quinta-feira, 1 de julho de 2010

FOTÓGRAFAS PIONEIRAS

     

Assistindo ao filme “Abraços Partidos” de Almodóvar, há uma cena em que o protoganista Amadeo, um escritor cego, comenta que o dramaturgo Arthur Miller (1915-2005) após ter se divorciado de Marilyn Monroe, foi casado com uma fotógrafa com quem teve um filho com síndrome de down, o qual rejeitou durante toda a vida. Essa informação acendeu minha curiosidade e fui em busca de saber quem era essa fotógrafa, e descobri surpresa, de que embora relativamente pouco conhecida, foi uma artista importante para a sua época, alguém que trabalhou na poderosa agência Magnum, ganhou prêmios, viajou muito, documentando povos e culturas, e hoje há uma fundação com seu nome que promove concursos anuais para fotógrafas iniciantes. Assim ela passou a fazer parte das “minhas” fotógrafas pioneiras, uma daquelas que quebraram barreiras, ousaram, inovaram e deixaram um legado artístico permanente.

Seu nome, Ingeborg Morath, nascida em maio de 1923 em Graz na Áustria, Seu pai era cientista cujo trabalho levou-o a diferentes laboratórios e universidades na Europa durante a sua infância, e ela acabou indo morar em Berlim. O seu primeiro encontro com a arte-vanguardista foi o Entartete Kunst (Arte Degenerada) exposição organizada pelo partido nazista em 1937, que procurou inflamar a opinião pública contra a arte moderna. "Eu encontrei uma série de pinturas emocionantes e me apaixonei por Franz Marc, especialmente seu “Blue Horse", Morath escreveu mais tarde. Mas só eram permitidos comentários negativos, e assim começou um longo período de calar e esconder os pensamentos." No final da II guerra, Morath foi encaminhada para o serviço da fábrica de Tempelhof, juntamente com prisioneiros de guerra ucranianos. Devido a essas experiências,  ela recusou-se a fazer fotografias de guerra, preferindo trabalhar em histórias que mostravam as suas consequências.

Após a Segunda Guerra Mundial, Inge Morath como é mais conhecida, trabalhou como tradutora e jornalista. Em 1948, ela foi contratada inicialmente como correspondente de Viena e, posteriormente, como editora para Heute uma revista ilustrada publicada pelo Office of War Information, em Munique. Ela encontrou o fotógrafo Ernst Haas no pós-guerra, em Viena. Trabalhando juntos para a Heute, Morath escreveu artigos para acompanhar as fotos de Haas. Em 1949, Morath e Haas foram convidados por Robert Capa a integrar a recém-fundada Magnum Photos, em Paris, onde ela atuaria como editora.

Trabalhando com folhas de contato fotográficos enviadas para o escritório da Magnum por um de seus membros fundadores, Henri Cartier Bresson, Inge Morath ficou fascinada. "Eu acho que aprendi a fotografar, estudando o modo como Bresson fotografava, antes mesmo de ter uma câmera na minha mão." No ano de 1951, começou a fotografar durante uma visita a Veneza. "Ficou imediatamente claro para mim que a partir de agora eu seria fotógrafa", escreveu ela. “Eu sabia que poderia expressar as coisas que eu queria dizer, dando-lhes forma através dos meus olhos."

Morath começa a trabalhar como secretária junto à Simon Guttman, que naquele tempo era Editor da Imagem Post. Após vários meses de aprendizado para atuar como repórter fotográfico, Guttman quis saber o que Morath queria fotografar, e por que. Ela respondeu que "não importa o tema, porque após o isolamento do nazismo senti que tinha encontrado a minha linguagem na fotografia." Inicialmente passou vários meses fazendo a cobertura de exposições, inaugurações, eventos noturnos etc., sob o pseudônimo de Egni Tharom, seu próprio nome escrito ao contrário.

