um pouquinho observador, eles tornam a vida - digna, como há de ser- inviável.

Fomos criados mudos, cegos e surdos - incapazes de definir o próprio futuro, vivemos em um barco a deriva num mar de políticos corruptos, injustiças, desigualdades e tudo o que há de pior em uma sociedade fracassada, burra de 3o mundo.

A burrice não vem da falta de inteligência, vem da falta de cultura, de condições para o desenvolvimento moral, intelectual. Aqui a esperteza é encarada como "enganar o próximo" - se aproveitar de pessoas e situações. O que os "espertos" não percebem é que não há bem nenhum nesse tipo de atitude. Somos um país ensebado, sexual, sujo, que patina em cada passo que dá - quando anda.

Mostrar favelas e criar uma história para emocionar gringo é bom para o bolso, mas ruim para o país.

O Sérgio tenta mostrar com seus filmes o quanto temos que atentar para o país em que vivemos e o quanto ele precisa de cuidado.

Eu saio mau dos filmes do Sérgio, envergonhada de ser uma brasileira dentro desse barco a deriva. Ao menos, posso dizer que ele me faz mudar e pensar, uma coisa que eu não fui criada para fazer.

Por essas e outras Sérgio Bianchi segue no topo da minha lista de cineastas. Ele não tem medo de mostrar o que deve ser mostrado.

TODO BRASILEIRO DEVE VER!!!

2 de abril de 2010 18:11
SIMONE ALVES PEDERSEN disse...

Aquele é o Caio Blat?
Que metamorfose, sou fan dele, grande ator!
O Sérgio Bianchi realmente se superou.
E continua sendo o problema primoridal desse país, a falta de educaçã (cultura). Em países em que o povo tem acesso a educação, toda essa mentalidade verde e amarela desaparece.

3 de abril de 2010 10:05
Cícero Barbosa disse...

quero ver!

7 de abril de 2010 14:29

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