Em 1953-1954, por sugestão de Capa, ela foi trabalhar com Cartier-Bresson como pesquisadora e assistente, e em 1955 ela foi convidada para se tornar um membro pleno da Magnum Photos. Durante a década de 1950 viajou incessantemente, fazendo coberturas na Europa, Oriente Médio, África, Estados Unidos e América do Sul para publicações em revistas como Paris Match e Vogue. Morath escreveu e publicou também mais de trinta monografias.

Como muitos membros da Magnum, Morath trabalhou como fotógrafa em vários sets de filmagem. Moulin Rouge (1952) de John Huston foi um dos primeiros trabalhos. Huston escreveu depois sobre a fotógrafa: "É uma sacerdotisa da fotografia. Ela tem a rara capacidade de penetrar além das superfícies e revelar a essência das coisas”.

Morath trabalhou novamente com Huston em 1960 no set de Os Desajustados, um filme ‘blockbuster’ com Marilyn Monroe, Clark Gable e Montgomery Clift, com roteiro de Arthur Miller, fazendo o making of do filme. Ela então conheceu Miller e se casaram em 1962, logo depois que ele se divorciou de Marylin Monroe. Tiveram uma primeira filha, Rebecca, que é hoje cineasta, atriz e escritora. O segundo filho do casal, Daniel, nasceu em 1966 com síndrome de Down e foi internado em uma instituição logo após seu nascimento. Arthur Miller jamais foi visitá-lo, apesar dos pedidos insistentes de Inge, e o filho não foi citado em sua biografia.

Durante os anos 60 e 70, o casal retorna aos Estados Unidos e trabalham juntos em vários projetos. Sua primeira colaboração com Arthur Miller foi o livro Na Rússia (1969), que, juntamente com Encontros Chineses (1979), descreveu as suas viagens e reuniões na União Soviética e na República Popular da China.

Embora a fotografia fosse o principal meio através do qual Morath encontrou sua expressão, era também exímia escritora, e seu dom duplo para palavras e imagens, além do domínio de diversos idiomas, fez com que tivesse fama incomum entre seus colegas. Morath escreveu extensivamente, e muitas vezes de forma divertida, sobre seus temas fotográficos, embora a maioria de seus textos só foram publicados póstumamente.

Junto com Eve Arnold, Inge Morath foi uma das poucas mulheres que se tornaram membros da Magnum Photos, que até hoje permanece como uma organização predominantemente masculina. Muitos críticos têm escrito sobre o elemento lúdico e de surrealismo que caracteriza o trabalho de Morath do início de sua carreira como fotógrafa. Morath atribuiu isso às conversas que teve com Cartier Bresson, durante as suas viagens à Europa e aos Estados Unidos. A fotógrafa continuou com seu trabalho até idade avançada, recebendo inclusive o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Hartford, em 1984.

Ingeborg Morath Miller morreu em 2002, com a idade de 78 anos. A Inge Morath Foundation foi criada por sua família em 2003, para preservar e compartilhar o seu legado. Ela sempre encorajou entusiasticamente as mulheres fotógrafas e como tributo à sua colega, os membros da Magnum Photos estabeleceram a Inge Morath Award em 2002. O prêmio anual é administrado pela Fundação e é concedido a jovens fotógrafas, com idade inferior a 30 anos, para apoiar o trabalho e a realização de projetos de longo prazo.

Como muitos de seus colegas da Magnum, o trabalho de Morath foi motivado pela questão fundamental do humanismo, formado tanto pela experiência da guerra, e por sua sombra persistente sobre o pós-guerra na Europa. Essa motivação aumenta em sua obra madura em temas que ela documenta a resistência do espírito humano em situações de extrema coação, bem como as suas manifestações de êxtase e alegria.

“A fotografia é um fenômeno estranho ... Você confia em seus olhos ao mesmo tempo em que desnuda sua alma” (I.M.)

 
Izabel Liviski, Mestre em Sociologia na linha de Imagem e Conhecimento pela UFPR e consultora da Contemporâneos, escreve quinzenalmente às 5ªs. no ContemporARTES. 

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